Thursday, January 05, 2017

NOT-SO-SWEET SIXTEEN: OBITUÁRIO MUSICAL DE 2016

Aqui está a relação mais completa que consegui fazer das perdas musicais no ano de 2016 no Brasil e no mundo. Sim, foram muitas - se bem que quase todas as pessoas citadas já eram idosas e faleceram de causas naturais, além de termos cada vez mais gente produzindo música a cada ano.

A falta de tempo motivou outra falta, a de muitos detalhes sobre cada falecimento, mas seguem breves lembretes onde necessário & possível.

BRASIL

Samba

Adelzonilton (autor do megahit “Malandragem, Dá Um Tempo”)
Waldir da Fonseca

Música caipira & sertaneja

Chico Rey (da dupla com Paraná)

MPB em geral

André Melo
Augusto Demutti (flautista)
Azael Rodrigues
Carmen Silva
Cauby Peixoto
Erasto Vasconcellos (tocou num festival de Garanhuns e faleceu sem receber o cachê)
Johnny Barreto (contrabaixista)
Naná Vasconcelos
Papete
Ruy Weber (violonista)
Serena Assumpção
Silvia Altieri
Ferreira Gullar (teve poemas musicados)
Geraldo Nunes
Ventura Ramirez
Waleska
Wilma Bentivegna

Rock em geral

Daminhão Experiença
Dave Gordon
DJ Ricardinho
Jorge Eduardo (Brazilian Bitles)
Jorge Viage
Luiz De Boni (O Terço)
Lidoka (Frenéticas)
Márcio Espindola Brandão
Marcus Rampazzo
Nilson Zago (New Zago)
Orival Pessini ("Fofão")
Peninha (Barão Vermelho)
Roberto Corrêa
Roberto Lly
Thomas Bielefeld (Azul 29)
Vander Lee
Vinicius Dorin
Wagner Giudice (Abutres)

Jazz & blues

João Palma (baterista, tocou com artistas como Sérgio Mendes e Frank Sinatra)

Música Erudita

Gilberto Mendes

Bastidores (produção, empresariado  divulgação, jornalismo. comunicações e pesquisa)

Dum de Lucca (jornalsita)
Fernando Faro (produtor do programa Ensaio da TV Cultura)
José Roberto Póvia (assessor de  imprensa)
Marcos Vinicio Joazeiro (programa de blues na Antena Zero)
Mauro Dias (jornalista)
Paulo Iabutti (dono do selo Evocação, dedicado a reedições dos anos1930  1940)
Roberto Kirsinger (dono do lendário sebo Grilo Falant)
Rogério Duarte (artista gráfico)
Vespasiano Ayala (produtor e factotum, "o legítimo paraguaio")

EXTERIOR 

Jazz & Blues

Alphonse Mouzon
Gato Barbieri
Mose Allison
Radim Hladik (guitarrista tcheco de jazz)
Toots Thielemans
Wayne Jackson (trompetista)

Soul e R&B

Bernie Worrell (Parliament/Funkadelic)
Billy Paul
Buckwheat Zydeco
Chips Moman
Leon Haywood
Lewie Steinberg (Booker T and the MGs)
Lonnie Mack
Maurice White
Mic Gillette (Tower Of Power)
Prince
Prince Buster
Sir Mark Rice

Rock em geral

Alan Vega (banda Suicide)
Bobby Vee
Brian Rading (Five Man Electrical Band)
Christina Grimmie
Dale Griffin (Mott The Hoople)
Dan Hicks
Dave Swarbrick (Fairport Convention)
David Bowie
David Mancuso
Dennis Davis (baterista que tocou com Bowie e outros)
Eddie Harsch (Black Crowes)
Gary Loizzo (The American Breed)
Gary Paxton (do megahit “Monster Mash”)
Gary Watson (The Lapelles)
Greg Lake
George Michael
Gilly Smyth (Gong)
Glenn Frey (Eagles)
Henry McCullough
Jerry Corbetta (Sugarloaf)
Jimmy Bain (Dio e Rainbow)
Keith Emerson
Leon Russell
Leonard Cohen
Leonard Haze (Y&T)
Mike “Taffy” Taylor (Quartz)
Nick Menza (Megadeth)
Pat Upton (The Spiral Staircase)
Paul Kantner
Pete Burns (Dead Or Alive)
Preston Hubbard (Fabulous Thunderbirds)
Rick Parfitt
Rob Wasserman (contrabaixista)
Kevin Lawrence (Rapidfire, banda pré-Guns de Axl Rose)
Steve Pearlman
Stige Anderson
Scotty Moore

Pop não-rock

Debbie Reynolds
Frank Sinatra Jr.
Gloria DeHaven (atriz e cantora de musicais da Metro)
Julius La Rosa

Folk & Country

Merle Haggard

Música erudita

Isao Tomita
Pierre Boulez

Bastidores (produção, empresariado  divulgação, jornalismo. comunicações e pesquisa)

Allan Rous (engenheiro de som)
Allan Williams (prikmiro empresário dos Beatles)
Bill Ham (empresário da ZZTop)
Bob Coburn (DJ)
Chris Stone (estúdio Record Plant)
George Martin
Bill Ham (empresário, ZZ Top)
Bob Keasnow
Giorgio Gomelsky
Jerry Heller (produtor de shows)
Lewis Merestein (produtor)
Phil Chess
Robert Balser (produtor de desenhos animados como Yellow Submarine dos Beatles e os do Jackson Five)
Tony Barrow
Robert Stigwood
Sandy Pearlman (produtor)

Tuesday, December 27, 2016

QUO-MO É QUE È O NEGÓCIO? PEQUENO TRIBUTO AO STATUS QUO

Este tópico é dedicado a quatro pessoas. Uma é Johnny Hansen, da banda Harry e aficionado da fase psicodélico do Status Quo. A segunda é Peter McCray, grande fã australiano do grupo. A terceira é Roberto Rached, colega de música de quando tentei cursar Engenharia lá em Lins. E a quarta só encontrei uma única vez, no saudoso sebo Júpiter quando ficava na Rua Sete de Abril, e nem sei seu nome: ele gostava tanto do primeiro LP do Quo que usava uma camiseta do grupo desenhada à mão por ele mesmo com uma versão estilizada da  capa do disco; sim, um fã participante.

