Wednesday, January 10, 2018

AUTO-REFERÊNCIA AQUI EU POSSO: RETROSPECTIVA 2017

2017, além de ano do centenário do primeiro samba a fazer grande sucesso, das revoluções russa e mexicana, da entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial (marcando o início de seu grande poderio em nível mundial, mas isso é assunto para outro tópico de meu blogue, e sob a óptica musical), e do lançamento do Prêmio Pulitzer, foi também um ano em que fiz muita coisa de que espero me lembrar com orgulho daqui a cem anos. Ou, pelo menos, espero que as pessoas de então descubram e gostem. Em resumo, iniciei meus anos 60 em grande estilo.

“CADÊ O DOCE?”



Lancei em abril novo disco, Dó, Ré, Mi, Fá... Sei Lá!, independente mas em meu novo selo, Produções Mugayr (com logotipo criado pelo artista gráfico da família, meu filho Ivo). As faixas de maior sucesso (por “sucesso” entenda-se citação espontânea por mais de duas pessoas) incluem o xote “Cuidado Pra Não Errar”, o sambão “Cadê O Doce?” (que eu já havia lançado antes em saraus com grande sucesso – inclusive está no vídeo do show comemorativo dos dez anos de Clube Caiubi de Compositores, de 2012), o rocão “Foi Pra Isso Que Eu Fiz Cinquenta”, o “sea chant” “Marinheiro Empreendedor”, o cateretê ”Meu Irmão Quer Ir Pra Europa” (parceria com Márcio Policastro) e a canção infantil “Melzinho” (parceria com Verônica Tamaoki). O velho parceiro Fabian Chacur fez uma bela resenha do disco em seu blogue. Outro belo presente para este sessentão fresco foi uma entrevista para a página Ritmo Melodia.

E, notório por aparecer em palcos como acompanhante ou em canjas, aventurei-me em alguns shows-solo para promover este disco. Um deles foi no Brazileria, em junho. E foi tão bom que Silvio Viani, co-proprietário da casa, exclamou no final: “O primeiro de muitos!” Pois bem, o segundo, com acompanhamento de meu trio Los Interesantes Hombres Sin Nombre, foi em dezembro – e foi ainda melhor, a ponto de eu sair de lá com a terceira data: 20 de janeiro. E fiz bons shows “a solo” também no infelizmente efêmero Espaço Son, loja de alimentos naturais com palquinho, aqui na Mooca, além de ter sido convidado especial em saraus como o Casa Amarela e o primeiro promovido pelo editor literário Carlos Torres (que logo reaparecerá nesta conversa).

Mug e o percussionista Marcelo Valença na festa junina vegana do Espaço Son

“QUANTO MAIS PARCERIAS MELHOR”

Falando em saraus, sempre digo que a Era dos Festivais está sendo bem substituída, pelo menos em São Paulo, pela Era dos Saraus. E em 2017 acrescentei à lista dos saraus que frequento regularmente (Caiubi e Sopa de Letrinhas, Quartaquarta, Sarau da Maria e Sarau do Circo) os saraus da Biblioteca Adelpho, Casa Amarela, Piolin, Toca do Autor e Vergueiro.

Sempre digo que arte é soma, e 2017 foi também um ano em que iniciei muitas e boas novas parcerias, pessoas com quem toquei pelo menos uma vez em shows e saraus e/ou com quem comecei a compor, e que valem por uma mini-enciclopédia de algumas pessoas que têm brilhado na música de Sampa. Aqui está ela, com o requinte de assinalar com um asterisco as estrelas que participaram do disco Dó, Ré, Mi, Fá... Sei Lá!:

Adrian Aneli Costa Lagrasta - poetisa
Alexandre Tarica – violonista, compositor e contrabaixista
André Katz* - cantor, compositor e violonista
Betto Ponciano* – violeiro, compositor e cantor
Caetano Lagrasta Neto – poeta
Cássio Figueiredo – cantor e compositor
Cirilo Amém – grupo de rock-MPB
Claudia Luz – cantora e compositora
Cortiça – palhaça-cantora
Danielly Montanary – cantora e compositora
Dinho Nascimento – percussionista
Eliete Chacon - locução nos spots promocionais de Dó, Ré, Mi,Fá... Sei Lá!, que são dois, este e este.
Gi Vincenzi* – cantora, compositora e multi-instrumentista
Gozi – banda de rock e blues liderada pelo casal Gisele e Ozi Garofalo
Guilherme Folco – saxofonista e circense
Henrique Vitorino* – cantor e compositor
Ieda Cruz – violonista e circense
Jany Ketty - cantora
Jeanne Darwich – cantora
João Arjona* - multi-instrumentista
Jorge Dersu – cantor, compositor e violonista
Joy – proprietário da casa Susi In Trance
Leo Rugero* – acordeonista
Luciana d’Ávila* – cantora e compositora
Marcelo Valença – percussionista
Maria Lucia Roxo Nobre* – produtora
Marquinhos Gil – acordeonista e malabarista
Miguel Barone – cantor e compositor
Paulo Brito – cantor, compositor e percussionista
Paulo Miranda – violonista
Poema Novo – grupo de música e poesia
Regina Tieko (cantora) e Fábio Abramo (violonista) – dupla de música popular em geral
Rita de Cássia Venturelli – palhaça e clarinetista
Rafael Peretta – compositor
Thais Matarazzo – escritora e pesquisadora que se revelou cantora (e canta direitinho!) em alguns saraus de sua editora em 2017 (sim, muita gente se desinibe após me ouvir cantar minhas canções sobre Serasas e piolhos)
Vitor Trindade – percussionista e cantor
Wagninho Barbosa* - trompetista

Mug com ReginaTieko e Liberto Trindade no Sarau da Vergueiro

Muito bom ter tocado também com pessoas velhas parceiras e outras com quem eu nunca havia tocado, incluindo Wilson Rocha e Silva e todo o pessoal do Caiubi, Rosa Rocha, Ana Clara Fischer e o paizão Iso, Alessandra Siqueira (a palhaça-musicista Silueta), Tavito, Bogô, Claudio Morgado, Ceci Ramadas, Gaspar Ramos, Tião Baia, Cristina Costa, Tereza Miguel, Edvaldo Santana, Liberto Trindade (tio de Vitor Trindade e filho de Solano Trindade), Vidal França e parte do grupo santista Mulher De Colher (cinquenta damas percussionistas fazendo percussão em colheres). Outro belo reencontro foi com o baterista Nahame Casseb, nosso querido Naminha, que tocou no Língua de 1983 a 1987 e permaneceu na chamada “Família Língua de Trapo”. Em 2016 participou do disco O Último CD Da Terra, e agora em 2017 esteve numa festa de confraternização do Língua, no bar Dedo De La Chica; o belo evento incluiu um quarteto “ad hoc” de Laert Sarrumor, Serginho Gama, Naminha e eu – primeira vez que toquei com ele desde que ele deu uma canja num show da Rádio Matraca no saudoso Espaço Camerati em 1986.

