Monday, November 07, 2016

MAS PARA ACABAR TEU DESENCANTO: 50 ANOS DE “A BANDA”

Em 2016 completam-se 50 anos de lançamento e sucesso de “A Banda”, clássico da música popular brasileira e a canção que projetou de vez ao estrelato o compositor Chico Buarque (que já havia começado a aparecer com sucessos como “Pedro Pedreiro” e a música de Morte E Vida Severina), o “Noel Rosa moderno”, “bonitão dos olhos verdes” (não falaremos aqui sobre ele ser “esquerda caviar” ou uma de minhas muitas respostas a quem considera Tom Jobim o melhor compositor brasileiro de todos os tempos). Pois bem, vamos lembrar um pouco da repercussão e de curiosidades de “A Banda”.

A BANDA PASSA PELO MUNDO

Mais que um clássico instantâneo da música brasileira desde a segunda eliminatória do II Festival da MPB naquele 28 de setembro, “A Banda” se tornou uma das canções brasileiras a fazerem mais sucesso mundo afora, com muitas regravações em diversos países, arranjos e idiomas. Sim, até os anos 1970 a indústria fonográfica ainda era até que bastante artística. Quando uma canção agradava, recebia imediatamente muitas regravações em diversos idiomas e arranjos e em vários países. Afinal, nada mais lógico que uma gravação de sucesso ser lançada por uma gravadora e as outras também quererem ter parte nos rendimentos; situação bem diferente de hoje, quando um hit é imediatamente replicado em plataformas digitais para o mundo inteiro ouvir, o que desestimula outras interpretações... Confiram este recorte da revista Billboard de 4 de fevereiro de 1967: cinco gravações simultâneas de "A Banda" nas paradas da Argentina - realmente, ninguém tinha medo de ganhar dinheiro nem de ser feliz.



As regravações de “A Banda” de maior sucesso incluem a instrumental de 1967 pelo trompetista Herb Alpert, a versão em inglês (“Parade”, “desfile”, composta por Bob Russell – também famoso como autor da letra em inglês de “Aquarela Do Brasil” e de canções como “He Ain’t Heavy, He’s My Brother”; não confundir com o Bobby Russell das breguinhas “Honey (I Miss You)” e “Little Green Apples”) gravada também em 1967 por Astrud Gilberto, a versão em italiano (“La Banda”, de Antonio Amurri) cantada no mesmo ano por Mina, e a regravação da cantora portuguesa Simone (que mais tarde, talvez para evitar confusão com nossa “baiana do sótaque éxagérado”, passou a ser citada como Simone de Oliveira). Lembraremos aqui gravações mais raras. A “versione” de Mina foi gravada também por Anna Carucci, e a de Astrud idem Sue Raney (que descobri em minha pesquisa sobre a canção “Till There Was You” para este blogue).


Na França tivemos a cantora Dalida (“La Banda”, versão de Daniel Faure), versão esta representada aqui por Los Machucambos, grupo formado na França por pessoal da Espanha e América Latina, em gravação de 1969. Da Espanha podemos lembrar o registro de Digno Garcia y Sus Carios lançado em 1968 sem crédito de versionista. A Holanda nos deu pelo menos duas versões em títulos criativos: o cantor Han Grevelt com “Fanfare” (versão de Lennaert Nijgh) em 1968 e a cantora Ewa Roos entoando “Karnevalen” (versão de Stig Anderson; numa primeira vista até achei que poderia ser versão de "Sonho De Um Carnaval” – e, sim, Stig Anderson é o famoso e saudoso empresário do ABBA). A Finlândia não ficou de fora graças à cantora Kristina Hautala, que em 1967 gravou “En Katso Naamion Taa” (versão de Pertii Reponen; antes que alguém pergunte que “katso” é esse, responderei: significa algo como “não quero ver para além da máscara“).


Dois países campeões de bandas de música não poderiam faltar: Inglaterra e Alemanha. Da velha Albion temos o percussionista e band-leader Chico Arnez, que foi um Roberto Inglez dos anos 1960 e 1970: maestro latino radicado na Inglaterra usando ritmos latinos e, no caso dele, também soul. Ele costuma ser mais lembrado por uma versão funk de “Whole Lotta Love” (sim, aquela do Willie Dixon); e em 1969 ele transformou “A Banda” na trocadilhesca ”Hippy Parade” (sem crédito de versionismo e com o nome de Chico dividido como se fossem dois autores). 



E da Alemanha lembrarmos Curd Borkmann, em versão de Fred Conta mas com título em português mesmo, gravação de 1967, e, dois anos depois, o “grupo fantasma” de estúdio The Red Castle Orchestra, no LP Dancing International do pequeno selo alemão Play; a gravação é instrumental com um solo de trompete na linha do arranjo de Herb Alpert, e o disco tem dois erros: “A Banda” consta como estar em ritmo de “fox” – na verdade ritmo meio cubano, meio caribenho semelhante ao utilizado mais tarde na introdução de “Co-Co” da banda inglesa The Sweet, e a autoria está creditada a “Barque”. Uma curiosidade adicional sobre este LP é que, embora não seja de rock, iê-iê-iê ou”beat”, o disco pode dar a impressão de ser tudo isso pela capa, uma versão mais produzida daqueles LPs de iê-iê-iê das nossas gravadoras NCV ou Palladium. Até a tosqueira alemã é mais bem feita que o capricho de boa parte do resto do mundo...