Com a morte do guitarrista Rick Parfitt em dezembro de 2016 (capítulo final de um histórico de abuso de álcool e tabaco), torna-se ainda mais difícil encontrar uma banda de rock importante dos anos 1950 a 1970 que não tenha perdido ao menos um integrante original. E me lembrei de um artigo sobre o Status Quo que escrevi para a saudosa revista Metal Massacre,  editada pelo grande René Ferri, nos idos de 2000. O artigo está no fim deste tópico, sem atualização mas revisado para corrigir alguns errinhos. E aqui está um tributo ao Status Quo na forma de alguns covers obscuros de canções compostas ou regravadas pelo grupo.

QUO-CIENTE DE BRASILIDADE

Lembro-me dê três covers de canções do Status Quo de quando morei em Sorocaba, todos da segunda metade dos anos 1970. Um é “Rollin’ Home”, por uma banda cujo nome esqueço, e que se apresentou em pelo menos uma das lendárias noites de domingo na (hoje extinta!) Concha Acústica no Largo de São Bento, Outro é “Drifting Away” com  Vilmar (mais tarde dono do sebo Transasom) acompanhado por Nei Carvalho (que ainda tem isso em fita cassete). E o terceiro é “Daughter” com uma de minhas primeiras bandas, Trânsito Maluco de Marte (gravação válida apenas como curiosidade e não uma das melhores do grupo). Mas eu trouxe para cá dois covers brasileiros de sucessos do Quo; um é “Retrato De Um Homem Sozinho”, versão de Antonio Marcos (o grande nome do lado depressivo da jovem guarda) para “Pictures Of Matchstick Men” lançada em 1968 num compacto do selo Beverly pela banda Os Cardeais. 

A outra é “Rockin’ All Over The World”, o hit de John Fogerty conforme redefinido pelo Quo, no LP Excesso De Sucesso (Urbis, 1978) sem crédito de intérprete mas produzido pelo grande Dick Danello com fonogramas de sua produtora Central Park.


Outra das regravações de sucessos do Status Quo que eu trago para cá talvez seja também brasileira: “Rain”, do LP USA Click Volume 4 (AMC/Copacabana, 1976), produzido por Mister Sam, o Carlos Imperial brasílico-portenho (ainda usando seu verdadeiro nome, Santiago Malnatti). Consta que esta gravação é de The Rockin’ Boys e foi licenciada por “IHP, França”.
 

POR VÁRIOS QUONTINENTES

Lembremos outros Quo-vers legitimamente estrangeiros. Um é do grupo peruano Los Yorks: “When My Mind Is Not Alive”, numa gravação muito interessante em espanhol, “Mi Mente En Ti”. Temos aqui outra versão do Quo em castelhano, “Twenty Wild Horses”, transformada em “Toda La Noche” pela banda mexicana Barrio Pobre. E que tal uma rara oportunidade de ouvir o Quo numa voz feminina, e das afinadas? É o caso da dupla vocal norueguesa Dolli De Luxe, cujo álbum Rock Contre Opéra, de 1985. feito de medleys de temas populares e eruditos (sim, foi deste álbum que Edson Cordeiro tirou a ideia de seu medley da ária “A Rainha Da Noite” Mozart e “Satisfaction” dos Rolling Stones); no caso, juntou-se “Whatever You Want” à ária “Vilia” da opereta A Viúva Alegre de Franz Lehar.

 SER QUOVER NÃO INQUOMODA

Não pouca gente se contenta em ter canções de que gosta em regravações, sejam em novos arranjos por artistas estabelecidos ou em “covers” os mais fieis possíveis aos originais. Álbuns de regravações por artistas “fantasmas”, não creditados, tornaram-se verdadeira instituição nos EUA e Inglaterra. Aqui vão quatro de tais regravações:

“Ice In the Sun” – LP England’s Top 12 (Studio 33, 1968)


“In My Chair” – LP Top Of The Pops Vol. 14 (Hallmark, 1970)


“Paper Plane” – LP 12 Tops Volume 8 (com o crédito “A Damil USA Production”;  Stereo Gold Award, 1973)


“Rock And Roll” – LP Solid Gold – 20 Non-Stop Chart Hits Volume 2 (creditado a Sound Sensation; Solid Gold, 1983)


 Curiosidade: esta regravação de “Ice in the Sun” está em estéreo, enquanto a gravação original do Quo foi lançada penas em mono e em falso estéreo, inclusive na belíssima reedição em CD duplo do primeiro LP da banda (Castle, 2003).

OS QUOMPOSITORES

Todo mundo sabe que a discografia do Status Quo tem uma primeira fase pop. Pois bem, na transição para a fase hard-boogie a banda chegou a ser popíssima, inclusive fazendo shows com a cantora Vera Lynn (como lembrei no texto sobre a banda) e, vejam só, compondo canções como o simpático brega “How Does It Feel”, não lançado pelo Status Quo e sim pelo cantor Engelbert Humperdinck, havendo ainda uma versão em português (“Podem Falar”) gravada por nosso Jerry Adriani – e que podemos ouvir aqui não na versão normal (do LP Jerry Adriani, CBS, 1972) ma num dos LPs promocionais da gravadora (CBS (uma imitação da série Música E Alegria Kolynos da Odeon) com artistas atuando como apresentadores.




QUO, QUO, QUO: HOMENAGENS E BOM HUMOR

Para terminar esta introdução a meu artigo sobre o Status Quo, aqui vão três homenagens musicais ao Status Quo. Uma é francesa: “The Quo’s In Town Tonite” do francês Jean-Jacques Goldman (ex-integrante da banda de pop-prog Tai Phong), lançada em 2001. Os outros dois tributos são mais bem-humorados. Um é meu quase-sucesso “Fã Do Status Quo”, que lancei em 2004. O outro é “Boring Song”, de 1981. do grupo inglês HeeBeeGeeBees, formado por integrantes das trupes de humor Radio Active e Spitting Image. O próprio Status Quo não só levou a brincadeira na esportiva: gostou tanto que citou os Heebeegeebees em sua “My Old Ways”, de 2011. Sim, o “sense of humour” inglês chegou aí, parou e saiu tocando hard-boogie...

Quase todas as gravações acima podem ser ouvidas aqui. E meu já famoso artigo sobre o Status Quo segue abaixo – “down, down, deeper down...”