Aqui vai uma amostra de meu segundo show no Brazileria: a canja de Wilson Rocha e Silva interpretado sua “Subida Da Zuquim”, com o trio Los Interesantes Hombres Sin Nombre e a percussionista Cristina Costa.

E em 2017 continuei fiel à linhagem conjunteira de Edgard Scandurra e Dave Grohl. Para facilitar a vida de quem pesquisar sobre música agora ou pelos séculos dos séculos, aqui vão as bandas que atualmente integro, começando pelas duas para as quais entrei em 2017:

A4 EM PB (banda do Sarau do Circo)
Jorge Dersu – violão e vocal
Ayrton Mugnaini Jr. – maestro, contrabaixo e vocal
Marquinhos Gil – acordeão e vocal
Dinho Nascimento – percussão e vocal

JANET FENIX
Jany Ketty – vocal
João Arjona Jr. – guitarra e vocal
Ayrton Mugnaini Jr. – contrabaixo e vocal
Maxi Pere – teclados
Chang Chih An – bateria

LOS INTERESANTES HOMBRES SIN NOMBRE
Marcos Mamuth – guitarra, violão e vocal
Ayrton Mugnaini Jr. – contrabaixo e vocal
Carlinhos Machado – bateria, percussão e vocal

THE VINTAGES
Lucimara Curitiba – vocal e percussão
Emiliana Santos – vocal
José Roberto Curitiba – maestro e teclados
Newton Bardauil – guitarra e vocal
Fabio Ferre – guitarra e vocal
Ayrton Mugnaini Jr. – contrabaixo e vocal
Eduardo Santos – bateria
(A dupla Santos não tem parentesco entre si, e a dupla Curitiba é um casal – dos mais belos e mais musicais.)

TONQ (TOSQUEIRA OU NÃO QUEIRA)
Wilson Rocha e Silva – violão, cavaquinho, violino, guitarra, teclados e vocal
Rica Soares – guitarra, violão e vocal
Sonekka – violão, teclados e vocal
Ayrton Mugnaini Jr. – contrabaixo, guitarra e vocal
Ricardo Moreira – bateria, percussão, violão e vocal
e mais
Rosa Freitag – guitarra e vocal
Mário Lúcio de Freitas – vocal

ARBANDA (banda do projeto Arquivo do Rock Brasileiro)
Patricia Toscano – vocal
Leonardo Freund – guitarra e vocal
Marcelo Agulha – guitarra e vocal
Ayrton Mugnaini Jr. – contrabaixo e vocal
Laércio Muniz – bateria

 A banda A4 Em PB.

E tanta gente começou a me chamar de cantor e músico que resolvi assumir pelo menos esta última qualificação – sempre me vi como um compositor que canta e um multiinstrumentista “mandrake”, mas parece que aperfeiçoei meus gestos hipnóticos o suficiente... Tenho consciência de que sou competente e “raçudo”, como aconteceu no fim do ano, quando me chamaram para gravar uma marcha-rancho ao violão, com andamento bem lento, sem ensaio prévio fora do estúdio, cheia de mudanças de acordes e, a cereja do bolo, em si bemol. Precisei de apenas umas cinco tomadas para dar conta do serviço – e estou pensando se alguém abaixo de Heraldo do Monte mataria de primeira...

“PRA ONDE EU VOU VENHA TAMBÉM”

Alguns lugares que conheci e em que toquei pelo menos uma vez em 2017 e recomendo, além do Brazileria, são o bar-galpão Susi In Trance, o bar-restaurante C. C. Rider, o bar-loja vintage Cia 66 e os vilamadalênicos Cashmere, Dedo De La Chica e Papila. E, como frequentador, conheci e recomendo o Casa de Francisca, no centro de Sampa, e outro grande bar madalênico, Tupi Or Not Tupi.)

Uma nota triste é sobre o bar Bodega Garcia, na Avenida Doutor Arnaldo, onde tive o prazer de tocar em outubro com Los Interesantes Hombres Sin Nombre, mas que fechou poucas semanas depois devido ao falecimento da co-proprietária Silvia Garcia num acidente motociclístico.

Los Interesantes Hombres Sin Nombre no Bodega Garcia

Mais alegre e curioso foi eu ter tocado num local de que fui vizinho por toda a infância mas nunca havia adentrado: o Açaí Clube, no Brooklin, num show com o guitarrista-base de The Rolls And Rocks Band, liderada por Bogô (sim, aquele dos Beatniks e meu companheiro em outras bandas) e que inclui, vejam só, uma parente minha, a cantora Ceci Ramadas; eu já havia tocado com ela, mas só em 2017 eu soube que seus antepassados incluem – honrosamente, espero – um Mugnaini.

“VEJA QUANTO LIVRO NA ESTANTE”

Em 2017 estive presente nas melhores estantes participando de algumas coletâneas de poesia da Editora Matarazzo, além das honras de prefaciar o livro Fora Do Tom 2 – Crônicas De Um Jornalista De Cueca do jornalista e cronista Tom Cardoso (lançando a teoria de Tom ser reencarnação de Stanislaw Ponte Preta) e dividir com Tomás Bastian a pesquisa e os textos do livro-e CD Adoniran Em Partitura, neste resgatando, ao lado do Conjunto João Rubinato, composições do Vate do Bixiga inéditas em disco, um belo equivalente do igualmente belo trabalho sobre Noel Rosa feito pelos manos Carlos e Aloisio Didier e seu Conjunto Coisas Nossas, junto ao escritor João Máximo. (Participei também, como vocalista, de outro trabalho sobre Adoniran, pelo cantor e compositor Miguel Barone, mas que não pôde ser lançado em 2017, embora eu tenha dado canja num dos shows.)

Além disso, o mundo ganhou o livro Centro de Memória do Circo, belo documento sobre a primeira instituição latino-americana a registrar a História e os saberes circenses, e onde marco presença com minha pesquisa sobre música e circo e minha participação no Sarau do Circo.

Também marquei presença na primeira edição da Feira dos Livros e Autores Sorocabanos (FLAUS), mas à distância; convidado a participar mas impossibilitado de ir pessoalmente, tomei a iniciativa de compor um jingle para o evento. Pois bem, a I FLAUS foi um sucesso, e me disseram: “Não existe mais jingle da FLAUS... agora é Hino Oficial da FLAUS!” Ouçam aqui.

