Tuesday, January 31, 2017

AUTO-REFERÊNCIA AQUI EU POSSO: RETROSPECTIVA 2016

2016 foi para mim um ano de tantas atividades produtivas que muitas prosseguiram 2017 adentro – além de outras que iniciei no novo ano (e que, sim, estarão em minha retrospectiva dele!) – , de modo que só agora tive tempo de vir apresentar esta minha retrospectiva anual (e percalços com a internet e meu computador a atrasaram mas não impediram).

Sim, 2016 foi um ano de mudanças de governo, mas sei que eu e outras pessoas estamos lutando para que as mudanças não tenham sido tão para pior assim. E sei que apresentar uma retrospectiva de um ano semanas após ele ter terminado pode soar no mínimo esquisito do ponto de vista do marquetingue, mas me parece bem mais lógico que fazer retrospectiva de  um ano antes de este acabar... Enfim, vocês já devem saber que sou o tipo de pessoa que segue sua própria  lógica. Bem, vamos ver o que pude fazer em 2016.

HIDRATANDO E CANTANDO E SEGUINDO A FUNÇÃO

Meus muitos projetos em dupla com a cantora, fonoaudióloga e esteticista Vera Mendes – parceria que em 2017 completa vinte anos – incluíram em 2016 um de estética facial aplicada à fonoaudiologia, com Verona dando as idéias e subsídios teóricos e práticos e eu fornecendo a parte musical. Um dos resultados pode ser conferido nesta ode à hidratação em ritmo de samba-choro.

E sou grande privilegiado, trabalhando com minhas queridas Verô e Verona. Minha parceria com a pesquisadora – e agora também cantora – Verônica Tamaoki seguiu firme, inclusive com o Sarau Café do Circo; até participamos da Virada Cultural de 2016.





O QUE HÁ DE NOVO E DE VELHO POR ESTAS BANDAS

O ser humano, especialmente a famosa classe média, odeia mudanças exceto se for para ficar tudo na mesma, daí termos ouvido em 2016 um festival de “volta da direita ao poder”, “volta da ditadura militar”, “volta do vinil” (que aliás nunca foi embora de vez), “volta da fita cassete” (idem)... Nem toda volta, porém, significa atraso de vida; há retornos e reciclagens oportunas e bem-vindas. Um óptimo exemplo é a volta do grupo Língua de Trapo irreverente e versátil como o conheci lá me 1980, e para o qual efetivamente voltei como compositor; em 2016 voltamos à berlinda (sim, posso novamente me referir ao Língua na primeira pessoa) com o disco O Último CD Da Terra, lançado pelo selo Genesis (da lendária editora Arlequim – adorei estar no elenco de uma empresa que tem algo, pelo menos no nome, a ver com o circo) e que pode ser adquirido fisicamente por aqui ou virtualmente por ali. Em 2016 o Língua fez belos shows no SESC-Pompeia; aqui vai um flagrante de minha participação. E pra vocês deixamos o nosso Circular 46, aquele assim, meio de lado...

(E, sim, eu e Laert Sarrumor, vocalista do Língua, continuamos firmes, ao lado de Alcione Sanna, no programa Rádio Matraca, todo sabadão às 17h na USP FM; por sinal, constatei em 2016 que a emissora estava sendo das mais ouvidas em táxis e espaços culturais, ao invés das tão decantadas Nova Rock Brasil FM e rádios-sucesso em gral.)



Outra banda em que toquei e que eu gostaria que voltasse para eu a ela voltar é a Peppermint, formada em 1997-8. Vejam só que primeira formação de arromba: Bogô e Raphael Villardi (guitarras), Suely Chagas e Suzy Leuba-Salum (vocais), Mug (contrabaixo) e Vicente Scopacasa (bateria). Esta e outras formações da banda (que durou até 2004) :estão bem documentadas no CD e no DVD intitulados Peppermint Light Old Rock’n’Roll, produzidos por Suzy e lançados numa tiragem bem limitada. Newton Bardauil, guitarrista que também tocou no Peppermint, está comigo na banda The Vintages, que fez alguns shows em 2016 na casa paulistana Tonton Jazz.

E o Trio Sem Nome, formado por mim ao lado do guitarrista Marcos Mamuth e do baterista Carlinhos Machado, descobriu a existência de um grupo xará e mudou para Los Interesantes Hombres Sin Nombre. Fizemos belas apresentações na casa The Pub, na Rua Augusta, e no Julinho Clube, e já começamos a gravar demos e o primeiro disco.

SARAU, SARAU, É MELHOR E NÃO FAZ MAL

Sempre digo que a era dos festivais de TV podem já ser História, apenas uma noite lá em 1967, mas agora estamos em plena era dos saraus, excelentes eventos para se divulgar nova música, poesia e literatura de forma informal (forma informal? Perdoem ou apreciem o contraste). Vamos em frente com os eventos do Clube Caiubi de Compositores e o já mencionado Sarau do Café do Circo (promovido pelo Centro de Memória do Circo, em Sampa), o Sarau da Maria (sim, na Vila Maria). e em 2016 passei a participar também de mais alguns de tão bons eventos, como o Sarau da Casa Amarela, mensalmente no bairro de São Miguel Paulista (do qual falarei mais daqui a pouco), e o Sarau Manuel Andrade, no Largo de Santa Cecília. Poetas, seresteiros, namorados, seresteiras e namoradas, correi, há outras Luas no Céu...

PRA SER POETA NEM FALTAVAM AS PENAS

Pois é, levei 14 anos para descobrir que eu era míope e mais de 50 para assumir que via tudo com olhos de poeta – e isto todo mundo que me conhece já sabia. E foi em 2016 que me lancei oficialmente como poeta publicado, graças a Deus e à Editora Matarazzo; tenho participado de quase todos os livros da série Poemas Contemporâneos da casa, desde o primeiro volume, lançado em março. A Matarazzo publica também livros de prosa e memorialismo, e tenho participado de muitos – tantos quanto o tempo e conhecimento de cada assunto me permitem – de seus lançamentos, como Vamos Falar Da Mooca?, Vamos Falar do Centro De São Paulo? e até Vamos Falar de Portugal?, país que ainda não conheço mas de que tenho descendência – sou resultado do encontro do italianíssimo clã Mugnaini com os Moreira, Teixeira e Leme (além do grego Tricta) – e que, piadas à parte, sempre admirei, nas pessoas e obras de pessoas como Camões, Pessoa, Amália e Ruy Veloso.

