Friday, August 25, 2017

OBRA DE CARUSO NUNCA SAI DE USO

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Aí estão duas caricaturas que Paulo Caruso fez de mim, no espaço de 25 anos, em 1982 e 2007.
A primeira ocasião foi no saudoso teatro Lira Paulistana, onde o Língua de Trapo fazia temporada (eu contribuía com alguns textos e micagens; minha participação para valer no Língua foi como compositor de 1985 a 1987 e de volta em 2015, mas isso é outra história) e Paulo Caruso, que além de desenhista é também músico e compositor, lançava seu livro Ecos Do Ipiranga num show que incluiu seu irmão Chico, o jornalista Benedito Rui Barbosa e outros. Foi num desses shows que conheci Paulo e peguei meu exemplar autografado. De lá para cá participei de alguns shows dele como músico e compositor (Piu-Piu, Rádio Clube, Bar Brahma...). Em 2007 entrevistei-o para a revista 20/20 Brasil, sobre moda e higiene visual, e ele estava lançando novo livro, Se Meu Rolls-Royce Falasse. Como se diz, 25 anos não são 25 dias, a gente fica mais esperta, então aproveitei para pedir novo autógrafo.

E o elogio mais insuspeito ao trabalho de Paulo - e, por tabela, a meu estado de conservação - veio de meu filho Ivo, que em 2007 tinha cinco anos e meio de idade. Mostrei a ele a caricatura mais antiga, ocultando meu nome, e perguntei "Ivo, sabe quem é este?" Ele bateu o olho e disse "É VOCÊ, PAI!"

Friday, July 14, 2017

UM LOBÃO QUE UIVA MAS NÃO CHILIQUEIA E MERECE APLAUSOS: ALGUMAS CURIOSIDADES SOBRE O DJ WOLFMAN JACK

Estou atualizando meu livro sobre John Lennon para reedição até o final do ano, e descobri que houve uma briga (ou, como dizem as pessoas jovens, uma treta) entre ele e o artista pop estadunidense Todd Rundgren. Esta briga tem sido transcrita pela internet afora em todo o mundo, e notei um detalhe que, até onde vi, ninguém mais notou. Num dado momento Lennon diz a Rundgren: “Remember that time you came in with Wolfman Jack?” (“Lembra de quando você veio com Wolfman Jack?”) Nenhuma transcrição deste trecho parece ter percebido que o ex-Beatle estava se referindo a um sucesso do ex-Nazz, “Wolfman Jack”, tributo ao grande DJ estadunidense e faixa do mítico álbum duplo Something/Anything de Rundgren (já pensaram num álbum de John & Todd em dupla intitulado Something In New York City ou Nazzy Cats? E terá o álbum de Todd sido inspiração para a dupla Joia/Qualquer Coisa de Caetano Veloso?). Pensei então em elaborar um tributo-relâmpago ao DJ com algumas curiosidades que não vi publicadas na internet ou mesmo em papel.

“Wolfman Jack” de Todd Rundgren foi lançada em compacto simples nos EUA nada menos de duas vezes – e com uma surpresa, talvez involuntária, provando que fora do Brasil gravadoras também erram. Explicarei. O primeiro lançamento foi em julho de 1972, como lado-B de outra faixa do álbum Something/Anything?, o clássico do power-pop “Couldn’t I Just Tell You”. E o segundo foi em dezembro de 1974, desta vez como lado-A (tendo como acoplo “Breathless”, única faixa instrumental de S/A?), mas com um detalhe: esta segunda edição traz o belo brinde da participação de Wolfman Jack em pessoa! Só que a gravadora se esqueceu de dar-lhe o crédito... 
Tive tamanha surpresa ao conhecer a edição brasileira (sim, há uma) deste disco.


A primeira edição em CD do álbum Something/Anything? saiu em 1990 pela Rhino e é muito boa, mas não inclui faixa bônus alguma, e haveria muitas, como esta versão de “Wolfman Jack” com o próprio e alguns jingles e spots promocionais do álbum. Mas em 1999 a Rhino lançou uma edição de luxo incluindo estas faixas e muito mais! Confiram aqui

O próprio Wolfman Jack gravou vários discos como intérprete e DJ, incluindo um raro compacto promovido pela Força Aérea dos EUA por volta de 1975, que pode ser ouvido aqui.


Foi no começo dos anos 1970 que Wolfman Jack foi descoberto pelo grande público, tornado-se figura midiática (palavra que acho terrível), aparecendo em filmes de sucesso como American Graffiti e homenageado em canções como a citada de Todd Rundgren e outras de artistas como Grateful Dead (“Ramble On Rose”) e The Guess Who (“Clap For The Wolfman”). Nosso DJ Big Boy está para Wolfman Jack assim como George Harrison está para Carl Perkins, Keith Richards para Chuck Berry, Chico Buarque para Noel Rosa, e fez uma bela homenagem ao colega estadunidense em seu LP The Big Boy Show (RCA, 1974), ao apresentar uma outra homenagem não-ianque, a citada “Clap For The Wolfman” da banda canadense Guess Who. Confiram aqui.

Big Boy não foi a única pessoa no Brasil a homenagear Wolfman Jack – mas foi certamente a menos sacana. Explicarei de novo. Em 1974 a Odeon lançou dois LPs de “covers fantasmas”, ou seja, por artista(s) anônimo(s), de sucessos do momento: No Mundo Das Novelas e Maneiríssimo, cujas capas são estas. 

Cada faixa destes discos  é creditada a um ou uma artista com nome estrangeiro, obviamente apenas nome de fantasia – temos até um “T. Bell” querendo ser confundido com o compositor de “Philly soul” Thom Bell, autor de algumas composições destes discos, e um “Derek” que não é o do hit “Cinnamon” e muito menos o dos Dominos, além de um “Wolfman Jack” que não é aquele... Confiram abaixo detalhes das contracapas e um dos selos. As duas faixas deste Wolfman Jack estão neste arquivo aqui.

 

E a biografia do grande Wolfman Jack (“al secolo” Robert Weston Smith, 1939/1995), talvez o primeiro DJ moderno de rock, pode ser conferida em páginas como esta e esta.

Wednesday, July 05, 2017

HONG KONG POP NOT BLUES: RECOMENDANDO A COLETÂNEA HONG KONG MUZIKLAND OF THE 60/70s VOL. II

Durante anos o disco mais raro e obscuro que tive foi um compacto inglês de uma banda chamada The Kontinentals, que comprei por volta de 1981 no saudoso sebo Mickey em Campinas (que, vejam só, tinha uma filial em Lins, onde estudei nos anos 1970). O disco é perfeito para quem gosta de Merseybeat não refinado e com garra, como em algumas gravações dos Kinks e dos Stones em 1964-65. (Notem o carimbo da loja no selo de meu exemplar, e espero que consigam ler um detalhe interessante: o selo inclui a data da gravação, 10 de abril de 1965!) Ouçam o disco aqui: "I Think Of Her" e "I Want You To Know". E para fãs dos Kinks havia os “pluses a mais” da tipologia do selo (bem semelhante ao da gravadora Pye), o nome do grupo com “K” e um dos integrantes ter nome parecido com o de Ray Davies (o saudoso Roy Davenport, guitarrista-solo dos Kontinentals e que anos depois revelou-se bom jazzista). 


Fiquei curioso para conseguir mais informações sobre a banda e o disco (cheguei a escrever para a revista inglesa Record Collector mas não obtive resposta); mal sabia eu que décadas depois eu faria amizade virtual com um dos integrantes da banda, o contrabaixista Anders Nelsson, e o auxiliaria num grande projeto de resgate do pop-rock de Hong Kong dos anos 1960 e 1970: a caixa de seis CDs Hong Kong Muzikland Of The 60/70s II, lançada em 2013.


Sim, os Kontinentals eram de Hong Kong, como finalmente confirmei com o advento da internet nos anos 1990, e foram a primeira banda do país a fazer sucesso com composições próprias de iê-iê-iê; infelizmente, gravaram apenas dois compactos antes de se dissolverem. Anders Nelsson seguiu carreira em outros conjuntos e como produtor e compositor, inclusive diretor de A&R na filial local da gravadora EMI; um de seus projetos foi justamente compor a trilha para um filme sobre Bruce Lee, intitulado He’s A Legend, He’s A Hero, dirigido por Wong Sing-Loy e exibido no Brasil como Um Homem Chamado Bruce Lee (outros títulos com que o filme foi exibido pelo mundo são King Of Kung Fu e The Dragon Lives). E vejam só: duas canções deste filme, “He’s A Legend, He’s A Hero” e “Even A Strong Man Must Die”, foram lançadas num compacto pela EMI – mas somente no Brasil! Mais: Anders Nelsson só ficou sabendo deste lançamento quando eu lhe contei.



Quando chegou a hora de compilar a caixa Hong Kong Muzikland Of The 60/70s II, Nelsson não teve acesso às fitas deste disco nem a um exemplar do próprio, pois a EMI estava em pleno processo de estar sendo engolida pela Universal Music; então Nelsson me perguntou se eu conseguiria localizar para ele um exemplar do disco, e consegui. De modo que ambas as faixas do compacto estão nesta caixa, e fui lembrado nos agradecimentos do livreto.


Ah, o livreto é um modelo de como livretos devem ser: fotos dos discos originais, as letras da canções, créditos das gravações originais (e esta caixa só não é absolutamente perfeita porque a frase “Carmen Twist” aparece como “common twist”, errinho de nada, ainda mais em comparação com as famosas transcrições de letras em inglês em muitos discos japoneses)... A caixa também é um sonho, reunindo 101 faixas (com excelente qualidade sonora) em, como foi dito, seis discos (sim, o infeliz limite de 14 faixas por CD é um triste “privilégio” da Universal brasileira), uma festa para fãs de música pop em geral. Estas gravações, dos anos 1960 a 1970, surpreendem pela competência, covers da melhor qualidade em termos de fidelidade às gravações originais e algumas composições originais igualmente dignas de audição. 



E temos de tudo: pop não-rock, baladona, rock and roll, twist, garagem, bubblegum, com grandes artistas locais como Teddy Robin & The Playboys, Danny Chan, Michael Remedios, as cantoras Chelsia Chan e Louie Castro, o próprio Anders Nelsson (com suas bandas Ming e The Anders Nelsson Group)... Os “covers” incluem boas surpresas como “Feelings” de nosso Morris Albert, “Uma Paloma Blanca”, “Carry On Till Tomorrow” da banda Badfinger, “’Cause We’ve Ended As Lovers” de Stevie Wonder (no arranjo da gravação de Syretta Wright), “Carmen Twist” (arranjo pândego da “Habanera” da ópera de Bizet), “I Love You” (Zombies), “You Haven’t Seen Nothing Yet” do Bachman-Turner Overdrive, “Island Girl” de Elton John e composições próprias no mínimo interessantes como a balada country “Pocketful Of Music” (cuja melodia lembra um pouco a de “Cálix Bento”, embora lançada em disco em 1975, dois anos antes da famosa gravação de Milton) e as citadas “He’s A Legend, He’s A Hero” e “Even A Strong Man Must Die”. É como ouvir uma excelente coletânea de sucessos pop em regravações muito boas e ainda ter a boa surpresa de descobrir que também se compõe muito bom pop em Hong Kong.


Mais detalhes sobre esta caixa aqui. E sobre o grande artista e empreendedor Anders Nelsson, podes ler aqui e aqui (incluindo um atalho para a banda The Kontinentals)

E Anders me disse "ainda precisamos de Bruce Lee para nos proteger". Mas é bom termos pessoas como ele para protegerem a memória da música popular.