A BANDA POR ESTAS BANDAS

“A Banda” foi lançada por Nara Leão, mas a primeira escolha de Chico haviam sido Os Cariocas, que recusaram – mas se redimiram rapidinho ao incluir a canção como faixa de abertura de seu LP Passaporte, de 1966. E fãs de quartetos vocais podem desfrutar também de gravações como as do Quarteto 004 (ainda em 1966 – e o arranjo parece bem mais recente!) e do Quarteto em Cy (no ano seguinte, e nada menos que duas vezes em dois álbuns diferentes: o LP sem título de 1967 e The Girls From Bahia, lançado nos EUA no ano seguinte - esta última em arranjo diferente e com direito a um trecho em inglês).

Outras pessoas consagradas brasileiras que regravaram “A Banda” incluem os Demônios da Garoa e o palhaço-cantor Carequinha. A gravação dos Demônios saiu em 1966 num compacto e num LP de carnaval da RCA, e mereceria entrar de bônus na reedição em CD do único álbum do grupo nessa gravadora (Eu Vou Pro Samba). E o sempre atento e ativo Carequinha também fez sua gravação em 1966, lançada em compacto, um LP de carnaval (Carnaval Barra Limpa, Volume 1); a faixa foi lançada também em Moçambique, e aí está a capa do compacto. Tá certo ou não tá?


E temos duas orquestras misteriosas.Uma é a Orquestra Imperial, do selo do mesmo nome, no volume 7 da série Isto É Parada De Sucessos, lançado em 1966. Falámos em “covers” fantasmas; pois bem, alguém conhece a orquestra Titulares Do Sucesso (não confundir com o grupo vocal Titulares do Ritmo)? Gravaram “A Banda” em 1967 para a caixa de LPs Viva A Música da Abril Cultural, com arranjo do maestro Portinho. São dois discos recomendáveis para quem gosta de orquestrações elaboradas e bem feitas, e também são “easy listening” no melhor sentido. Detalhe: em ambos estes LPs um lado começa com “A Banda” e o outro com “Disparada” (o outro megasucesso do festival de 1966 e que logo voltará à conversa).

“A Banda” demonstra também a perene e extrema popularidade da música de bandas militares, de muita importância para a música popular (basta lembrar as “jazz-bands” e o disco Sgt. Pepper’s dos Beatles), inclusive a brasileira, por suas vantagens de arranjos elaborados, volume sonoro e mobilidade (sim, tudo tem seu lado bom, até o Exército); basta lembrarmos as bandas das gravações lançadas por Thomas Edison e sua licenciada brasileira, a Casa Edison. É claro que não poderíamos deixar de incluir “A Banda” interpretada por uma banda – sim, banda no sentido tradicional, não o sinônimo meio equivocado para “combo” ou “conjunto de rock” (“banda” é conjunto com mais de um(a) integrante tocando o mesmo instrumento) – , e aqui temos a Banda de Música da Polícia Militar do Estado do Paraná. Sim, “A Banda” foi gravada também por pelo menos uma banda, e das boas. Por sinal, esta gravação ficou de fora do LP (sem título) que esta agremiação paranaense gravou para a RCA em 1968, e foi descoberta quando a gravadora Revivendo lançou uma bela coletânea em CD (intitulada A Banda) em 1996.

“A BANDA” E O NOVO CHICO

“A Banda” é a primeira faixa do primeiro LP de Chico Buarque. E tudo o que ele gravou na antiga RGE – quatro LPs e alguns compactos – caberia num belo álbum de dois CDs. Estes compactos incluem, veja só, uma versão de “A Banda” diferente da que abre o primeiro LP, e mais a caráter, com acompanhamento de bandinha, lançada no compacto-duplo abaixo. Chico tem ainda outra gravação diferente de “A Banda” editada em disco: ao vivo em pleno Festival de 1966, no LP Viva O Festival Da Música Popular Brasileira da gravadora Rozenblit.


Houve controvérsias quanto à autoria de "A Banda": de que seria de um holandês chamado Hollanda (rendeu até matéria na revista Intervalo cujo final é um trocadilho com o sobrenome do artista. “a música é de Chico Buarque do Brasil”) e, mais recentemente, que Chico a teria adquirido de um compositor legitimamente interiorano... E imaginem Chico Buarque, também um bom exemplo de timidez, apresentando um programa de televisão. Pois aconteceu duas vezes (sim, a segunda foi Chico & Caetano nos anos 1980). “A Banda” fez tanto sucesso que em 1967 a TV Record produziu o programa Pra Ver A Banda Passar, apresentado por ele e Nara Leão (primeira pessoa,como já lembramos, a gravar “A Banda”), mas este programa durou pouco – ficou claro que os muitos talentos da dupla não incluíam apresentar programa de televisão.

A BANDA EM DISPARADA

“A Banda”, como sabemos, acabou, por insistência de Chico, dividindo o primeiro lugar no festival de 1966 com “Disparada” de Geraldo Vandré e Theo de Barros. E ambas mereceram dividir tal prêmio, tamanho o sucesso que fizeram. Bota tamanho nisso: ambas foram até gravadas juntas num mesmo disco por diversos artistas, como o cantor Wilson Simonal, a cantora folclórica Ely Camargo e o trio vocal Los Tres Latinos (estes dois últimos discos no mesmo suplemento da mesma gravadora). 



Foi quase como se as duas canções fossem uma só – e, num certo sentido, até eram mesmo! Segundo me lembrou Telé Cardim (sim, a megatorcedora dos festivais dos anos 1960), o público mais atento descobriu que o começo da letra de “A Banda” se encaixava na melodia de “Disparada” e vice-versa...