STATUS QUO

por Ayrton Mugnaini Jr.

Muito bem, prezados e prezadas ouvintes, está entrando no ar mais um artigo da série “artistas em que todo mundo metia o pau mas dos quais eu, que não sou ‘todo mundo’, gostava na época e continuo gostando”. O grupo inglês Status Quo nunca foi exatamente queridinho da crítica, para quem todos seus discos se resumem a “sempre os mesmos quatro acordes e quatro andamentos”, “vocal sempre igual, o Ray Conniff do heavy”, "heavy-metal leve para sala de espera", e “Canned Heat dos pobres”) – inclusive eu mesmo, enquanto músico em estado crítico, os incluí na Minilista dos Cinco Artistas Mais Repetitivos, no número anterior da MM. Mas isso não quer dizer que eu não goste do Status Quo; eu mesmo, desta vez enquanto musicômano, sempre afirmei: o Quo pode ser sempre igual, e é por isso mesmo que eu gosto sempre. Afinal, em qualquer música dançante – seja rock, foxtrote, samba de roda, mambo, reggae – o que importa é a repetição sem tédio, e qualquer gênero ou estilo musical soa “sempre igual” para quem não é fã; toda disco-music é tum-tum-tum, toda acid-house é tum-tiqui-tum-tiqui-tum (ou “putz-putz-putz”), todo rap é só fafafafafafafalação em cima de um ritmo bababababababate-estaca, todo chorinho (ou, mais apropriadamente, choro) é tim-tim-tim, breganejo se resume a “te a-a-a-amo, volta pra mi-i-inha cama-a-a-a-a”, rockabilly é uma eterna sucessão dos mesmos solos e acordes...

Por sinal, o Status Quo, salvo engano, é o único grupo de hard rock a admitir ser repetitivo com muito orgulho já no próprio nome – para quem não é do tempo em que se lecionava latim no primeiro ou segundo grau, “status quo” significa “estado ou situação onde estava”, ou seja, “do mesmo jeito que antes” – por extensão, “situação ou lugar onde nada muda”, inclusive sinônimo de “establishment”. Interessante é que o Quo, aparentemente mantendo estilo musical sempre imutável, na verdade teve mais de uma fase, embora permanecendo em cada uma o maior tempo possível! Sim, é como dizem os velhos provérbios: tudo precisa mudar para tudo ficar sempre na mesma, e, quando mais muda, mais fica igual...

(E quem melhor respondeu à crítica foi o baterista do Quo durante os primeiros vinte anos, John Coghlam: “Não ligo para o que escreverem sobre nós, contanto que escrevam os nomes direito.” Falei dos primeiros vinte anos? Pois é, o tempo passa mesmo, o Quo completa mais vinte anos de atividades em 2002!)

QUASE, MAS NÃO TODO LÁ

Tudo começa em 1962, em Beckenham, Kent, na velha e boa Inglaterra, quando Alan Lancaster (nascido em 1949), que toca trombone na banda da escola, faz amizade com Alan Key, trompetista. Não demora para os dois ficarem amigos e resolverem formar uma banda de rock, e logo Lancaster abandona o trombone por um instrumento de timbre ainda mais grave e barulhento – contrabaixo elétrico; Alan Key assume a guitarra-base, e para tocar guitarra-solo chama um amigo, Francis Rossi (da mesma safra de 1949), que, por algum motivo, prefere ser chamado de Mike.. (O grande sonho de Francis era montar uma dupla no estilo dos Everly Brothers, e numa época de Natal ele combinou com o irmão que ambos pediriam aos pais um violão para cada um – “mas”, lembra Francis, “na última hora o cagão pediu um trem elétrico!” Como vingança é prato que se serve frio, Francis, quando já famoso no Status Quo, fez questão de regravar “The Price Of Love” dos Everlys.)

O trio ainda consegue convencer um colega de escola, Jess Jaworski, não só a entrar para o grupo, mas ainda trocar sua nova guitarra por um órgão elétrico. Sim, falta um baterista; após vários ensaios e showzinhos em ginásios esportivos, associações operárias e bares com outros tantos candidatos, finalmente conseguem um fixo, John Coghlam (nascido em 1946). E também se decidem por um nome: The Spectres. Dois anos depois, é a vez de chamarem a atenção do primeiro empresário, o frentista Pat Barlow. Então as coisas começam a acontecer. Jaworski sai do grupo, substituído por Roy Lynes (nascido em 1943), e Alan Key dá lugar a Richard Parfitt (1948/2016), que, ao contrário de Mike Rossi, mudou de sobrenome, preferindo atender por Rick Harrison (mas logo assumiu seu verdadeiro sobrenome), e que vinha da banda que acompanhava as Highlights, duas gêmeas cantoras (tá bom, aí vão os nomes delas, Gloria e Jean Harrison) que cantavam sucessos do momento em bares e clubes.

Enquanto os Spectres acertam sua formação, Barlow consegue-lhes um contrato com a Piccadilly, selo da Pye, uma das maiores gravadoras inglesas do momento (por onde gravam os Kinks, os Searchers, Donovan, Sandie Shaw e outros campeões das paradas de sucesso). Falando em Donovan, os primeiros compactos dos Spectres incluem uma “Hurdy Gurdy Man” que é composição própria e não aquele grande sucesso do Dylan escocês, lançado no ano seguinte, 1967.