(Ah, sim: esta caixa é um segundo volume,  e nem preciso dizer que estou atrás do primeiro, lançado em 2010.)

Saturday, June 03, 2017

CINQUENTA DO PIMENTA: MEIO SÉCULO DE SGT. PEPPER

É DA BANDA DA BANDA DE LÁ: "EM GUARDA, JOVENS!"

Tudo tem seu lado bom, até o Exército. Sou contra ditaduras, militares ou não, e contra guerras & batalhas armadas, mas lamento que o exército brasílico tenha tido sua reputação abalada por seus representantes que fizeram-o-mal-pensando-fazer-o-bem – sim, 1964 foi o ano da “longa noite de um dia duro”. Mas tais cabeças-de-papel e seus associados civis não conseguiram anular de todo as boas conquistas do país sob governos anteriores; tivemos muitas boas realizações em áreas como urbanismo, economia e arte que levam muito gente boa a pensar que “no tempo dos milicos é que era bom”. E é consenso que o exército contribuiu muito para a música, na pessoa das bandas militares, desde o século 18, inclusive no Brasil (uma amostra: o exército comandado pelo Marquês de Caxias – sim, nosso futuro único Duque – na Guerra do Paraguai incluiu “corneta-mor, mestre de música e doze músicos” entre seus 679 homens).

Um dia trago para cá resultados mais detalhados de estudo meu sobre música de banda (outra amostra: como seria a música brasileira do começo do século 20 sem essa valorosa trupe de “session men” que foi a Banda da Casa Edison?), mas por ora balancemos o coreto (entenderam?) lembrando da famosa banda inglesa liderada por um sargento que fez sucesso mundial após vinte anos de prática, entrando e saindo de moda mas sempre fazendo sorrir, sucesso este que ora completa 50 anos. E reuni algumas curiosidades sobre este famoso disco dos Beatles que, até onde sei, nunca ou quase nunca foram comentadas em papel ou na internet. Pois bem, acomode-se na cadeira e deixe a noite passar.


Não podemos, nem queremos, tapar os quatro mil buracos por onde entra a presença morena dos Beatles, mas tentaremos demolir dois mitos sobre Sgt. Pepper. Ele não foi o primeiro “álbum conceitual do rock”, com todas ou quase todas as faixas seguindo um mesmo tema geral; precedentes incluem Little Deuce Coupe dos Beach Boys, onde todas as faixas falam de automóveis. Quando muito, Sgt. Pepper foi o primeiro álbum de rock não ao vivo onde todas (ou quase todas) as faixas são coladas, “forçando” o(a) ouvinte a ouvi-las juntas e/ou numa determinada sequência. (Primeiro? Acabo de me lembrar de Absolutely Free de Frank Zappa & The Mothers Of Invention, que saiu no mesmo dia, 26 de maio de 1967. Mas os Beatles merecem primazia pelo parâmetro de serem muito mais famosos a ponto de Sgt. Pepper ser conhecido e esperado já desde antes de sair.) E Pepper também não foi o primeiro disco de música popular, não infantil nem folclórica, a trazer as letras das canções na contracapa: a Odeon, filial brasileira da mesma gravadora, havia tido tal iniciativa com quase todos seus LPs em 1960-63, incluindo álbuns discoteca-básica como O Amor, O Sorriso E A Flor de João Gilberto, Eu Não Tenho Onde Morar de Dorival Caymmi e Os Anjos Cantam de Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano. (Sim, um fator determinante no sucesso e influência de Sgt. Pepper foi a gravadora, na época “the greatest recording organisation in the world” e a única realmente multinacional, tendo em quase todos os países filiais e não apenas contratos de licenciamento, ao contrário da grande rival RCA, que até meados dos anos 1960 era apenas representada e distribuída em países como Inglaterra e Alemanha por grandes gravadoras locais.)

PIMENTA NO OUVIDO DA GENTE É REFRESCO: UM POUCO DE SGT. PEPPER E O BRASIL

O Brasil pode ser normalmente chamado de “atrasado” em relação aos lançamentos originais da Inglaterra e dos EUA, mas pelo menos num item saímos vencedores em relação aos poderosos ianques: Pepper foi lançado lá sem a famosa gravação interminável no fim do lado 2 (sim, o “Sgt. Pepper’s Inner Groove”), que só ganhou edição estadunidense na versão local do álbum Rarities, mas no Brasil ela está presente desde a primeira edição (embora ausente apenas numa tiragem dos anos 1970 com o selo marrom; eu tive um exemplar destes no fim dos anos 1970). (Isso sem falar que os EUA só começaram a respeitar o repertório original inglês dos álbuns dos Beatles a partir de Sgt. Pepper, ao passo que quatro dos LPs anteriores do grupo – incluindo a coletânea Oldies But Goldies – haviam tido seu repertório mantido intacto nas edições brasílicas, apesar de mudanças em títulos, traduções toscas de textos e som quase sempre em mono estridente – não que as vitrolinhas de bailinhos e piqueniques pedissem ou precisassem de mais que isso – , e o público brasileiro até que era respeitado, com um mínimo de 12 faixas por LP, contra as 11 de um LP estadunidense normal, muitas vezes cheio de eco e reverberação, pois lá “alta fidelidade” também era coisa para inglês ver e ouvir.)

Não esqueceremos de que nosso grande DJ Big Boy foi uma das primeiras pessoas de rádio em todo o mundo a terem o privilégio de tocar Sgt. Pepper antes de ele ser lançado. E, por falar em rádio, lembremos também a presença de Sgt. Pepper na série de LPs Música E Alegria Kolynos, resultado da tríplice parceria da gravadora Odeon com a agência de publicidade McCann-Erickson e o laboratório farmacêutico Anakol, na forma de programas de rádio visando promover lançamentos da Odeon e produtos da Anakol como o analgésico Superhist, o desodorante Van Ess e o creme dental Kolynos (recentemente mudou o nome para Sorriso); o projeto durou onze anos, de 1964 a 1974. No início os LPs traziam um programa em cada lado; em 1966 os programas dobraram de duração e cada um passou a ocupar um disco inteiro. Muitos destes programas incluíram gravações dos Beatles, e pode-se notar que a carreira do grupo até 1967 é das mais coesas, o grupo trabalhava em cada faixa de LPs e compactos com o máximo cuidado possível, de modo que todas ou quase todas tinham potencial para serem lançadas em compactos e fazerem sucesso. Além disso, como resumiu o dono-da-verdade Roy Carr, absolutamente todos os LPs dos Beatles têm um “compacto que nunca foi”, com apelo comercial para ser lançada em “single” na Inglaterra de 1962 a 1970 mas que só o foi, quando foi, em outros países. Daí algumas faixas dos Beatles presentes na série Música E Alegria Kolynos serem agradáveis surpresas; além dos hits esperados como “I Want To Hold Your Hand” e “All You Need Is Love”, temos escolhas como “Don’t Bother Me”, “Everybody’s Trying To Be My Baby”, “Blue Jay Way”, “All Together Now” e pelo menos duas faixas de Sgt. Pepper: “Good Morning, Good Morning” (no programa de número 1091) e “When I’m Sixty-Four” (no programa 1101); estes LPs eram apresentados pelo grande radialista Estevam Sangirardi e estão se tornando raridades.

Os Beatles são, muito provavelmente, a banda de rock mais regravada do planeta, inclusive no Brasil. Compreensivelmente, as composições mais regravadas dos Beatles são ou as mais simples ou as mais românticas, e romantismo e simplicidade não caracterizam a maioria das letras, melodias e arranjos de Sgt. Pepper. Mesmo assim, muita gente encarou o desafio de reler canções deste álbum, com resultados variáveis. Para quem vinha da bossa nova, jazz, big bands ou outros gêneros musicais complexos, não houve tanta dificuldade. Já algumas bandas soam mais ou menos como os Beatles de 1961 em Hamburgo tentando tocar os Beatles de 1967 em Abbey Road...



Bem curioso é o álbum Genial! Universal Sound creditado à banda The Terribles. Na verdade, este era apenas um nome com que o saudoso produtor Nilton Couto do Valle lançava gravações de grupos desconhecidos por selos pequenos, com baixos orçamentos e preços. No caso deste LP, estes The Terribles são na verdade um grupo paraguaio de passagem pelo Brasil, chamado Los Inocentes, com participação do contrabaixista e tecladista uruguaio Hector Capobianco, irmão de Juan Roberto “Pelin” Capobianco, da lendária banda uruguaia Los Shakers (uma das duas grandes respostas latino-americanas aos Beatles, a outra sendo os Mutantes). Isso explica este LP incluir duas composições dos Shakers e uma “quase dos Shakers” (“I Will Not Cry”, de Hector Capobianco e com participação do mano Pelin na gravação) ao lado de quatro canções de Sgt. Pepper (talvez uma quantidade recorde de regravações de Pepper num disco só nos anos 1960), outras quatro dos Beatles pré-Pepper e, para variar, uma dos Monkees. E este LP foi produzido por outro ilustre uruguaio bem acolhido no Brasil, o maestro Miguel Cidrás. Mas a novela apenas havia começado: estas gravações destes Terribles foram espalhadas por outros LPs de jovem guarda com as chamadas sérias restrições orçamentárias e creditadas a diversas outras bandas (The Modern Boys, Os Bárbaros, The Fishers, The Wish’s), conforme a lista mais abaixo! Leias mais sobre esta banda e este disco aqui e aqui também.

(Este tipo de disco “fantasma” reeditado com diversos créditos de intérprete é outro tema de estudo meu que vou trazer para cá uma hora destas. E vale lembrar também que os próprios Shakers regravaram uma canção de Sgt. Pepper, “Cuando Tenga Sesenta Y Cuatro”.)

Consta que Marcio Greyck recusou-se a gravar certas versos dos Beatles que considerou toscas demais. Já o primeiro LP de Raul Seixas, ainda o Raulzito dos Panteras, incluiu uma versão de “Lucy In The Sky” tão doida quanto a original, mas com sabor de tropicalismo: “Pense num dia com gosto de jaca.” “Não me deixaram gravar, disseram que eu havia avacalhado com a música”, contou mais tarde Raul, que mudou o verso para “gosto de infância”; esta versão foi regravada pelo Ira! anos depois.

Comentei sobre todo álbum dos Beatles incluir um “compacto-que-nunca-foi”. No caso de Sgt. Pepper, poderia bem ser um com dois lados-A, “Lucy In The Sky” e “With A Little Help”, a julgar pelas tantas vezes que essas canções foram e têm sido regravadas no Brasil desde 1967 inclusive por um(a) mesmo artista e num mesmo disco, seja em inglês, em outros idiomas ou versões instrumentais – até pensei numa analogia a “Disparada” e “A Banda”, que venceram juntas um mesmo grande festival e foram regravadas juntas muitas vezes, como lembrei nesteoutro artigo aqui em meu blogue.

Sim, falei em uma lista, e aqui vai ela. Não uma lista daquelas de melhores isto e piores aquilo, mas sim uma lista do tipo que prefiro, das objetivas: regravações brasílicas de canções de Sgt. Pepper feitas de 1967 a 1969. Obviamente, esta lista, feita por apenas uma pessoa, baseada 70% em acervo e lembranças pessoais e 30% no Google, nas horas livres de duas semanas, nem pode pensar em ser completa. Mas mesmo assim ela dá uma boa idéia da repercussão de Pepper no meio musical brasileiro.



