LEMBRANDO A MUSICA NA TELEVISÃO BRASILEIRA: "HINO DO CAPITÃO 7"
Capitão 7 (ou Capitão Sete, ou ainda Aventuras Do Capitão Sete) foi nada menos que o primeiro seriado de aventuras da televisão brasileira, exibido pela TV Record paulistana (até hoje o famoso Canal 7, daí o nome do herói-título) de 1954 a 1966, com muito sucesso, chegando a ter fã-clube e até um gibi (de 1959 a 1965). O personagem foi criado sob encomenda da TV Record pelo cineasta e jornalista Rubem Biáfora (1922/1996), mas quem criou sua apresentação, incluindo até uniforme e superpoderes (embora calcado no Super-Homem – até aí, o Capitão Marvel também é – e em Flash Gordon), foi seu intérprete, o ator e empreendedor Ayres Campos (1923/2003), que inclusive, mostrando perspicácia e prudência incomuns para um ator, adquiriu os direitos sobre o herói e os transmitiu à sua família. Mais detalhes sobre o Capitão 7 aqui, aqui e aqui.
Por sinal, a indústria cultural sempre amou fórmulas e imitações, e logo que a televisão brasileira se firmou de vez como grande entretenimento, outras emissoras seguiram o exemplo da Record e seu Capitão 7, lançando ou importando capitães como Furacão (que estreou na TV Paulista/Globo em 1965), Aza (TV Tupi, 1968) e América (Bandeirantes, 1967 – sim, este já andava pelo Brasil em filmes e jornais desde os anos 1940, mas esta versão em desenho semi-animado da Marvel é a que mais conta).
Aqui começa a surgir a tal pergunta. O seriado, como já lembrámos, teve um prefixo musical, “Hino Do Capitão 7”, interpretado pelo próprio Ayres Campos, que também compôs o tema ele mesmo, em parceria com o famoso compositor Arquimedes Messina. Na internet encontrei apenas menções a este hino e sua letra, mas nada vi sobre ele ter sido lançado pelo menos uma vez em disco, um compacto duplo, do qual até hoje só vi este meu exemplar, e sem a capa original. Mas este compacto, além de histórico, é também curioso. Consegui chegar à data do disco: 1968, pois descobri na internet que uma de suas outras três faixas fez algum sucesso no Carnaval de 1969; logo falarei dela. E finalmente chegamos à pergunta que ninguém havia pensado em fazer mas agora ela não quer calar, valendo até como várias perguntas.Como se explica a escolha de uma canção nada carnavalesca (o “Hino Do Capitão 7”) e tema de um programa famoso de TV, composto em parceria com um compositor e publicitário consagrado (Arquimedes Messina – ele mesmo, autor de “Urashima Taro”, “Seu Cabral”, “Silvio Santos vem aí” e, nos anos 1970, “Terrinha Boa Tá Lá” e “Depois de um sono bom...”), para ser a faixa de destaque de um compacto duplo carnavalesco, não de uma grande gravadora mas sim uma etiqueta minúscula (República), e ainda por cima lançado dois anos após o seriado Capitão 7 sair do ar? Não é o que eu, pelo menos, esperava de um personagem que ficou anos na grade de uma grande emissora e teve até patrocínio do leite Vigor...
Ah, sim, a faixa carnavalesca de sucesso deste EP é a marcha “Apache” (nada a ver com os clássicos do rock de Jerry Lordan ou Sid Bass), a outra das duas composições de Ayres Campos neste disco, esta em parceria com seu intérprete, o cantor e compositor Roberto Lara. Julguem vocês uma marcha de carnaval cujo refrão diz: “Se me bater, eu te amo/bate, meu bem, que eu gamo...”
E o cantor Roberto Lara merece um parágrafo a partir do que descobri até agora sobre ele. Para começar, a já pouca informação precisou ser peneirada para ele não ser confundido com alguns seus homônimos: um cantor de pop-rock nascido no belo ano de 1957, um violonista argentino dos anos 1950 com várias temporadas de sucesso no Brasil e, ainda, o personagem principal da peça Do Tamanho De Um Defunto de Millôr Fernandes. Outro sucesso carnavalesco do Roberto Lara em apreço é “Pra Que Recordar”, de 1963; ele também é co-autor de uma terceira “Meu Vicio é Você” posterior ao sucesso de Nelson Gonçalves e anterior ao de Alcione, lançada pelo já famoso selo Republica em 1962. Ainda em 1968, logo após a gravação de “Apache”, Lara foi relançado pela gravadora Copacabana como “jovem cantor”, lançando compactos como “Ao Sol” e “Longe De Você”. Além disso, Lara estrelou o filme Playboy Maldito, anunciado em 1969 e lançado em 1976. E, pelo que pude ver, Lara nasceu no Rio com o nome José Alvisi, e um detalhe o iguala a Chico Buarque: ele também foi um jovem ladrão de automóveis...