E no Sarau da Casa Amarela conheci Carlos Torres, da editora Essencial, que está para reeditar alguns livros meus (inclusive Raul Seixas: Eu Quero Cantar Por Cantar) revisados e atualizados agora em 2018.

“PRESENTES EM TODO LOCAL O RÁDIO E A TELEVISÃO”

Em 2017 meu programa Rádio Matraca ganhou o dobro de onda para surfar no rádio; além do horário das 17h de sábado já tradicional, agora temos reprise à meia-noite de terça-feira, Belo presente para o leitorado nestes 40 anos da emissora, a USP FM, que – e não é por nada – continua sendo uma das cada vez melhores opções para quem reclama de emissoras mais comerciais. E nesse ano a equipe do Rádio Matraca – Mug, Laert Sarrumor e Alcione Sanna – ganhou um reforço: o engenheiro e técnico de som José Miletto, que é também tecladista do Língua de Trapo, mas não contem para ninguém.

Em 2017 surfei também em ondas como os programas radiofônicos de Jai Mahal e Clovis Ribeiro e o de Paulo Nunes na TV CINEC (sozinho e ao lado de Rosa Rocha)

Mug e Mario Luiz Tricta em Piracicaba

Falei de meu filho Ivo e de ter descoberto parentesco com a cantora Ceci Ramadas. Pois bem, falarei de mais um parente, e é pelo menos um que tenho no rádio (além de Ivo ter gravado algumas vinhetas para a Rádio Matraca): Mário Luiz Tricta, nativo de Rio Claro e residente em Piracicaba, onde o conheci pessoalmente em minha mais recente visita à cidade, agora em 2017.

POT-POURRI DE ENCERRAMENTO

Logo publicarei no blogue minha relação anual das personalidades musicais falecidas no ano. Uma delas, mais infelizmente ainda, foi o radialista, DJ, jornalista e vocalista Kid Vinil, uma das pessoas que mais fez para divulgar o rock no Brasil desde o fim dos anos 1970 e uma das maiores personalidades do rock brasileiro dos anos 1980. Tenho vários orgulhos com relação a Kid: ter sido seu amigo, companheiro na banda Verminose/Magazine em algumas fases (o Magazine é como os Demônios da Garoa e o Língua de Trapo, uma “famiglia” onde quase todo mundo saiu e voltou pelo menos uma vez) e no programa Digital Session na Brasil 2000 FM, além de ele ser padrinho de meu filho. Na ocasião de seu falecimento publiquei uma pequena série de artigos, “Kausos De Kid Vinil”, aqui em meu blogue. E, como homenagem a Kid, tenho tocado em meus shows a canção “Sou Coroa”, que compus para ele (confira a história da canção aqui) e ele a gravou no disco Xu-Pa-Ki do Verminose; ouçam e vejam aqui está a canção com o trio Los Interesantes Hombres Sin Nombre em versão semi-acústica no sarau Toca do Autor.

No Rádio Matraca homenageámos os 50 anos do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band já sabemos de quem com o programa especial “Sgt. Pepper No Brasil”, por sua vez baseado no artigo “Cinquenta Do Pimenta” de meu blogue. O programa incluiu uma gravação exclusiva: meu cover para o muito famoso mas pouco lembrado “Sgt. Pepper’s Inner Groove”.

Nesse ano segui o exemplo de Hermeto Paschoal – não fosse eu compositor antes de tudo – e iniciei uma tradição de compor canções instantaneamente para eventos, como esta no camarim do Brazileria uns quinze minutos antes de meu primeiro show na casa.

Música é, tal como o futebol, uma caixinha de surpresas, e lembrarei uma que tive e uma que dei em 2017. Nesta minha fase de compor canções instantâneas para eventos (como o jingle para o Brazileria apresentado acima), presenteei o radialista Jai Mahal com um jingle surpresa para seu programa Bamba Jam, na Cultura FM, quando ele me convidou a participar. E quando fui homenageado pelo Sarau da Casa Amarela, um jovem participante, Henrique Vitorino, uniu-se ao veterano Milton Luna para me surpreender com... “O Velho Palhaço”, uma canção minha que ele aprendeu de uma demo que lancei no Soundcloud, e com o requinte de mudar o arranjo para que eu não reconhecesse a canção – e, de tão surpreso, até errei uma nota ou outra (vejam minha expressão no vídeo que captou este momento). Depois Henrique me perguntou se eu gostei, e minha resposta foi convidá-lo para cantar a canção no disco Dó, Ré, Mi, Fá... Sei Lá! – por sinal, a estreia de Henrique em disco.

Ah, sim: de abril para cá apareço quase sempre sem óculos pois passei por cirurgia de catarata. Pois é, tornei-me homem de visão.

Taí minha retrospectiva de 2017, cumprindo minhas duas tradições de ser a única retrospectiva de um ano após ele ter se encerrado de vez e de chegar uns cinco dias após previsto devido ao ano seguinte ter começado com tudo – sim, já tem assunto para a retrospectiva de 2018, aguardem mais doze meses!

Friday, August 25, 2017

OBRA DE CARUSO NUNCA SAI DE USO

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Aí estão duas caricaturas que Paulo Caruso fez de mim, no espaço de 25 anos, em 1982 e 2007.
A primeira ocasião foi no saudoso teatro Lira Paulistana, onde o Língua de Trapo fazia temporada (eu contribuía com alguns textos e micagens; minha participação para valer no Língua foi como compositor de 1985 a 1987 e de volta em 2015, mas isso é outra história) e Paulo Caruso, que além de desenhista é também músico e compositor, lançava seu livro Ecos Do Ipiranga num show que incluiu seu irmão Chico, o jornalista Benedito Rui Barbosa e outros. Foi num desses shows que conheci Paulo e peguei meu exemplar autografado. De lá para cá participei de alguns shows dele como músico e compositor (Piu-Piu, Rádio Clube, Bar Brahma...). Em 2007 entrevistei-o para a revista 20/20 Brasil, sobre moda e higiene visual, e ele estava lançando novo livro, Se Meu Rolls-Royce Falasse. Como se diz, 25 anos não são 25 dias, a gente fica mais esperta, então aproveitei para pedir novo autógrafo.

E o elogio mais insuspeito ao trabalho de Paulo - e, por tabela, a meu estado de conservação - veio de meu filho Ivo, que em 2007 tinha cinco anos e meio de idade. Mostrei a ele a caricatura mais antiga, ocultando meu nome, e perguntei "Ivo, sabe quem é este?" Ele bateu o olho e disse "É VOCÊ, PAI!"