REGRAVAÇÕES BRASILEIRAS DE CANÇÕES DO ÁLBUM SGT. PEPPER, 1967-69

“Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”

Corisco E Os Brasaloucos (versão instrumental; LP Corisco E os Brasaloucos, Continental, 1967 – esta faixa saiu também em compacto duplo no mesmo ano)

“With A Little Help From My Friends”

Embalo R (versão: “Meus Amigos”; LP Embalo R, Som Maior/RGE, 1967)

Sergio Mendes & Brasil 66 (LP Look Around, A&M, 1968)

The Pop’s (LPs O Baile, Equipe, 1969, e a coletânea 5º Aniversário, Equipe, 1969) – esta versão foi incluída anos depois no LP The Pop’s Ao Vivo, um “fake live album” à brasileira

The Terribles (LP Genial! Universal Sound, NCV)

The Modern Boys (LP Maria, Carnaval E Cinzas, Êxitos, c. 1967) – é a mesma gravação do álbum de The Terribles listado acima

The Ghosts (versão instrumental; LP With A Girl Like You, Som Maior/RGE, 1967 – esta faixa saiu também em compacto simples em 1968)

Disco sem crédito de intérprete(s) (LP Bem Bolado, Paladium, c. 1968)

“Lucy In The Sky With Diamonds”

Marcio Greyck (versão: “Ela Me Deixou Chorando”; LP Marcio Greyck, Polydor, 1967)

Ed Wilson (versão: “Ela Me Deixou Chorando”; compacto simples, CBS, 1967)

Beagá Band’s [sic] (na capa consta “Ela Me Deixou Chorando” e no selo “Lucy In The Sky With Diamonds”, mas é uma versão instrumental; LP Legal!, Paladium, c.1967)

Raulzito e os Panteras (versão: “Você Ainda Pode Sonhar”; LP Raulzito e os Panteras, Odeon, 1967)

The Terribles (LP Genial! Universal Sound, NCV)

Os Bárbaros (LP Eu Sou Terrível, Êxitos, c. 1967) – é a mesma gravação do álbum de The Terribles listado acima

The Sergeants (LP Mania De Beatles. AMC, 1968) – duas curiosidades: The Sergeants é a banda paulista Mac Rybell gravando sob pseudônimo, e este é o primeiro LP de uma banda brasileira a trazer somente canções dos Beatles ou a estes associadas)

“Getting Better”

The Terribles (LP Genial! Universal Sound, NCV)

The Fishers (LP Alegria, Alegria, Êxitos, c. 1967) – é a mesma gravação do álbum de The Terribles listado acima

“Fixing A Hole”

The Terribles (LP Genial! Universal Sound, NCV)

The Wish’s (LP Pata Pata, Êxitos, c. 1967) – é a mesma gravação do álbum de The Terribles listado acima

“When I’m Sixty-Four”

Marcus Pitter (versão: ”Sempre Vou Te Amar”; LP Marcio Greyck, Polydor, 1967)

Os Berimbóis (versão instrumental; LP Violentíssimo, Clarim/Cartaz, c. 1968)

The Ghosts (versão instrumental; LP With A Girl Like You, Som Maior/RGE, 1967)



Algumas dessas gravações podem ser ouvidas aqui.

E canções de Sgt. Peppers (principalmente a dupla “With A Little Help” e “Lucy In The Sky”) continuam sendo regravadas no Brasil por artistas diversos como as bandas fantasmas Flowers e The Brothers’s And Sister’s Band, o grupo Isaías E Seus Chorões, o grupo MPB-4, a violonista Rosinha de Valença e artistas mais novos como o Ira!. Lembrarei também “Amélia In The Sky,”a parceria Lennon-Ataulfo Alves que imaginei para a Rádio Matraca, e que pode ser ouvida aqui. (E já que o blogue é meu, posso citar minha quarta fita cassete, Gal. Médici’s Lonely Hearts Club Brega, paródia de Sgt. Pepper a meu jeito, na linha de We’re Only In It For The Money de Zappa & The Mothers, Their Satanic Majesties Request dos Rolling Stones – que logo voltará a esta conversa – e a bela releitura da banda Big Daddy.)

SALGEANT PEPPELU: SGT. PEPPER NA ÁSIA

Sgt. Pepper teve pelo menos três edições coreanas em vinil, todas nos anos 1970. Duas delas, pelo selo Taedo, são piratas. Uma delas é mais comum; um dos selos está aí abaixo. A segunda não encontrei na internet mas conheci pessoalmente no começo dos anos 1980, e aqui vão os selos (por cortesia do colecionador João Paulo Pimenta – realmente, não há pessoas mais apropriadas que ele e seu mano Pedro Paulo Pimenta com quem conversar sobre Sgt. Pepper).


Interessante é como a desde o século 19 o mundo ocidental e o oriental vão conhecendo um ao outro mas levaram quase um século para começarem a se conhecer melhor; por exemplo, para o ocidente pessoas do Japão, China, Coreia, Filipinas etc. eram todas “chinesas” ou “japonesas”, e características chinesas como “tlocar” o R pelo L e a frase musical dó-dó-lá-lá-sol-sol-mi são tidas até hoje como japonesas, e só poucos anos atrás se descobriu (ou se decidiu) que os nomes do líder comunista Mao Tse-Tung e da cidade de Bombaim seriam mais bem fieis aos idiomas originais se os grafássemos Mao Zedong e Mumbay. Do mesmo modo, esta rara edição coreana de Sgt. Pepper a que me refiro, além de omitir as letras na capa e os créditos de autorias nos selos, conseguiu transformar alguns títulos. Por exemplo, a famosa ode a uma “moça zona azul” inglesa virou profecia da vinda de Paul à nossa ex-capital: “Lovely Rio”. E a canção que garantiu a Pepper lugar de honra em minha pesquisa sobre música e circo virou jingle de campanha de saúde ao ser inadvertidamente renomeada “Being For The Benet [sic] Of My Knee”.


Pior ainda foi a censura consciente que Sgt. Pepper sofreu em algumas edições. A terceira edição sul-coreana – oficial, da gravadora Parlophone local! - com apenas 11 faixas, omitindo “Lucy In The Sky” e “A Day In The Life”, por “induzirem ao uso de drogas”. Na Rússia, numa edição ilegal em forma de álbum duplo com Revolver no começo dos anos 1990, Karl Marx foi destituído da capa do disco, e as “muito loucas” “With A Little Help From My Friends”, “Lucy In The Sky With Diamonds” e “A Day In The Life” foram substituídas na Malásia e em Hong Kong por “The Fool On The Hill”, “Baby, You’re A Rich Man” e “I Am The Walrus”. Lamentável como censura mas nem tanto em termos musicais – afinal, Revolver, Pepper e Magical Mystery Tour são três álbuns irmãos, representando o período mais aventuroso e sofisticado dos Beatles, e uma manhã, tarde ou noite ouvindo todos (junto a faixas do mesmo período como “Rain” e “Only A Northern Song”), como se fosse um “álbum triplo”, vai muito bem. (E serei a única pessoa a pensar que o refrão de “Good Morning, Good Morning” foi reciclado para o coro final “love is all you need” de “All You Need Is Love”, por sinal que uma canção bem superior?)


Por sinal, Sgt. Pepper tem ainda outra canção alusiva às drogas mas que escapou à sanha censória: sim, essa mesma, “Fixing A Hole”, como bem percebeu o humorista e cantor George Burns durante seu trabalho no filme Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Ele explicou à revista Rolling Stone que “consertar um buraco por onde entra a chuva e que impede minha mente de sair vagando” significa não deixar escapar a fumaça do jererê para maximizar o efeito. Óbvio quando se sabe...

SATANIC SARGEANT

“Welcome The Rolling Stones”, diz a camiseta de um boneco na capa de Sgt. Pepper. Sim, a rivalidade entre os Beatles e os Stones nunca passou de folclore, e as abordagens musicais de ambos, melhor que opostas, eram complementares. Ambos chegaram a gravar juntos: John e Paul cantam em “We Love You”, Jagger canta em “Baby You’re A Rich Man”, Brian Jones canta e batuca em copos em “Yellow Submarine” e toca saxofone em “You Know My Name” (mas, ao contrário do que se diz, não toca em “Baby, You’re A Rich Man”; quem toca aquele instrumento que soa como oboé eletrificado é John), os Beatles aparecem na capa do álbum Their Satanic Majesties Request e John se juntou a eles no espetáculo The Rolling Stones Rock And Roll Circus.

Mais que amigos dos Beatles, os Stones raramente deixaram passar alguma obra de sucesso deles sem fazer uma imitação ou paródia, geralmente tosca e descarada. Uma das mais óbvias é justamente Satanic Majesties com relação a Sgt. Pepper.

Mas há um detalhe. Os Stones, por mais toscos e caras-de-pau que fossem, nunca deixaram de creditar pelo menos uma pessoa participante especial em seus álbuns, ao passo que os Beatles abandonaram tal costume de Sgt. Pepper em diante, sendo Billy Preston notável exceção. E numa ocasião, justamente no disco Sgt. Pepper, foram os Beatles que seguiram os Stones, embora sem a mínima intenção; explicarei. Os Stones imitaram “Yesterday” dos Beatles em sua gravação de “As Tears Go By”, cujo arranjo para quarteto de cordas é do maestro Mike Leander. Pois bem, foi Leander o arranjador (não creditado) da orquestra em “She’s Leaving Home”; George Martin, embora indiscutivelmente o Quinto Beatle, ganhava a vida como funcionário da EMI, e na ocasião estava em outra tarefa; mas ele produziu a gravação e regeu a orquestra. (E acabo de ler na Wikipedia que “She’s Leaving Home” marcou o início da presença feminina em discos dos Beatles, na pessoa da harpista Sheila Bromberg.) Mas Leander foi "vingado" ao ser crditado como o arranjador de "She's Leaving Home" logo no início do texto de contracapa de seu LP A Time For Young Love, de 1969 (cliques em cima da imagem e da lentezinha para conferir o texto).

Para mim, a única falha de Sgt. Pepper, pelo menos a edição original em vinil, é a falta de créditos (talvez em nome da mística beatle ou falta de atenção a este detalhe) a Mike Leander, Mal Evans (no despertador e parceria em composições como "Getting Better", embora recebendo os devidos direitos autorais) e outros(as) musicistas participantes e convidados, além do ligeiro incômodo de a capa incluir Stuart Sutcliffe, que havia saído amigavelmente dos Beatles em 1961, mas ignorar Pete Best, covardemente expulso no ano seguinte (embora, musicalmente, sua substituição por Ringo Starr tenha sido uma das melhores decisões da história do rock). Enfim, eles que são britânicos que se entendam... (E pensar que não incluíram Pete Best mas trouxeram Aleister Crowley e quase incluíram Hitler...) Mas pelo menos Pete Best foi lembrado na série Anthology quase trinta anos depois.

TÁ CHEGANO BEM PERTIM DO FINARZIM

E para terminar por ora, vejam se vocês concordam que a primeira frase musical, de dez notas, cantada por Ringo em Sgt. Pepper coincide com estas outras duas gravações, uma anterior e outraposterior, respectivamente aos 28” e aos 1’14”, em frases instrumentais com arranjos e andamentos bem diferentes. Eu adoraria te ligar... e espero ter conseguido ao menos um pouco.