SALTANDO DE BANDA

Por falar em encaixar a letra de “A Banda” em outras melodias, em 1967 o “cantautore” de iê-íê-iê Roberto Rei compôs uma canção de protesto citando “A Banda” e outra marcha-rancho-pop de sucesso, "A Praça" de Carlos Imperial, num iê-iê-iê cujo título diz tudo, “A Bomba Está Para Explodir Na Praça Enquanto A Banda Passa”. Esta canção foi regravada em espanhol por Billy Bond em 1968, bem antes de ele se mudar da Argentina para o Brasil, “La Bomba Está Por Explotar En La Plaza En Cuanto La Banda Pase”.


Sim, “A Praça”, ao lado de “Alegria, Alegria” de Caetano, estabeleceu o ritmo da marcha-rancho como um bom “crossover” entre as aparentemente antagônicas jovem guarda e MPB; outros exemplos são “O Ciúme” de Deny e Dino e a nonsense “A Matinê” do grupo Os Caçulas, e uma que vem totalmente ao caso é “Depois Que A Banda Passou”, de Luiz Reis, gravada em 1967 pela saudosa Meire Pavão.

Em 1970 o próprio Chico citou “A Banda” (e outras de suas canções) em sua ferina “Agora, Falando Sério”: “Dou um chute no lirismo/Um ‘pega’ no cachorro/E um tiro no sabiá/Dou um fora no violino/Faço a mala e corro/Pra não ver banda passar...” E, para terminar por ora, lembrarei duas paródias sofridas por “A Banda”. Uma foi feita por este que vos tecla durante a tentativa de cursar Engenharia na cidade de Lins, feita em parceria com o colega Alberto Jasinkevicius e publicada no jornalzinho da faculdade (paródias e matérias foram a melhor Cida que fiz na Engenharia) ; o tema foi a Inter-Eng (competição esportiva entre faculdades de Engenharia) de 1977. O símbolo da Escola de Engenharia de Lins era Peninha, o primo do Pato Donald; o refrão dizia “Estava à toa na escola/O Peninha chamou/pra ver a EEL ganhar/na Inter-Eng com louvor”, e incluí versos como “então o DOPS que vivia escondido surgiu”... Para bagunçar mais o coreto, lembrarei outra paródia de “A Banda”, que ouvi em 1970 ou 1971 numa de minhas férias em São Vicente, e que também desafiou a censura. O título era “A Bunda”, e os dois únicos versos de que me lembro são “a moça feia debruçou na janela/pensando que a bunda olhada era a dela...”

(Ah, sim: as gravações mais raras mencionadas podem ser ouvidas aqui.)

Monday, October 17, 2016

FIEIS SOLDADOS PELA PÀTRIA CANTADOS: A MÚSICA E A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL - BRASIL

Guerras só têm um grande defeito: as batalhas. Chefes de Estado declaram guerra, mas quem a realiza são as tropas. Tourada, briga de galo, farra do boi, rodeio e semelhantes barbaridades são "justificadas" pela tradição. e na guerra se consegue fazer milhares de vezes pior por questões que poderiam e deveriam ser resolvidas bem mais pacificamente... Como se diz, na guerra e no amor vale tudo – e nas guerras e nos processos judiciais ninguém ganha. Mas não se pode negar que grandes conflitos têm grande importância histórica e influência sobre as artes. inclusive no humor – HQs como Recruta Zero, filmes como Mash e Ombro, Armas; seriados de TV como Guerra, Sombra E Água Fresca e nosso Mário Alimari e seu Quartelzinho Pé-Com-Pano na TV (alguém se lembra? – e na música. Pois bem, uma conversa sobre a Primeira Guerra Mundial com o amigo Oli Rodrigues me inspirou a escrever aqui algo sobre música inspirada pelo conflito; acabei descobrindo tanta coisa que achei melhor separar tudo em dois artigos, sobre música brasileira e estrangeira.


(Anúncio no jornal O Estado de São Paulo de 14/2/1918.)

Numa brevíssima cronologia para situar tudo, a Grande Guerra – assim chamada até estourar a ainda pior Segunda Guerra Mundial (e daqui em diante vamos nos referir a elas como IGG e IIGG) começou em 28 de julho de 1914 e terminou em 11 de novembro de 1918, com o Brasil permanecendo neutro até ter navios bombardeados pela então encrenqueira Alemanha.em outubro de 1917 (a simples menção desta data deve trazer lágrimas aos olhos de muito(a) esquerdinha, mas isso é outra história, companheiros(as)). Mesmo enquanto neutro, o Brasil sofreu os efeitos da IGG. A briga com a Europa, além de abrir caminho para maior presença econômica e cultural dos EUA no Brasil, causou dificuldade em importações e exportações e aumento geral de preços e – adivinhaste? – impostos, e com a entrada do Brasil na guerra a lucidez antibelicista foi encoberta pelos clarins exortando a cumprir o dever cívico de, como foi bem cantado, “morrer pela pátria e viver sem razões” (e, afinal, “não contamos os mortos quando Deus está do nosso lado”, como disse outro grande trovador, Dylan, que não ganhou um Nobel à toa). Tudo isso foi bem registrado pela música popular brasileira, e aqui vai um resumo.