Por sinal, chega 1967 e os Spectres já gravaram três discos que não aconteceram. Ainda bem que nesta época as gravadoras costumam ser bem mais pacientes com elenco novo e talentoso. Após algumas reuniões, decide-se que o culpado é o nome do grupo; urge arrumar um nome melhor, menos “careta” e “fora de moda”; afinal o psicodelismo está comendo solto. Que tal Traffic Jam (“engarrafamento de trânsito”)? Legal! Mas, depois de alguns shows e um compacto, “Almost But Not Quite There” (que não faz sucesso, mas é censurado pela emissora de rádio BBC só por causa do título, “viajandão” demais), aparece alguém que não gosta: o multiinstrumentista Steve Winwood, ora despontando nas paradas com seu novo grupo, chamado Traffic. Tudo bem, não é preciso brigar nem processar ninguém, muda-se novamente o nome do grupo (por sinal, décadas depois o Quo lançou um CD intitulado Heavy Traffic). As primeiras sugestões – The Muhammad Alis, The Queers – não parecem muito melhores. E cabe a Pat Barlow salvar a pátria, sugerindo The Status Quo. (Sem dúvida, deve ter sido esta a inspiração para tantos grupos paulistanos da virada dos anos 1960 para 1970 terem escolhido nomes em latim como Vox Deorum, Sic Sunt Res e SPQR (sigla que originalmente significa Senatus Populusque Romanus, “O Senado e o Povo Romano”, mas desta vez queria dizer “São Paulo Quer Rock”!). Para completar os votos de sorte, o grupo foi transferido da subsidiária Piccadilly para a matriz, Pye. Deu certo: o disco seguinte, “Pictures Of Matchstick Men”, voa para o sétimo lugar nas paradas e se torna grande hino do psicodelismo light, ao lado de “California Dreamin’”, “Let’s Go To San Francisco” e “Mellow Yellow”.

O primeiro LP do Status Quo, Picturesque Matchstickable Messages From The Status Quo, sai em 1968 e segue a típica receita de artista que hoje é quente, mas vai saber se esfria amanhã, incluindo o sucesso (“Pictures Of Matchstick Men”), o lado-B (a vaudevillanesca “Gentleman Joe’s Sidewalk Café”), o compacto seguinte, igual-ao-sucesso-porém-diferente (“Black Veils Of Melancholy”), o sucesso seguinte (“Ice In The Sun”, composição bem modernosa do rockabileiro Marty Wilde) e material tapa-buraco de diversos tipos (incluindo regravações interessantes de “Spicks And Specks” dos Bee Gees, “Sheila” de Tommy Roe e até “Green Tambourine” do grupo bubblegum Lemon Pipers – estas duas últimas ausentes da edição estadunidnse do LP). De fato, neste disco o Quo soa como o tipo do grupo competente porém paraquedista, o-que-for-moda-nóis-toca: psicodelismo, rock pesado, bubblegum, balada sentimental com violinos e tudo... Mas, como sói acontecer, tanta apelação foi castigada: o Quo só voltou as paradas em meados de 1969, e ainda assim para um modesto quadragésimo-sexto lugar, com a bregona “Are You Growing Tired Of My Love”. (Aviso às pessoas diabéticas: muita cautela ao se aproximar do segundo LP do Quo, Spare Parts.) Desta vez a salvação vem do próprio grupo, ou melhor, de seus ensaios.

É ROCK AND ROLL, E ROCK, E ROCK AND ROLL...

O Quo, como aliás desde quando atendia por Spectres/Traffic Jam, vem compensando as fases de insucesso discográfico fazendo muitos e muitos shows, inclusive como banda acompanhante de artistas os mais diversos, como Madeleine Bell (grande cantora de soul-pop) e Vera Lynn (cantora da velha guarda inglesa; para tentar entender, imagine Emilinha Borba acompanhada pelos Pholhas). E, como todo grupo pop que se preza, o Quo vem caprichando nas roupas, sempre bufantes e multicoloridas. Mas, na hora de ensaiar, eles usam camiseta e calça jeans mesmo, que é a roupa de que mais gostam, e para esquentar, antes das bregas e pops, mandam brasa no blues, boogie, heavy metal e rock and roll, desde sempre seu tipo de música preferido. Um dia, no fim de 1969, eles se enchem das roupas cheias de fricotes, penteados caprichados e repertório bregão e... surpresa: na hora de um show, sobem ao palco de jeans, cabelo solto e tocando blues, boogie, heavy metal e rock and roll. Sim! Acaba de nascer – ou melhor, se revelar – o verdadeiro Status Quo, um dos mais bem-sucedidos grupos de hard e heavy.. E, ao começar o segundo semestre de 1970, o Quo se despede de vez dos anos 1960 e de seu passado pop com o compacto “Down The Dustpipe” e o LP Ma Kelly’s Greasy Spoon, que inclui clássicos do Quo como “Junior’s Wailing” e “Shy Fly” (e, acredite se quiser, saiu no Brasil, com capa diferente e intitulado simplesmente Greasy Spoon).

Ma Kelly’s Greasy Spoon foi o primeiro disco do Quo sem o tecladista Roy Lynes, que saiu quando o grupo estava em viagem à Escócia, segundo Francis Rossi: “Ele simplesmente desceu do trem e foi a última vez que o vimos.” Se Lynes foi abduzido, não demorou muito para voltar à Terra, mais exatamente à Austrália, onde vive bem, lançando discos solo, mantendo dois grupos, The Quotations (que, apesar do nome, não toca nada do repertório do Quo) e Quo Vadis (este toca) e preparando um livro sobre o Quo. Para compensar a saída do tecladista, o grupo estreou um integrante não oficial, Bob Young, que, além de roadie, toca gaita e compõe boa parte do repertório do grupo em parceria com Francis Rossi: “In My Chair”, “Caroline”, “Paper Plane”...

Em 1971 o Quo passou por mais uma mudança, ou melhor, de uma eternidade a outra: vencido o contrato com a Pye, assina com um selo novo que até parece criado sob medida para o grupo, Vertigo, subsidiária progressiva (leia-se avessa ao pop-rock)  da PolyGram, por onde já gravam Black Sabbath, Aphrodite’s Child, Jade Warrior e outros, e com melhor distribuição em nível internacional. E 1973 começa com o disco Piledriver, de onde saem sucessos como “Paper Plane”, “Big Fat Mama” e uma dos Doors, “Roadhouse Blues”, blues boogie que realmente parecia música do próprio Quo.