Monday, May 22, 2017

KAUSOS DE KID VINIL - NASCE UM JORNALISTA

Embora mais lembrado como vocalista, radialista e DJ, Kid Vinil foi também jornalista, e dos melhores do rock brasileiro, com textos e resenhas publicados em órgãos como a Folha de S. Paulo, Folha da Tarde e Bizz (lembrando também seu belo Almanaque Do Rock, lançado pela Ediouro). E, como muita gente de sua geração, ele começou a aparecer devagarinho e na surdina, comendo pelas beiradas, em fanzines e publicações independentes. A mais antiga publicação que encontrei a mencionar Kid é de 40 anos atrás, exatamente março de 1977 - antes ainda de ele ser Kid Vinil.

Kid sempre agradeceu ao apoio de pessoas como Peninha Schmidt, Zé Rodrix e Tico Terpins. E quem também merece gratidão é René Ferri, que além de estudioso e jornalista de rock foi fundador e dono da Wop-Bop Discos, primeiro sebo de rock do Brasil, fundado em dezembro de 1975; René foi também editor do Boletim Wop-Bop, house-organ da loja e, até prova em contrário, primeiro fanzine brasileiro de rock, versão brasílica corajosa e até hoje útil de publicações como Who Put The Bomp e Trouser Press. Aqui está a capa do primeiro número.


Sem dúvida, foi nesta publicação que muita gente no Brasil ficou sabendo de artistas como os Yardbirds, Van Der Graaf Generator, UFO e Phil Spector e recebeu informação de qualidade sobre artistas mais notórios como os Monkees e Jefferson Airplane, para ficarmos só neste primeiro número. E no expediente podemos ver (espero que a nitidez da foto ajude) entre os colaboradores nosso amigo Antonio Carlos Senefonte, que marcou ainda mais presença em outros números do Boletim Wop-Bop.


KAUSOS DE KID VINIL - "ESSE CARA NÃO SOU EU"



Xu-Pa-Ki, CD lançado em 1995, é o único disco do Magazine com o nome Verminose e segundo álbum da banda, que até agora lançou um álbum por década  (os outros foram Magazine em 1984 e Na Honestidade em 2002).  Lançado de forma independente, com tiragem limitada a poucas centenas de cópias (e num tempo em que havia poucas fábricas de CDs no mundo e CD-R ainda era luxo e privilégio de poucas pessoas que sabiam o que era isso e podiam pagar), este CD merece reedição. E um detalhe particularmente curioso é a capa.

Sim, a capa é uma paródia de uma foto da cantora Madonna na fase Erotica, em que a imprensa musical mundial, inclusive a brasileira, estava viciada nela. E não, esse na capa não é o próprio Kid; ele fez uma molecagem em cima de outra molecagem. Explicarei.

Kid pegou essa foto de um compacto de vinil independente estrangeiro, se não me engano dos EUA. Ele me mostrou o disco, inclusive mo tocou para eu ouvir (gostaram da gramática escorreita?). Não registrei o nome do artista nem do disco, mas me lembro que incluía uma faixa esculhambando Madonna de forma direta, com os versos "erotica/pathetica", e uma paródia de "Yellow Submarine" dos Beatles; lembro também da informação de copyright, que dizia: "Nenhum. Se tu quiseres, podes pegar isto e dizer que é teu." Realmente, uma porralouquice só. (Não consegui até agora encontrar no Google informações sobre o disco usando estes dados de que me lembro.)

E Xu-Pa-Ki teve prensagem profissional, mas a capa foi produzida artesanalmente, com algumas variações para cada tiragem. Na foto acima temos um exemplar da primeiríssima tiragem da capa, que recebi de Kid tão logo o disco saiu, e um outro exemplar que consegui. Há pelo menos uma terceira variação, mostrada neste outro blogue.

Sunday, May 21, 2017

KAUSOS DE KID VINIL - NO PARAÍSO DE DEMETRIO


Uma das últimas gravações de Kid Vinil em estúdio foi uma participação especial no álbum Vitória!!! do cantor e compositor Demetrio (não confundir com o Demetrius da jovem guarda). O disco saiu em 2013 e Kid cantou em duas faixas: a segunda parte de "Crianças" (marcha-rancho-pop na linha de "Alegria, Alegria", "O Ciúme" de Deny & Dino, "Que Bacana" de Suely & Os Kanticus e outras), composição de Demetrio, e nos refrões de "Marcinha Ligou", a quase famosa parceria minha com Laert Sarrumor, lançada em 1985 na minha fita Brega Segundo Brega e espetacularmente regravada pelo Língua de Trapo no disco Os 17 Big Golden Hits Superquentes Mais Vendidos No Momento no ano seguinte.

O vídeo de "Crianças" diz erroneamente que o guitarrista Nuno Mindelis participa, mas na verdade ele fez solos de guitarra em outras duas faixas do disco - fora isso, todo o instrumental constituiu meu ponto máximo até então como "one man band".

E, ao que me lembre, esta sessão de gravação foi a última vez que vi Kid pessoalmente, embora tenhamos depois nos falado pela internet.

KAUSOS DE KID VINIL - "ZECA BALEIRO"

Um dos primeiros sucessos de Zeca Baleiro, um José Ribamar maranhense que merece ser lido e ouvido, foi o bem-humorado samba "Kid Vinil", de 1997 (já faz vinte anos, o tempo passa...). onde ele brinca: "Kid Vinil, quando é que tu vai gravar CD?" Versos divertidos, mas que, a rigor, já nasceram desatualizados, pois Kid tinha acabado de lançar seu primeiro CD, Xu-Pa-Ki, dois anos antes. Tomei então a iniciativa de responder com o rock-xaxado "Zeca Baleiro", que lancei em minha fita cassete BREGA.COM.BR.MAIUSCULO, de 1998, e que pode ser ouvido aqui.

Convidei o próprio Kid a participar dessa gravação, mas as agendas não coincidiram. No mesmo ano, Kid me convidou para entrar no Magazine, e "Zeca Baleiro" acabou adentrando o repertório. A princípio, pensamos em manter a levada de xaxado, registrada nesta demo; quando a canção foi selecionada para entrar no disco Na Honestidade, rearranjei para rockabilly, que a banda transformou em punkabilly, e ficou assim.

Tanto Kid quanto Zeca levaram a brincadeira na esportiva. Nesta demo e nos shows, o Magazine contextualizou a coisa toda citando "Kid Vinil" de Zeca nos shows e em alguns programas de TV (inclusive, foi num destes que conhecemos a multiinstrumentista Edria Barbieri, que até tocou pandeiro num de nossos shows, e depois eu e ela demos canjas mútuas em shows e gravações). E lá em 1998-99 entrevistei Zeca, que me disse ter gostado da homenagem e estar disposto a gravar LP - o que acabou acontecendo em 2012, quando seu álbum O Disco Do Ano teve uma tiragem nesse formato.

KAUSOS DE KID VINIL - "JINGLE DO CHOCOLATE ROCKLETS"

2002 foi para mim um "annus mirabilis", dos mais animados e importantes. Já o seria por ser o ano em que meu filho Ivo nasceu, mas foi também quando lancei meu livro sobre Adoniran Barbosa, trabalhei na revista Cães & Cia.,voltei a trabalhar com discos e livros usados, lancei com o Magazine o CD Na Honestidade... e fiz minha estreia no mundo da publicidade e propaganda.

João Marcello Bôscoli, um de nossos patrões na Trama, propôs a Kid gravar um jingle para o chocolate confeitado Rocklets, da Arcor. Kid topou e me convidou para compor o jingle, e topei. Compus dois jingles, um foi o aprovado. Com toda a urgência para lançá-lo, gravamos apenas Kid, eu e um baterista da Motown - sim, gentilmente cedido num disco de samples do arquivo do estúdio da Trama. 

Curiosidade adicional para quem acompanha minha carreira (sei que há). Ao entrar no estúdio, reconheci que já havia estado lá em 1980, quando ele tinha outros dono e nome, Vice-Versa! Naquela ocasião eu participei de uma demo como integrante do grupo do sambista Djayr Doutto - que relembrei agora no meu disco Dó, Ré, Mi, Fá... Sei Lá! ao incluir uma parceria nossa, "O Negócio É Samba Mesmo".

E este jingle do chocolate Rocklets pode ser ouvido aqui.

KAUSOS DE KID VINIL - "SOU COROA"

Poxa... Não bastava 2017 estar sendo um ano de grandes perdas, das chamadas viagens fora do combinado e que saem caro... Algumas incluem pessoas próximas a mim e minhas companheiras de geração, amizade e trabalho. Não me bastasse a chateação das mortes de Jerry Adriani e Belchior, tive agora no dia 19 de maio a de Kid Vinil, amigo (inclusive padrinho de meu filho) desde quando ainda atendia por Antonio Carlos e com quem tive a honra e prazer de trabalhar na banda Magazine (gravamos o CD Na Honestidade, lançado pela Trama em 2002 e que, sem falsa modéstia, precisa ser mais ouvido) e no programa Digital Session na Brasil 2000 FM.

O Magazine, por sinal, é um Demônios da Garoa do rock, no sentido de ser "famiglia italiana", com integrantes saindo e voltando, muitas vezes em funções diferentes. No meu caso, entrei como guitarrista por alguns meses no começo de 1981, quando a banda ainda se chamava Verminose, e retornei como contrabaixista e compositor de 1998 a 2004. Nesse meio tempo a banda retomou brevemente (1994-1996) o nome Verminose, e em 1995 gravou um disco, o CD Xu-Pa-Ki (ideal para fãs de bom humor agressivo na linha dos Ramones), que inclui uma composição minha, "Sou Coroa", cuja história agora vou contar.

Em 1993 a banda, com o nome Magazine, participou do festival Juntatribo, em Campinas. Assim um colaborador da revista Dynamite resumiu o show: "Kid Vinil e seus amigos deveriam ir para um asilo." Segue-se o que Kid me contou: um pouco antes, ele havia recebido de um rapaz uma demo de sua banda, gostou e disse que iria tocá-la em seu programa. Mas nosso amigo Humberto Finatti (o chato mais adorável do planeta) lhe revelou que este rapaz era o mesmo colaborador da Dynamite que havia escrito a resenha não muito elogiosa do Magazine no Juntatribo! Então Kid disse ao rapaz da banda: "Você me esculhamba daquele jeito na revista e ainda vem me pedir favor?" E vejam só como o menino tentou consertar: "Pô, Kid, desculpa, eu nem vi o show, me falaram que foi ruim! E, também, é uma revistinha de merda, que ninguém lê!" Nem preciso dizer que "falaram" na Dynamite para essa pessoa não escrever mais lá... E tudo isso me inspirou a compor a canção, que pode ser ouvida aqui. Melhor ainda é ouvir na íntegra o disco Xu-Pa-Ki (disco independente que já nasceu raro, com tiragem de poucas centenas de cópias, em locais como este.

Por sinal, ocorreu também o inverso, o Magazine me inspirar música. Um de meus quase sucessos, "Me Dá O Mizão" (lançado em meu CD solo Sine Quais-Quais-Quais Non em 2004 e também presente em O Último CD Da Terra, disco do Língua de Trapo de 2016) , foi inspirado no pedido frequente que Ronaldo Passos (dos Inocentes e que honrou o Magazine no ano de 2003) me fazia para afinar a guitarra. E, sim, 19 de maio é também o aniversário de Peter Townshend - o que me fez lembrar de que nos shows do Magazine tocávamos "I Can't Explain" e "The Kids Are Alright".

Sunday, April 16, 2017

"DÓ, RÉ, MI, FÁ... SEI LÁ!" - MANUAL DO USUÁRIO(A) PRA VICIAR


Para tu que já tens (ou hás de ter muito em breve) teu exemplar de meu novo disco, Dó, Ré, Mi, Fá... Sei Lá!, lançado em 7 de abril, segue abaixo um "encarte virtual" com as letras de quase todas as canções, detalhes sobre todas as 30 faixas e algumas fotos.

