Monday, October 08, 2018

RG SERVE PRA ISSO: PEQUENO GUIA DE XARÁS MUSICAIS

Não importa se você está começando agora ou já ouve e/ou faz música há milênios: todo mundo já fez, faz ou fará alguma confusão com artistas de nomes iguais ou muito parecidos. Temos os bateristas Roger Taylor do Queen e do Duran Duran, o David Gilmour guitarrista e seu xará escritor, os muitos grupos de rock brasileiro com homônimos mineiros, os outros Beatles e Rolling Stones, as cantoras Claudias cujas vozes vêm de todo o Sul da América... Pois bem, aqui vai minha contribuição para ao menos tentar ajudar a minimizar tais astros bem ouvidos e mal-entendidos.

CANTORAS

“No, not the queen protopunk”. Assim a Rolling Stone resumiu a cantora estadunidense Patti Smyth, surgida após a “escalafobética” (segundo Ezequiel Neves) cantora e compositora Patti Smith, embora a Smyth tenha tido seu valor como cantora da banda Scandal, cantora-solo e primeira escolha para substituir David L Roth no Van Halen – mas recusou por estar grávida e não ter gostado do ambiente: “Eu era novaiorquina, não quis morar em Los Angeles, e esses caras vivam bebendo e brigando o tempo todo”.

Quem pensou em brigar o tempo todo fui eu ao ler na Folha de S. Paulo há poucos anos uma notícia sobre grandes problemas de saúde da cantora Anastacia, o susto baixou quando percebi que o jornal falava de outra Anastacia, sem acento, estadunidense e nascida em 1968 e que tem feito um certo sucesso. Fiquei feliz por esta Anastacia ter se recuperado, mas o que quase me deixou doente foi o jornal ter falado dela como s fosse a única do mundo com esse nome – afinal, nossa Anastácia, pernambucana arretada, faz sucesso até mundial como compositora desde o começo dos anos 1970. Mas “o Brazil não conhece o Brasil...”






Ainda falando de cantoras, temos as três grandes Claudias latino-americanas dos anos 1960, das quais mostro aqui um disco de cada. Uma delas é argentina, e deve ter sido ela a responsável pelas outras duas terem adotado seus países de origem como sobrenomes em discos estrangeiros: Claudia de Colombia e Claudia de Brasil. Sim, esta última é nossa grande Claudya, talvez a melhor deste trio, sem desmerecer as hermanas. Mas o curioso é que nenhuma delas nasceu Claudia, seus respectivos nomes reais são bem diferentes: a argentina chama-se Mercedes Beatriz Bayo, a colombiana tem por nome Blanca Gladys Caldas Méndez e Claudya é xará de Gal Costa, “née” Maria da Graça Rallo.

CANTORES

Para começar, um festival de Rogers e Rodgers, começando pelos com “D”. Jimmie Rodgers (1897/1933) foi um dos primeiros grandes heróis da country music cujo estilo de cantar “yodel” foi imitado/citado/parodiado até pelas Mothers of Invention e Focus. Já o cantor de pop-folk Jimmie Rodgers tem outra coincidência além do nome com seu xará caipira: nasceu no mesmo ano em que o outro faleceu, e ainda está vivo e ativo, mas às vezes se promove como “Jimmie F. Rodgers” para evitar confusão. E temos o guitarrista e gaitista de blues Jimmy Rogers (1924/1997), aquele de sucessos como “That’s All Right” e “Walking By Myself” e que tocou na banda de Muddy Waters.

Temos ainda dois Roy Rogers – e com um divertido aparte pessoal. No começo dos anos 1990 eu escrevia no saudoso jornal Folha da Tarde e um belo dia vejo na irmã mais velha Folha de S. Paulo um tijolinho anunciando “Roy Rogers no Palace”. Imaginei “uau, ele ainda está vivo, e que pique,  ainda vem fazer show no Brasil!” Um ou dois dias depois a querida editora Edianez Parente me diz: “Quer entrevistar Roy Rogers por telefone para o jornal?” Eba! Não enviaram a mim ou ao jornal release ou informação alguma sobre o artista ou o show, mas Edianez sabia que eu me virava. Entrevista agendada, fiz minha lição de casa, inclusive descobrindo que o nome verdadeiro do grande caubói-cantor era Leonard Syle. De modo que minha primeira pergunta (após as saudações iniciais e eu pensar “ele tem a voz bem firme para quem nasceu em 1911”) foi: “Como você escolheu o nome Roy Rogers?” Resposta: “É meu verdadeiro nome, em homenagem ao caubói-cantor.” Pois é, tive de me segurar para não cair da sela e não dar bandeira de que eu ignorava – sim, “não me contaram e não perguntei” – que este Roy Rogers não era o caubói-cantor e sim outro, nascido em 1950, e que na conversa-entrevista descobri ser um já emérito guitarrista que havia tocado com gente boa como John Lee Hooker, Ray Manzarek e Linda Ronstadt, e que estava em sua primeira vinda ao Brasil (a segunda de outras foi em 1994 no Bourbon Street). Ah, sim: o Roy Rogers caubói-cantor só parou de fazer suas “happy trails” bem mais tarde, em 1998, aos 86 anos.






Outra confusão divertida se deu graças à canção “Blame It On The Boogie”, lançada em 1978 por seu autor, o inglês Mick Jackson. Ele queria que a canção fosse regravada por Stevie Wonder, mas já havia muito tempo que este não dependia de canções alheias, e quem acabou dando à canção um sotaque Motown foram The Jacksons, embora já não fossem mais artistas da Motown nem se chamassem mais The Jackson Five. O empresário dos Jacksons encantou-se com “Blame It On The Boogie” a ponto de convencer a gravadora (Epic, selo da toda-poderosa Columbia) a correr para lançar o disco. E a Epic não correu, voou: as gravações de Mick Jackson e dos Jacksons saíram praticamente juntas. O disco de Mick Jackson fez sucesso, mas o dos Jacksons fez ainda mais; o próprio Mick Jackson se divertiu com a situação, reconhecendo que a regravação dos Jacksons ficou ainda melhor que a dele. Mas já que o assunto deste artigo é a confusão entre artistas xarás, muita gente – inclusive o jornal inglês Melody Maker – pensou que o “M. Jackson” autor da canção fosse Michael!