Um dos grandes sucessos musicais de 1914 é a toda caipira “Cabôca De Caxangá” de João Pernambuco, e quando a IGG estourou um certo ”Cabôco do Norte” não perdeu tempo em usar a melodia para compor e gravar a sátira “Confagração Oropéa”:
Lá fora a Oropa
Continua em pé de guerra
Morre gente como terra
Porque as folhas toda diz
Até agora
não se sabe já quem ganha
Se a França ou a Alamanha,
Se Berlim ou se Paris
Quem vai falar com razão
É a boca do canhão
Os alamão
Que se internaram na fronteira
Pensou que era brincadeira
Dar nos belga e nos francês
E foram entrando
na cidade de Liege
Para virar aquilo em frege
E triunfarem de uma vez
Mas os belga resistiu
Como assim nunca se viu
(falado)
Os belga são danados.
Diz que os francês
pretenderam entrar na Alsácia
Mas ali diz que não passa
Nem francês nem alamão
E que o solo
tá virado a dinamite
Que o caboclo não primisse
Nem botasse o pé no chão
É só passar no botão
Aquilo vira em carvão
(falado)
Nossa senhora, eu é que não vou lá

Mais séria é “Partida Para A Guerra”, composta por Marinho de Oliveira em parceria com Florizel e sucesso com o cantor Bahiano em 1915. E Eduardo da Neves, não só um dos mais importantes palhaços cantores como também grande cronista musical, gravou várias canções, quase todas compostas por ele mesmo, sobre a IGG: “Maldita Seja A Guerra” (composta por Cirino),”Portugal Na Guerra”, “Itália Na Guerra” e “Fim Da Guerra”, além de um “Desabafo Carnavalesco”, sobre as dificuldades econômicas causadas pela guerra e a consequente impopularidade do então presidente, Venceslau Brás - ou, como dizia o povo, “Lalau” e “São Brás”. Eduardo das Neves, assim como Bahiano, logo voltarão a nosso campo de batalha musical.

Um detalhe que me escapou na primeira edição de meu livro sobre a grande Chiquinha Gonzaga (nem tive como evitar, com pouco espaço para resumir tão grande e copiosa obra, mas na próxima edição darei um jeito) é ela ter composto nada menos que dois espetáculos musicais sobre a IGG. A primeira, A Desfilada Dos Mortos (com versos de Paulo Silva Araújo), foi lançada em 1915 e é um poema musical trágico sobre a guerra; alguns dos temas foram tocados por uma grande orquestra na missa de trigésimo dia da morte de Chiquinha, em 1935. A segunda, Ordem E Progresso, com versos de Avelino de Andrade, estreou no primeiro dia de 1917 e é uma “revista de costumes”, mais alegre e ritmada; curiosamente, foi coberta de elogios pela imprensa (temos abaixo um exemplo, no jornal Correio da Manhã de 18/1/1917 - clique em cima da imagem para ampliá-la) mas ficou apenas 15 dias em cartaz.



A euforia cívica do que-cada-um-cumpra-com-seu-dever inspirou nada menos que duas “Canção Do Soldado”. Uma delas é uma marcha-hino composta pelo almirante Ulysses Sarmento com letra de Cícero Braga e que fez sucesso nas gravações de Bahiano (por volta de 1919) e Sylvio Caldas (em 1942). Aqui está a letra:
Pátria, nome querido que a gente
Deve ter sempre, sempre de cor;
Ou na paz ou na luta inclemente
Defendè-la é o legado melhor.
Para bem adorá-la e servi-la
Dei-lhe todo o meu bom coração;
Lá deixei minha aldeia tranqüila
E as belezas sem fim do sertão.
(Refrão)
Amo tanto e estremeço esta terra,
Quero tanto ao meu vasto país
Que se um dia partir para a guerra
Eu irei bem contente e feliz.
Para as marchas de guerra sou forte!
Tenho a luz deste eco sempre azul,
Quer alcance as montanhas do Norte
Quer devasse as coxias do Sul.
Não me abatem desgostos da vida
Pois a todos eu hei de vencer;
Pela Pátria adorada e querida,
Quero sempre lutar e morrer
Amo a paz; mas, se o orgulho estrangeiro
Mc quiser abatido e servil,
O meu corpo darei todo inteiro
Para a honra salvar do Brasil
Eli me orgulho de ser brasileiro,
De fitar este céu sempre azul,
Onde à noite se ostenta altaneiro
O famoso Cruzeiro do Sul.
Terra santa onde Osório e Caxias
Deram provas de glória e de amor
Ai, quem dera lindar os meus dias
Elevando teu nome e valor.
Para ela c por ela é que eu vivo...
Quero sempre por ela viver; ¦
Aos seus grandes conselhos cativo
Não importa lutar e morrer

(Ir à guerra “bem contente e feliz” como Chapeuzinho Vermelho vai à casa da avó? Acho que por essa nem o General Patton esperava.)

 A outra “Canção Do Soldado” deve ser campeã brasileira de obras musicais com mais títulos – e “Canção do Soldado” não foi o primeiro nem o último. Trata-se de um dobrado composto pelo paraense Teófilo de Magalhães (embora tenha havido crédito a outros autores) em homenagem  a um capitão seu conterrâneo, Caçulo De Melo. O tema foi gravado na Casa Edison com título “Capitão Caçulo” pela Banda do Batalhão Naval por volta de 1919, e ganhou letra do Segundo Sargento Alberto Augusto Martins (“nós somos da pátria a guarda...”) gravada com título “Canção Do Soldado”  por Eduardo das Neves em 1912, Quando o Brasil entrou na IGG em 1917, o governo promoveu o serviço militar como coisa das mais positivas, e para ajudar a formar tropas e elevar-lhes o moral incentivou Vicente Celestino a regravar esta “Canção Do Soldado” (acompanhado pela Banda do Batalhão Naval do Rio de Janeiro) com título mais objetivo, “Canção Militar”. Sim, o dobrado voltou a fazer sucesso, precursor de “Eu Te Amo. Meu Brasil”, obra musical não composta para o governo mas cooptada por ele. E de lá pra cá este dobrado tornou-se mais conhecido como “Canção Do Exército Brasileiro”.