Faixa 1
FOI PRA ISSO QUE EU FIZ CINQUENTA
Um rockão bem setentista no melhor sentido, para quem passou a adolescência ouvindo artistas como os Stones, Kinks, Who, Alice Cooper. Joelho de Porco, Rita Lee & Tutti-Frutti e/ou Grand Funk. De repente, notamos que o tempo passou e a música que ouvíamos na adolescência completa décadas, mas mantemos o pique (além de para os homens ser mais fácil continuar na adolescência que para as mulheres), e é bom ter em meio à responsabilidade da vida adulta um momento livre... Esta canção é dedicada ao pessoal que faz e lê publicações em papel e virtuais do tipo Empoeirados do Rock e Poeira Zine.

Mug: violão, guitarras, contrabaixo, bateria e vocal

FOI PRA ISSO QUE EU FIZ CINQUENTA
Ayrton Mugnaini Jr.

A criançada foi pra casa da avó
No fim de semana eu vou ficar só
Vou aproveitar, vai ser mesmo super
Vou ouvir meus Kinks e meu Alice Cooper
Ficar de camiseta mulambenta
E tocar minha guitarra invisível
Tô nem aí se eu tô risível
Quem ousa faz, quem não ousa comenta
Foi pra isso que eu fiz cinquenta

Eu sempre fui uma pessoa prática
Eu empilhava disco na vitrola automática
E hoje eu vou me esbaldar, é o meu dia
Vou empilhar é a louça na pia
Vou trazer pra cá meus anos 70
Meus LPs eu usei pra estudar
Vendi pra escola da criançada eu pagar
Mas o sonzinho do pen drive aguenta
Foi pra isso que eu fiz cinquenta

Tem uma amiga que tanto me tenta
Eu convidei pra me visitar
Não tem problema se ela furar
Pois a música me excita e sustenta
Foi pra isso que eu fiz cinquenta

Faixa 2
CADÊ O DOCE?
Samba da Bahia por um paulista, vejam só. A inspiração veio de uma amiga que no começo dos anos 2010 residiu por algum tempo com o filho na casa de outra, e ela me disse que comprava guloseimas e escondia pela casa mas seu filho e a amiga devam um jeito de encontrar e devorar... Em 2011 lancei uma demo deste samba no Soundcloud, além de cantá-lo em saraus, por sinal com muito sucesso (inclusive no evento de dez anos do Clube Caiubi de Compositores, registrado e lançado em DVD). E o final desta gravação dá uma ideia do que seria Bill Wyman tocando samba em 1964-66; confiram.

Mug: cavaquinho, guitarras, contrabaixo, vocal-solo e coro
Gi Vincenzi: percussão e vocal

CADÊ O DOCE?
Ayrton Mugnaini Jr.

Ô mãe, cadê o doce
Que você me prometeu?
Ô mãe, cadê o doce,
Esse doce que era meu?
Ô mãe, cadê o doce
Cadê, desapareceu?
Ô mãe, cadê o doce?
- Tua tia já comeu!

Tua tia é gulosa
É cada aperto que eu passo
Ela é gorda de maldade
Pra ocupar o meu espaço
E se eu comprar dez doces
Não vai ser uma surpresa
Ela vai comer os onze
Um dia ainda come a mesa

Ô mãe, cadê o doce
Que você me prometeu?
Ô mãe, cadê o doce,
Esse doce que era meu?
Ô mãe, cadê o doce
Cadê, desapareceu?
Ô mãe, cadê o doce?
- Tua tia já comeu!

Tua tia é gulosa
Toda hora ela teima
Qualquer coisa que faz sombra
Logo vira guloseima
Junta gula e egoísmo
Dá essa tia maluca
Nunca leve ela pro Rio
Que ela engole o Pão de Açúcar

Ô mãe, cadê o doce
Que você me prometeu?
Ô mãe, cadê o doce,
Esse doce que era meu?
Ô mãe, cadê o doce
Cadê, desapareceu?
Ô mãe, cadê o doce?
- Tua tia já comeu!

Faixa 3
BEIJA-ME, AMOR
Arnaldo Baptista
Elcio Decario

Um grupo do Facebook dedicado aos Mutantes planejou um tributo virtual a eles, e contribuí com esta faixa num arranjo em fado, ora, pois – influência de Thais Matarazzo, jornalista, escritora e entusiasta da cultura lusa. O tributo ainda não saiu, espero que saia...

Mug: violão, violão de 12 (na falta de guitarra portuguesa) e vocal

BEIJA-ME, AMOR
Arnaldo Baptista
Elcio Decario
Lançada em agosto de 1972 no álbum Hoje É O Primeiro Dia Do Resto Da Sua Vida, dos Mutantes mas creditado a Rita Lee solo para que a banda pudesse lançar dois álbuns praticamente ao mesmo tempo, o outro sendo Mutantes E Seus Cometas No País Do Baurets, lançado em abril do mesmo ano.

Faixa 4
A FLAUTISTA ESTUDANTE
Marcha-rancho inspirada numa pessoa real – sim, uma bela dama que nas horas vagas se aventurava a estudar flauta. (Espero que ela esteja bem e ainda tocando; confirmarei se e quando ela voltar a falar comigo...)

Mug: flauta, violão, guitarra, contrabaixo e vocal

A FLAUTISTA ESTUDANTE
Ayrton Mugnaini Jr.

Naquele prédio tem uma bela nêga
Toda manhã ela sai pra trabalhar
A melhor hora é quando ela chega,
Pega sua flauta e começa a estudar
Dó, ré, mi, fá, sol, me faz sonhar
Me emociono, até suspiro
Mesmo que ela ainda não seja um Altamiro
Com certeza ela é muito mais legal
Que o pulador e soprador do Jethro Tull
Dó, ré, mi, fá, sol, me faz sonhar

Faixa 5
CUIDADO PRA NÃO ERRAR
Xote baseado numa história real. Uma grande musa me indicou para tocar num evento, eu disse a ela “quando eu estiver tocando vou piscar pra ti” e ela, modesta que só, respondeu: “Vais piscar pra mim? Cuidado pra não errar...” Daí para eu compor esta canção foi um passo de forró.

Mug: violão, violão de 12 cordas, contrabaixo, vocal-solo e vocal
Leo Rugero: sanfona
Luciana d’Ávila: coro
Gi Vincenzi: bateria

CUIDADO PRA NÃO ERRAR
Ayrton Mugnaini Jr.

Lá no meu bairro tem um salão
Onde tem baile todo sabadão
Baile animado e bem bonito
Só vai orquestra de gabarito
Tem que ser bom pra ir lá tocar
Tem uma dama do lugar
É tão formosa e tão graciosa
Que em todo baile é bom avisar:

Tocador, toma cuidado
Toma cuidado pra não errar
Considere-se avisado
Um sorriso, um olhar
Pode te derrubar

Esse bailão já tem boa fama
Também por causa dessa bela dama
É cativante e linda como quê
Tocador se esquece de cobrar o cachê
O olhar dela é um diapasão
É bom que afina o coração
Até de fato está no contrato
Pra quem tocar em baile no salão:

Tocador, toma cuidado
Toma cuidado pra não errar
Considere-se avisado
Um sorriso, um olhar
Pode te derrubar

De boca em boca, de mesa em mesa
Corre a história dessa princesa
Uma mistura emocionada
De lenda urbana e conto de fada
Dizem que ela com esse jeito
Aguarda o tocador perfeito
Que vai piscar pra ela sem errar
Do seu coração será o eleito

Tocador, toma cuidado
Toma cuidado pra não errar
Considere-se avisado
Um sorriso, um olhar
Pode te derrubar


Luciana d’Avila, Leo Rugero e Mug em dia de gravação de “Cuidado Pra Não Errar” (Crédito da foto: selfie de Luciana)

Faixa 6
QUERO VIVER SÓ DE SHOWS
Um dia Marisa Ricco, cantora, compositora e companheira de Caiubi, me escreveu:: “Hoje eu to meio depressiva, to com vontade de rasgar meu diploma, carteira de trabalho e voltar pra minha chácara...” Foi o que bastou para eu compor esta balada zérodrixiana. Lancei uma demo no Soundcloud; outro companheiro de Caiubi, André Katz, ouviu, resolveu gravar e me enviou uma gravação acústica, de que gostei a ponto de resolver complementá-la para este disco.

André Katz: violões e vocal
Mug: guitarra, contrabaixo e bateria

QUERO VIVER SÓ DE SHOWS
Marisa Ricco
Ayrton Mugnaini Jr.

Hoje eu acordei com uma revolta
Quero queimar minha carteira de trabalho
Quero voltar pra minha chácara no interior
Pegar o meu diploma
E rabiscar no verso uma canção
Eu quero viver só de shows
Desde sempre eu quis ser artista
Mas me disseram que não era profissão
Me aburguesei e venci
Mas agora eu percebi
Que ganha mais quem segue o coração
Quero viver só de shows...

Faixa 7
A PALO SECO
Em 2012 fui convidado a participar de um tributo do Facebook a Belchior, e a canção que escolhi foi “A Palo Seco”. A princípio pensei num arranjo em samba-choro como eu havia feito com “Garçom” de Reginaldo Rossi em meu disco Lados-E, lançado no ano anterior, mas achei cedo demais para repetir a piada. Em que ritmo gravar então? Achei a resposta na própria letra: um tango argentino. Passei alguns dias estudando discos de Carlos Gardel que têm acompanhamento de dois violões. O tributo a Belchior acabou não saindo, e resolvi lançar esta gravação num próximo disco, que acabou sendo este. Por ora, outro trecho da letra também é pertinente, inclusive para o próprio Belchior abrir seus shows de retorno (sim, espero que ele os faça) “Se você vier me perguntar por onde andei...”

Mug: violões e vocal

A PALO SECO
Belchior
Lançada por Belchior em seu primeiro LP (sem título mas conhecido por uma das faixas, "Mote E Glosa", no selo Chantecler, em abril de 1974) e gravada praticamente em seguida por Ednardo no LP O Romance Do Pavão Mysteriozo (RCA, setembro de 1974)


Faixa 8
QUASE FUI EU QUEM TE INVENTOU
Minha homenagem a uma musa dos tempos da faculdade de jornalismo. Musicalmente, a inspiração foi uma canção também bastante beatleana que ouvi uma vez de passagem no rádio por volta de 2000; não consegui ouvir quem cantava (e depois não consegui descobrir no Google), mas me lembro que a harmonia do refrão era similar à de “I Lie Around” de Paul McCartney, a melodia lembrava um pouco o mesmo trecho usado em “Sweet Caroline” de Neil Diamond e “More Than This” do Roxy Music e a letra falava em “os olhos dela”. Resolvi usar a mesma harmonia com uma melodia mais elaborada, e gosto de dizer que esta é a melhor canção de Tavito que ele não compôs.

Mug: guitarra, violão, contrabaixo, bateria e vocal

QUASE FUI EU QUEM TE INVENTOU
Ayrton Mugnaini Jr.