A Editora Matarazzo está aberta a pessoas poetas e escritoras em geral, e em 2016 tive a honra e prazer de apresentar à editora e indiretamente tirar do ineditismo em livro nada menos de cinco pessoas amigas:  Irene de Oliveira, João César Gagliardi (também compositor e cantor e de quem sou diretor musical), Lia Helena Gianecchini, Rosa Rocha (sim, cantora e compositora com que  me honro em trabalhar) e Sílvia Palaia (que, também honrosamente, eu já havia transformado em letrista ao musicar alguns de seus poemas).

E,no segundo semestre tive outra editora que lançou poemas meus em livro: a Futurama, na coletânea Emoções Poéticas 3. E a Futurama está para lançar edições atualizadas de meus livros da cultuada (e não só por mim) série Biblioteca Musical, começando pelos do Queen e de Raul Seixas; aguardem! Inclusive, este livro da Futurama teve evento de lançamento na Bienal do Livro de 2016, e estive lá. E a Editora Matarazzo fez um sarau na Casa das Rosas, em conjunto com o lançamento do belo livro Da Modinha Ao Sertão - Vida E Obra De Catulo Da Paixão Cearense, de Luiz Américo Lisboa Junior.

GO EAST, YOUNG AND OLD MEN AND WOMEN!

O transporte público paulistano já foi bem mais deficiente, tanto que qualquer local além da Paulista ou da Sé era periferia ou mesmo tão distante quanto o Acre ou a Lua. De modo que quando falo em São Miguel Paulista muita gente até pensa ser outra cidade. Mas este histórico bairro da Zona Leste está bem próximo, graças a boas linhas de ônibus e trem. Já há alguns anos tenho ido para lá como tradutor e intérprete de casamentos civis no cartório local, e agora m 2016 comecei a ir também como artista, participando do velho e bom Sarau da Casa Amarela, todo segundo domingo de cada mês, e ocasionalmente tocando no barzinho Encontros, quase todas as noites de quinta-feira.

DIR-TE-EI COM QUEM ANDO E DIGAS-ME QUE FELIZARDO SOU

Como sempre digo, arte é soma – uma versão mais pacifista da igualmente certa frase raulseixista “nunca se vence uma guerra lutando sozinho”. Pessoas com quem no ano de 2016 iniciei parcerias artísticas, ou com quem simplesmente toquei, incluem o gaitista e compositor Adriano Adiala, a cantora e jornalista Anete Santa Lúcia, a Banda Generosa (que me acolheu como seu contrabaixista), a grande cantora Claudya (com quem comecei a compor em parceria), a multiinstrumentista Cristina Costa, o compositor e cantor João Cesar Gagliardi, o poeta João Coradi Neto (de que,m me tornei parceiro ao musicar um de seus poemas em pleno sarau de lançamento do Poemas Contemporâneos), o percussionista Marcelo Luciano, o cantor Netinho (novo dono do bar Encontros em São Miguel Paulista), o casal Paulo Pires & Claudia Martins, a cantora Vania Maria Cavallini, neta do compositor Alberto Marino (no sarau da Editora Matarazzo na Casa das Rosas tive a honra de acompanhá-la ao violão na mais famosa obra do avô, a valsa "Rapaziada Do Brás") e três cantoras e compositoras de gêneros diferentes: Monica Cardoso (rock and roll), a já mencionada Rosa Rocha (samba e MPB em geral) e Sheila Cruz do Vale (MPB e blues – se o sobrenome parece familiar, há um bom motivo motivo: ela é irmã do guitarrista Palhinha Cruz do Vale, surgido nos anos 1980 e que mereceria ser mais famoso, e com quem inclusive tiquei em alguns shows no Julinho Clube).

Alguns locais que descobri em 2016 (além do citado The Pub, no número 580 da Rua Augusta) também merecem menção; O Gioia Caffé (Rua Frei Caneca, 1071. na Bela Vista) revelou-se muito bom para acolher os saraus da Editora Matarazzo. Toquei com Marcelo Luciano e o supracitado (gostaram? Coisa de tradutor juramentado) casal Paulo & Claudia em duas boas casas da Mooca, o aprazível barzinho Sprockets (Rua Padre Raposo, 969) e o belo restaurante C.C. Rider (Rua Jumana, 198). Vi alguns belos shows da cantora Claudya na Casa Ceci (Alameda Ceci, 1283, Moema - ou, se preferirem, Planalto Paulista) – com direito ao privilégio de dar uma canja após um deles. Mais informal e igualmente acolhedor é o Encontro Bar (Avenida Pires do Rio, 175A, em São Miguel Paulista), onde fiz algumas apresentações acompanhando Rosa Rocha e sozinho. (Sim, todos estes locais são “número 1” na qualidade, e isso até se reflete no começo dos endereços de alguns.)

MUGS FAZEM ACONTECER

Minha retrospectiva de 2017 falará de meu novo disco, que comecei a gravar em 2016 e pretendo lançar no meio do ano como parte das comemorações de meus anos 60 – sim, completo seis décadas de atividades neste ano. (E em 2017 o Clube Caiubi de Compositores, de cuja diretoria sou integrante, completa 15 anos de atividades, também a serem devidamente comemorados.)

E uma das melhores coisas dos shows do Língua no SESC-Pompeia foi a presença de meu filho Ivo na plateia em um deles; retribuí prestigiando-o em sua formatura do ensino fundamental no fim do ano.


Thursday, January 05, 2017

NOT-SO-SWEET SIXTEEN: OBITUÁRIO MUSICAL DE 2016

Aqui está a relação mais completa que consegui fazer das perdas musicais no ano de 2016 no Brasil e no mundo. Sim, foram muitas - se bem que quase todas as pessoas citadas já eram idosas e faleceram de causas naturais, além de termos cada vez mais gente produzindo música a cada ano.