Ambas as letras foram divulgadas como parte do esforço de guerra em publicações como O Jornal maranhense em sua edição de 7 de setembro - data mais patriótica, impossível - de 1917. (Clique em cima da imagem para ampliá-la)

No outro lado do disco de “Canção Militar”. Vicente Celestino gravou outra canção de incentivo à batalha campal, “Às Armas”, com autoria creditada apenas a “W. A. R.” – seria este pseudônimo realmente “Guerra” em inglês? (Curiosidade adicional: a gravação de Eduardo das Neves, feita para a Casa Edison, foi lançada com o mesmo número de série de outra gravação sua, “O Voluntário”.)


“Às Armas” e uma destas “Canções Do Soldado” foram lembradas juntamente a outras duas canções belicistas, “O Canto Do Bravo” (letra de Carlos A. Gomes Cardim e música de João Gomes Jr.) e “A Chaga Do Soldado” (sobre a qual no momento ainda me faltam mais dados) para um filme sobre a participação brasileira na IGG intitulado justamente Às Armas, lançado em janeiro de 1918. Estes temas musicais não fizeram parte da trilha do filme, que era mudo, mas a divulgação solicitou que a plateia cantasse essas canções durante o filme, conforme anúncio publicado no jornal O Estado de São Paulo em 14 de fevereiro: “Para a boa ordem e marcha do espetáculo, pede-se aos Srs. espectadores cantarem ‘Às Armas!’, ‘A Chaga do Soldado’, ‘O Canto do Bravo’, ‘A Canção do Soldado’, nos lugares marcados no filme."  Sim, em 1918 ainda não havia videogames nem Netflix, mas já havia interatividade...
(Sim,clique em cima da imagem para ampliá-la)

E, pois é, o cinema mudo também foi culpado da transformação. A influência dos EUA foi crescendo, o Brasil entrou nas eras do foxtrote, do jazz e do rock – e, no Brasil como em todo o mundo, a IGG permaneceu no imaginário popular. Em 1967 Erasmo Carlos fez sucesso com “O Ajudante Do Kaiser”, versão de Fred Jorge para “I Was Kaiser Bill’s Batman”, sucesso mundial inspirado na IGG (“Kaiser Bill” é Wilhelm II (1859/1940), último imperador da Alemanha e que abdicou justamente em 1918, e a palavra “Kaiser”, que significa “Imperador” em alemão, ganhou popularidade mundial justamente por causa da IGG). “Batman” não se refere ao justiceiro mascarado (embora a banda The Jet Black’s tenha gravado uma versão assobiada do tema com título “Eu Era o Batman”!) e sim miliciano assistente pessoal de um oficial – realmente, “Ajudante do Kaiser” é uma tradução adequada. A letra deste sucesso de Erasmo retoma o mote de "Eu Fui À Europa”, samba de Chiquinho Sales que fez muito sucesso com Linda Baptista e Maria Bethânia (confira aqui). Mas Fred Jorge parece ter feito uma ligeira confusão entre as duas guerras mundiais ao citar “aquele muro famoso”. Se o versioneiro-mor se refere ao muro de Berlim, este só foi erigido em 1961, após a IIGG - embora o Kaiser Wilhelm II tenha realmente tido um ajudante, o General Von Dommes, e este tenha declarado seu apoio a Hitler em 1940. (E, sim, Erasmo e Roberto compuseram “O Muro De Berlim”, gravada pela banda The Bells.)


E muita gente, mesmo sem saber o idioma de Goethe e Nina Hagen, já deve ser se lembrado da banda Barão Vermelho, que tirou seu nome de “der Rote Baron”, o lendário piloto alemão Barão Mandred Von Richthofen (1892/1918), famoso por seu avião triplano Fokker Vermelho e que se destacou na IGG por sua perícia não só em manobrar as três asas de seu avião, mas também as duas metralhadoras que o acompanhavam nos vôos e com que chegou a derrubar 80 aviões ingleses e franceses. É bem possível que você já tenha se lembrado também das fantasias do cachorro Snoopy combatendo o Barão Vermelho a bordo de seu avião/casinha, as quais, por sua vez, serviram de base para a carreira do grupo pop-rock estadunidense de nome britânico The Royal Guardsmen, que emplacou nas paradas com “Snoopy Versus The Red Baron” e “Return Of The Red Baron”. A primeira, de 1967, fez tanto sucesso que um cover do grupo ianque Hotshots fez ainda mais sucesso em 1973, e uma versão em português, "Soneca Contra O Barão Vermelho" (embora sem referências à IGG), foi um dos hits de Ronnie Von nos anos 1960.

Barão Vermelho é um nome de grupo de rock tão bom que nossos amigos cariocas não foram os primeiros nem os últimos, bastando lembrar o grupo pop alemão Red Baron e os hard-rockers espanhóis do Baron Rojo (e que serão lembrados no artigo irmão deste sobre a música da IGG). Por sinal, houve quem não achasse esse nome tão bom assim: o próprio Frejat. "Eu e o Cazuza ficamos meses tentando mudar o nome", contou ele à revista Bizz; “no início eu detestava, mas como não apresentamos nada melhor ficou Barão Vermelho.”