Você é um livro muito raro
Que eu nunca vou poder comprar
Mas estou feliz e consolado
Na vitrine posso te olhar
Você lembra que eu sempre te dizia
Que eu queria te ver, depois morrer
Mas estou bem mais modesto hoje em dia
Eu me contento apenas em te ver

Não importa se a chuva está tombando
À sua volta eu só vejo o Sol brilhar
Até as gotas da chuva brilham tanto
Elas querem também te iluminar
Teu olhar tem ainda mais beleza
Com o tempo você só melhorou
Você é mesmo a melhor princesa
Lá da Disney que ela não criou
Quase fui eu quem te inventou

Tua foto eu guardei comigo
Atrás dela você escreveu
“Felizmente o nosso caso é antigo”
Querida, “felizmente” digo eu
Nosso caso é antigo e moderno
Não tem tempo nem hora ou pedigree
E eu sempre te jurei amor eterno
Pelo menos essa jura eu cumpri

Não importa se a chuva está tombando
À sua volta eu só vejo o Sol brilhar
Até as gotas da chuva brilham tanto
Elas querem também te iluminar
Teu olhar tem ainda mais beleza
Com o tempo você só melhorou
Você é mesmo a melhor princesa
Lá da Disney que ela não criou
Quase fui eu quem te inventou

Faixa 9
QUERO SER O TEU AFFAIR
Jorge Ben Jor, um de meus heróis, ter parado de gravar com violões não me impede de fazer o mesmo (gravar com violões), e neste meu samba-rock usei violão de 12 cordas para tentar captar o espírito (embora ao meu modo) de álbuns como O Bidu e Força Bruta. E a letra é uma declaração de princípios: no amor, como aliás em tudo, carinho, respeito e atenção são de suma importância.

Mug: violão de 12 cordas, guitarra, órgão, contrabaixo, bateria e vocais

QUERO SER O TEU AFFAIR
Ayrton Mugnaini Jr.

Dizer o que você não sente não é nada bom
E não dizer o que você sente pode ser fatal
Por isso agora eu venho te cantar, você já sabe o tom
E você sabe que é sacanagem mas não é por mal
Que bom te ver, mulher
Quero ser o teu affair
Quero ser o teu amante,
Confidente, ficante,
Amigo e querido
Dura mais do que marido

Não sou do tipo que paquera só pra se mostrar
E só esposa ou namorada não podem saber
E acredito nesta bela frase que eu vou citar:
“Tem tanta lei que pode ser quebrada sem ninguém sofrer”
Vem requebrar, mulher
Quero ser o teu affair
Quero ser o teu amante,
Confidente, ficante,
Amigo e querido
Dura mais do que marido

E tem ainda outro cantor que agora lembrarei
Canta até pior que eu, mas disse muito bem:
Diz que “o medo do amor é o medo de ser livre”, eu sei
Estou livre pra seguir meu sonho, podes vir também
Que sonho és tu, mulher
Quero ser o teu affair
Quero ser o teu amante,
Confidente, ficante,
Amigo e querido
Dura mais do que marido

Faixa 10
MEU IRMÃO QUER IR PRA EUROPA
Numa conversa com a amiga Pih Morais ela comentou: "Minhas irmãs querem fazer uma viagem pra Europa e eu quero fazer viagem pra Itaparica." Ora, dizer uma coisa dessas a um compositor compulsivo é apagar incêndio com gasolina... Na hora compus a letra e a publiquei no Facebook para quem quisesse musicar, honra que ganhei, quase com a mesma rapidez, do companheiro de Caiubi Marcio Policastro. A canção nasceu bela toada de sabor folclórico, e para este disco eu a transformei num cateretê bem caipirão, mais ainda graças a Deus e à participação do violeiro Betto Ponciano.

Mug: violão, contrabaixo e vocais
Betto Ponciano: viola caipira
Gi Vincenzi: chocalho

MEU IRMÃO QUER IR PRA EUROPA
Márcio Policastro
Ayrton Mugnaini Jr.

Meu irmão é muito pobre
Minha irmã é muito rica
Ele quer ir pra Europa
Ela quer ir pra Itaparica
Ela diz: "Olha a loucura,
Meu irmão, que você faz"
Ele diz "Ir pra Bahia?
Minha irmã, cê gasta mais"

Faixa 11
UNIBOÇAL MUSIC
Quase todas as grandes gravadoras brasileiras são empresas que visam lucro, imagine se não fossem... Como afirmei em vários lugares, elas insistem em matar com requintes de crueldade a galinha dos ovos de ouro, são centopeias que passam o dia dando tiros nos pés... Mas muitos(as) artistas se preocupam demais com fazer sucesso e sucumbem à pressão, o famoso caso de “quem apanha é tão errado quanto quem bate”. Este meu hard-rock nasceu em 1973-4 como “Commercial Music”, seguindo uma onda então muito comum de criticar a carreira-solo de Paul McCartney em comparação à sua obra como integrante do “melhor grupo de todos os tempos” (mito em que acreditei por muito tempo, mas isso é outra discussão); quarenta anos depois completei a letra definitiva e o arranjo idem, inclusive idealizando a alternância de compasso entre 7/4 e 4/4.

Mug: violão, guitarra, contrabaixo, bateria e vocal
Gi Vincenzi: gaita

UNIBOÇAL MUSIC
Ayrton Mugnaini Jr.

Sempre tenho um pesadelo
Alguém vem me telefonar
Diz que é da Uniboçal Music
Está querendo me contratar
Acordo suando e tremendo
Quero cortar o fio do telefone e sair correndo

Já pensou? Acústico ao vivo
Só caixa no som, som na caixa
Tributo a dez mil convidados
E sem passar de quatorze faixas
Tal cardápio é o que há
Esculhambam no feijão com arroz, capricham no jabá

Prefiro dizer o que eu quiser
Do jeito e maneira que eu quiser
Pra dez pessoas que ouvem com atenção
Do que dizer o que não quero para um milhão
Mas nem por um bilhão
Uniboçal não!

Faixa 12
MARINHEIRO EMPREENDEDOR
Em 2014 comecei a trabalhar com a cantora Vera Mendes num projeto sobre empreendedorismo, compondo uma série de canções sobre o tema, incluindo esta. Todas hão de sair logo em disco, quase todas na voz de Verona (que canta neste CD na faixa “Frevo Da Esfoliação”, de outro projeto nosso).

Mug: violão, pandeirola, apito e vocais

MARINHEIRO EMPREENDEDOR
Ayrton Mugnaini iJr.

Oh! Marinheiro, marinheiro só
O tempo inteiro só tem desafio
E virou marinheiro, marinheiro só
Porque levou aquele tombo do navio

Só pensava em deitar na areia
Uma preguiça enorme de assustar
Foi arrastado pela maré cheia
Acordou e aprendeu a nadar

Oh! Marinheiro, marinheiro só
O tempo inteiro só tem desafio
E virou marinheiro, marinheiro só
Porque levou aquele tombo do navio

Num navio ele foi se virando
Muita batata ele descascou
E resolveu descascar cantando
Cantor da banda ele se tornou

Oh! Marinheiro, marinheiro só
O tempo inteiro só tem desafio
E virou marinheiro, marinheiro só
Porque levou aquele tombo do navio

De marinheiro a cantor então
O nosso amigo nos surpreendeu
Montou empresa de navegação
Agora canta “esse mar é meu”

Oh! Marinheiro, marinheiro só
O tempo inteiro só tem desafio
E virou marinheiro, marinheiro só
Porque levou aquele tombo do navio

Largou preguiça e tem muito pique
De desafio ele não foge, não
E se ele embarcar num Titanic
Faz sociedade até com tubarão

Oh! Marinheiro, marinheiro só
O tempo inteiro só tem desafio
E virou marinheiro, marinheiro só
Porque levou aquele tombo do navio

Faixa 13
FOGUETE PRATEADO
“Fuscão Preto” é uma daquelas canções sertanejas que fazem megasucesso a mais ou menos cada dez anos, e inspirou dezenas de paródias, respostas e continuações; uma delas é esta minha, que comecei por volta de 1984 e concluí em 2015 – e imaginem os Kinks de 1969-70 tocando em 5/4 (além de “Strangers”, é claro).

Mug: guiitarras, contrabaixo, bateria e vocais

FOGUETE PRATEADO
Ayrton Mugnaini Jr.

Eu não vou atrás só do que me disseram
Eu sei porque eu vi ‘té foto no jornal
A mulher que eu mais amo foi embora
Com um piloto do programa espacial

Foguete prateado
Ah, essa mulher tá me fazendo falta
Ela desprezou meu negro fusca
E a linda moto que corusca
Pra fugir com um reles astronauta

Vejo uma estrela e me lembro dela
E sua presença ainda me alucina
Mas eu vi que o nosso amor foi pro espaço
E isso é que é Maria Gasolina

Foguete prateado
Ah, essa mulher tá me fazendo falta
Ela desprezou meu negro fusca
E a minha moto que corusca
Pra fugir com um reles astronauta

Se ela passar perto de algum satélite
Espero que ela ouça o quanto eu lamento
Suas altas curtições na alta e nas alturas
E eu aqui bem preso em engarrafamento

Foguete prateado
Ah, essa mulher tá me fazendo falta
Ela desprezou meu negro fusca
E a minha moto que corusca
Pra fugir com um reles astronauta

Faixa 14
BAILARINA PALHAÇA
Única composição instrumental do disco e uma de minhas primeiras obras de inspiração circense. Compus esta logo que comecei a trabalhar em circo, em 2013. E convidei/convoquei a palhaça Espalha-Brasa (“al secolo” Viviane Figueiredo), minha companheira de saraus circenses, para criar e fazer uma coreografia; aguardem! E bem resumiu minha amiga jornalista Monica Cirano: “Até suas composições instrumentais são irônicas.”

Mug: violão, guitarras, teclado, contrabaixo e bateria

Faixa 15
AFINANDO AFINAL
(A FINA FLOR DA AFINAÇÃO)
Um de meus grandes quase-sucessos é “Me Dá O Mizão”, sobre a falta de afinadores eletrônicos, lançada em 2004. Pois bem, em 2015 consegui meu primeiro afinador, daqueles com ajuste de vibração, e a primeira vez que o usei foi num ensaio de uma de minhas bandas, The Vintages – e só descobri que o bichinho tinha o tal ajuste de vibração em pleno ensaio, justamente por inadvertidamente acioná-lo e obrigar a banda a tocar uma fração de tom abaixo do diapasão. E compus este iê-iê-iê durante esse mesmo ensaio (lembrar de uma amiga/musa ajudou muito). Para esta gravação, tive a grande honra da participação do saxofonista Nestico Aguiar, que tocou na banda The Jet Black’s e com Roberto Carlos nos anos 1960 – e com quem toquei na infelizmente efêmera banda Liga Leve.

Mug: violão, guitarra, contrabaixo, bateria e vocal
Nestico Aguiar: saxofone

AFINANDO AFINAL
(A FINA FLOR DA AFINAÇÃO)
Ayrton Mugnaini Jr.

Finalmente comprei
Um afinador
Levei hoje no ensaio
Mas foi um horror
A turma me xingou
E eu só vi depois
Que estava em quatrocentos
E trinta e dois
Música popular
Tem que ter de fato
Vibração de quatrocentos
E quarenta exato
E o meu coração
Tem um afinador
Que se afina diariamente
Por você, amor
Automaticamente
Pra você, mulher
Ele busca afinação
Na mesma vibração
Em que você estiver


Nestico e Mug em dia de gravação de “Afinando Afinal” (foto de Lilu Aguiar, irmã de Nestico e emérita tecladista)


Faixa 16
MELZINHO
Fiz uma boa troca com a pesquisadora e artista circense Verônica Tamaoki. Ela me revelou como músico de circo ao me convidar para tocar num espetáculo circense que ela produziu em 2013 e, desde então, nos saraus produzidos pelo Centro de Memória do Circo, do qual ela é a diretora. E eu a revelei como cantora e compositora, inclusive nestes referidos saraus do CMC. Em 2016 ela compôs, como um agrado para seu neto, o início desta canção, “Melzinho”; desenvolvi e assim nasceu nossa primeira parceria; na mesma época compusemos outra, “Shimeji” – sim, o “kodomo” é bom garfo e se alimenta bem.