A falta de tempo motivou outra falta, a de muitos detalhes sobre cada falecimento, mas seguem breves lembretes onde necessário & possível.

BRASIL

Samba

Adelzonilton (autor do megahit “Malandragem, Dá Um Tempo”)
Waldir da Fonseca

Música caipira & sertaneja

Chico Rey (da dupla com Paraná)

MPB em geral

André Melo
Augusto Demutti (flautista)
Azael Rodrigues
Carmen Silva
Cauby Peixoto
Erasto Vasconcellos (tocou num festival de Garanhuns e faleceu sem receber o cachê)
Johnny Barreto (contrabaixista)
Naná Vasconcelos
Papete
Ruy Weber (violonista)
Serena Assumpção
Silvia Altieri
Ferreira Gullar (teve poemas musicados)
Geraldo Nunes
Ventura Ramirez
Waleska
Wilma Bentivegna

Rock em geral

Daminhão Experiença
Dave Gordon
DJ Ricardinho
Jorge Eduardo (Brazilian Bitles)
Jorge Viage
Luiz De Boni (O Terço)
Lidoka (Frenéticas)
Márcio Espindola Brandão
Marcus Rampazzo
Nilson Zago (New Zago)
Orival Pessini ("Fofão")
Peninha (Barão Vermelho)
Roberto Corrêa
Roberto Lly
Thomas Bielefeld (Azul 29)
Vander Lee
Vinicius Dorin
Wagner Giudice (Abutres)

Jazz & blues

João Palma (baterista, tocou com artistas como Sérgio Mendes e Frank Sinatra)

Música Erudita

Gilberto Mendes

Bastidores (produção, empresariado  divulgação, jornalismo. comunicações e pesquisa)

Dum de Lucca (jornalsita)
Fernando Faro (produtor do programa Ensaio da TV Cultura)
José Roberto Póvia (assessor de  imprensa)
Marcos Vinicio Joazeiro (programa de blues na Antena Zero)
Mauro Dias (jornalista)
Paulo Iabutti (dono do selo Evocação, dedicado a reedições dos anos1930  1940)
Roberto Kirsinger (dono do lendário sebo Grilo Falant)
Rogério Duarte (artista gráfico)
Vespasiano Ayala (produtor e factotum, "o legítimo paraguaio")

EXTERIOR 

Jazz & Blues

Alphonse Mouzon
Gato Barbieri
Mose Allison
Radim Hladik (guitarrista tcheco de jazz)
Toots Thielemans
Wayne Jackson (trompetista)

Soul e R&B

Bernie Worrell (Parliament/Funkadelic)
Billy Paul
Buckwheat Zydeco
Chips Moman
Leon Haywood
Lewie Steinberg (Booker T and the MGs)
Lonnie Mack
Maurice White
Mic Gillette (Tower Of Power)
Prince
Prince Buster
Sir Mark Rice

Rock em geral

Alan Vega (banda Suicide)
Bobby Vee
Brian Rading (Five Man Electrical Band)
Christina Grimmie
Dale Griffin (Mott The Hoople)
Dan Hicks
Dave Swarbrick (Fairport Convention)
David Bowie
David Mancuso
Dennis Davis (baterista que tocou com Bowie e outros)
Eddie Harsch (Black Crowes)
Gary Loizzo (The American Breed)
Gary Paxton (do megahit “Monster Mash”)
Gary Watson (The Lapelles)
Greg Lake
George Michael
Gilly Smyth (Gong)
Glenn Frey (Eagles)
Henry McCullough
Jerry Corbetta (Sugarloaf)
Jimmy Bain (Dio e Rainbow)
Keith Emerson
Leon Russell
Leonard Cohen
Leonard Haze (Y&T)
Mike “Taffy” Taylor (Quartz)
Nick Menza (Megadeth)
Pat Upton (The Spiral Staircase)
Paul Kantner
Pete Burns (Dead Or Alive)
Preston Hubbard (Fabulous Thunderbirds)
Rick Parfitt
Rob Wasserman (contrabaixista)
Kevin Lawrence (Rapidfire, banda pré-Guns de Axl Rose)
Steve Pearlman
Stige Anderson
Scotty Moore

Pop não-rock

Debbie Reynolds
Frank Sinatra Jr.
Gloria DeHaven (atriz e cantora de musicais da Metro)
Julius La Rosa

Folk & Country

Merle Haggard

Música erudita

Isao Tomita
Pierre Boulez

Bastidores (produção, empresariado  divulgação, jornalismo. comunicações e pesquisa)

Allan Rous (engenheiro de som)
Allan Williams (prikmiro empresário dos Beatles)
Bill Ham (empresário da ZZTop)
Bob Coburn (DJ)
Chris Stone (estúdio Record Plant)
George Martin
Bill Ham (empresário, ZZ Top)
Bob Keasnow
Giorgio Gomelsky
Jerry Heller (produtor de shows)
Lewis Merestein (produtor)
Phil Chess
Robert Balser (produtor de desenhos animados como Yellow Submarine dos Beatles e os do Jackson Five)
Tony Barrow
Robert Stigwood
Sandy Pearlman (produtor)

Tuesday, December 27, 2016

QUO-MO É QUE È O NEGÓCIO? PEQUENO TRIBUTO AO STATUS QUO

Este tópico é dedicado a quatro pessoas. Uma é Johnny Hansen, da banda Harry e aficionado da fase psicodélico do Status Quo. A segunda é Peter McCray, grande fã australiano do grupo. A terceira é Roberto Rached, colega de música de quando tentei cursar Engenharia lá em Lins. E a quarta só encontrei uma única vez, no saudoso sebo Júpiter quando ficava na Rua Sete de Abril, e nem sei seu nome: ele gostava tanto do primeiro LP do Quo que usava uma camiseta do grupo desenhada à mão por ele mesmo com uma versão estilizada da  capa do disco; sim, um fã participante.