Daí em diante é aquela velha história: a crítica malhando, dizendo que os discos são todos iguais e pouco criativos (sem falar na equipe britânica de humor HeeBeeGeeBees, que lança um disco de paródias de artistas pop; o título da faixa dedicada ao Quo diz tudo, “Boring Song”), mas o público se torna cada vez mais numeroso, e os discos vendem como cerveja: Hello (1973, com “Caroline”), Quo (de 1974, aquele que no Brasil saiu sem título, pois este saiu meio escondido na capa, nas raízes de uma árvore de onde saem as cabeças dos membros do grupo), On The Level (1975, com um dos maiores hits do grupo, “Down Down”), Blue For You (1976, cujo hit foi “Rain”), Live (duplo ao vivo, 1977), Rockin’ All Over The World (1977, onde se destacou a faixa-título, regravação da carreira-solo de John Fogerty), If You Can’t Stand The Heat (1978, com “Again And Again”), Whatever You Want (1979, com dois hits, a faixa-título e a balada “Living On An Island”), Just Supposin’ (1980, com “What You’re Proposin’”), Never Too Late (1981, com “Something ‘Bout You Baby I Like” do guitarrista Ricjhard Supa), 1+9+8+2 (1982, título genial para comemorar os 20 anos de carreira do Quo, basta efetuar a soma), Back To Back (1983, com “Margherita Time”, balada bem pop e alegre que até lembra o grupo no fim dos anos 1960), In The Army Now (1986), Ain’t Complaining (1988), Perfect Remedy (1989), Live Alive Quo (1992), Thirsty Work (1994), Don’t Stop (1996, cujo sucesso foi aquela mesma do Fleetwood Mac, que, isso mesmo, parece feita de encomenda para o Quo), Rock Til You Drop (1997), Famous In The Last Century (2000, só de clássicos do rock and roll; a edição australiana inclui faixas ao vivo nesse país no ano anterior  – se inclui canja de Roy Lynes é que não sei – ,  incluindo nova versão de “Pictures Of Matchstick Men”). Em meados dos anos 1990 o Quo havia amealhado nada menos de cinqüenta sucessos nas paradas britânicas.

DE NOVO E DE NOVO E DE NOVO

Tudo bem que o Status Quo seja imutável por natureza, só que desde meados dos anos 1980 a maioria ds novidades mais interessantes talvez tenham tido pouco a ver com as gravações do grupo. Em 1982 John Coghlam resolve sair, e seu substituto é Pete Kircher (nascido em 1948), que nos anos 1960 integrara a grande banda Honeybus e mais tarde foi um dos Original Mirrors. Dois anos mais tarde chega a vez de Alan Lancaster cair fora (sua saideira do Quo é participar do megashow Live Aid, e o novo contrabaixista é John Edwards), e ele ainda entra na justiça tentando impedi-los de continuar usando o nome Status Quo, mas perde bonito. (Em 1996 Lancaster usou parte do nome de seu antigo grupo no título de seu primeiro disco-solo, Life After Quo.) E Kircher mal esquenta o banquinho, saindo em 1985; em seu lugar entra Jeff Rich, ex-Climax Blues Band. Com tudo isso, os guitarristas Rossi e Parfitt arrumam tempo para participar do disco beneficente “Do They Know It’s Christmas?”.


Em 1992 o Quo comemora 25 anos de idade mostrando que só fica no mesmo lugar musicalmente, ao tocar em quatro locais (a arena de Wembley e auditórios em Birmingham, Glasgow e Sheffield) num único dia. Em 1994 o Quo chegou ao primeiro lugar na Inglaterra com “Come On You Reds”, homenagem ao time de futebol Manchester United. Com tanto pique, é lamentável que o Quo seja vítima do que chamo de “idadismo” por parte da emissora BBC, que em 1996 se recusa a tocar o novo compacto do grupo, “Fun, Fun, Fun” (a mesma dos Beach Boys, com canja dos próprios) só porque o Quo é “velho demais”... Velha demais é a BBC, oras!

Sunday, December 18, 2016

UM "MEXE" RICO: A SAGA DE "MEXA-SE" DE SÁ & GUARABYRA



Quem me conhece sabe que entendo o cansaço mas mal tolero a preguiça. E me lembrei de um conselho dos melhores e mais sucintos: “Mexa-Se”, que ficou ainda melhor em forma de canção (e num bom ¾), graças à dupla Sá & Guarabyra (auxiliados pela saudosa cantora Marisa Fossa). Já falei desta gravação aqui em meu blogue, e merece repetir em outro contexto.

Em 1975 a dupla Sá & Guarabyra estava recém-consagrada após a separação de Zé Rodrix, e havia também se revelado boa em publicidade & propaganda. “Só Tem Amor Quem Tem Amor Pra Dar”, lançada em 1973 (num compacto creditado a Guarabyra solo), é nossa “I’d Like To Teach The World To Sing”, canção de grande sucesso que nasceu como jingle de refrigerante-desentupidor-de-pia. E em 1975 Sá & Guarabyra repetiram a dose (no bom sentido) com outro jingle, “Mexa-Se”, para a campanha homônima da Rede Globo de Televisão.

Nada nem ninguém é totalmente bom ou ruim. A Globo tem sido acusada de bitoladora, absolutista, lacaia do governo “mais oficial que a Voz do Brasil”, alienante e outras coisas mais, Mas é também produtora de bons programas (quando são bons - inclusive Guarabyra fez parte da equipe de alguns dos FICs), e é inegável que ajudou a revelar ou divulgar (em clipes no Fantástico, programas como Som Livre Exportação e seus festivais dos anos 1980 e por sua gravadora, a Som Livre) artistas como Mutantes sem Rita Lee e vice-versa, Djavan, Raul Seixas, Tuca, Jorge Mautner, Waltel Blanco e tantos outros. E foi a Rede Globo que lançou a campanha Mexa-Se, como parte da então nascente conscientização mundial de cuidado com o corpo. Já se falava em paz mundial, ecologia, caderneta de poupança, e agora era a vez de lembrar da origem de tudo isso: para ter mente sã é preciso corpo são. Começavam as campanhas contra drogas, a atenção para a relação entre câncer e tabagismo e práticas como o método de exercícios físicos do médico Kenneth Cooper e campanhas como Esporte para Todos, o Plano Nacional de Educação Física e Desportos do governo federal e esta “Mexa-Se”, a primeira a ter grande repercussão nacional (o poder da Globo serviu para uma coisa boa); a campanha publicitária do “Mexa-Se” na televisão ganhou até um Troféu Imprensa em 1976 – embora, como segunda grande curiosidade, eu não a tenha encontrado na internet. Qual é a primeira? É que “Mexa-Se” foi lançada em compacto ainda em 1975 mas sem o conhecimento de Sá & Guarabyra, segundo a dupla me disse quando a entrevistei para a FM 97 em janeiro de 1987 e atestaram na dedicatória de meu exemplar do disco! (Viram na foto acima?)