Friday, July 14, 2017

UM LOBÃO QUE UIVA MAS NÃO CHILIQUEIA E MERECE APLAUSOS: ALGUMAS CURIOSIDADES SOBRE O DJ WOLFMAN JACK

Estou atualizando meu livro sobre John Lennon para reedição até o final do ano, e descobri que houve uma briga (ou, como dizem as pessoas jovens, uma treta) entre ele e o artista pop estadunidense Todd Rundgren. Esta briga tem sido transcrita pela internet afora em todo o mundo, e notei um detalhe que, até onde vi, ninguém mais notou. Num dado momento Lennon diz a Rundgren: “Remember that time you came in with Wolfman Jack?” (“Lembra de quando você veio com Wolfman Jack?”) Nenhuma transcrição deste trecho parece ter percebido que o ex-Beatle estava se referindo a um sucesso do ex-Nazz, “Wolfman Jack”, tributo ao grande DJ estadunidense e faixa do mítico álbum duplo Something/Anything de Rundgren (já pensaram num álbum de John & Todd em dupla intitulado Something In New York City ou Nazzy Cats? E terá o álbum de Todd sido inspiração para a dupla Joia/Qualquer Coisa de Caetano Veloso?). Pensei então em elaborar um tributo-relâmpago ao DJ com algumas curiosidades que não vi publicadas na internet ou mesmo em papel.

“Wolfman Jack” de Todd Rundgren foi lançada em compacto simples nos EUA nada menos de duas vezes – e com uma surpresa, talvez involuntária, provando que fora do Brasil gravadoras também erram. Explicarei. O primeiro lançamento foi em julho de 1972, como lado-B de outra faixa do álbum Something/Anything?, o clássico do power-pop “Couldn’t I Just Tell You”. E o segundo foi em dezembro de 1974, desta vez como lado-A (tendo como acoplo “Breathless”, única faixa instrumental de S/A?), mas com um detalhe: esta segunda edição traz o belo brinde da participação de Wolfman Jack em pessoa! Só que a gravadora se esqueceu de dar-lhe o crédito... 
Tive tamanha surpresa ao conhecer a edição brasileira (sim, há uma) deste disco.


A primeira edição em CD do álbum Something/Anything? saiu em 1990 pela Rhino e é muito boa, mas não inclui faixa bônus alguma, e haveria muitas, como esta versão de “Wolfman Jack” com o próprio e alguns jingles e spots promocionais do álbum. Mas em 1999 a Rhino lançou uma edição de luxo incluindo estas faixas e muito mais! Confiram aqui

O próprio Wolfman Jack gravou vários discos como intérprete e DJ, incluindo um raro compacto promovido pela Força Aérea dos EUA por volta de 1975, que pode ser ouvido aqui.


Foi no começo dos anos 1970 que Wolfman Jack foi descoberto pelo grande público, tornado-se figura midiática (palavra que acho terrível), aparecendo em filmes de sucesso como American Graffiti e homenageado em canções como a citada de Todd Rundgren e outras de artistas como Grateful Dead (“Ramble On Rose”) e The Guess Who (“Clap For The Wolfman”). Nosso DJ Big Boy está para Wolfman Jack assim como George Harrison está para Carl Perkins, Keith Richards para Chuck Berry, Chico Buarque para Noel Rosa, e fez uma bela homenagem ao colega estadunidense em seu LP The Big Boy Show (RCA, 1974), ao apresentar uma outra homenagem não-ianque, a citada “Clap For The Wolfman” da banda canadense Guess Who. Confiram aqui.

Big Boy não foi a única pessoa no Brasil a homenagear Wolfman Jack – mas foi certamente a menos sacana. Explicarei de novo. Em 1974 a Odeon lançou dois LPs de “covers fantasmas”, ou seja, por artista(s) anônimo(s), de sucessos do momento: No Mundo Das Novelas e Maneiríssimo, cujas capas são estas. 

Cada faixa destes discos  é creditada a um ou uma artista com nome estrangeiro, obviamente apenas nome de fantasia – temos até um “T. Bell” querendo ser confundido com o compositor de “Philly soul” Thom Bell, autor de algumas composições destes discos, e um “Derek” que não é o do hit “Cinnamon” e muito menos o dos Dominos, além de um “Wolfman Jack” que não é aquele... Confiram abaixo detalhes das contracapas e um dos selos. As duas faixas deste Wolfman Jack estão neste arquivo aqui.

 

E a biografia do grande Wolfman Jack (“al secolo” Robert Weston Smith, 1939/1995), talvez o primeiro DJ moderno de rock, pode ser conferida em páginas como esta e esta.

Wednesday, July 05, 2017

HONG KONG POP NOT BLUES: RECOMENDANDO A COLETÂNEA HONG KONG MUZIKLAND OF THE 60/70s VOL. II

Durante anos o disco mais raro e obscuro que tive foi um compacto inglês de uma banda chamada The Kontinentals, que comprei por volta de 1981 no saudoso sebo Mickey em Campinas (que, vejam só, tinha uma filial em Lins, onde estudei nos anos 1970). O disco é perfeito para quem gosta de Merseybeat não refinado e com garra, como em algumas gravações dos Kinks e dos Stones em 1964-65. (Notem o carimbo da loja no selo de meu exemplar, e espero que consigam ler um detalhe interessante: o selo inclui a data da gravação, 10 de abril de 1965!) Ouçam o disco aqui: "I Think Of Her" e "I Want You To Know". E para fãs dos Kinks havia os “pluses a mais” da tipologia do selo (bem semelhante ao da gravadora Pye), o nome do grupo com “K” e um dos integrantes ter nome parecido com o de Ray Davies (o saudoso Roy Davenport, guitarrista-solo dos Kontinentals e que anos depois revelou-se bom jazzista). 


Fiquei curioso para conseguir mais informações sobre a banda e o disco (cheguei a escrever para a revista inglesa Record Collector mas não obtive resposta); mal sabia eu que décadas depois eu faria amizade virtual com um dos integrantes da banda, o contrabaixista Anders Nelsson, e o auxiliaria num grande projeto de resgate do pop-rock de Hong Kong dos anos 1960 e 1970: a caixa de seis CDs Hong Kong Muzikland Of The 60/70s II, lançada em 2013.