Com a morte do guitarrista Rick Parfitt em dezembro de 2016 (capítulo final de um histórico de abuso de álcool e tabaco), torna-se ainda mais difícil encontrar uma banda de rock importante dos anos 1950 a 1970 que não tenha perdido ao menos um integrante original. E me lembrei de um artigo sobre o Status Quo que escrevi para a saudosa revista Metal Massacre,  editada pelo grande René Ferri, nos idos de 2000. O artigo está no fim deste tópico, sem atualização mas revisado para corrigir alguns errinhos. E aqui está um tributo ao Status Quo na forma de alguns covers obscuros de canções compostas ou regravadas pelo grupo.

QUO-CIENTE DE BRASILIDADE

Lembro-me dê três covers de canções do Status Quo de quando morei em Sorocaba, todos da segunda metade dos anos 1970. Um é “Rollin’ Home”, por uma banda cujo nome esqueço, e que se apresentou em pelo menos uma das lendárias noites de domingo na (hoje extinta!) Concha Acústica no Largo de São Bento, Outro é “Drifting Away” com  Vilmar (mais tarde dono do sebo Transasom) acompanhado por Nei Carvalho (que ainda tem isso em fita cassete). E o terceiro é “Daughter” com uma de minhas primeiras bandas, Trânsito Maluco de Marte (gravação válida apenas como curiosidade e não uma das melhores do grupo). Mas eu trouxe para cá dois covers brasileiros de sucessos do Quo; um é “Retrato De Um Homem Sozinho”, versão de Antonio Marcos (o grande nome do lado depressivo da jovem guarda) para “Pictures Of Matchstick Men” lançada em 1968 num compacto do selo Beverly pela banda Os Cardeais. 

A outra é “Rockin’ All Over The World”, o hit de John Fogerty conforme redefinido pelo Quo, no LP Excesso De Sucesso (Urbis, 1978) sem crédito de intérprete mas produzido pelo grande Dick Danello com fonogramas de sua produtora Central Park.


Outra das regravações de sucessos do Status Quo que eu trago para cá talvez seja também brasileira: “Rain”, do LP USA Click Volume 4 (AMC/Copacabana, 1976), produzido por Mister Sam, o Carlos Imperial brasílico-portenho (ainda usando seu verdadeiro nome, Santiago Malnatti). Consta que esta gravação é de The Rockin’ Boys e foi licenciada por “IHP, França”.
 

POR VÁRIOS QUONTINENTES

Lembremos outros Quo-vers legitimamente estrangeiros. Um é do grupo peruano Los Yorks: “When My Mind Is Not Alive”, numa gravação muito interessante em espanhol, “Mi Mente En Ti”. Temos aqui outra versão do Quo em castelhano, “Twenty Wild Horses”, transformada em “Toda La Noche” pela banda mexicana Barrio Pobre. E que tal uma rara oportunidade de ouvir o Quo numa voz feminina, e das afinadas? É o caso da dupla vocal norueguesa Dolli De Luxe, cujo álbum Rock Contre Opéra, de 1985. feito de medleys de temas populares e eruditos (sim, foi deste álbum que Edson Cordeiro tirou a ideia de seu medley da ária “A Rainha Da Noite” Mozart e “Satisfaction” dos Rolling Stones); no caso, juntou-se “Whatever You Want” à ária “Vilia” da opereta A Viúva Alegre de Franz Lehar.

 SER QUOVER NÃO INQUOMODA

Não pouca gente se contenta em ter canções de que gosta em regravações, sejam em novos arranjos por artistas estabelecidos ou em “covers” os mais fieis possíveis aos originais. Álbuns de regravações por artistas “fantasmas”, não creditados, tornaram-se verdadeira instituição nos EUA e Inglaterra. Aqui vão quatro de tais regravações:

“Ice In the Sun” – LP England’s Top 12 (Studio 33, 1968)


“In My Chair” – LP Top Of The Pops Vol. 14 (Hallmark, 1970)


“Paper Plane” – LP 12 Tops Volume 8 (com o crédito “A Damil USA Production”;  Stereo Gold Award, 1973)


“Rock And Roll” – LP Solid Gold – 20 Non-Stop Chart Hits Volume 2 (creditado a Sound Sensation; Solid Gold, 1983)


 Curiosidade: esta regravação de “Ice in the Sun” está em estéreo, enquanto a gravação original do Quo foi lançada penas em mono e em falso estéreo, inclusive na belíssima reedição em CD duplo do primeiro LP da banda (Castle, 2003).

OS QUOMPOSITORES

Todo mundo sabe que a discografia do Status Quo tem uma primeira fase pop. Pois bem, na transição para a fase hard-boogie a banda chegou a ser popíssima, inclusive fazendo shows com a cantora Vera Lynn (como lembrei no texto sobre a banda) e, vejam só, compondo canções como o simpático brega “How Does It Feel”, não lançado pelo Status Quo e sim pelo cantor Engelbert Humperdinck, havendo ainda uma versão em português (“Podem Falar”) gravada por nosso Jerry Adriani – e que podemos ouvir aqui não na versão normal (do LP Jerry Adriani, CBS, 1972) ma num dos LPs promocionais da gravadora (CBS (uma imitação da série Música E Alegria Kolynos da Odeon) com artistas atuando como apresentadores.




QUO, QUO, QUO: HOMENAGENS E BOM HUMOR

Para terminar esta introdução a meu artigo sobre o Status Quo, aqui vão três homenagens musicais à banda. Uma é francesa: “The Quo’s In Town Tonite” do francês Jean-Jacques Goldman (ex-integrante da banda de pop-prog Tai Phong), lançada em 2001. Os outros dois tributos são mais bem-humorados. Um é meu quase-sucesso “Fã Do Status Quo”, que lancei em 2004. O outro é “Boring Song”, de 1981. do grupo inglês HeeBeeGeeBees, formado por integrantes das trupes de humor Radio Active e Spitting Image. O próprio Status Quo não só levou a brincadeira na esportiva: gostou tanto que citou os Heebeegeebees em sua “My Old Ways”, de 2011. Sim, o “sense of humour” inglês chegou aí, parou e saiu tocando hard-boogie...