Não esqueceremos dos dois mestres da gaita de blues chamados Sonny Boy Williamson, sendo que o mais novo (Alex Ford, 1912/1965) adotou este nome em homenagem ao mais antigo (John Lee Curtis Williamson, 1914/1948, grande pioneiro da gaita no blues – e mais antigo que o outro em termos de gravações, embora mais jovem) e, para evitar confusão, assinava-se também como Sonny Boy Williamson II ou Rice Miller. Mais natural tem sido a confusão entre outro artista influente, George Formby (nascido George Hoy Booth, 1904/1961), uma espécie de Juca Chaves inglês, armado de seu ukulele e letras de duplo sentido (e honrosamente citado em capas e encartes de discos como os Kinks e o Queen), e seu pai (“al secolo” James Lawler Booth, 1875/1921), pioneiro do “music-hall” inglês e de quem tomou o nome artístico. (E sabem quem mais imitou algo de George Formby pai? Charlie Chaplin, com o chapéu e a bengalinha. Sim, um bêbado trajando luto também me lembra George Formby pai.)

Como nota final de alívio após tanta confusão, não deve haver muita gente capaz de confundir Mike Love, vocalista dos Beach Boys, com Mike Love, baterista dos contemporâneos e conterrâneos The Uniques, que fizeram muito sucesso em seu país com “Not Too Long Ago” e “All Those Things” e no Brasil com “Georgia on My Mind” e “Fool Number One”.

Também acho pouco provável confundir o Raulzito que transou com Deus e com lobisomem com o Raulzito presente em um dos dois lados deste "split-EP" independente ainda mais obscuro que o mítico "Nanny"/"Coração Partido"...



GUITARRISTAS E VIOLONISTAS


Talvez eu seja a única pessoa no mundo a gostar do álbum (sem título) que os Troggs, uma de minhas bandas inglesas preferidas, lançaram em 1975. Mas certamente não devo ter sido a única pessoa a ter lido na contracapa o crédito “Sideman: Peter Green, acoustic guitar” (“auxiliar: Peter Green, violão”) e pensar que era o ex-guitarrista da banda inglesa Fleetwood Mac. Levei anos para perceber que este Peter Green era bem outro, embora também inglês e seu verdadeiro nome fosse realmente esse, por extenso Peter Charles Green. Ele gravou e compôs ainda como Peter Lee Stirling e Daniel Boone, emplacando com este nome o megahit “Beautiful Sunday”, igualmente megahit no Brasil como “Domingo Feliz” na voz de Ângelo Máximo.

Outros dois grandes guitarristas xarás, desta vez estadunidenses, são Glen Campbell e Glenn Campbell. A diferença, além do “n” a mais, é que o primeiro chegou a ser integrante dos Beach Boys e, além de preclaro instrumentista, é também o grande cantor de sucessos country-pop como “Honey Come Back”, “True Grit” e “Gentle On My Mind”, e o outro foi integrante de The Misunderstood, uma das mais subestimadas e injustamente obscuras bandas de rock psicodélico dos anos 1960.


E admito que na Bienal do Livro de 2018 adquiri o romance A Perfeita Ordem Das Coisas pensando que seu autor, David Gilmour (nome muito mais destacado que o título do livro nesta edição brasileira), fosse o guitarrista do Pink Floyd. Só depois me alertaram e reparei na orelha do livro: este David Gilmour é um escritor canadense. Pelo menos não me saí mal, pois paguei barato pelo livro, e ele vale mais, é bem escrito (inclusive menciona muita música, direta e talvez indiretamente – o “talvez” se deve a trechos como este: “Parei diante de uma danceteria vazia – luzes vermelhas e verdes percorriam o salão, como se fossem um louco brandindo um machado.” Terei sido a única pessoa a se lembrar de “Careful With That Axe, Eugene” da banda do outro David Gilmour?).

Por falar em bandas inglesas, nos idos de 1978 descobri ser grande fã da música dos Kinks e hoje eles são a banda inglesa que mais me diz. Mas tive de forçar a vista para perceber que o Ray Davies líder e guitarrista da banda não era o mesmo Ray Davies trompetista, compositor e maestro que, ainda por cima, nos anos 1970 lançou com sua banda Ray Davies & His Button Down Brass (inclusive no Brasil) alguns discos pela gravadora Pye, a mesma dos primeiros discos dos Kinks. E ao compilar todas as composições de Ray Davies não lançadas por sua banda para a Kinks Preservation Society – primeira pesquisa de tal porte em todo o mundo – precisei prestar atenção para não incluir ”Why Can’t We All Get Together” e outras composições do “outro”.

Mais difíceis de serem confundidos são o Carl Perkins guitarrista pioneiro do rockabilly e o Carl Perkins pianista de jazz. Agora, não deve ser muito difícil confundir o John Williams grande violonista australiano com o John Williams estadunidense autor de trilhas sonoras (TubarãoE. T.Indiana Jones). Idem o Brian May inglês (o magistral guitarrista da banda Queen) com o Brian May australiano (maestro, pianista e autor de trilhas de filmes como Mad Max e Mad Max 2). E o Queen logo voltará à nossa conversa.



BATERISTAS

A exemplo dos dois Mike Love que citámos, talvez também não seja muito fácil confundir o Jim McCarty baterista da banda inglesa The Yardbirds (atualmente minha terceira melhor banda inglesa dos anos 1960) com o Jim McCarty guitarrista das bandas estadunidenses Cactus e Mitch Ryder & The Detroit Wheels. Mas temos também o Roger Taylor baterista das bandas Queen e The Cross e o Roger Taylor baterista do Duran Duran (e, para quem se lembrar, Arcadia). Sim, o Queen, além de grande banda, é também grande geradora de xarás. Todos estes artistas eram da gravadora EMI, e aqui vai mais um aparte pessoal: além de jornalista e pesquisador, sou contrabaixista, e às vezes fico tentado a mudar meu nome para John Deacon, montar novo grupo e ir bater à porta da EMI.