Verônica Tamaoki: vocal-solo
Mug: violão, guitarra, contrabaixo, bateria e vocais

MELZINHO
Verônica Tamaoki
Ayrton Mugnaini Jr.

Melzinho, melzinho
Melzinho é gostosinho
Criança gosta de mel
Criança gosta de mel
Faz bem e é bom demais
Criança gosta de mel
Eu também quero mais!

Faixa 17
FREVO DA ESFOLIAÇÃO
Esta é uma amostra de outro de meus projetos em dupla com Vera Mendes, que além de cantora e compositora é também fonoaudióloga e esteticista, e que inclusive sabe aliar uma função a outra, treinando pessoas para falarem melhor lidando com os músculos da face de forma a estes se fortalecerem e darem à pessoa aparência mais jovem.

Vera Mendes: vocal-solo
Mug: guitarra, contrabaixo e bateria
Wilson Rocha e Silva: cavaquinho

FREVO DA ESFOLIAÇÃO
Ayrton Mugnaini Jr.

Pra ficar sempre bonita
Eu vou me cuidar
Depois da folia
Eu vou me esfoliar

Sem a minha pele
Sou uma caveira
Pra ficar sempre bonita
Eu me cuido inteira
Seja inverno ou verão
Cuidando a coisa vai
Quando eu saio pra rua
Todo queixo cai

Pra ficar sempre bonita
Eu vou me cuidar
Depois da folia
Eu vou me esfoliar

Massagem esfoliante
Com água morna
Sai a pele velha
E o viço retorna
Mas massagear demais
Não dá certo, não
Pra cuidar bem da pele
Não precisa apelação

Pra ficar sempre bonita
Eu vou me cuidar
Depois da folia
Eu vou me esfoliar
Mug e Vera Mendes em 2015. (Foto: Dilza Tricta Mugnaini)

Faixa 18
MY FAVOURITE COMMERE
Outro compositor que tenho como grande modelo é George Gershwin, e outra de minhas composições gershwinianas (a exemplo de “A Primeira Última Vez”, muito bem regravada por Tereza Miguel) é"My Favourite Commêre", lançada em 2013 no disco Vitória!!! do cantor Soul Demetrio, com arranjo e instrumentação também minhas. No vocal, a participação especialíssima de Bee Scott - posso dizer que me senti como Chico Buarque deve se sentir ao ouvir uma composição dele com ele mesmo e depois cantada por Elis, Zizi ou Ângela... Achei que esta gravação ficou parecendo os Stones na época de Out Of Our Heads se aventurando a tocar Gershwin, e a mesma gravação foi remixada para este disco. Uma errata: só depois da gravação percebi que a palavra “compere” (“apresentador” em inglês) tem forma feminina, “commere”... Mas tudo bem; afinal, já tem muitas atrizes feministas substituindo “actress” por “actor”...

Bee Scott: vocal-solo
Mug: violão, guitarra, piano, contrabaixo, bateria e vocal

MY FAVOURITE COMMÈRE
Ayrton Mugnaini Jr.

No business like show business
So the old song says
And I say I know the way
To really big success             
No wrong a show can do
When it has a commère like you
My favourite commère
I love to see you there
You’re good like the best sauce
For the best fancy meal
My favourite commère
No other can compare
You talk, you dance, you smile
And you shine for real
Even if the show was no good
I would see just to see that lass
But I knew the show and her would be good
For neither would settle for less
And you’re more than my favourite commère
‘Cause eveybody loves what you do
And not only the show must go on
Must go on with you

Faixa 19
SAMBINHA SEM VERGONHA
Um de meus projetos é Os Microsambas, de sambas com duração máxima de um minuto e meio, e um destes é este. Encomendei uma letra a Léo Nogueira, emérito letrista do Clube Caiubi de Compositores, e o resultado foi este samba-choro-relâmpago.

Mug: cavaquinho, violão e vocal
Gi Vincenzi: pandeiro e tamborim

SAMBINHA SEM-VERGONHA!
Léo Nogueira
Ayrton Mugnaini Jr.

Se você não fosse falsa
E sentisse amor sincero
Eu te faria uma valsa
Ou até mesmo um bolero
É por isso que eu me zango
Ao te ver co'esse decote
Nunca te farei um tango
Nem sequer um foxtrote
Você não vale um choro
Você não vale um jazz
Mas eu perco o decoro
E me atiro a seus pés
Já que a culpa é só minha
Já que eu babo na fronha
Eu te fiz este sambinha
Que é muito do sem-vergonha

Faixa 20
NARUTO
Uma das melhores coisas da vida foi me tornar pai e companheiro de televisão de meu filho. E um dos desenhos animados preferidos dele é o animê Naruto, que me inspirou esta canção para o público infanto-juvenil com uma mensagenzinha de que não se deve agir sem refletir.

Mug: banjo (na falta de koto), contrabaixo, pandeiro e bateria

NARUTO
Ayrton Mugnaini Jr.

Naruto ama Sakura
Mas ela só pensa no Sasuke
Naruto precisa se tocar
Ser paciente e gentil é o melhor truque

Naruto, Naruto
Por qualquer coisa você fica bruto
Escolha o alvo certo e atinja
Ser ninja não é ser deixa-que-eu-chuto

Naruto é ansioso paca
A toda hora ele perde a linha
Naruto, cuide bem do chakra
Pois sem querer você parece o Chacrinha

Naruto, Naruto
Não seja um baka absoluto
Eu sei que você sabe, não finja
Ser ninja não é ser deixa-que-eu-chuto

Faixa 21
SE VOCÊ JURAR
Adivinhem que cantor eu busquei parodiar nesta gravação. E temos aqui a estréia mundial em gravações do trompetista Wagninho Barbosa (e também a primeira aparição de trompete em uma minha gravação).

Mug: violão, contrabaixo, bateria, pandeirola e vocais
Wagninho Barbosa: trompete

SE VOCÊ JURAR
Ismael Silva
Milton Bastos
Francisco Alves
Gravação original da grande dupla formada por Francisco Alves e Mario Reis; o disco foi lançado pela velha e boa Odeon em janeiro de 1931.

Faixa 22
QUEM NO AR SE ENCOSTA CAI
Mais uma baseada em experiência própria. Minha primeira grande experiência como compositor foi presenciar o Língua cantando “O Homem Da Minha Vida” para um SESC-Pompeia lotado, e foi ainda melhor quando o Língua cantou a canção no Projeto SP igualmente lotado, quando este ficava na Rua Caio Prado, aqui em Sampa. De lá para cá o Língua mudou de estilo (voltaria a ser o bom e velho Língua nos anos 2010) e o Projeto SP mudou-se para a Barra Funda e fechou de vez. Compus então há poucos anos esta balada anti-nostálgica. E recentemente, em 2016, a profecia do final da letra se realizou, com o Língua cantando canções minhas para um SESC-Pompeia lotado ao lançar o disco O Último CD Da Terra.

Mug: violão, piano e vocal

QUEM NO AR SE ENCOSTA CAI
Ayrton Mugnaini Jr.

Faz tanto tempo
Mas ainda posso ouvir
O povo aplaudir
Cantando minha canção
Foi aqui mesmo
Onde tem neste momento
Um estacionamento
Não tem mais palco, não
Veio o sucesso
E me seduziu
Mas logo me traiu
Eu não soube cativar
Sei que é verdade
Que ter algo e perder
É melhor que nunca ter
Mas também faz chorar

Como se diz
Joguei pra vencer
Fiquei triste por perder
Mas não envergonhado
Também não faço
Igual a tanta gente
Que empurra o presente
Com a barriga do passado
Ninguém me peça
Que eu seja o que eu já fui
A vida é um rio que flui
Pra frente é que ela vai
E quando eu olho
Pro que eu vivi lá atrás
Olho um pouco só, não mais
Quem no ar se encosta cai

Dizem que a gente
Ganha o que merece
E tudo o que acontece
É para o melhor
Porém quem sabe a hora
Não espera ver
Faz acontecer
Enfrenta o pior
Como se diz
Pode até chorar
Quem quiser ganhar
O que quer só por querer
Mas se você
Se esforçar com fé
Vai poder até
Ter o que tem que ter
                        
Aquela festa
Foi uma sensação
Mas depois o salão
Ninguém quis limpar
Pra ser feliz
Tem que saber sofrer
E quem souber perder
Aprende a ganhar
Eu vou um dia
Novamente ouvir
O povo aplaudir
Cantando minha canção
Ela é a mesma
Só que melhorou
E o mesmo ainda sou
Mas aquele eu não sou, não

Faixa 23
MEU BANDOLIM
Foi nos anos 1990 que atentei para a obra do escritor russo Anton Tchekhov (1860/1904), graças a Deus e à cantora Nina Ximenes, grande tchekhófila. Ele me parece um equivalente russo e literato de Ray Davies, Adoniran Barbosa e outras pessoas capazes de enxergar grandes obras em pequenos detalhes. Não tive notícia de obras musicais baseadas em suas peças de teatro, mas uma cena de sua última peça, Jardim Das Cerejeiras, me fez ouvir música logo que a li. Até comecei a escrever um ciclo musical baseado em cenas desta peça, e um dia concluirei. Esta canção é uma primeira amostra, e tive o grande incentivo de Svetlana Chistiakova, caiubista russa que vem ao Brasil de vez em quando.

Mug: bouzoukia (na falta de balalaica ou bandolim), violão e vocais

MEU BANDOLIM
Ayrton Mugnaini Jr.
Baseado em Anton Tchekhov

Amo tocar meu bandolim
Eu sei que é só um violão chinfrim
Mas para um homem que é louco e apaixonado
Este violão é um bandolim

O que me importam este mundo barulhento
E a gente amiga e inimiga que eu aguento?
E a velha chama de um amor correspondido
Deixa meu coração torrado e aquecido

Amo tocar meu bandolim
Eu sei que é só um violão chinfrim
Mas para um homem que é louco e apaixonado
Este violão é um bandolim

Podem falar que eu canto muito, muito mal
Que estou menos pra sabiá que pra chacal
Mas mesmo assim o que eu sinto eu vou dizer
E eu queria estar sozinho com você

Amo tocar meu bandolim
Eu sei que é só um violão chinfrim
Mas para um homem que é louco e apaixonado
Este violão é um bandolim

Sou um bote em tempestade, a vida me maltrata
Até no fundo de meu copo tem barata
Tenho um revólver e eu podia me matar
Mas é melhor pegar o bandolim e tocar

Amo tocar meu bandolim
Eu sei que é só um violão chinfrim
Mas para um homem que é louco e apaixonado
Este violão é um bandolim

Faixa 24
O VELHO PALHAÇO
Na minha ainda breve carreira de circense tive a honra de conhecer Roger Avanzi, mais famoso como o palhaço Picolino II e um dos grandes artistas do circo brasileiro em geral e, particularmente, do Circo Nerino, onde atuou também como jóquei, músico e galã. Compus esta canção em homenagem a ele e lancei uma demo no Soundcloud. Agora em 2017 tive uma bela surpresa: o cantor e poeta Henrique Vitorini, jovem companheiro de saraus, resolveu homenagear a mim e a palhaços em geral cantando esta canção no Sarau da Casa Amarela! Gostei tanto que o convidei para cantar neste meu disco.