Quase todas as gravações mencionadas logo poderão ser ouvidas aqui. A bibliografia incluiu os livros Viva O Rebolado! de Salvyano Cavalcanti de Paula, Quem Foi Que Inventou O Brasil? de Franklin Martins, Filmografia Do Cinema Brasileiro 1900-1935 de Jean Claude Bernardet e Cultura Popular: Temas E Questões de José Ramos Tinhorão. E agradeço à colaboração de algumas pessoas companheiras de batalha, incluindo o pesquisador Nirez (confiram um texto dele sobre o assunto), a família Barg, Verônica Tamaoki, João Lucas e Thais Matarazzo. E vamos batalhando!

Wednesday, September 07, 2016

ROCKY SPLENDOUR SHOW: LEMBRANDO ROCKY SHAHAN

Há alguns dias fui encontrado por um compacto de um certo Rocky Shahan, sem outro crédito (produção, arranjo, gravadora original) além da data e autoria. Eu não me lembrava desse nome e na hora imaginei que poderia ser um brasileiro se passando por estrangeiro ou, pelo nome, um imitador do cantor Ricky Shayne, aquele do megahit “Mamy Blue”, num caso similar ao de Trini Lopez/Prini Lorez ou do estrangeiro Gary Miles/Garry Mills. Buscas no Google em dias diferentes me ligaram esse artista a quatro outros assuntos: psicodelismo britânico, pop europeu, nossos Festivais Internacionais da Canção e David Bowie.

Rocky Shahne tem uma pequena mas interessante bagagem como compositor, cantor, produtor, guitarrista e contrabaixista. Ele conseguiu um bom nome no Brasil participando do FIC, representando seu nativo Paquistão com “The Best Man” em 1970 e “Love Is On My Mind”, alcançando o segundo lugar, em 1971. Shahne foi elogiado pela crítica, como atestam os recortes abaixo (e a revista Manchete louvou-o como “o estrangeiro que mais entende de música brasileira”). Shahne agradou também como pessoa, inclusive conversando em português com algumas damas de biquíni. No FIC de 1971 ele foi acompanhado por um ainda desconhecido e promissor Guilherme Lamounier ao piano. E as canções citadas podem ser ouvidas aqui clicando-se nos títulos, “Love Is On My Mind” e "The Best Man” (o arranjo desta inclui o que me soa como uma cuíca - e logo veremos que a influência brasileira na música de Shahne não parou aí!). Esta última  saiu no LP brasileiro do Festival, mas curiosamente “Love Is On My Mind” permaneceu e permanece, até onde pude saber, inédita em disco. Confiram este recorte da revista Billboard de 30 de outubro de 1971.



E esta notícia saiu no jornal O Estado De São Paulo do dia 3 do mesmo mês:



E leiam mais sobre Rocky Shahan no FIC aquiaqui e também aqui

O estilo de Rocky Shahne é interessante, e acho que posso defini-lo como uma fusão de Richie Havens com as baladonas de Elton John de 1969-1971 mais o charme e exotismo não-anglófonos de, por exemplo, Demis Roussos. Além das duas canções acima, ele gravou pelo menos mais dois compactos, um deles – vejam só – aparentemente lançado apenas no Brasil! Ambos merecem um parágrafo cada um.

Um destes compactos traz “Vibeke” acoplado com "Cherry Tree”, e pode ser ouvido no Youtube clicando-se nos títulos. (Para evitar que pessoas que não saibam o que significa “Vibeke” passem noites sem dormir, trata-se de um nome de mulher de origem dinamarquesa.)

O outro é o que me encontrou recentemente e a que me referi lá em cima, “I Am Watching You Leave”/”Let Us Sing Together” lançado no Brasil em 1971 – detalhe: o lado-B é um samba! Obviamente, é um dos resultados do esforço conjunto da organização do FIC e da gravadora Polydor de conseguir gravações abrasileiradas de aristas estrangeiros – foi assim que o “cantautore” francês Antoine gravou sua “Le Match De Football” como “Jogo De Futebol”, Françoise Hardy entoou em português seu hit “Bown, Bown, Bown” e Jimmy Cliff cometeu uma versão pilantragem da valsinha “Serenô”. Digitalizei este compacto brasileiro de Rocky Shahne, que pode ser ouvido aqui.



Não, não me esqueci de lembrar o que Rocky Shahne tem a ver com David Bowie. Shahne foi contrabaixista dos Konrads, a primeira banda de que participou o jovem saxofonista e “crooner” que ainda atendia por David Jones (e às vezes por “David Jay”), Pelo que pude entender do que li sobre os Konrads até agora, Bowie entrou no grupo em 1962, um pouco antes de Shahne, e este saiu ou juntamente com Bowie, em 1963, ou um pouco depois. Em 1964 e 1965 os Konrads lançaram dois compactos hoje raros e obscuros, ambos já sem Bowie e provavelmente também sem Shahne, “I Thought Of You Last Night” e “Baby, It’s Too Late Now”. Os Konrads fizeram algumas gravações demo incluindo Bowie e Shahan, mas não parecem estar entre outras demos do grupo que recentemente apareceram na internet, e uma gravação demo dos Konrads realmente incluindo Bowie (“I Never Dreamed”) tem sido apenas comentada mas não divulgada; a busca dos primeiros sons do Camaleão ao sair do ovo continua. (Leia aqui mais algo sobre os Konrads.)