Não sei que mistério esconde a campanha de “Mexa-Se” da internet (embora haja outras mais recentes e igualmente bem-vindas campanhas usando o mesmo mote), mas entendo algo de como são as gravadoras brasileiras. “Mexa-Se” foi lançada em compacto trazendo no lado-B a bela “Xote Correntino”, de Cadernos De Viagem, segundo LP da dupla. Mereceria ter sido faixa bônus na primeira edição em CD deste disco, de 1994, mas no começo dos anos 1990 nossas gravadoras quase sempre ainda lançavam CDs raciocinando em termos de LPs. “Mexa-Se” foi promovida a CD na super-bagunça que é Super 3, caixa de três CDs lançada em 2008 com apenas 34 faixas desta nossa dupla S&G (melhor que a outra, em minha opinião), incluindo toas as faixas do LP Cadernos De Viagem espalhadas ao longo dos três CDs, como páginas largadas ao pó da estrada.

O lançamento de “Mexa-Se” em disco pode ter sido surpresa para a dupla, mas a canção esteve bem presente nas lojas de discos também com outros intérpretes – sem falar em diversas outras canções e até LPs inspiradas no mote ou pegando carona nele. “Mexa-Se” deixou o compasso ¾ pelo 2/4 do samba nas gravações da Big Banda Do Canecão (LP Big Banda Do Cancão No. 11, selo Polyfar, 1975) e do grupo de estúdio Os Bichos (LP Parada De Sambas – Pesquisa dos Sucessos, Vol. 1, RCA Camden, 1975). Note-se neste LP dos Bichos que “Mexa-Se”, além de ser a primeira faixa do lado 1, é a única canção deste disco a não ser agrupada em pot-pourri – e também foi lançada em compacto simples e faixa-título e de abertura de uma coletânea de diversos artistas (intitulada Mexa-Se - Ponha Mais Vida Em Sua Vida) da mesma gravadora.


Sim, a RCA “mexeu-se” – e não ficou “só” nisso, lançando também algumas das canções inspiradas no mote da campanha. Uma é a marchinha carnavalesca “(A Onda É Mexer (Mexa-Se)", do grande Archimedes Messina em parceria com Belmiro Barrela e Roberto Amaral, lançada por este último (em compacto duplo e no LP Carnaval, Amor E Fantasia) em 1976. No mesmo ano Juca Chaves lançou sua marcha-rancho “Mexa-Se”, em mais um belo exemplo de seu lirismo bem humorado e malicioso, usando o verbo “mexer” como Dorival Caymmi em seu samba “Vatapá”.




Outras gravadoras ofereceram ao carnaval de 1976 marchinhas intituladas “Mexa-Se”. Uma é do compositor Brasinha (Gustavo Thomás Filho, 1925/1998 , autor ou co-autor de clássicos momescos como “Zé Marmita”, “A Lua É Dos Namorados” e “Kung-Fu”), e foi lançada por Djalma Dias no LP Convocação Geral Carnaval 75 (Som Livre, 1975). A outra é assinada por Bené, J. Batista, Santo e Altair – mas, francamente, era mesmo necessária tanta gente para assinar uma marchinha que rima “tartaruga” com “pula” da forma mais tosca? O arranjo do saudoso Záccaro e a interpretação de José Augusto tornam audível esta marchinha lançada no LP Brazil Carnaval Export 76 (Polydisc, 1975)

Não, este José Augusto não é o famoso cantor brega carioca (nascido em 1953) de sucessos como "De Que Vale Ter Tudo Na Vida", "Eu Quero Apenas Carinho" e “Aguenta, Coração”, e sim um xará mais antigo de Sergipe (1936/1981). E a saga de “Mexa-Se” envolve ainda outro caso de artistas homônimos – só que à revelia. Explicarei.

Em 1975 a gravadora Padrão aproveitou a onda do “Mexa-Se” com um LP intitulado Mexa-Se: Rock And Roll E Outros Ritmos creditado a “The Pop’s” com participação de “Anne & Peter”. Sim, The Pop’s é um dos mais ilustres grupos cariocas de pop-rock dos anos 1960 e começo dos 1970. Sim, o selo Padrão era uma espécie de sucessor do Equipe, para onde gravavam The Pop’s. Só que o repertório deste LP não foi gravado por eles! Algumas faixas são do grupo inglês The Hobos, tiradas de seu LP Sounds Wild Like Slade – que até foi lançado aqui pela mesma Padrão na mesma época! – , e outras são creditadas a esta dupla “Anne & Peter”, para mim ainda misteriosa, Quem souber de algo a respeito, “mexa-se” e nos diga.

Sim, este "disco de The Pop’s sem The Pop's" é um caso similar ao "LP do Sunday sem o Sunday" que a RGE lançou no começo dos anos 1970 – o próprio Hélio Costa Manso me esclareceu que o disco não passa de uma coletânea de covers fantasmas estrangeiros. (Aconteceu algo assim com os Incríveis, que no fim dos anos 1970 tornaram-se pouco mais que apenas um nome usado pela RCA, mas felizmente a banda verdadeira redimiu-se em tempo numa reunião para um de seus melhores discos, em 1981.)

E para ouvir quase todas as gravações supracitadas, “mexa-se” com seu ratão para .

Monday, November 07, 2016

MAS PARA ACABAR TEU DESENCANTO: 50 ANOS DE “A BANDA”

Em 2016 completam-se 50 anos de lançamento e sucesso de “A Banda”, clássico da música popular brasileira e a canção que projetou de vez ao estrelato o compositor Chico Buarque (que já havia começado a aparecer com sucessos como “Pedro Pedreiro” e a música de Morte E Vida Severina), o “Noel Rosa moderno”, “bonitão dos olhos verdes” (não falaremos aqui sobre ele ser “esquerda caviar” ou uma de minhas muitas respostas a quem considera Tom Jobim o melhor compositor brasileiro de todos os tempos). Pois bem, vamos lembrar um pouco da repercussão e de curiosidades de “A Banda”.