Sim, os Kontinentals eram de Hong Kong, como finalmente confirmei com o advento da internet nos anos 1990, e foram a primeira banda do país a fazer sucesso com composições próprias de iê-iê-iê; infelizmente, gravaram apenas dois compactos antes de se dissolverem. Anders Nelsson seguiu carreira em outros conjuntos e como produtor e compositor, inclusive diretor de A&R na filial local da gravadora EMI; um de seus projetos foi justamente compor a trilha para um filme sobre Bruce Lee, intitulado He’s A Legend, He’s A Hero, dirigido por Wong Sing-Loy e exibido no Brasil como Um Homem Chamado Bruce Lee (outros títulos com que o filme foi exibido pelo mundo são King Of Kung Fu e The Dragon Lives). E vejam só: duas canções deste filme, “He’s A Legend, He’s A Hero” e “Even A Strong Man Must Die”, foram lançadas num compacto pela EMI – mas somente no Brasil! Mais: Anders Nelsson só ficou sabendo deste lançamento quando eu lhe contei.



Quando chegou a hora de compilar a caixa Hong Kong Muzikland Of The 60/70s II, Nelsson não teve acesso às fitas deste disco nem a um exemplar do próprio, pois a EMI estava em pleno processo de estar sendo engolida pela Universal Music; então Nelsson me perguntou se eu conseguiria localizar para ele um exemplar do disco, e consegui. De modo que ambas as faixas do compacto estão nesta caixa, e fui lembrado nos agradecimentos do livreto.


Ah, o livreto é um modelo de como livretos devem ser: fotos dos discos originais, as letras da canções, créditos das gravações originais (e esta caixa só não é absolutamente perfeita porque a frase “Carmen Twist” aparece como “common twist”, errinho de nada, ainda mais em comparação com as famosas transcrições de letras em inglês em muitos discos japoneses)... A caixa também é um sonho, reunindo 101 faixas (com excelente qualidade sonora) em, como foi dito, seis discos (sim, o infeliz limite de 14 faixas por CD é um triste “privilégio” da Universal brasileira), uma festa para fãs de música pop em geral. Estas gravações, dos anos 1960 a 1970, surpreendem pela competência, covers da melhor qualidade em termos de fidelidade às gravações originais e algumas composições originais igualmente dignas de audição. 



E temos de tudo: pop não-rock, baladona, rock and roll, twist, garagem, bubblegum, com grandes artistas locais como Teddy Robin & The Playboys, Danny Chan, Michael Remedios, as cantoras Chelsia Chan e Louie Castro, o próprio Anders Nelsson (com suas bandas Ming e The Anders Nelsson Group)... Os “covers” incluem boas surpresas como “Feelings” de nosso Morris Albert, “Uma Paloma Blanca”, “Carry On Till Tomorrow” da banda Badfinger, “’Cause We’ve Ended As Lovers” de Stevie Wonder (no arranjo da gravação de Syretta Wright), “Carmen Twist” (arranjo pândego da “Habanera” da ópera de Bizet), “I Love You” (Zombies), “You Haven’t Seen Nothing Yet” do Bachman-Turner Overdrive, “Island Girl” de Elton John e composições próprias no mínimo interessantes como a balada country “Pocketful Of Music” (cuja melodia lembra um pouco a de “Cálix Bento”, embora lançada em disco em 1975, dois anos antes da famosa gravação de Milton) e as citadas “He’s A Legend, He’s A Hero” e “Even A Strong Man Must Die”. É como ouvir uma excelente coletânea de sucessos pop em regravações muito boas e ainda ter a boa surpresa de descobrir que também se compõe muito bom pop em Hong Kong.


Mais detalhes sobre esta caixa aqui. E sobre o grande artista e empreendedor Anders Nelsson, podes ler aqui e aqui (incluindo um atalho para a banda The Kontinentals)

E Anders me disse "ainda precisamos de Bruce Lee para nos proteger". Mas é bom termos pessoas como ele para protegerem a memória da música popular.

(Ah, sim: esta caixa é um segundo volume,  e nem preciso dizer que estou atrás do primeiro, lançado em 2010.)

Saturday, June 03, 2017

CINQUENTA DO PIMENTA: MEIO SÉCULO DE SGT. PEPPER

É DA BANDA DA BANDA DE LÁ: "EM GUARDA, JOVENS!"

Tudo tem seu lado bom, até o Exército. Sou contra ditaduras, militares ou não, e contra guerras & batalhas armadas, mas lamento que o exército brasílico tenha tido sua reputação abalada por seus representantes que fizeram-o-mal-pensando-fazer-o-bem – sim, 1964 foi o ano da “longa noite de um dia duro”. Mas tais cabeças-de-papel e seus associados civis não conseguiram anular de todo as boas conquistas do país sob governos anteriores; tivemos muitas boas realizações em áreas como urbanismo, economia e arte que levam muito gente boa a pensar que “no tempo dos milicos é que era bom”. E é consenso que o exército contribuiu muito para a música, na pessoa das bandas militares, desde o século 18, inclusive no Brasil (uma amostra: o exército comandado pelo Marquês de Caxias – sim, nosso futuro único Duque – na Guerra do Paraguai incluiu “corneta-mor, mestre de música e doze músicos” entre seus 679 homens).

Um dia trago para cá resultados mais detalhados de estudo meu sobre música de banda (outra amostra: como seria a música brasileira do começo do século 20 sem essa valorosa trupe de “session men” que foi a Banda da Casa Edison?), mas por ora balancemos o coreto (entenderam?) lembrando da famosa banda inglesa liderada por um sargento que fez sucesso mundial após vinte anos de prática, entrando e saindo de moda mas sempre fazendo sorrir, sucesso este que ora completa 50 anos. E reuni algumas curiosidades sobre este famoso disco dos Beatles que, até onde sei, nunca ou quase nunca foram comentadas em papel ou na internet. Pois bem, acomode-se na cadeira e deixe a noite passar.


Não podemos, nem queremos, tapar os quatro mil buracos por onde entra a presença morena dos Beatles, mas tentaremos demolir dois mitos sobre Sgt. Pepper. Ele não foi o primeiro “álbum conceitual do rock”, com todas ou quase todas as faixas seguindo um mesmo tema geral; precedentes incluem Little Deuce Coupe dos Beach Boys, onde todas as faixas falam de automóveis. Quando muito, Sgt. Pepper foi o primeiro álbum de rock não ao vivo onde todas (ou quase todas) as faixas são coladas, “forçando” o(a) ouvinte a ouvi-las juntas e/ou numa determinada sequência. (Primeiro? Acabo de me lembrar de Absolutely Free de Frank Zappa & The Mothers Of Invention, que saiu no mesmo dia, 26 de maio de 1967. Mas os Beatles merecem primazia pelo parâmetro de serem muito mais famosos a ponto de Sgt. Pepper ser conhecido e esperado já desde antes de sair.) E Pepper também não foi o primeiro disco de música popular, não infantil nem folclórica, a trazer as letras das canções na contracapa: a Odeon, filial brasileira da mesma gravadora, havia tido tal iniciativa com quase todos seus LPs em 1960-63, incluindo álbuns discoteca-básica como O Amor, O Sorriso E A Flor de João Gilberto, Eu Não Tenho Onde Morar de Dorival Caymmi e Os Anjos Cantam de Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano. (Sim, um fator determinante no sucesso e influência de Sgt. Pepper foi a gravadora, na época “the greatest recording organisation in the world” e a única realmente multinacional, tendo em quase todos os países filiais e não apenas contratos de licenciamento, ao contrário da grande rival RCA, que até meados dos anos 1960 era apenas representada e distribuída em países como Inglaterra e Alemanha por grandes gravadoras locais.)