CONTRABAIXISTAS

John Paul Jones, além de designar o almirante de origem escocesa do século 18 que se tornou a primeira grande personalidade da Marinha estadunidense, é um nome tão bom para artista de rock que tem sido usado por muitos antes e depois do contrabaixista e maestro inglês John Baldwin ter adotado tal cognome. Alguns de que tenho notícia são os ianques dos compactos “The Wahoo”, de 1963 (produzido por Kim Fowley, um Carlos Imperial gringo e loucaço) e “One More Hanging To Go” de 1966 (neste a produção coube a Huey P. Meaux, famoso por cuidar de grandes discos de cajun, Tex-Mex e country) e o inglês John Paul Joans, do hit “The Man From Nazareth” mas que, processado pelo ex-John Baldwin, teve de mudar de nome para seus discos seguintes, escolhendo o bem mais simples e sucinto John – sim, um “João Só” bem mais sutil, mas que com este novo nome emplacou um sucesso a menos que seu xará brasileiro.



Um pouco menos fáceis de serem confundidos são o Chris White contrabaixista dos Zombies (atualmente minha segunda banda inglesa do coração) e o Chris White famoso pelo hit “Spanish Wine”, de 1976. Ambos são ingleses, mas o nome completo do Zombie é Christopher Taylor White e o do outro é Christopher George White. Um detalhe triste é este último ter falecido em 2014, de câncer. E um detalhe engraçado é a edição brasileira de seu maior hit ter cometido no selo um erro de digitação que resultou num trocadilho involuntário. (Este disco tem mais um detalhe pertinente a este tópico: o Tom Parker creditado no selo não é o tristemente famoso empresário de Elvis Presley, mas sim um maestro e arranjador inglês cujo maior hit foi “Joy”, um arranjo rock para “Jesus, Alegria Dos Desejos Humanos” de J. S. Bach.). E podemos deixar em paz o Chris White saxofonista que tocou com os Dire Straits (mas não no álbum Brothers In Arms), Paul McCartney e muito mais gente boa.

Mas qualquer pessoa que se aventurar a escrever biografias de Ozzy Osbourne e do Black Sabbath estará apta a publicar um “diário de um louco(a)”. Sim, Ozzy nasceu Michael John Osbourne na Inglaterra, e há fotos dele tocando contrabaixo, mesmo que apenas fazendo pose. Mas antes de ele se projetar no Black Sabbath em 1970 tivemos o contrabaixista Greg “Oz” Osborne da banda estadunidense Coven, cujo primeiro álbum, de 1969, abre com uma faixa intitulada “Black Sabbath” (sim, a inspiração foi a mesma da banda inglesa, o filme de terror de 1963 dirigido por Mario Bava e estrelando Boris Karloff). E o contrabaixista inglês Mike “Oz” Osborne, da banda Magic Lanterns, passa a vida esclarecendo que não é Ozzy Osbourne, assim como este nega ser o mesmo dos Magic Lanterns – o maior caso de “só que não” do rock. Um bom texto sobre o assunto, incluindo fotos, está aqui.

BANDAS

Todo mundo já sabe que a banda inglesa dos anos 1960 Nirvana precisa ser mencionada como “o Nirvana inglês” para não ser confundida com o Nirvana de Seattle, mais recente porém muito mais famoso. E acho que ninguém consegue confundir os Primitives de Lou Reed com os Primitives ingleses dos anos 1980. Idem o Music Machine estadunidense dos anos 1960 e o Music Machine formado no Brasil pelos grandes argentinos Tony Osanah e Willy Verdaguer.





Mas parece que algumas gravadoras adoram certos nomes de bandas. Um exemplo é a Capitol estadunidense ter lançado dois The Knack, um nos anos 1960 e o outro (bem mais famoso) na década seguinte, embora com estilo calcado na década anterior. (De quebra, temos outro The Knack dos anos 1960, só que inglês, e que tomou seu nome do filme homônimo exibido aqui como A Bossa Da Conquista.) Outro são as duas Wax lançadas pela RCA, uma ianque e a outra (mais exatamente, um duo) inglesa (que emplacou inclusive no Brasil sucessos como “Right Between The Eyes”).





Ainda nos anos 1960, quantos garotos e garotas amavam os Beatles e os Rolling Stones de universos paralelos? Os Beatles que lançaram um compacto intitulado “The Girl I Love” não são aqueles de Liverpool e sim um pessoal ianque moleque que-que-que seguia à risca o preceito perca-o-sucesso-mas-não-perca-a-piada. E muito antes de Jagger conhecer Richards houve nos EUA outro grupo chamado Rolling Stones, que gravou pelo menos este compacto em 1956, mas pelo jeito rolou pouco, criou muito limo e sumiu.



E no Brasil? Ao pesquisar para esse texto fiz uma descoberta que, se não muito importante, pelo menos é minha: o que não falta são bandas brasileiras de alguma importância que têm uma xará, anterior ou posterior, de Minas Gerais. Tal constatação merece até um parágrafo bom demais da conta só para ela.





Analfabitles é um nome trocadilhesco tão bom que foi usado por pelo menos duas bandas dos anos 1960, uma de Minas Gerais (gravou em discos dos selos locais Bemol e Palladium) e a outra do Rio (lançou dois compactos em inglês pela RCA) A banda Sepultura mineira é merecidamente uma das reconhecidas em nível mundial, e ninguém irá confundi-la com a homônima brasiliense que surgiu bem antes mas não conseguiu se projetar, só estreando em discos em 1991 (com o LP independente A Verdadeira Sepultura), e hoje atende por Sepultura de Brasília. Por falar em peso, temos duas bandas xarás mais pesadas que o ar: o famoso 14-Bis de Flávio Venturini, surgido no fim dos anos 1970, e o bem menos famoso e mais obscuro 14-Bis – mas também mineiro! – que gravou apenas um compacto de hard-rock na outra ponta da década, em 1971 ou 1972. E todo mundo sabe que o grande Guilherme Arantes tocou numa banda chamada Brazilian Boys, mas nem todo mundo sabe que este Brazilian Boys paulistano não chegou a gravar discos e NÃO é o mesmo Brazilian Boys mineiro que nos anos 1960 gravou alguns compactos de iê-iê-iê nos selos Chantecler e Palladium e na década seguinte mudou totalmente de estilo e formação, gravando LPs pela CID e pelo menos uma faixa cult, “Super-Heróis”, lançada em compacto.