Quase todas as gravações acima podem ser ouvidas aqui. E meu já famoso artigo sobre o Status Quo segue abaixo – “down, down, deeper down...”

STATUS QUO

por Ayrton Mugnaini Jr.

Muito bem, prezados e prezadas ouvintes, está entrando no ar mais um artigo da série “artistas em que todo mundo metia o pau mas dos quais eu, que não sou ‘todo mundo’, gostava na época e continuo gostando”. O grupo inglês Status Quo nunca foi exatamente queridinho da crítica, para quem todos seus discos se resumem a “sempre os mesmos quatro acordes e quatro andamentos”, “vocal sempre igual, o Ray Conniff do heavy”, "heavy-metal leve para sala de espera", e “Canned Heat dos pobres”) – inclusive eu mesmo, enquanto músico em estado crítico, os incluí na Minilista dos Cinco Artistas Mais Repetitivos, no número anterior da MM. Mas isso não quer dizer que eu não goste do Status Quo; eu mesmo, desta vez enquanto musicômano, sempre afirmei: o Quo pode ser sempre igual, e é por isso mesmo que eu gosto sempre. Afinal, em qualquer música dançante – seja rock, foxtrote, samba de roda, mambo, reggae – o que importa é a repetição sem tédio, e qualquer gênero ou estilo musical soa “sempre igual” para quem não é fã; toda disco-music é tum-tum-tum, toda acid-house é tum-tiqui-tum-tiqui-tum (ou “putz-putz-putz”), todo rap é só fafafafafafafalação em cima de um ritmo bababababababate-estaca, todo chorinho (ou, mais apropriadamente, choro) é tim-tim-tim, breganejo se resume a “te a-a-a-amo, volta pra mi-i-inha cama-a-a-a-a”, rockabilly é uma eterna sucessão dos mesmos solos e acordes...

Por sinal, o Status Quo, salvo engano, é o único grupo de hard rock a admitir ser repetitivo com muito orgulho já no próprio nome – para quem não é do tempo em que se lecionava latim no primeiro ou segundo grau, “status quo” significa “estado ou situação onde estava”, ou seja, “do mesmo jeito que antes” – por extensão, “situação ou lugar onde nada muda”, inclusive sinônimo de “establishment”. Interessante é que o Quo, aparentemente mantendo estilo musical sempre imutável, na verdade teve mais de uma fase, embora permanecendo em cada uma o maior tempo possível! Sim, é como dizem os velhos provérbios: tudo precisa mudar para tudo ficar sempre na mesma, e, quando mais muda, mais fica igual...

(E quem melhor respondeu à crítica foi o baterista do Quo durante os primeiros vinte anos, John Coghlam: “Não ligo para o que escreverem sobre nós, contanto que escrevam os nomes direito.” Falei dos primeiros vinte anos? Pois é, o tempo passa mesmo, o Quo completa mais vinte anos de atividades em 2002!)

QUASE, MAS NÃO TODO LÁ

Tudo começa em 1962, em Beckenham, Kent, na velha e boa Inglaterra, quando Alan Lancaster (nascido em 1949), que toca trombone na banda da escola, faz amizade com Alan Key, trompetista. Não demora para os dois ficarem amigos e resolverem formar uma banda de rock, e logo Lancaster abandona o trombone por um instrumento de timbre ainda mais grave e barulhento – contrabaixo elétrico; Alan Key assume a guitarra-base, e para tocar guitarra-solo chama um amigo, Francis Rossi (da mesma safra de 1949), que, por algum motivo, prefere ser chamado de Mike.. (O grande sonho de Francis era montar uma dupla no estilo dos Everly Brothers, e numa época de Natal ele combinou com o irmão que ambos pediriam aos pais um violão para cada um – “mas”, lembra Francis, “na última hora o cagão pediu um trem elétrico!” Como vingança é prato que se serve frio, Francis, quando já famoso no Status Quo, fez questão de regravar “The Price Of Love” dos Everlys.)

O trio ainda consegue convencer um colega de escola, Jess Jaworski, não só a entrar para o grupo, mas ainda trocar sua nova guitarra por um órgão elétrico. Sim, falta um baterista; após vários ensaios e showzinhos em ginásios esportivos, associações operárias e bares com outros tantos candidatos, finalmente conseguem um fixo, John Coghlam (nascido em 1946). E também se decidem por um nome: The Spectres. Dois anos depois, é a vez de chamarem a atenção do primeiro empresário, o frentista Pat Barlow. Então as coisas começam a acontecer. Jaworski sai do grupo, substituído por Roy Lynes (nascido em 1943), e Alan Key dá lugar a Richard Parfitt (1948/2016), que, ao contrário de Mike Rossi, mudou de sobrenome, preferindo atender por Rick Harrison (mas logo assumiu seu verdadeiro sobrenome), e que vinha da banda que acompanhava as Highlights, duas gêmeas cantoras (tá bom, aí vão os nomes delas, Gloria e Jean Harrison) que cantavam sucessos do momento em bares e clubes.

Enquanto os Spectres acertam sua formação, Barlow consegue-lhes um contrato com a Piccadilly, selo da Pye, uma das maiores gravadoras inglesas do momento (por onde gravam os Kinks, os Searchers, Donovan, Sandie Shaw e outros campeões das paradas de sucesso). Falando em Donovan, os primeiros compactos dos Spectres incluem uma “Hurdy Gurdy Man” que é composição própria e não aquele grande sucesso do Dylan escocês, lançado no ano seguinte, 1967.