PIMENTA NO OUVIDO DA GENTE É REFRESCO: UM POUCO DE SGT. PEPPER E O BRASIL

O Brasil pode ser normalmente chamado de “atrasado” em relação aos lançamentos originais da Inglaterra e dos EUA, mas pelo menos num item saímos vencedores em relação aos poderosos ianques: Pepper foi lançado lá sem a famosa gravação interminável no fim do lado 2 (sim, o “Sgt. Pepper’s Inner Groove”), que só ganhou edição estadunidense na versão local do álbum Rarities, mas no Brasil ela está presente desde a primeira edição (embora ausente apenas numa tiragem dos anos 1970 com o selo marrom; eu tive um exemplar destes no fim dos anos 1970). (Isso sem falar que os EUA só começaram a respeitar o repertório original inglês dos álbuns dos Beatles a partir de Sgt. Pepper, ao passo que quatro dos LPs anteriores do grupo – incluindo a coletânea Oldies But Goldies – haviam tido seu repertório mantido intacto nas edições brasílicas, apesar de mudanças em títulos, traduções toscas de textos e som quase sempre em mono estridente – não que as vitrolinhas de bailinhos e piqueniques pedissem ou precisassem de mais que isso – , e o público brasileiro até que era respeitado, com um mínimo de 12 faixas por LP, contra as 11 de um LP estadunidense normal, muitas vezes cheio de eco e reverberação, pois lá “alta fidelidade” também era coisa para inglês ver e ouvir.)

Não esqueceremos de que nosso grande DJ Big Boy foi uma das primeiras pessoas de rádio em todo o mundo a terem o privilégio de tocar Sgt. Pepper antes de ele ser lançado. E, por falar em rádio, lembremos também a presença de Sgt. Pepper na série de LPs Música E Alegria Kolynos, resultado da tríplice parceria da gravadora Odeon com a agência de publicidade McCann-Erickson e o laboratório farmacêutico Anakol, na forma de programas de rádio visando promover lançamentos da Odeon e produtos da Anakol como o analgésico Superhist, o desodorante Van Ess e o creme dental Kolynos (recentemente mudou o nome para Sorriso); o projeto durou onze anos, de 1964 a 1974. No início os LPs traziam um programa em cada lado; em 1966 os programas dobraram de duração e cada um passou a ocupar um disco inteiro. Muitos destes programas incluíram gravações dos Beatles, e pode-se notar que a carreira do grupo até 1967 é das mais coesas, o grupo trabalhava em cada faixa de LPs e compactos com o máximo cuidado possível, de modo que todas ou quase todas tinham potencial para serem lançadas em compactos e fazerem sucesso. Além disso, como resumiu o dono-da-verdade Roy Carr, absolutamente todos os LPs dos Beatles têm um “compacto que nunca foi”, com apelo comercial para ser lançada em “single” na Inglaterra de 1962 a 1970 mas que só o foi, quando foi, em outros países. Daí algumas faixas dos Beatles presentes na série Música E Alegria Kolynos serem agradáveis surpresas; além dos hits esperados como “I Want To Hold Your Hand” e “All You Need Is Love”, temos escolhas como “Don’t Bother Me”, “Everybody’s Trying To Be My Baby”, “Blue Jay Way”, “All Together Now” e pelo menos duas faixas de Sgt. Pepper: “Good Morning, Good Morning” (no programa de número 1091) e “When I’m Sixty-Four” (no programa 1101); estes LPs eram apresentados pelo grande radialista Estevam Sangirardi e estão se tornando raridades.

Os Beatles são, muito provavelmente, a banda de rock mais regravada do planeta, inclusive no Brasil. Compreensivelmente, as composições mais regravadas dos Beatles são ou as mais simples ou as mais românticas, e romantismo e simplicidade não caracterizam a maioria das letras, melodias e arranjos de Sgt. Pepper. Mesmo assim, muita gente encarou o desafio de reler canções deste álbum, com resultados variáveis. Para quem vinha da bossa nova, jazz, big bands ou outros gêneros musicais complexos, não houve tanta dificuldade. Já algumas bandas soam mais ou menos como os Beatles de 1961 em Hamburgo tentando tocar os Beatles de 1967 em Abbey Road...



Bem curioso é o álbum Genial! Universal Sound creditado à banda The Terribles. Na verdade, este era apenas um nome com que o saudoso produtor Nilton Couto do Valle lançava gravações de grupos desconhecidos por selos pequenos, com baixos orçamentos e preços. No caso deste LP, estes The Terribles são na verdade um grupo paraguaio de passagem pelo Brasil, chamado Los Inocentes, com participação do contrabaixista e tecladista uruguaio Hector Capobianco, irmão de Juan Roberto “Pelin” Capobianco, da lendária banda uruguaia Los Shakers (uma das duas grandes respostas latino-americanas aos Beatles, a outra sendo os Mutantes). Isso explica este LP incluir duas composições dos Shakers e uma “quase dos Shakers” (“I Will Not Cry”, de Hector Capobianco e com participação do mano Pelin na gravação) ao lado de quatro canções de Sgt. Pepper (talvez uma quantidade recorde de regravações de Pepper num disco só nos anos 1960), outras quatro dos Beatles pré-Pepper e, para variar, uma dos Monkees. E este LP foi produzido por outro ilustre uruguaio bem acolhido no Brasil, o maestro Miguel Cidrás. Mas a novela apenas havia começado: estas gravações destes Terribles foram espalhadas por outros LPs de jovem guarda com as chamadas sérias restrições orçamentárias e creditadas a diversas outras bandas (The Modern Boys, Os Bárbaros, The Fishers, The Wish’s), conforme a lista mais abaixo! Leias mais sobre esta banda e este disco aqui e aqui também.

(Este tipo de disco “fantasma” reeditado com diversos créditos de intérprete é outro tema de estudo meu que vou trazer para cá uma hora destas. E vale lembrar também que os próprios Shakers regravaram uma canção de Sgt. Pepper, “Cuando Tenga Sesenta Y Cuatro”.)