DIVERSOS

Falamos em Paul McCartney; pois bem, ele pode se gabar de ter gravado com todos os Brian Jones saxofonistas que conheço. Um é o dos Stones, a princípio guitarrista e gaitista mas que se revelou multiinstrumentista, e é ele quem toca saxofone em “You Know My Name” dos Beatles. O outro é o dos Undertakers, uma das primeiras bandas liverpudlianas de rock and roll, e que também tocou em gravações de seu conterrâneo Michael McGear (irmão de Macca, que produziu algumas destas gravações). Muita gente boa pensa que o Brian Jones de “You Know My Name” é o dos Undertakers, mas este nega: “Esse é o Brian Jones que não sabia nadar.”

Não sei se Ian Stewart (1938/1985), pianista dos Stones injustamente nunca creditado como tal e apenas como convidado, sabia ou não nadar. Mas com certeza ele gravou pelo menos um disco solo (em 1966, com participação de ao menos Bill Wyman e Keith Richards) e, infelizmente, nasceu depois e faleceu antes de outro pianista inglês também chamado Ian Stewart (1908/1989), que fez muito sucesso nos anos 1950 e cujos discos incluem este 78 RPM de 1954; ele merece ser mais conhecido, e um bom começo é este texto aqui.




O assunto vai longe, mas por ora lembrarei ainda que o cantor romântico Biafra foi o responsável pelo guitarrista homônimo ter mudado seu “nom de plume” para Mário Manga após a primeira gravação do Premê, “Brigando Na Lua” no LP do festival da TV Cultura de 1979. E meu parceiro Wilson Rocha e Silva ter acrescentado o “Silva” a seu nome ao se casar (sim, tanto homens casadouros como mulheres idem podem mudar de nome, e nem prcisam mudar se não quiserem) ajuda a diferenciá-lo do saudoso Wilson Rocha escritor e roteirista da Rede Globo de Televisão. Para terminar, temos o Roberto Carlos sanfoneiro, que em 1960 lançou seu único disco, “Baião Japonês” – único disco usando esse nome, pois com o tempo ficou bem mais famoso com outro cognome artístico, Robertinho do Acordeon.

(Muitas das imagens de discos deste artigo saíram de meu acervo, e outras são das cada vez mais recomendáveis páginas 45cat e Discogs.)

Monday, April 16, 2018

KAUSOS DE KID VINIL - NA HONESTIDADE NA IMPRENSA


Um de meus maiores orgulhos é ter integrado a banda Magazine como contrabaixista, compositor e arranjador de 1998 a 2004, culminando com Na Honestidade, segundo álbum da banda com este nome (e o terceiro, se contarmos Xu-Pa-Ki, lançado como Verminose, nome que a banda usou nos começos dos anos 1980 e 1990). O disco fez o sucesso de nossas menos otimistas expectativas: não tocamos nas grandes emissoras de rádio, mas não amargamos o vexame de encalhes enormes nos Carrefours da vida. E a grande imprensa deu atenção moderada ao álbum. Só não tivemos resenha ou matéria na revista Bizz porque ela inventou de sumir de circulação justamente durante a vigência comercial do álbum, embora este tenha sido anunciado na revista em uma resenha (elogiosa) do primeiro show da banda com a formação que gravou o disco.

Interessante foi a atenção dada a este pela Folha de S. Paulo. Poucos meses antes, o primeiro álbum do Magazine havia sido promovido a CD, e na edição de 6 de novembro de 2001 a Folha dedicou-lhe uma menção elogiosa (veja mais acima) numa matéria sobre reedições de discos da gravadora Warner. E Na Honestidade foi julgado digno do menor espaço do jornal para resenhas de discos no 15 de março seguinte (veja acima), sem menção a ser este o primeiro disco brasileiro a ser vendido pela internet, incluir uma resposta à canção “Kid Vinil” de Zeca Baleiro, ter na banda um (na ocasião ex-) integrante de banda satírico-musical e outros detalhes julgados desimportantes pelo jornal, inclusive elogiando nosso cover de “Boeing 723897” do Joelho de Porco sem mencionar que era cover – e os “hits fofos” do primeiro disco na resenha deste viraram “humor bocó” na comparação com este. Tudo isso resumido na cotação “regular”, e Kid, calejado por quase 20 anos de críticas e elogios, me disse: “Todos os outros jornais vão seguir a mesma linha.” Não deu outra: quase toda a grande imprensa considerou o disco apenas mediano.


Por sinal, um jornal do Norte ou do Nordeste (esqueço agora) proclamou que nenhuma faixa de Na Honestidade estava à altura de “Sou Boy” ou “Tic-Tic Nervoso” e implicou com a “fórmula” de “Sou Boy” ter sido seguida por outra ode a subempregos, “Sou Flanelinha”, comentando “Qual será o próximo? ‘Sou Lixeiro’?” Pois eu gostei da sugestão e estou para compor uma canção com este mote; se o autor da resenha estiver lendo, queira se manifestar para reivindicar parceria.

Thursday, February 01, 2018

CASAGRANDE E MALOCA: BELO LANCE INICIAL DO PROJETO ADONIRANDO

“Até parece que eu sou Bach!” Assim exclamou Adoniran Barbosa ao ser redescoberto por gravadoras e grande imprensa na virada dos anos 1970 para 1980. Certamente, Adoniran teria gostado muito de ter ouvido sua música interpretada num espaço onde a comum das pessoas esperaria ouvir Bach: o Theatro Municipal de São Paulo, onde tivemos agora em 31 de janeiro o espetáculo Adonirando, inaugurando o megaprojeto Ano Adoniran, ao qual assisti e de que segue abaixo um breve relato. (Mais detalhes sobre o evento aqui e aqui.)

Isso mesmo, nada de elitismos. O Theatro Municipal não é lugar somente de “alta cultura” e “espetáculos chiques” – basta lembrar de Tonico e Tinoco se apresentando lá em 1979, tendo ainda sido precedidos por Moreno e Moreninho em 1954. Tampouco nada de arte com rótulos e compartimentos estanques. Um artista como Adoniran transcende seu gênero musical, mesmo quando se torna praticamente sinônimo dele; do mesmo modo que o citado Bach tem sido interpretado, citado e adaptado por artistas distantes da música erudita barroca como Vinícius de Moraes, Jessé, os Byrds e as Supremes, a obra de Adoniran vem sendo revisitada por artistas distantes do samba como Dominguinhos, Guilherme Arantes, Nhá Barbina, Little Quail & The Mad Birds e até pessoas estrangeiras como a banda italiana I Romans, o cantor israelita Matti Caspi e o cantor ítalo-cubano Don Marino Barreto Jr.