Por sinal, chega 1967 e os Spectres já gravaram três discos que não aconteceram. Ainda bem que nesta época as gravadoras costumam ser bem mais pacientes com elenco novo e talentoso. Após algumas reuniões, decide-se que o culpado é o nome do grupo; urge arrumar um nome melhor, menos “careta” e “fora de moda”; afinal o psicodelismo está comendo solto. Que tal Traffic Jam (“engarrafamento de trânsito”)? Legal! Mas, depois de alguns shows e um compacto, “Almost But Not Quite There” (que não faz sucesso, mas é censurado pela emissora de rádio BBC só por causa do título, “viajandão” demais), aparece alguém que não gosta: o multiinstrumentista Steve Winwood, ora despontando nas paradas com seu novo grupo, chamado Traffic. Tudo bem, não é preciso brigar nem processar ninguém, muda-se novamente o nome do grupo (por sinal, décadas depois o Quo lançou um CD intitulado Heavy Traffic). As primeiras sugestões – The Muhammad Alis, The Queers – não parecem muito melhores. E cabe a Pat Barlow salvar a pátria, sugerindo The Status Quo. (Sem dúvida, deve ter sido esta a inspiração para tantos grupos paulistanos da virada dos anos 1960 para 1970 terem escolhido nomes em latim como Vox Deorum, Sic Sunt Res e SPQR (sigla que originalmente significa Senatus Populusque Romanus, “O Senado e o Povo Romano”, mas desta vez queria dizer “São Paulo Quer Rock”!). Para completar os votos de sorte, o grupo foi transferido da subsidiária Piccadilly para a matriz, Pye. Deu certo: o disco seguinte, “Pictures Of Matchstick Men”, voa para o sétimo lugar nas paradas e se torna grande hino do psicodelismo light, ao lado de “California Dreamin’”, “Let’s Go To San Francisco” e “Mellow Yellow”.

O primeiro LP do Status Quo, Picturesque Matchstickable Messages From The Status Quo, sai em 1968 e segue a típica receita de artista que hoje é quente, mas vai saber se esfria amanhã, incluindo o sucesso (“Pictures Of Matchstick Men”), o lado-B (a vaudevillanesca “Gentleman Joe’s Sidewalk Café”), o compacto seguinte, igual-ao-sucesso-porém-diferente (“Black Veils Of Melancholy”), o sucesso seguinte (“Ice In The Sun”, composição bem modernosa do rockabileiro Marty Wilde) e material tapa-buraco de diversos tipos (incluindo regravações interessantes de “Spicks And Specks” dos Bee Gees, “Sheila” de Tommy Roe e até “Green Tambourine” do grupo bubblegum Lemon Pipers – estas duas últimas ausentes da edição estadunidnse do LP). De fato, neste disco o Quo soa como o tipo do grupo competente porém paraquedista, o-que-for-moda-nóis-toca: psicodelismo, rock pesado, bubblegum, balada sentimental com violinos e tudo... Mas, como sói acontecer, tanta apelação foi castigada: o Quo só voltou as paradas em meados de 1969, e ainda assim para um modesto quadragésimo-sexto lugar, com a bregona “Are You Growing Tired Of My Love”. (Aviso às pessoas diabéticas: muita cautela ao se aproximar do segundo LP do Quo, Spare Parts.) Desta vez a salvação vem do próprio grupo, ou melhor, de seus ensaios.

É ROCK AND ROLL, E ROCK, E ROCK AND ROLL...

O Quo, como aliás desde quando atendia por Spectres/Traffic Jam, vem compensando as fases de insucesso discográfico fazendo muitos e muitos shows, inclusive como banda acompanhante de artistas os mais diversos, como Madeleine Bell (grande cantora de soul-pop) e Vera Lynn (cantora da velha guarda inglesa; para tentar entender, imagine Emilinha Borba acompanhada pelos Pholhas). E, como todo grupo pop que se preza, o Quo vem caprichando nas roupas, sempre bufantes e multicoloridas. Mas, na hora de ensaiar, eles usam camiseta e calça jeans mesmo, que é a roupa de que mais gostam, e para esquentar, antes das bregas e pops, mandam brasa no blues, boogie, heavy metal e rock and roll, desde sempre seu tipo de música preferido. Um dia, no fim de 1969, eles se enchem das roupas cheias de fricotes, penteados caprichados e repertório bregão e... surpresa: na hora de um show, sobem ao palco de jeans, cabelo solto e tocando blues, boogie, heavy metal e rock and roll. Sim! Acaba de nascer – ou melhor, se revelar – o verdadeiro Status Quo, um dos mais bem-sucedidos grupos de hard e heavy.. E, ao começar o segundo semestre de 1970, o Quo se despede de vez dos anos 1960 e de seu passado pop com o compacto “Down The Dustpipe” e o LP Ma Kelly’s Greasy Spoon, que inclui clássicos do Quo como “Junior’s Wailing” e “Shy Fly” (e, acredite se quiser, saiu no Brasil, com capa diferente e intitulado simplesmente Greasy Spoon).

Ma Kelly’s Greasy Spoon foi o primeiro disco do Quo sem o tecladista Roy Lynes, que saiu quando o grupo estava em viagem à Escócia, segundo Francis Rossi: “Ele simplesmente desceu do trem e foi a última vez que o vimos.” Se Lynes foi abduzido, não demorou muito para voltar à Terra, mais exatamente à Austrália, onde vive bem, lançando discos solo, mantendo dois grupos, The Quotations (que, apesar do nome, não toca nada do repertório do Quo) e Quo Vadis (este toca) e preparando um livro sobre o Quo. Para compensar a saída do tecladista, o grupo estreou um integrante não oficial, Bob Young, que, além de roadie, toca gaita e compõe boa parte do repertório do grupo em parceria com Francis Rossi: “In My Chair”, “Caroline”, “Paper Plane”...

Em 1971 o Quo passou por mais uma mudança, ou melhor, de uma eternidade a outra: vencido o contrato com a Pye, assina com um selo novo que até parece criado sob medida para o grupo, Vertigo, subsidiária progressiva (leia-se avessa ao pop-rock)  da PolyGram, por onde já gravam Black Sabbath, Aphrodite’s Child, Jade Warrior e outros, e com melhor distribuição em nível internacional. E 1973 começa com o disco Piledriver, de onde saem sucessos como “Paper Plane”, “Big Fat Mama” e uma dos Doors, “Roadhouse Blues”, blues boogie que realmente parecia música do próprio Quo.