A BANDA PASSA PELO MUNDO

Mais que um clássico instantâneo da música brasileira desde a segunda eliminatória do II Festival da MPB naquele 28 de setembro, “A Banda” se tornou uma das canções brasileiras a fazerem mais sucesso mundo afora, com muitas regravações em diversos países, arranjos e idiomas. Sim, até os anos 1970 a indústria fonográfica ainda era até que bastante artística. Quando uma canção agradava, recebia imediatamente muitas regravações em diversos idiomas e arranjos e em vários países. Afinal, nada mais lógico que uma gravação de sucesso ser lançada por uma gravadora e as outras também quererem ter parte nos rendimentos; situação bem diferente de hoje, quando um hit é imediatamente replicado em plataformas digitais para o mundo inteiro ouvir, o que desestimula outras interpretações... Confiram este recorte da revista Billboard de 4 de fevereiro de 1967: cinco gravações simultâneas de "A Banda" nas paradas da Argentina - realmente, ninguém tinha medo de ganhar dinheiro nem de ser feliz.



As regravações de “A Banda” de maior sucesso incluem a instrumental de 1967 pelo trompetista Herb Alpert, a versão em inglês (“Parade”, “desfile”, composta por Bob Russell – também famoso como autor da letra em inglês de “Aquarela Do Brasil” e de canções como “He Ain’t Heavy, He’s My Brother”; não confundir com o Bobby Russell das breguinhas “Honey (I Miss You)” e “Little Green Apples”) gravada também em 1967 por Astrud Gilberto, a versão em italiano (“La Banda”, de Antonio Amurri) cantada no mesmo ano por Mina, e a regravação da cantora portuguesa Simone (que mais tarde, talvez para evitar confusão com nossa “baiana do sótaque éxagérado”, passou a ser citada como Simone de Oliveira). Lembraremos aqui gravações mais raras. A “versione” de Mina foi gravada também por Anna Carucci, e a de Astrud idem Sue Raney (que descobri em minha pesquisa sobre a canção “Till There Was You” para este blogue).



Na França tivemos a cantora Dalida (“La Banda”, versão de Daniel Faure), versão esta representada aqui por Los Machucambos, grupo formado na França por pessoal da Espanha e América Latina, em gravação de 1969. Da Espanha podemos lembrar o registro de Digno Garcia y Sus Carios lançado em 1968 sem crédito de versionista. A Holanda nos deu pelo menos duas versões em títulos criativos: o cantor Han Grevelt com “Fanfare” (versão de Lennaert Nijgh) em 1968 e a cantora Ewa Roos entoando “Karnevalen” (versão de Stig Anderson; numa primeira vista até achei que poderia ser versão de "Sonho De Um Carnaval” – e, sim, Stig Anderson é o famoso e saudoso empresário do ABBA). A Finlândia não ficou de fora graças à cantora Kristina Hautala, que em 1967 gravou “En Katso Naamion Taa” (versão de Pertii Reponen; antes que alguém pergunte que “katso” é esse, responderei: significa algo como “não quero ver para além da máscara“).


Dois países campeões de bandas de música não poderiam faltar: Inglaterra e Alemanha. Da velha Albion temos o percussionista e band-leader Chico Arnez, que foi um Roberto Inglez dos anos 1960 e 1970: maestro latino radicado na Inglaterra usando ritmos latinos e, no caso dele, também soul. Ele costuma ser mais lembrado por uma versão funk de “Whole Lotta Love” (sim, aquela do Willie Dixon); e em 1969 ele transformou “A Banda” na trocadilhesca ”Hippy Parade” (sem crédito de versionismo e com o nome de Chico dividido como se fossem dois autores). 



E da Alemanha lembrarmos Curd Borkmann, em versão de Fred Conta mas com título em português mesmo, gravação de 1967, e, dois anos depois, o “grupo fantasma” de estúdio The Red Castle Orchestra, no LP Dancing International do pequeno selo alemão Play; a gravação é instrumental com um solo de trompete na linha do arranjo de Herb Alpert, e o disco tem dois erros: “A Banda” consta como estar em ritmo de “fox” – na verdade ritmo meio cubano, meio caribenho semelhante ao utilizado mais tarde na introdução de “Co-Co” da banda inglesa The Sweet, e a autoria está creditada a “Barque”. Uma curiosidade adicional sobre este LP é que, embora não seja de rock, iê-iê-iê ou”beat”, o disco pode dar a impressão de ser tudo isso pela capa, uma versão mais produzida daqueles LPs de iê-iê-iê das nossas gravadoras NCV ou Palladium. Até a tosqueira alemã é mais bem feita que o capricho de boa parte do resto do mundo...



A BANDA POR ESTAS BANDAS

“A Banda” foi lançada por Nara Leão, mas a primeira escolha de Chico haviam sido Os Cariocas, que recusaram – mas se redimiram rapidinho ao incluir a canção como faixa de abertura de seu LP Passaporte, de 1966. E fãs de quartetos vocais podem desfrutar também de gravações como as do Quarteto 004 (ainda em 1966 – e o arranjo parece bem mais recente!) e do Quarteto em Cy (no ano seguinte, e nada menos que duas vezes em dois álbuns diferentes: o LP sem título de 1967 e The Girls From Bahia, lançado nos EUA no ano seguinte - esta última em arranjo diferente e com direito a um trecho em inglês).

Outras pessoas consagradas brasileiras que regravaram “A Banda” incluem os Demônios da Garoa e o palhaço-cantor Carequinha. A gravação dos Demônios saiu em 1966 num compacto e num LP de carnaval da RCA, e mereceria entrar de bônus na reedição em CD do único álbum do grupo nessa gravadora (Eu Vou Pro Samba). E o sempre atento e ativo Carequinha também fez sua gravação em 1966, lançada em compacto, um LP de carnaval (Carnaval Barra Limpa, Volume 1); a faixa foi lançada também em Moçambique, e aí está a capa do compacto. Tá certo ou não tá?


E temos duas orquestras misteriosas.Uma é a Orquestra Imperial, do selo do mesmo nome, no volume 7 da série Isto É Parada De Sucessos, lançado em 1966. Falámos em “covers” fantasmas; pois bem, alguém conhece a orquestra Titulares Do Sucesso (não confundir com o grupo vocal Titulares do Ritmo)? Gravaram “A Banda” em 1967 para a caixa de LPs Viva A Música da Abril Cultural, com arranjo do maestro Portinho. São dois discos recomendáveis para quem gosta de orquestrações elaboradas e bem feitas, e também são “easy listening” no melhor sentido. Detalhe: em ambos estes LPs um lado começa com “A Banda” e o outro com “Disparada” (o outro megasucesso do festival de 1966 e que logo voltará à conversa).