O projeto Adonirando é um dos mais espetaculares (inclusive literalmente) resultados da confluência de diversos esforços pró-Adoniran, incluindo o Conjunto João Rubinato (dedicado a resgatar a obra do artista), o livro de Celso Campos Jr. (primeiro grande livro sobre sua vida, Adoniran: Uma Biografia), o meu (primeira grande discografia e musicografia, Adoniran: Dá Licença De Contar), o de Tomás Bastian, líder do CJR, em parceria comigo (Adoniran Em Partitura) e o entusiasmo do ex-jogador Casagrande, grande fã de Adoniran (e também corintiano) e que teve a ideia de montar este show.

Muitas das atrações deste evento eram prazer musical anunciado e já esperado; outras foram semi-surpresas (já explicarei) e houve também surpresas tão inesperadas (ao menos para o grande público) quanto agradáveis (para o público em geral).

Eu já esperava gostar de ouvir Luiza Possi cantando “As Mariposa”; Baby do Brasil com “Saudosa Maloca” (inclusive imitando Elza Soares); Demônios da Garoa com um pot-pourri de “Malvina”, “Joga A Chave” e “Apaga O Fogo, Mané” e, como bis não programado, “Já Fui Uma Brasa”; Eduardo Gudin com “Armistício” (parceria sua com o vate do Bixiga); Carlinhos Vergueiro com “Torresmo À Milanesa” (idem); Paulinho Boca De Cantor (com “Minha Nêga”, na qual também tem parceria junto com Carlinhos Vergueiro); Toinho Melodia com “Comê E Coçá É Só Começá”; e o Conjunto João Rubinato, que acompanhou quase todo mundo, inclusive com participação do grande Osvaldinho da Cuíca. (Merecem destaque duas pessoas vocalistas do CJR, respectivamente Gregory Andreas com "Duas Horas Da Madrugada" e Soraia Ioti com "Teu Orgulho Acabou", duas das doze canções lançadas pela primeira vez em disco no CD que acompanha o livro Adoniran Em Partitura).

Das semi-surpresas, Arrigo Barnabé mostrou que não se resume ao Frank-Zappa-encontra-Gil-Gomes com que se celebrizou; lembremos que ele é também autor de belas canções como a valsa “Londrina”, e no evento Adonirando ele brilhou quase sozinho ao piano com “Bom Dia, Tristeza” (em boa dupla com o violonista Ronaldo Rayol). E já que Adoniran gostava “dos meninos desses tal de iê-iê-iê”, tivemos Paulo Miklos em pessoa e no telão em cenas do filme Dá Licença De Contar (sim, xará de meu livro, embora a frase seja de Adoniran), onde interpreta o papel do Poeta do Bixiga, e Nasi e Johnny Boy interpretando “Iracema”. (Por sinal, há alguns anos tive a honra e prazer de participar das interpretações de ambos em “Iracema” e “Samba Italiano” num especial sobre Adoniran para a TV Cultura.)

Ah, as surpresas... Todas, como eu disse, muito boas. Luiz Carlini, o “Keith Richards da Pompeia”, brincou de Jimi Hendrix com um breve arranjo instrumental sem acompanhamento do “Samba do Arnesto” à moda do mestre de Seattle, e deve ter surpreendido muita gente que não ouviu, por exemplo, Rita Lee interpretando a mesma canção no álbum-tributo Adoniran, O Poeta Do Bixiga em 1990. O diretor e ator teatral Cassio Scapin (sim, aquele do Castelo Rá-Tim-Bum) brilhou recitando-interpretando letras de canções como “Um Samba No Bixiga”, “O Samba Do Metrô” e “Olha A Polícia!” e cantando (bem) “Samba Italiano”. “Prova De Carinho” teve duas boas interpretações, com Kiko Zambianchi (sim, roqueiro que também é de samba, e que sabe que Adoniran também é do rock) e o tenor Jean William. Gostei de ouvir duas cantoras que eu não conhecia: Laya e... Sabrina Parlatore. Sim, a apresentadora, que foi “commère” deste evento e revelou que também pode seguir carreira de cantora com uma bela versão em fox-trot de “Tiro Ao Álvaro”. Rappin’ Hood saiu-se bem em “Saudosa Maloca” não só no belo rap que entoou, mas também cantando, apesar do pouco ensaio e do tom não ser o ideal para ele. E Hood cantou num belo dueto com Baby do Brasil – não, ela não disse “Rá!”, mas Hood disse “Rá-tá-tá-tá” imitando arma de fogo em seu rap. (Quando fui integrante do Magazine de Kid Vinil, gravamos pela Trama, e participamos de um evento da gravadora em Franca; foi lá que conheci pessoalmente Rappin’ Hood, colega de elenco; após o evento Adonirando conversei com ele e comentamos sobre ele, até onde sabemos, ter trazido o rap para o Municipal.) 

Notemos também a clarinetista Laura Santos, nova integrante do Conjunto João Rubinato, e que aos 17 anos de idade – sim, de idade – toca como gente grande da melhor e já pode falar que tocou no Theatro Municipal lotado com quase todo o pessoal citado acima. E falamos em Adoniran comentando “Até parece que eu sou Bach!”; pois bem, o evento terminou com João Carlos Martins regendo a Orquestra Bachiana Filarmônica SESI-SP, em dupla com Roberto Minczuk, num arranjo sinfônico para “Trem Das Onze”.

E só mesmo uma pessoa chata como eu para descobrir e apontar falhas num show como este. Faltou apenas um slide de crédito às parcerias de Adoniran (Vinicius, Molles, Hervê), o nome de Rappin’ Hood apareceu grafado como “Happin’” e houve ligeiras falhas no som, mas, como eu disse, só mesmo uma pessoa chata como eu para reparar pequenas falhas num grande espetáculo. O clima informal de “sarauzão” aumentou ainda mais o charme do evento, em nada respeitoso e planejado demais a ponto de parecer “engessado” – e tais falhas se perdoam em tão grande evento reunindo tanta gente boa. 35 anos após sua morte, Adoniran está mais vivo do que nunca, e unindo diversas gerações, gêneros musicais e regiões brasileiras.