Daí em diante é aquela velha história: a crítica malhando, dizendo que os discos são todos iguais e pouco criativos (sem falar na equipe britânica de humor HeeBeeGeeBees, que lança um disco de paródias de artistas pop; o título da faixa dedicada ao Quo diz tudo, “Boring Song”), mas o público se torna cada vez mais numeroso, e os discos vendem como cerveja: Hello (1973, com “Caroline”), Quo (de 1974, aquele que no Brasil saiu sem título, pois este saiu meio escondido na capa, nas raízes de uma árvore de onde saem as cabeças dos membros do grupo), On The Level (1975, com um dos maiores hits do grupo, “Down Down”), Blue For You (1976, cujo hit foi “Rain”), Live (duplo ao vivo, 1977), Rockin’ All Over The World (1977, onde se destacou a faixa-título, regravação da carreira-solo de John Fogerty), If You Can’t Stand The Heat (1978, com “Again And Again”), Whatever You Want (1979, com dois hits, a faixa-título e a balada “Living On An Island”), Just Supposin’ (1980, com “What You’re Proposin’”), Never Too Late (1981, com “Something ‘Bout You Baby I Like” do guitarrista Ricjhard Supa), 1+9+8+2 (1982, título genial para comemorar os 20 anos de carreira do Quo, basta efetuar a soma), Back To Back (1983, com “Margherita Time”, balada bem pop e alegre que até lembra o grupo no fim dos anos 1960), In The Army Now (1986), Ain’t Complaining (1988), Perfect Remedy (1989), Live Alive Quo (1992), Thirsty Work (1994), Don’t Stop (1996, cujo sucesso foi aquela mesma do Fleetwood Mac, que, isso mesmo, parece feita de encomenda para o Quo), Rock Til You Drop (1997), Famous In The Last Century (2000, só de clássicos do rock and roll; a edição australiana inclui faixas ao vivo nesse país no ano anterior  – se inclui canja de Roy Lynes é que não sei – ,  incluindo nova versão de “Pictures Of Matchstick Men”). Em meados dos anos 1990 o Quo havia amealhado nada menos de cinqüenta sucessos nas paradas britânicas.

DE NOVO E DE NOVO E DE NOVO

Tudo bem que o Status Quo seja imutável por natureza, só que desde meados dos anos 1980 a maioria ds novidades mais interessantes talvez tenham tido pouco a ver com as gravações do grupo. Em 1982 John Coghlam resolve sair, e seu substituto é Pete Kircher (nascido em 1948), que nos anos 1960 integrara a grande banda Honeybus e mais tarde foi um dos Original Mirrors. Dois anos mais tarde chega a vez de Alan Lancaster cair fora (sua saideira do Quo é participar do megashow Live Aid, e o novo contrabaixista é John Edwards), e ele ainda entra na justiça tentando impedi-los de continuar usando o nome Status Quo, mas perde bonito. (Em 1996 Lancaster usou parte do nome de seu antigo grupo no título de seu primeiro disco-solo, Life After Quo.) E Kircher mal esquenta o banquinho, saindo em 1985; em seu lugar entra Jeff Rich, ex-Climax Blues Band. Com tudo isso, os guitarristas Rossi e Parfitt arrumam tempo para participar do disco beneficente “Do They Know It’s Christmas?”.


Em 1992 o Quo comemora 25 anos de idade mostrando que só fica no mesmo lugar musicalmente, ao tocar em quatro locais (a arena de Wembley e auditórios em Birmingham, Glasgow e Sheffield) num único dia. Em 1994 o Quo chegou ao primeiro lugar na Inglaterra com “Come On You Reds”, homenagem ao time de futebol Manchester United. Com tanto pique, é lamentável que o Quo seja vítima do que chamo de “idadismo” por parte da emissora BBC, que em 1996 se recusa a tocar o novo compacto do grupo, “Fun, Fun, Fun” (a mesma dos Beach Boys, com canja dos próprios) só porque o Quo é “velho demais”... Velha demais é a BBC, oras!

Sunday, December 18, 2016

UM "MEXE" RICO: A SAGA DE "MEXA-SE" DE SÁ & GUARABYRA



Quem me conhece sabe que entendo o cansaço mas mal tolero a preguiça. E me lembrei de um conselho dos melhores e mais sucintos: “Mexa-Se”, que ficou ainda melhor em forma de canção (e num bom ¾), graças à dupla Sá & Guarabyra (auxiliados pela saudosa cantora Marisa Fossa). Já falei desta gravação aqui em meu blogue, e merece repetir em outro contexto.

Em 1975 a dupla Sá & Guarabyra estava recém-consagrada após a separação de Zé Rodrix, e havia também se revelado boa em publicidade & propaganda. “Só Tem Amor Quem Tem Amor Pra Dar”, lançada em 1973 (num compacto creditado a Guarabyra solo), é nossa “I’d Like To Teach The World To Sing”, canção de grande sucesso que nasceu como jingle de refrigerante-desentupidor-de-pia. E em 1975 Sá & Guarabyra repetiram a dose (no bom sentido) com outro jingle, “Mexa-Se”, para a campanha homônima da Rede Globo de Televisão.

Nada nem ninguém é totalmente bom ou ruim. A Globo tem sido acusada de bitoladora, absolutista, lacaia do governo “mais oficial que a Voz do Brasil”, alienante e outras coisas mais, Mas é também produtora de bons programas (quando são bons - inclusive Guarabyra fez parte da equipe de alguns dos FICs), e é inegável que ajudou a revelar ou divulgar (em clipes no Fantástico, programas como Som Livre Exportação e seus festivais dos anos 1980 e por sua gravadora, a Som Livre) artistas como Mutantes sem Rita Lee e vice-versa, Djavan, Raul Seixas, Tuca, Jorge Mautner, Waltel Blanco e tantos outros. E foi a Rede Globo que lançou a campanha Mexa-Se, como parte da então nascente conscientização mundial de cuidado com o corpo. Já se falava em paz mundial, ecologia, caderneta de poupança, e agora era a vez de lembrar da origem de tudo isso: para ter mente sã é preciso corpo são. Começavam as campanhas contra drogas, a atenção para a relação entre câncer e tabagismo e práticas como o método de exercícios físicos do médico Kenneth Cooper e campanhas como Esporte para Todos, o Plano Nacional de Educação Física e Desportos do governo federal e esta “Mexa-Se”, a primeira a ter grande repercussão nacional (o poder da Globo serviu para uma coisa boa); a campanha publicitária do “Mexa-Se” na televisão ganhou até um Troféu Imprensa em 1976 – embora, como segunda grande curiosidade, eu não a tenha encontrado na internet. Qual é a primeira? É que “Mexa-Se” foi lançada em compacto ainda em 1975 mas sem o conhecimento de Sá & Guarabyra, segundo a dupla me disse quando a entrevistei para a FM 97 em janeiro de 1987 e atestaram na dedicatória de meu exemplar do disco! (Viram na foto acima?)