Consta que Marcio Greyck recusou-se a gravar certas versos dos Beatles que considerou toscas demais. Já o primeiro LP de Raul Seixas, ainda o Raulzito dos Panteras, incluiu uma versão de “Lucy In The Sky” tão doida quanto a original, mas com sabor de tropicalismo: “Pense num dia com gosto de jaca.” “Não me deixaram gravar, disseram que eu havia avacalhado com a música”, contou mais tarde Raul, que mudou o verso para “gosto de infância”; esta versão foi regravada pelo Ira! anos depois.

Comentei sobre todo álbum dos Beatles incluir um “compacto-que-nunca-foi”. No caso de Sgt. Pepper, poderia bem ser um com dois lados-A, “Lucy In The Sky” e “With A Little Help”, a julgar pelas tantas vezes que essas canções foram e têm sido regravadas no Brasil desde 1967 inclusive por um(a) mesmo artista e num mesmo disco, seja em inglês, em outros idiomas ou versões instrumentais – até pensei numa analogia a “Disparada” e “A Banda”, que venceram juntas um mesmo grande festival e foram regravadas juntas muitas vezes, como lembrei nesteoutro artigo aqui em meu blogue.

Sim, falei em uma lista, e aqui vai ela. Não uma lista daquelas de melhores isto e piores aquilo, mas sim uma lista do tipo que prefiro, das objetivas: regravações brasílicas de canções de Sgt. Pepper feitas de 1967 a 1969. Obviamente, esta lista, feita por apenas uma pessoa, baseada 70% em acervo e lembranças pessoais e 30% no Google, nas horas livres de duas semanas, nem pode pensar em ser completa. Mas mesmo assim ela dá uma boa idéia da repercussão de Pepper no meio musical brasileiro.



REGRAVAÇÕES BRASILEIRAS DE CANÇÕES DO ÁLBUM SGT. PEPPER, 1967-69

“Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”

Corisco E Os Brasaloucos (versão instrumental; LP Corisco E os Brasaloucos, Continental, 1967 – esta faixa saiu também em compacto duplo no mesmo ano)

“With A Little Help From My Friends”

Embalo R (versão: “Meus Amigos”; LP Embalo R, Som Maior/RGE, 1967)

Sergio Mendes & Brasil 66 (LP Look Around, A&M, 1968)

The Pop’s (LPs O Baile, Equipe, 1969, e a coletânea 5º Aniversário, Equipe, 1969) – esta versão foi incluída anos depois no LP The Pop’s Ao Vivo, um “fake live album” à brasileira

The Terribles (LP Genial! Universal Sound, NCV)

The Modern Boys (LP Maria, Carnaval E Cinzas, Êxitos, c. 1967) – é a mesma gravação do álbum de The Terribles listado acima

The Ghosts (versão instrumental; LP With A Girl Like You, Som Maior/RGE, 1967 – esta faixa saiu também em compacto simples em 1968)

Disco sem crédito de intérprete(s) (LP Bem Bolado, Paladium, c. 1968)

“Lucy In The Sky With Diamonds”

Marcio Greyck (versão: “Ela Me Deixou Chorando”; LP Marcio Greyck, Polydor, 1967)

Ed Wilson (versão: “Ela Me Deixou Chorando”; compacto simples, CBS, 1967)

Beagá Band’s [sic] (na capa consta “Ela Me Deixou Chorando” e no selo “Lucy In The Sky With Diamonds”, mas é uma versão instrumental; LP Legal!, Paladium, c.1967)

Raulzito e os Panteras (versão: “Você Ainda Pode Sonhar”; LP Raulzito e os Panteras, Odeon, 1967)

The Terribles (LP Genial! Universal Sound, NCV)

Os Bárbaros (LP Eu Sou Terrível, Êxitos, c. 1967) – é a mesma gravação do álbum de The Terribles listado acima

The Sergeants (LP Mania De Beatles. AMC, 1968) – duas curiosidades: The Sergeants é a banda paulista Mac Rybell gravando sob pseudônimo, e este é o primeiro LP de uma banda brasileira a trazer somente canções dos Beatles ou a estes associadas)

“Getting Better”

The Terribles (LP Genial! Universal Sound, NCV)

The Fishers (LP Alegria, Alegria, Êxitos, c. 1967) – é a mesma gravação do álbum de The Terribles listado acima

“Fixing A Hole”

The Terribles (LP Genial! Universal Sound, NCV)

The Wish’s (LP Pata Pata, Êxitos, c. 1967) – é a mesma gravação do álbum de The Terribles listado acima

“When I’m Sixty-Four”

Marcus Pitter (versão: ”Sempre Vou Te Amar”; LP Marcio Greyck, Polydor, 1967)

Os Berimbóis (versão instrumental; LP Violentíssimo, Clarim/Cartaz, c. 1968)

The Ghosts (versão instrumental; LP With A Girl Like You, Som Maior/RGE, 1967)



Algumas dessas gravações podem ser ouvidas aqui.

E canções de Sgt. Peppers (principalmente a dupla “With A Little Help” e “Lucy In The Sky”) continuam sendo regravadas no Brasil por artistas diversos como as bandas fantasmas Flowers e The Brothers’s And Sister’s Band, o grupo Isaías E Seus Chorões, o grupo MPB-4, a violonista Rosinha de Valença e artistas mais novos como o Ira!. Lembrarei também “Amélia In The Sky,”a parceria Lennon-Ataulfo Alves que imaginei para a Rádio Matraca, e que pode ser ouvida aqui. (E já que o blogue é meu, posso citar minha quarta fita cassete, Gal. Médici’s Lonely Hearts Club Brega, paródia de Sgt. Pepper a meu jeito, na linha de We’re Only In It For The Money de Zappa & The Mothers, Their Satanic Majesties Request dos Rolling Stones – que logo voltará a esta conversa – e a bela releitura da banda Big Daddy.)

SALGEANT PEPPELU: SGT. PEPPER NA ÁSIA

Sgt. Pepper teve pelo menos três edições coreanas em vinil, todas nos anos 1970. Duas delas, pelo selo Taedo, são piratas. Uma delas é mais comum; um dos selos está aí abaixo. A segunda não encontrei na internet mas conheci pessoalmente no começo dos anos 1980, e aqui vão os selos (por cortesia do colecionador João Paulo Pimenta – realmente, não há pessoas mais apropriadas que ele e seu mano Pedro Paulo Pimenta com quem conversar sobre Sgt. Pepper).