Tem mais: este projeto será apresentado, junto com o acervo do Museu Adoniran Barbosa, mensalmente em vários SESCs a partir de maio. E João Carlos Martins anunciou: em 2019 é a vez de Luiz Gonzaga receber semelhante série de homenagens. (O que faz lembrar: será que logo teremos de volta às telinhas e telonas o filme Caídos Do Céu, de Adhemar Gonzaga, onde Adoniran canta “Cortando Um Pano” de Gonzagão?) É beleza, João, é beleza, João...

Wednesday, January 10, 2018

AUTO-REFERÊNCIA AQUI EU POSSO: RETROSPECTIVA 2017

2017, além de ano do centenário do primeiro samba a fazer grande sucesso, das revoluções russa e mexicana, da entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial (marcando o início de seu grande poderio em nível mundial, mas isso é assunto para outro tópico de meu blogue, e sob a óptica musical), e do lançamento do Prêmio Pulitzer, foi também um ano em que fiz muita coisa de que espero me lembrar com orgulho daqui a cem anos. Ou, pelo menos, espero que as pessoas de então descubram e gostem. Em resumo, iniciei meus anos 60 em grande estilo.

“CADÊ O DOCE?”



Lancei em abril novo disco, Dó, Ré, Mi, Fá... Sei Lá!, independente mas em meu novo selo, Produções Mugayr (com logotipo criado pelo artista gráfico da família, meu filho Ivo). As faixas de maior sucesso (por “sucesso” entenda-se citação espontânea por mais de duas pessoas) incluem o xote “Cuidado Pra Não Errar”, o sambão “Cadê O Doce?” (que eu já havia lançado antes em saraus com grande sucesso – inclusive está no vídeo do show comemorativo dos dez anos de Clube Caiubi de Compositores, de 2012), o rocão “Foi Pra Isso Que Eu Fiz Cinquenta”, o “sea chant” “Marinheiro Empreendedor”, o cateretê ”Meu Irmão Quer Ir Pra Europa” (parceria com Márcio Policastro) e a canção infantil “Melzinho” (parceria com Verônica Tamaoki). O velho parceiro Fabian Chacur fez uma bela resenha do disco em seu blogue. Outro belo presente para este sessentão fresco foi uma entrevista para a página Ritmo Melodia.

E, notório por aparecer em palcos como acompanhante ou em canjas, aventurei-me em alguns shows-solo para promover este disco. Um deles foi no Brazileria, em junho. E foi tão bom que Silvio Viani, co-proprietário da casa, exclamou no final: “O primeiro de muitos!” Pois bem, o segundo, com acompanhamento de meu trio Los Interesantes Hombres Sin Nombre, foi em dezembro – e foi ainda melhor, a ponto de eu sair de lá com a terceira data: 20 de janeiro. E fiz bons shows “a solo” também no infelizmente efêmero Espaço Son, loja de alimentos naturais com palquinho, aqui na Mooca, além de ter sido convidado especial em saraus como o Casa Amarela e o primeiro promovido pelo editor literário Carlos Torres (que logo reaparecerá nesta conversa).

Mug e o percussionista Marcelo Valença na festa junina vegana do Espaço Son

“QUANTO MAIS PARCERIAS MELHOR”

Falando em saraus, sempre digo que a Era dos Festivais está sendo bem substituída, pelo menos em São Paulo, pela Era dos Saraus. E em 2017 acrescentei à lista dos saraus que frequento regularmente (Caiubi e Sopa de Letrinhas, Quartaquarta, Sarau da Maria e Sarau do Circo) os saraus da Biblioteca Adelpho, Casa Amarela, Piolin, Toca do Autor e Vergueiro.

Sempre digo que arte é soma, e 2017 foi também um ano em que iniciei muitas e boas novas parcerias, pessoas com quem toquei pelo menos uma vez em shows e saraus e/ou com quem comecei a compor, e que valem por uma mini-enciclopédia de algumas pessoas que têm brilhado na música de Sampa. Aqui está ela, com o requinte de assinalar com um asterisco as estrelas que participaram do disco Dó, Ré, Mi, Fá... Sei Lá!:

Adrian Aneli Costa Lagrasta - poetisa
Alexandre Tarica – violonista, compositor e contrabaixista
André Katz* - cantor, compositor e violonista
Betto Ponciano* – violeiro, compositor e cantor
Caetano Lagrasta Neto – poeta
Cássio Figueiredo – cantor e compositor
Cirilo Amém – grupo de rock-MPB
Claudia Luz – cantora e compositora
Cortiça – palhaça-cantora
Danielly Montanary – cantora e compositora
Dinho Nascimento – percussionista
Eliete Chacon - locução nos spots promocionais de Dó, Ré, Mi,Fá... Sei Lá!, que são dois, este e este.
Gi Vincenzi* – cantora, compositora e multi-instrumentista
Gozi – banda de rock e blues liderada pelo casal Gisele e Ozi Garofalo
Guilherme Folco – saxofonista e circense
Henrique Vitorino* – cantor e compositor
Ieda Cruz – violonista e circense
Jany Ketty - cantora
Jeanne Darwich – cantora
João Arjona* - multi-instrumentista
Jorge Dersu – cantor, compositor e violonista
Joy – proprietário da casa Susi In Trance
Leo Rugero* – acordeonista
Luciana d’Ávila* – cantora e compositora
Marcelo Valença – percussionista
Maria Lucia Roxo Nobre* – produtora
Marquinhos Gil – acordeonista e malabarista
Miguel Barone – cantor e compositor
Paulo Brito – cantor, compositor e percussionista
Paulo Miranda – violonista
Poema Novo – grupo de música e poesia
Regina Tieko (cantora) e Fábio Abramo (violonista) – dupla de música popular em geral
Rita de Cássia Venturelli – palhaça e clarinetista
Rafael Peretta – compositor
Thais Matarazzo – escritora e pesquisadora que se revelou cantora (e canta direitinho!) em alguns saraus de sua editora em 2017 (sim, muita gente se desinibe após me ouvir cantar minhas canções sobre Serasas e piolhos)
Vitor Trindade – percussionista e cantor
Wagninho Barbosa* - trompetista