Não sei que mistério esconde a campanha de “Mexa-Se” da internet (embora haja outras mais recentes e igualmente bem-vindas campanhas usando o mesmo mote), mas entendo algo de como são as gravadoras brasileiras. “Mexa-Se” foi lançada em compacto trazendo no lado-B a bela “Xote Correntino”, de Cadernos De Viagem, segundo LP da dupla. Mereceria ter sido faixa bônus na primeira edição em CD deste disco, de 1994, mas no começo dos anos 1990 nossas gravadoras quase sempre ainda lançavam CDs raciocinando em termos de LPs. “Mexa-Se” foi promovida a CD na super-bagunça que é Super 3, caixa de três CDs lançada em 2008 com apenas 34 faixas desta nossa dupla S&G (melhor que a outra, em minha opinião), incluindo toas as faixas do LP Cadernos De Viagem espalhadas ao longo dos três CDs, como páginas largadas ao pó da estrada.

O lançamento de “Mexa-Se” em disco pode ter sido surpresa para a dupla, mas a canção esteve bem presente nas lojas de discos também com outros intérpretes – sem falar em diversas outras canções e até LPs inspiradas no mote ou pegando carona nele. “Mexa-Se” deixou o compasso ¾ pelo 2/4 do samba nas gravações da Big Banda Do Canecão (LP Big Banda Do Cancão No. 11, selo Polyfar, 1975) e do grupo de estúdio Os Bichos (LP Parada De Sambas – Pesquisa dos Sucessos, Vol. 1, RCA Camden, 1975). Note-se neste LP dos Bichos que “Mexa-Se”, além de ser a primeira faixa do lado 1, é a única canção deste disco a não ser agrupada em pot-pourri – e também foi lançada em compacto simples e faixa-título e de abertura de uma coletânea de diversos artistas (intitulada Mexa-Se - Ponha Mais Vida Em Sua Vida) da mesma gravadora.


Sim, a RCA “mexeu-se” – e não ficou “só” nisso, lançando também algumas das canções inspiradas no mote da campanha. Uma é a marchinha carnavalesca “(A Onda É Mexer (Mexa-Se)", do grande Archimedes Messina em parceria com Belmiro Barrela e Roberto Amaral, lançada por este último (em compacto duplo e no LP Carnaval, Amor E Fantasia) em 1976. No mesmo ano Juca Chaves lançou sua marcha-rancho “Mexa-Se”, em mais um belo exemplo de seu lirismo bem humorado e malicioso, usando o verbo “mexer” como Dorival Caymmi em seu samba “Vatapá”.




Outras gravadoras ofereceram ao carnaval de 1976 marchinhas intituladas “Mexa-Se”. Uma é do compositor Brasinha (Gustavo Thomás Filho, 1925/1998 , autor ou co-autor de clássicos momescos como “Zé Marmita”, “A Lua É Dos Namorados” e “Kung-Fu”), e foi lançada por Djalma Dias no LP Convocação Geral Carnaval 75 (Som Livre, 1975). A outra é assinada por Bené, J. Batista, Santo e Altair – mas, francamente, era mesmo necessária tanta gente para assinar uma marchinha que rima “tartaruga” com “pula” da forma mais tosca? O arranjo do saudoso Záccaro e a interpretação de José Augusto tornam audível esta marchinha lançada no LP Brazil Carnaval Export 76 (Polydisc, 1975)

Não, este José Augusto não é o famoso cantor brega carioca (nascido em 1953) de sucessos como "De Que Vale Ter Tudo Na Vida", "Eu Quero Apenas Carinho" e “Aguenta, Coração”, e sim um xará mais antigo de Sergipe (1936/1981). E a saga de “Mexa-Se” envolve ainda outro caso de artistas homônimos – só que à revelia. Explicarei.

Em 1975 a gravadora Padrão aproveitou a onda do “Mexa-Se” com um LP intitulado Mexa-Se: Rock And Roll E Outros Ritmos creditado a “The Pop’s” com participação de “Anne & Peter”. Sim, The Pop’s é um dos mais ilustres grupos cariocas de pop-rock dos anos 1960 e começo dos 1970. Sim, o selo Padrão era uma espécie de sucessor do Equipe, para onde gravavam The Pop’s. Só que o repertório deste LP não foi gravado por eles! Algumas faixas são do grupo inglês The Hobos, tiradas de seu LP Sounds Wild Like Slade – que até foi lançado aqui pela mesma Padrão na mesma época! – , e outras são creditadas a esta dupla “Anne & Peter”, para mim ainda misteriosa, Quem souber de algo a respeito, “mexa-se” e nos diga.

Sim, este "disco de The Pop’s sem The Pop's" é um caso similar ao "LP do Sunday sem o Sunday" que a RGE lançou no começo dos anos 1970 – o próprio Hélio Costa Manso me esclareceu que o disco não passa de uma coletânea de covers fantasmas estrangeiros. (Aconteceu algo assim com os Incríveis, que no fim dos anos 1970 tornaram-se pouco mais que apenas um nome usado pela RCA, mas felizmente a banda verdadeira redimiu-se em tempo numa reunião para um de seus melhores discos, em 1981.)

E para ouvir quase todas as gravações supracitadas, “mexa-se” com seu ratão para .