Mas é facto que Shahan (assinando-se “Rocky Shan”) e outro ex-Konrad, o guitarrista Neville Willis, formaram o grupo Pregnant Insomnia, que gravou um compacto em 1967, “Wallpaper”/”You Intrigue Me”, pela CBS inglesa – gravadora da qual Rocky Shahan chegou a ser produtor; trabalhos seus na casa que descobri até agora são um LP e alguns compactos da banda psicodélcia Andwella’s Dream, como “Shades Of Grey” (não confundir com “Shades Of Gray” dos Monkees). Temos aqui mais informações sobre Shahan nesta fase.

E sobre o próprio Rocky Shahne, ele participou de outros festivais internacionais, mas após 1973 ele desaparece, e até pode posso ver ainda continua,desaparecido. No mais, consegui descobrir até agora que ele nasceu no Paquistão em 1944 com o nome Rocky Chaudhari (grafado por algumas pessoas anglófonas como Chowdhury), E os quatro assuntos para pesquisa que citei no começo podem virar cinco, incluindo cinema e televisão: o nome artístico Rocky Shahan é o mesmo de um famoso ator estadunidense (Robert Ray Shahan, 1919/1981), de filmes como Flechas De Sangue e da série de TV Rawhide – terá o cantor adotado esse nome em homenagem a ele?

Monday, August 08, 2016

MÚSICA BONITA DE SE VER: HOMENAGENS AO DR. IVO PITANGUY

Meu filho não se chama Ivo em homenagem ao agora saudoso cirurgião plástico Pitanguy, mas são dois Ivos que honram o nome e honrariam qualquer nome que tivessem. E acabo de me lembrar de que o Dr. Ivo Pitanguy foi citado em pelo menos duas canções. Uma é a marchinha carnavalesca hoje obscura "Plástica Do Dr. Pitanguy", derivada de "Sereia De Copacabana" e que pode ser ouvida aqui. (Dá vontade de fazer cirurgia plástica no selo do disco, pois esqueceram o "do" no título.)

A outra é "Coroa De Ipanema" deste emérito auto-referente, que lancei em 1997 na minha fita Desde Que O Brega É Brega e cita o Dr. Pitanguy no final da letra - uma das inspirações desta foi uma entrevista dele para a revista inglesa Mirabella no começo dos anos 1990, onde ele adverte não fazer milagres. Ouça aqui.

Friday, July 29, 2016

OS DONOS DAS VOZES: UMA RARIDADE PROMOCIONAL DA MÚSICA BRASILEIRA

Se você é grande fã de artistas como Clara Nunes, Altemar Dutra ou Sá, Rodrix & Guarabyra, você tem tudo o que essas pessoas gravaram? Tudo mesmo? Vejamos...

No começo dos anos 1970 a gravadora brasileira EMI-Odeon seguiu o exemplo de sua prima estadunidense Capítol nessa época de produzir spots promocionais para as rádios de alguns de seus lançamentos - só que estes spots brasileiros de 1972 trazem mensagens pessoais exclusivas dos próprios artistas, a saber: Altemar Dutra, Elza Soares, Milton Nascimento, Tony Nunes. Clara Nunes (nenhum parentesco), o trio Sá, Rodrix & Guarabyra, Tito Madi e Dori Caymmi.


Conheci este disquinho em minha estreia no rádio, como programador e operador na Rádio Alvorada de Lins, em 1977; eu dividi com alguns colegas da Escola de Engenharia de Lins a programação do Música Popular Variada da emissora, que gentilmente nos cedeu o espaço. A discoteca da rádio era muito boa, e ao descobrimos este compacto alguém da turma teve a ideia de usar a faixa de Milton Nascimento para promover seu novo LP de então, Milton, o que tem "Raça" e versões em inglês de "Cravo E Canela" e "Saídas E Bandeiras"; "Raça" até acabou entrando na programação normal da emissora..


E o segundo exemplar que vida na vida deste disco é o meu. Sim, o meeeeu, que encontrei na mais que recomendável loja paulistana Disco 7 no dia 27 de julho (27/7; até a data combinou com a loja) deste ano.

Sim, é um belo achado, mesmo que não essencial, para pessoas aficionadas e completistas, e pode ser ouvido aqui.

Wednesday, July 20, 2016

UM GRANDE ASSUNTO PEQUENININHO: PICOLINOS DA MÚSICA, RÀDIO E CIRCO NO BRASIL

"Quem procura acha", e quem procura uma coisa pode até achar várias. Pois bem, aqui vai um detalhe de minha pesquisa sobre circo e música brasileira que me rendeu também belas descobertas sobre a história do rádio no Brasil.

Nas minhas andanças encontrei referências a discos 78 RPM gravados por palhaços importantes como Eudu das Neves, Benjamin de Oliveira, Campos e Piolin. Ao deparar com um 78 creditado a Jayme Brito com uma "Turma do Picolino", julguei imediatamente tratar-se do palhaço Picolino, "al secolo" Nerino Avanzi (1885/1962), dono do memorável Circo Nerino (e pai do igualmente ilustre Roger Avanzi, o Picolino II), inclusive pelo título "A Los Toros" lembrar bordões espanholados, como "no me lo digas!", que Picolino adorava usar.


"Só que não", como dizem as pessoas jovens.

O próprio Roger Avanzi me disse que seu pai nada tem a ver com o Picolino desta gravação. Nem poderia ter também por outro motivo: o disco foi lançado em outubro de 1937 e este lado, segundo a Discografia Brasileira de 78 RPM, foi gravado no dia primeiro de julho do mesmo ano - exatamente no dia em que o Circo Nerino estava dando uma função boa demais da conta em Juiz de Fora, de acordo com o diário de bordo de Roger Avanzi (com muitas de suas informações reproduzidas no mais que recomendável livro Circo Nerino, escrito por Roger Avanzi com a emérita pesquisadora e produtora circense Verônica Tamaoki e lançado em 2004).