Mug com ReginaTieko e Liberto Trindade no Sarau da Vergueiro

Muito bom ter tocado também com pessoas velhas parceiras e outras com quem eu nunca havia tocado, incluindo Wilson Rocha e Silva e todo o pessoal do Caiubi, Rosa Rocha, Ana Clara Fischer e o paizão Iso, Alessandra Siqueira (a palhaça-musicista Silueta), Tavito, Bogô, Claudio Morgado, Ceci Ramadas, Gaspar Ramos, Tião Baia, Cristina Costa, Tereza Miguel, Edvaldo Santana, Liberto Trindade (tio de Vitor Trindade e filho de Solano Trindade), Vidal França e parte do grupo santista Mulher De Colher (cinquenta damas percussionistas fazendo percussão em colheres). Outro belo reencontro foi com o baterista Nahame Casseb, nosso querido Naminha, que tocou no Língua de 1983 a 1987 e permaneceu na chamada “Família Língua de Trapo”. Em 2016 participou do disco O Último CD Da Terra, e agora em 2017 esteve numa festa de confraternização do Língua, no bar Dedo De La Chica; o belo evento incluiu um quarteto “ad hoc” de Laert Sarrumor, Serginho Gama, Naminha e eu – primeira vez que toquei com ele desde que ele deu uma canja num show da Rádio Matraca no saudoso Espaço Camerati em 1986.

Aqui vai uma amostra de meu segundo show no Brazileria: a canja de Wilson Rocha e Silva interpretado sua “Subida Da Zuquim”, com o trio Los Interesantes Hombres Sin Nombre e a percussionista Cristina Costa.

E em 2017 continuei fiel à linhagem conjunteira de Edgard Scandurra e Dave Grohl. Para facilitar a vida de quem pesquisar sobre música agora ou pelos séculos dos séculos, aqui vão as bandas que atualmente integro, começando pelas duas para as quais entrei em 2017:

A4 EM PB (banda do Sarau do Circo)
Jorge Dersu – violão e vocal
Ayrton Mugnaini Jr. – maestro, contrabaixo e vocal
Marquinhos Gil – acordeão e vocal
Dinho Nascimento – percussão e vocal

JANET FENIX
Jany Ketty – vocal
João Arjona Jr. – guitarra e vocal
Ayrton Mugnaini Jr. – contrabaixo e vocal
Maxi Pere – teclados
Chang Chih An – bateria

LOS INTERESANTES HOMBRES SIN NOMBRE
Marcos Mamuth – guitarra, violão e vocal
Ayrton Mugnaini Jr. – contrabaixo e vocal
Carlinhos Machado – bateria, percussão e vocal

THE VINTAGES
Lucimara Curitiba – vocal e percussão
Emiliana Santos – vocal
José Roberto Curitiba – maestro e teclados
Newton Bardauil – guitarra e vocal
Fabio Ferre – guitarra e vocal
Ayrton Mugnaini Jr. – contrabaixo e vocal
Eduardo Santos – bateria
(A dupla Santos não tem parentesco entre si, e a dupla Curitiba é um casal – dos mais belos e mais musicais.)

TONQ (TOSQUEIRA OU NÃO QUEIRA)
Wilson Rocha e Silva – violão, cavaquinho, violino, guitarra, teclados e vocal
Rica Soares – guitarra, violão e vocal
Sonekka – violão, teclados e vocal
Ayrton Mugnaini Jr. – contrabaixo, guitarra e vocal
Ricardo Moreira – bateria, percussão, violão e vocal
e mais
Rosa Freitag – guitarra e vocal
Mário Lúcio de Freitas – vocal

TATO FISCHER & A BANDA
Tato Fischer - teclados e vocal-solo
Bráu Mendonça - violão, guitarra e vocal
Ayrton Mugnaini Jr. - contrabaixo e vocal
Bruno Sotil -bateria, percussão e vocal

ARBANDA (banda do projeto Arquivo do Rock Brasileiro)
Patricia Toscano – vocal
Leonardo Freund – guitarra e vocal
Marcelo Agulha – guitarra e vocal
Ayrton Mugnaini Jr. – contrabaixo e vocal
Laércio Muniz – bateria

 A banda A4 Em PB.

E tanta gente começou a me chamar de cantor e músico que resolvi assumir pelo menos esta última qualificação – sempre me vi como um compositor que canta e um multiinstrumentista “mandrake”, mas parece que aperfeiçoei meus gestos hipnóticos o suficiente... Tenho consciência de que sou competente e “raçudo”, como aconteceu no fim do ano, quando me chamaram para gravar uma marcha-rancho ao violão, com andamento bem lento, sem ensaio prévio fora do estúdio, cheia de mudanças de acordes e, a cereja do bolo, em si bemol. Precisei de apenas umas cinco tomadas para dar conta do serviço – e estou pensando se alguém abaixo de Heraldo do Monte mataria de primeira...

“PRA ONDE EU VOU VENHA TAMBÉM”

Alguns lugares que conheci e em que toquei pelo menos uma vez em 2017 e recomendo, além do Brazileria, são o bar-galpão Susi In Trance, o bar-restaurante C. C. Rider, o bar-loja vintage Cia 66 e os vilamadalênicos Cashmere, Dedo De La Chica e Papila. E, como frequentador, conheci e recomendo o Casa de Francisca, no centro de Sampa, e outro grande bar madalênico, Tupi Or Not Tupi.)

Uma nota triste é sobre o bar Bodega Garcia, na Avenida Doutor Arnaldo, onde tive o prazer de tocar em outubro com Los Interesantes Hombres Sin Nombre, mas que fechou poucas semanas depois devido ao falecimento da co-proprietária Silvia Garcia num acidente motociclístico.

Los Interesantes Hombres Sin Nombre no Bodega Garcia

Mais alegre e curioso foi eu ter tocado num local de que fui vizinho por toda a infância mas nunca havia adentrado: o Açaí Clube, no Brooklin, num show com o guitarrista-base de The Rolls And Rocks Band, liderada por Bogô (sim, aquele dos Beatniks e meu companheiro em outras bandas) e que inclui, vejam só, uma parente minha, a cantora Ceci Ramadas; eu já havia tocado com ela, mas só em 2017 eu soube que seus antepassados incluem – honrosamente, espero – um Mugnaini.