“A Banda” demonstra também a perene e extrema popularidade da música de bandas militares, de muita importância para a música popular (basta lembrar as “jazz-bands” e o disco Sgt. Pepper’s dos Beatles), inclusive a brasileira, por suas vantagens de arranjos elaborados, volume sonoro e mobilidade (sim, tudo tem seu lado bom, até o Exército); basta lembrarmos as bandas das gravações lançadas por Thomas Edison e sua licenciada brasileira, a Casa Edison. É claro que não poderíamos deixar de incluir “A Banda” interpretada por uma banda – sim, banda no sentido tradicional, não o sinônimo meio equivocado para “combo” ou “conjunto de rock” (“banda” é conjunto com mais de um(a) integrante tocando o mesmo instrumento) – , e aqui temos a Banda de Música da Polícia Militar do Estado do Paraná. Sim, “A Banda” foi gravada também por pelo menos uma banda, e das boas. Por sinal, esta gravação ficou de fora do LP (sem título) que esta agremiação paranaense gravou para a RCA em 1968, e foi descoberta quando a gravadora Revivendo lançou uma bela coletânea em CD (intitulada A Banda) em 1996.

“A BANDA” E O NOVO CHICO

“A Banda” é a primeira faixa do primeiro LP de Chico Buarque. E tudo o que ele gravou na antiga RGE – quatro LPs e alguns compactos – caberia num belo álbum de dois CDs. Estes compactos incluem, veja só, uma versão de “A Banda” diferente da que abre o primeiro LP, e mais a caráter, com acompanhamento de bandinha, lançada no compacto-duplo abaixo. Chico tem ainda outra gravação diferente de “A Banda” editada em disco: ao vivo em pleno Festival de 1966, no LP Viva O Festival Da Música Popular Brasileira da gravadora Rozenblit.


Houve controvérsias quanto à autoria de "A Banda": de que seria de um holandês chamado Hollanda (rendeu até matéria na revista Intervalo cujo final é um trocadilho com o sobrenome do artista. “a música é de Chico Buarque do Brasil”) e, mais recentemente, que Chico a teria adquirido de um compositor legitimamente interiorano... E imaginem Chico Buarque, também um bom exemplo de timidez, apresentando um programa de televisão. Pois aconteceu duas vezes (sim, a segunda foi Chico & Caetano nos anos 1980). “A Banda” fez tanto sucesso que em 1967 a TV Record produziu o programa Pra Ver A Banda Passar, apresentado por ele e Nara Leão (primeira pessoa,como já lembramos, a gravar “A Banda”), mas este programa durou pouco – ficou claro que os muitos talentos da dupla não incluíam apresentar programa de televisão.

A BANDA EM DISPARADA

“A Banda”, como sabemos, acabou, por insistência de Chico, dividindo o primeiro lugar no festival de 1966 com “Disparada” de Geraldo Vandré e Theo de Barros. E ambas mereceram dividir tal prêmio, tamanho o sucesso que fizeram. Bota tamanho nisso: ambas foram até gravadas juntas num mesmo disco por diversos artistas, como o cantor Wilson Simonal, a cantora folclórica Ely Camargo e o trio vocal Los Tres Latinos (estes dois últimos discos no mesmo suplemento da mesma gravadora). 



Foi quase como se as duas canções fossem uma só – e, num certo sentido, até eram mesmo! Segundo me lembrou Telé Cardim (sim, a megatorcedora dos festivais dos anos 1960), o público mais atento descobriu que o começo da letra de “A Banda” se encaixava na melodia de “Disparada” e vice-versa...

SALTANDO DE BANDA

Por falar em encaixar a letra de “A Banda” em outras melodias, em 1967 o “cantautore” de iê-íê-iê Roberto Rei compôs uma canção de protesto citando “A Banda” e outra marcha-rancho-pop de sucesso, "A Praça" de Carlos Imperial, num iê-iê-iê cujo título diz tudo, “A Bomba Está Para Explodir Na Praça Enquanto A Banda Passa”. Esta canção foi regravada em espanhol por Billy Bond em 1968, bem antes de ele se mudar da Argentina para o Brasil, “La Bomba Está Por Explotar En La Plaza En Cuanto La Banda Pase”.


Sim, “A Praça”, ao lado de “Alegria, Alegria” de Caetano, estabeleceu o ritmo da marcha-rancho como um bom “crossover” entre as aparentemente antagônicas jovem guarda e MPB; outros exemplos são “O Ciúme” de Deny e Dino e a nonsense “A Matinê” do grupo Os Caçulas, e uma que vem totalmente ao caso é “Depois Que A Banda Passou”, de Luiz Reis, gravada em 1967 pela saudosa Meire Pavão.

Em 1970 o próprio Chico citou “A Banda” (e outras de suas canções) em sua ferina “Agora, Falando Sério”: “Dou um chute no lirismo/Um ‘pega’ no cachorro/E um tiro no sabiá/Dou um fora no violino/Faço a mala e corro/Pra não ver banda passar...” E, para terminar por ora, lembrarei duas paródias sofridas por “A Banda”. Uma foi feita por este que vos tecla durante a tentativa de cursar Engenharia na cidade de Lins, feita em parceria com o colega Alberto Jasinkevicius e publicada no jornalzinho da faculdade (paródias e matérias foram a melhor coisa que fiz na Engenharia) ; o tema foi a Inter-Eng (competição esportiva entre faculdades de Engenharia) de 1977. O símbolo da Escola de Engenharia de Lins era Peninha, o primo do Pato Donald; o refrão dizia “Estava à toa na escola/O Peninha chamou/pra ver a EEL ganhar/na Inter-Eng com louvor”, e incluí versos como “então o DOPS que vivia escondido surgiu”... Para bagunçar mais o coreto, lembrarei outra paródia de “A Banda”, que ouvi em 1970 ou 1971 numa de minhas férias em São Vicente, e que também desafiou a censura. O título era “A Bunda”, e os dois únicos versos de que me lembro são “a moça feia debruçou na janela/pensando que a bunda olhada era a dela...”

(Ah, sim: as gravações mais raras mencionadas podem ser ouvidas aqui.)