Foi o tipo da resposta que gerou novas perguntas. Quem seria então este outro Picolino? Mais uma cavocada me revelou quem ele não era: um artista negro desse nome que se revelou junto com o grande Henricão na mesma época. Nem tampouco tem a ver com "the piccolino", dança no estilo do yam, jitterbug, charleston e outras ancestrais do twist lançada (sem sucesso) no filme (de muito sucesso) Top Hat, de 1936, estrelado por Fred Astaire e Ginger Rogers e que no Brasil foi intitulado O Picolino.

Acabei descobrindo que o Picolino do disco acima refere-se ao Programa Picolino, apresentado pelo humorista Barbosa Jr. e transmitido pela Rádio Mayrink Veiga nos anos 1930 e pela Rádio Nacional na década seguinte. (Notem neste recorte do jornal A Noite de 12 de maio de 1942 a presença do mesmo Jayme Brito do disco acima.)



Pela notícia abaixo do jornal A Batalha, ouso dizer que o Programa Picolino, com uma hora de duração.  dedicado a música e humor sem abrir mão da espontaneidade, foi um Rádio Matraca antes do tempo. (E tenho fé em algum dia descobrir alguma gravação, mesmo que somente um trecho, desse programa.)



E desmenti uma afirmação sobre circo, mas confirmei outra. O Programa Picolino ajudou a revelar e divulgar artistas como os pianistas Dick Farney e José Maria de Abreu e o cantor romântico George Gomes.



George Gomes? Sim, você o conhece, mas com novos estilo e nome artístico que adotaria mais tarde: o grande palhaço-cantor Carequinha. (Este recorte é do jornal A Batalha e também de um dia 12 de maio, mas do ano de 1937. E agradeço ao acervo do grande e saudoso Leon Barg pelo selo do disco desta "Turma Do 'Picolino'".)

Tuesday, July 12, 2016

UM BANDO DE ZÉ PRETINHO CHEGOU ou VIXE, COMO TEM ZÉ PRETINHO NA PARAÍBA E NO BRASIL

Uma as primeiras coisas que se aprende ao estudar o circo brasileiro é que a comunicação de massa tem muita influência do circo; deste vieram muitos dos primeiros grandes astros do rádio e da televisão. Inevitavelmente, toda literatura ou tratado sobre a televisão brasileira fala do circo, e muita gente conheceu o circo na televisão – a definição de televisão como “circo eletrônico” resume tudo. E em minha pesquisa sobre música brasileira e circo descobri uma pequena filigrana em No Princípio Era o Som – A Minha Grande Novela, belo livro de memórias (Editora Madras, 1999) do grande diretor de televisão Régis Cardoso (1934/2005), que no começo da carreira exerceu também funções como músico, cenografista e até maquiador. Pois bem, assim lembra Régis Cardoso um detalhe de um seu trabalho com o diretor Oduvaldo Vianna, pai, no documentário Poeira De Estrelas (1948) que incluiu o grande violonista Antonio Rago e seu conjunto regional.
“Havia coisas estranhas, como maquiar de branco o pandeirista do Regional do Rago, Zé Pretinho. Naturalmente, ele ficava com cara de palhaço.”
Zé Pretinho? Na hora me lembrei daquele famoso personagem da MPB e da malandragem carioca dos anos 1930, que teve até uma briga com Noel Rosa (até hoje só vi uma foto dele, esta mesma, publicada no livro Noel Rosa, Uma Biografia.).
Mas este Zé Pretinho percussionista do conjunto de Antonio Rago é outro. E nenhum deles foi pioneiro no uso deste pseudônimo na MPB: há pelo menos um precursor, Zé Pretinho do Tucum, do qual até o momento apenas sei ter sido “o maior cantador e repentista do Piauí” e que em 1914 travou um desafio com Cego Aderaldo, desafio este lendário a ponto de inspirar um clássico da literatura de cordel, A peleja de Cego Aderaldo e Zé Pretinho, escrito por Firmino Teixeira do Amaral, e que pode ser lido e baixado em locais como este

Além deste arretado Zé Pretinho piauiense, no Nordeste há pelo menos mais dois Zé Pretinhos musicais. Um é o compositor e cavaquinhista Zé Pretinho da Bahia, nascido nos anos 1930 e que tem composições gravadas por ele mesmo e também Beth Carvalho, Noite Ilustrada e outros; há uma breve mas boa biografia aqui.


O outro é o líder da paraibana Banda Cabaçal do Mestre Zé Pretinho, formada m 1971 na cidade de Tavares e uma boa prova de que banda de pífanos não são exclusividade pernambucana. Mais detalhes aqui

E, sim, tem outra Banda do Zé Pretinho, aquela formada no Rio de Janeiro por Jorge Ben Jor e revelada no disco homônimo de 1978. Este LP é histórico por, além de sua qualidade e sucesso, ter sido o primeiro na gravadora Som Livre após muitos anos no selo Philips.


Todos esses Zés Pretinhos parecem ter tido inspiração no Zé Pretinho da umbanda, espécie de “malandro do bem”; se até pessoas entendidas em umbanda o confundem com o similar Zé Pelintra, não serei eu, com meu pouco estudo no assunto, a me arriscar a dizer bobagem e ter meu pé puxado à noite... E aqui vai um ponto de umbanda em homenagem a ele. Saravá! Zambá, Zambé, Zambi, Zambó, Zambu...