Interessante é como a desde o século 19 o mundo ocidental e o oriental vão conhecendo um ao outro mas levaram quase um século para começarem a se conhecer melhor; por exemplo, para o ocidente pessoas do Japão, China, Coreia, Filipinas etc. eram todas “chinesas” ou “japonesas”, e características chinesas como “tlocar” o R pelo L e a frase musical dó-dó-lá-lá-sol-sol-mi são tidas até hoje como japonesas, e só poucos anos atrás se descobriu (ou se decidiu) que os nomes do líder comunista Mao Tse-Tung e da cidade de Bombaim seriam mais bem fieis aos idiomas originais se os grafássemos Mao Zedong e Mumbay. Do mesmo modo, esta rara edição coreana de Sgt. Pepper a que me refiro, além de omitir as letras na capa e os créditos de autorias nos selos, conseguiu transformar alguns títulos. Por exemplo, a famosa ode a uma “moça zona azul” inglesa virou profecia da vinda de Paul à nossa ex-capital: “Lovely Rio”. E a canção que garantiu a Pepper lugar de honra em minha pesquisa sobre música e circo virou jingle de campanha de saúde ao ser inadvertidamente renomeada “Being For The Benet [sic] Of My Knee”.


Pior ainda foi a censura consciente que Sgt. Pepper sofreu em algumas edições. A terceira edição sul-coreana – oficial, da gravadora Parlophone local! - com apenas 11 faixas, omitindo “Lucy In The Sky” e “A Day In The Life”, por “induzirem ao uso de drogas”. Na Rússia, numa edição ilegal em forma de álbum duplo com Revolver no começo dos anos 1990, Karl Marx foi destituído da capa do disco, e as “muito loucas” “With A Little Help From My Friends”, “Lucy In The Sky With Diamonds” e “A Day In The Life” foram substituídas na Malásia e em Hong Kong por “The Fool On The Hill”, “Baby, You’re A Rich Man” e “I Am The Walrus”. Lamentável como censura mas nem tanto em termos musicais – afinal, Revolver, Pepper e Magical Mystery Tour são três álbuns irmãos, representando o período mais aventuroso e sofisticado dos Beatles, e uma manhã, tarde ou noite ouvindo todos (junto a faixas do mesmo período como “Rain” e “Only A Northern Song”), como se fosse um “álbum triplo”, vai muito bem. (E serei a única pessoa a pensar que o refrão de “Good Morning, Good Morning” foi reciclado para o coro final “love is all you need” de “All You Need Is Love”, por sinal que uma canção bem superior?)


Por sinal, Sgt. Pepper tem ainda outra canção alusiva às drogas mas que escapou à sanha censória: sim, essa mesma, “Fixing A Hole”, como bem percebeu o humorista e cantor George Burns durante seu trabalho no filme Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Ele explicou à revista Rolling Stone que “consertar um buraco por onde entra a chuva e que impede minha mente de sair vagando” significa não deixar escapar a fumaça do jererê para maximizar o efeito. Óbvio quando se sabe...

SATANIC SARGEANT

“Welcome The Rolling Stones”, diz a camiseta de um boneco na capa de Sgt. Pepper. Sim, a rivalidade entre os Beatles e os Stones nunca passou de folclore, e as abordagens musicais de ambos, melhor que opostas, eram complementares. Ambos chegaram a gravar juntos: John e Paul cantam em “We Love You”, Jagger canta em “Baby You’re A Rich Man”, Brian Jones canta e batuca em copos em “Yellow Submarine” e toca saxofone em “You Know My Name” (mas, ao contrário do que se diz, não toca em “Baby, You’re A Rich Man”; quem toca aquele instrumento que soa como oboé eletrificado é John), os Beatles aparecem na capa do álbum Their Satanic Majesties Request e John se juntou a eles no espetáculo The Rolling Stones Rock And Roll Circus.

Mais que amigos dos Beatles, os Stones raramente deixaram passar alguma obra de sucesso deles sem fazer uma imitação ou paródia, geralmente tosca e descarada. Uma das mais óbvias é justamente Satanic Majesties com relação a Sgt. Pepper.

Mas há um detalhe. Os Stones, por mais toscos e caras-de-pau que fossem, nunca deixaram de creditar pelo menos uma pessoa participante especial em seus álbuns, ao passo que os Beatles abandonaram tal costume de Sgt. Pepper em diante, sendo Billy Preston notável exceção. E numa ocasião, justamente no disco Sgt. Pepper, foram os Beatles que seguiram os Stones, embora sem a mínima intenção; explicarei. Os Stones imitaram “Yesterday” dos Beatles em sua gravação de “As Tears Go By”, cujo arranjo para quarteto de cordas é do maestro Mike Leander. Pois bem, foi Leander o arranjador (não creditado) da orquestra em “She’s Leaving Home”; George Martin, embora indiscutivelmente o Quinto Beatle, ganhava a vida como funcionário da EMI, e na ocasião estava em outra tarefa; mas ele produziu a gravação e regeu a orquestra. (E acabo de ler na Wikipedia que “She’s Leaving Home” marcou o início da presença feminina em discos dos Beatles, na pessoa da harpista Sheila Bromberg.) Mas Leander foi "vingado" ao ser crditado como o arranjador de "She's Leaving Home" logo no início do texto de contracapa de seu LP A Time For Young Love, de 1969 (cliques em cima da imagem e da lentezinha para conferir o texto).

Para mim, a única falha de Sgt. Pepper, pelo menos a edição original em vinil, é a falta de créditos (talvez em nome da mística beatle ou falta de atenção a este detalhe) a Mike Leander, Mal Evans (no despertador e parceria em composições como "Getting Better", embora recebendo os devidos direitos autorais) e outros(as) musicistas participantes e convidados, além do ligeiro incômodo de a capa incluir Stuart Sutcliffe, que havia saído amigavelmente dos Beatles em 1961, mas ignorar Pete Best, covardemente expulso no ano seguinte (embora, musicalmente, sua substituição por Ringo Starr tenha sido uma das melhores decisões da história do rock). Enfim, eles que são britânicos que se entendam... (E pensar que não incluíram Pete Best mas trouxeram Aleister Crowley e quase incluíram Hitler...) Mas pelo menos Pete Best foi lembrado na série Anthology quase trinta anos depois.

TÁ CHEGANO BEM PERTIM DO FINARZIM

E para terminar por ora, vejam se vocês concordam que a primeira frase musical, de dez notas, cantada por Ringo em Sgt. Pepper coincide com estas outras duas gravações, uma anterior e outraposterior, respectivamente aos 28” e aos 1’14”, em frases instrumentais com arranjos e andamentos bem diferentes. Eu adoraria te ligar... e espero ter conseguido ao menos um pouco.