Henrique Vitorino: violão e vocal
Mug: contrabaixo e guitarra
Gi Vincenzi: bateria e percussão

O VELHO PALHAÇO
(para Roger Avanzi)
Ayrton Mugnaini Jr.

Você está vendo
Aquele alegre velhinho
Que anda devagarinho
Se apóia numa bengala
Eu vou te contar
Disso mistério eu não faço
Ele é um velho palhaço
Olhando assim ninguém fala
Mas você tem que ver
Quando ele pinta o rosto
Nos dá ainda mais gosto
De vê-lo se transformar
Joga longe a bengala
E como ele remoça
Canta, recita e faz troça
Gargalha e faz gargalhar

Mas ninguém sabe
Os dramas que ele viveu
Na vida tanto sofreu
É de deixar arrepiado
Nem vou te contar
Faz parte da vida circense
Mas não quero que você pense
Que entrou no show errado
E, como se diz,
O melhor remédio é o riso
E sempre que for preciso
Ele faz e usa na hora
O palhaço é assim
Consegue achar graça em tudo
Diz tanto até quando está mudo
Faz rir até quando chora

Vieram dizer
Que este é o show derradeiro
Vai deixar o picadeiro
Flor que enfim perde o viço
Não é por nada
Posso ser otimista demais
Mas com certeza já faz
Trinta anos que eu ouço isso
E também é certo
Que ele soube se eternizar
Já ficou e vai sempre ficar
Na história e na lembrança
E a gente sabe
Que o palhaço, a bem da verdade,
Só envelhece na idade
Por dentro é sempre criança                 

Faixa 25
THE BEET SONG
Um de meus blogues prediletos é Altrockchick, de Arielle (j’ai oublié son nom de famille). estadunidense radicada na França. O blogue inclui uma série de artigos sobre coisas de que pouca gente gostam, inclusive ela, e um dos temas foi a beterraba. Gostei tanto que não tive dúvida em compor uma ode a tão belo e saudável alimento (por sinal, para quem não sabe, sou vegetariano), e Arielle gostou a ponto de escrever no blogue um comentário bem favorável, que pode ser lido aqui.


Mug: violão e vocal

THE BEET SONG
Ayrton Mugnaini Jr.

Beet, beet, beet, be it pickled
Or in a soup, it gets me tickled
For health and happiness
A beet I never miss

Mama says “take care,
Watch out what you eat”
Now she’s glad to know
That one thing I love is beet
I abhor white sugar
My life’s very sweet
With my lady’s kisses
And, for sure, a dish of beet

Beet, beet, I never miss a beet

I walk and prance
Run and dance
People going “wow
Not too bad
For a lad
Who’s nearly sixty now”

She don’t lie, she don’t lie, she don’t lie, betaleine

I will never say
“Don’t you eat no meat”
Or “I’d like you more
If you tried to eat some beet”
But I mind my business
On my own two feet
I practice what I preach
By eating lots of beet

Beet, beet, I never miss a beet

And it’s not illegal elígal
Not immoral imróaw
And not fattening
When i’m out
Girls wanna shout
It’s really flattering

I got the beet, I got the beet

What I think it’s right
I do and i’m proud
I think for myself
And I never mind the crowd
I hear a different drum
I walk to that beat
Be it red or any colour
Yes, I paint myself with beet

Beet, beet, I never miss a beet
Beet, beet, I never miss a beet

Beet, beet, beet, beet, yeah

Faixa 26
O MALA DE DEUS
Composta em 2016 numa, digamos, homenagem ao fanatismo religioso e ao catolicismo que continua tão implacável e avançado quanto nos dias medievais.

Mug: guitarras, contrabaixo e vocal
João Arjona Jr.: bateria

O MALA DE DEUS
Ayrton Mugnaini Jr.

Conheço um cara que só fala em Deus
A crença dele é mesmo muito boa
Outras pessoas erram, Deus castiga
Mas quando ele erra, Deus perdoa
E ele fala tanto de amor
Mas se ouve um “não” fica violento
Ele até parece aquele Deus
Dando piti no Velho Testamento

Ele é o Mala de Deus
Mala de Deus
Fariseus, primeiro os teus
Ele é o Mala de Deus

Sempre rezando em palavra e canto
Ave Maria, “Creindeus” Pai, Pai Nosso
Mas quando ouve algo que precisa
Ele parece que vai ter um troço
Foi feito à imagem e semelhança
Daquele Deus que é tão cruel sem dó
E quando fica bravo ele ameaça:
“Eu vou chamar meu Pai, cê vai ver só”

Ele é o Mala de Deus
Mala de Deus
Fariseus, primeiro os teus
Ele é o Mala de Deus

Faixa 27
ODE À MENINA BAUAUÁ
Menina era o nome e Bauauá o apelido de uma adorável vira-lata de estimação da família da mãe de meu filho, e nos últimos tempos ela morou com ela e ele; eu a chamada de Bauauá por causa de seu latido de alerta. Ivo, meu filho, compôs por volta dos três anos de idade uma cançãozinha para Menina; mais tarde percebi que a canção daria um belo samba-rock no estilo “Pilantragem” e desenvolvi o tema. Menina faleceu há poucos anos, e aqui vai nossa homenagem a esta cachorra do tipo que realmente merece canção. E esta é a estréia em disco de uma de minhas melhores bandas, Los Interesantes Hombres Sin Nombre, meu trio de rock e blues ao lado do guitarrista Marcos Mamuth e do baterista Carlinhos Machado.

Ivo Tonso Mugnaini: vocal-solo
Mug: cavaquinho, contrabaixo, vocal-solo e vocais
Marcos Mamuth: guitarra
Carlinhos Machado: bateria

ODE À MENINA BAUAUÁ
Ivo Tonso Mugnaini
Ayrton Mugnaini Jr.

Menina, Menina, Menina
Menina, Menina

Quem a conheceu sente saudade
Mas pelo menos teve a felicidade
Ela corria, ela latia, bauauauá
Mais amiga que a Menina não há!
Menina em 2005. (Foto de Mug)
  
Faixa 28
O NEGÓCIO É SAMBA MESMO
A composição mais antiga do disco, nascida em 1979. Nessa época eu estava prestes a desistir de vez do curso de engenharia elétrica, e descobri que perto de casa, na galeria da esquina da Brigadeiro Luiz Antônio com a Rui Barbosa, havia uma pequena gravadora, a GPS (Gravadora Paulista de Som). Resolvi entrar para conhecer a firma, e mal entrei senti que poderia pelo menos tentar realizar um de meus sonhos de então: ser compositor profissional de gravadoras, a exemplo de Lennon &McCartney, Ray Davies, Chico Buarque e tantos outros e outras que compunham para vários artistas. Foi também quando comecei a germinar como “compositor instantâneo” (e eu teria impulso muito maior ao começar a tocar com Kid Vinil alguns meses depois): logo em minha primeira visita à GPS, apareceu uma candidata a cantora de samba e na hora rabisquei “O Negócio É Samba Mesmo”. Passei a visitar a GPS quase todo dia, e descobri que quase todo compositor se metia a cantar ele mesmo e quase todo cantor se aventurava a compor... No fim me firmei na GPS como músico, acompanhando ao violão testes de cantoras e cantores, e num evento da gravadora num restaurante da Água Rasa vi que o contrabaixista estava pouco à vontade, pedi para tocar e não desci mais do palco, acompanhando todo mundo – uma primeira manifestação do que faço hoje nos saraus. Um dos sambistas da casa, Djayr Doutto, gostou de meu desempenho e me contratou como seu contrabaixista, cargo que ocupei por pouco mais de um ano (e eu era o único branquelo de seu grupo). Djayr gostou de “O Negócio É Samba Mesmo”, mas mudou a melodia da segunda parte e ganhou parceria. Em 1982-3, já ligado ao Língua de Trapo, dei a este um samba um toque de humor ao acrescentar um final irônico, no estilo de “Berkeley Mews” dos Kinks, por sua vez uma paródia de “Rock-A Hula Baby” de Elvis Presley (parodiada também por Bob Dylan em sua “Peggy Day”).

Mug: violão, guitarras, contrabaixo, bateria, vocal-solo e vocal
Gi Vincenzi: percussão e vocal

O NEGÓCIO É SAMBA MESMO
Djayr Doutto
Ayrton Mugnaini Jr.

Nada de rock-samba
Nada de samba-soul
O negócio é samba mesmo
Como o preto velho me ensinou

E não basta a invasão
Da música brasileira
Estão querendo estrangeirar
A música brasileira
Teclados, eletricidade
Acaba parecendo rock
Estão querendo eletrizar
Mas tudo isso pode até dar choque

(Por isso)
Nada de rock-samba
Nada de samba-soul
O negócio é samba mesmo
Como o preto velho me ensinou

Porque o negócio é samba mesmo
Como o preto velho me ensinou!

Faixa 29
POR ESSA MULHER EU SOU CAPAZ DE VIRAR HOMEM
Este rock de 2006 é o resultado de anos ouvindo “Empty Heart” dos Stones e “All Day And All Of The Night” dos Kinks – mas do meu jeito. Pretendi gravá-lo com o grupo TONQ, mas ele acabou ficando em minha carreira-solo.  Dedico esta a Fernando Rosa e ao pessoal colaborador e fã da Senhor F.

Mug: guitarras, contrabaixo, bateria, pandeirola e vocais

POR ESSA MULHER EU SOU CAPAZ DE VIRAR HOMEM
Ayrton Mugnaini Jr.

Por uma mulher
Um homem muda bem depressa
Vinte anos em um mês
E conforme a mulher
O homem perde a cabeça
Ou a encontra de uma vez
Eu já sei como eu vivi
Sem a mulher que eu arrumei
Eu era infeliz e não sabia,
Agora eu sei

Por essa mulher
Eu vou largar meu come-e-dorme
Até vou trabalhar
Por essa mulher
Eu sou capaz de virar homem
Homem com H

Por uma mulher
Bobagem pouca é mais bobagem
Nem se pensa em pensar
Mas por essa mulher
Eu arrumei até coragem
Pra eu mesmo me enfrentar
Ela é a nora
Que a mamãe sempre avisou
Mamãe, desculpe agora,
Que o filhão desencalhou

Por essa mulher
Eu vou largar meu come-e-dorme
Eu vou trabalhar
Por essa mulher
Eu sou capaz de virar homem
Homem com H

Já descobri o meu valor
Agora a coisa vai
Como se diz no interior
Vou ser homem igual a meu pai

Por essa mulher
Eu vou largar meu come-e-dorme
Até vou trabalhar
Por essa mulher
Eu sou capaz de virar homem
Homem com H

Faixa 30
A TUA COMPANHIA É ÓPTIMA... E ATÉ A PRÓXIMA
Gosto muito também de música renascentista, e resolvi encerrar o CD com uma prova disso. Convidei Gi Vincenzi para cantar, e ela aceitou, embora dizendo que nunca havia gravado música erudita na vida – julgando pelo resultado, imaginem se tivesse...

Gi Vincenzi: vocal
Mug: teclado (na falta de cravo)

A TUA COMPANHIA É ÓPTIMA... E ATÉ A PRÓXIMA
Ayrton Mugnaini jr.

É bom, é bom, é bom estar aqui
Mostrar, mostrar, mostrar canções pra ti
A tua, a tua, a tua companhia é óptima
E até, até, até a próxima!
Mug com Gi Vincenzi e Leo Rugero no sarau Toca do Autor em março de 2017. (Crédito da foto: Roberto Candido)