“VEJA QUANTO LIVRO NA ESTANTE”

Em 2017 estive presente nas melhores estantes participando de algumas coletâneas de poesia da Editora Matarazzo, além das honras de prefaciar o livro Fora Do Tom 2 – Crônicas De Um Jornalista De Cueca do jornalista e cronista Tom Cardoso (lançando a teoria de Tom ser reencarnação de Stanislaw Ponte Preta) e dividir com Tomás Bastian a pesquisa e os textos do livro-e CD Adoniran Em Partitura, neste resgatando, ao lado do Conjunto João Rubinato, composições do Vate do Bixiga inéditas em disco, um belo equivalente do igualmente belo trabalho sobre Noel Rosa feito pelos manos Carlos e Aloisio Didier e seu Conjunto Coisas Nossas, junto ao escritor João Máximo. (Participei também, como vocalista, de outro trabalho sobre Adoniran, pelo cantor e compositor Miguel Barone, mas que não pôde ser lançado em 2017, embora eu tenha dado canja num dos shows.)

Além disso, o mundo ganhou o livro Centro de Memória do Circo, belo documento sobre a primeira instituição latino-americana a registrar a História e os saberes circenses, e onde marco presença com minha pesquisa sobre música e circo e minha participação no Sarau do Circo.

Também marquei presença na primeira edição da Feira dos Livros e Autores Sorocabanos (FLAUS), mas à distância; convidado a participar mas impossibilitado de ir pessoalmente, tomei a iniciativa de compor um jingle para o evento. Pois bem, a I FLAUS foi um sucesso, e me disseram: “Não existe mais jingle da FLAUS... agora é Hino Oficial da FLAUS!” Ouçam aqui.

E no Sarau da Casa Amarela conheci Carlos Torres, da editora Essencial, que está para reeditar alguns livros meus (inclusive Raul Seixas: Eu Quero Cantar Por Cantar) revisados e atualizados agora em 2018.

“PRESENTES EM TODO LOCAL O RÁDIO E A TELEVISÃO”

Em 2017 meu programa Rádio Matraca ganhou o dobro de onda para surfar no rádio; além do horário das 17h de sábado já tradicional, agora temos reprise à meia-noite de terça-feira, Belo presente para o leitorado nestes 40 anos da emissora, a USP FM, que – e não é por nada – continua sendo uma das cada vez melhores opções para quem reclama de emissoras mais comerciais. E nesse ano a equipe do Rádio Matraca – Mug, Laert Sarrumor e Alcione Sanna – ganhou um reforço: o engenheiro e técnico de som José Miletto, que é também tecladista do Língua de Trapo, mas não contem para ninguém.

Em 2017 surfei também em ondas como os programas radiofônicos de Jai Mahal e Clovis Ribeiro e o de Paulo Nunes na TV CINEC (sozinho e ao lado de Rosa Rocha)

Mug e Mario Luiz Tricta em Piracicaba

Falei de meu filho Ivo e de ter descoberto parentesco com a cantora Ceci Ramadas. Pois bem, falarei de mais um parente, e é pelo menos um que tenho no rádio (além de Ivo ter gravado algumas vinhetas para a Rádio Matraca): Mário Luiz Tricta, nativo de Rio Claro e residente em Piracicaba, onde o conheci pessoalmente em minha mais recente visita à cidade, agora em 2017.

POT-POURRI DE ENCERRAMENTO

Logo publicarei no blogue minha relação anual das personalidades musicais falecidas no ano. Uma delas, mais infelizmente ainda, foi o radialista, DJ, jornalista e vocalista Kid Vinil, uma das pessoas que mais fez para divulgar o rock no Brasil desde o fim dos anos 1970 e uma das maiores personalidades do rock brasileiro dos anos 1980. Tenho vários orgulhos com relação a Kid: ter sido seu amigo, companheiro na banda Verminose/Magazine em algumas fases (o Magazine é como os Demônios da Garoa e o Língua de Trapo, uma “famiglia” onde quase todo mundo saiu e voltou pelo menos uma vez) e no programa Digital Session na Brasil 2000 FM, além de ele ser padrinho de meu filho. Na ocasião de seu falecimento publiquei uma pequena série de artigos, “Kausos De Kid Vinil”, aqui em meu blogue. E, como homenagem a Kid, tenho tocado em meus shows a canção “Sou Coroa”, que compus para ele (confira a história da canção aqui) e ele a gravou no disco Xu-Pa-Ki do Verminose; ouçam e vejam aqui está a canção com o trio Los Interesantes Hombres Sin Nombre em versão semi-acústica no sarau Toca do Autor.

No Rádio Matraca homenageámos os 50 anos do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band já sabemos de quem com o programa especial “Sgt. Pepper No Brasil”, por sua vez baseado no artigo “Cinquenta Do Pimenta” de meu blogue. O programa incluiu uma gravação exclusiva: meu cover para o muito famoso mas pouco lembrado “Sgt. Pepper’s Inner Groove”.

Nesse ano segui o exemplo de Hermeto Paschoal – não fosse eu compositor antes de tudo – e iniciei uma tradição de compor canções instantaneamente para eventos, como esta no camarim do Brazileria uns quinze minutos antes de meu primeiro show na casa.

Música é, tal como o futebol, uma caixinha de surpresas, e lembrarei uma que tive e uma que dei em 2017. Nesta minha fase de compor canções instantâneas para eventos (como o jingle para o Brazileria apresentado acima), presenteei o radialista Jai Mahal com um jingle surpresa para seu programa Bamba Jam, na Cultura FM, quando ele me convidou a participar. E quando fui homenageado pelo Sarau da Casa Amarela, um jovem participante, Henrique Vitorino, uniu-se ao veterano Milton Luna para me surpreender com... “O Velho Palhaço”, uma canção minha que ele aprendeu de uma demo que lancei no Soundcloud, e com o requinte de mudar o arranjo para que eu não reconhecesse a canção – e, de tão surpreso, até errei uma nota ou outra (vejam minha expressão no vídeo que captou este momento). Depois Henrique me perguntou se eu gostei, e minha resposta foi convidá-lo para cantar a canção no disco Dó, Ré, Mi, Fá... Sei Lá! – por sinal, a estreia de Henrique em disco.

Ah, sim: de abril para cá apareço quase sempre sem óculos pois passei por cirurgia de catarata. Pois é, tornei-me homem de visão.

Taí minha retrospectiva de 2017, cumprindo minhas duas tradições de ser a única retrospectiva de um ano após ele ter se encerrado de vez e de chegar uns cinco dias após previsto devido ao ano seguinte ter começado com tudo – sim, já tem assunto para a retrospectiva de 2018, aguardem mais doze meses!