Wednesday, September 07, 2016

ROCKY SPLENDOUR SHOW: LEMBRANDO ROCKY SHAHAN

Há alguns dias fui encontrado por um compacto de um certo Rocky Shahan, sem outro crédito (produção, arranjo, gravadora original) além da data e autoria. Eu não me lembrava desse nome e na hora imaginei que poderia ser um brasileiro se passando por estrangeiro ou, pelo nome, um imitador do cantor Ricky Shayne, aquele do megahit “Mamy Blue”, num caso similar ao de Trini Lopez/Prini Lorez ou do estrangeiro Gary Miles/Garry Mills. Buscas no Google em dias diferentes me ligaram esse artista a quatro outros assuntos: psicodelismo britânico, pop europeu, nossos Festivais Internacionais da Canção e David Bowie.

Rocky Shahne tem uma pequena mas interessante bagagem como compositor, cantor, produtor, guitarrista e contrabaixista. Ele conseguiu um bom nome no Brasil participando do FIC, representando seu nativo Paquistão com “The Best Man” em 1970 e “Love Is On My Mind”, alcançando o segundo lugar, em 1971. Shahne foi elogiado pela crítica, como atestam os recortes abaixo (e a revista Manchete louvou-o como “o estrangeiro que mais entende de música brasileira”). Shahne agradou também como pessoa, inclusive conversando em português com algumas damas de biquíni. No FIC de 1971 ele foi acompanhado por um ainda desconhecido e promissor Guilherme Lamounier ao piano. E as canções citadas podem ser ouvidas aqui clicando-se nos títulos, “Love Is On My Mind” e "The Best Man” (o arranjo desta inclui o que me soa como uma cuíca - e logo veremos que a influência brasileira na música de Shahne não parou aí!). Esta última  saiu no LP brasileiro do Festival, mas curiosamente “Love Is On My Mind” permaneceu e permanece, até onde pude saber, inédita em disco. Confiram este recorte da revista Billboard de 30 de outubro de 1971.



E esta notícia saiu no jornal O Estado De São Paulo do dia 3 do mesmo mês:



E leiam mais sobre Rocky Shahan no FIC aquiaqui e também aqui

O estilo de Rocky Shahne é interessante, e acho que posso defini-lo como uma fusão de Richie Havens com as baladonas de Elton John de 1969-1971 mais o charme e exotismo não-anglófonos de, por exemplo, Demis Roussos. Além das duas canções acima, ele gravou pelo menos mais dois compactos, um deles – vejam só – aparentemente lançado apenas no Brasil! Ambos merecem um parágrafo cada um.

Um destes compactos traz “Vibeke” acoplado com "Cherry Tree”, e pode ser ouvido no Youtube clicando-se nos títulos. (Para evitar que pessoas que não saibam o que significa “Vibeke” passem noites sem dormir, trata-se de um nome de mulher de origem dinamarquesa.)

O outro é o que me encontrou recentemente e a que me referi lá em cima, “I Am Watching You Leave”/”Let Us Sing Together” lançado no Brasil em 1971 – detalhe: o lado-B é um samba! Obviamente, é um dos resultados do esforço conjunto da organização do FIC e da gravadora Polydor de conseguir gravações abrasileiradas de aristas estrangeiros – foi assim que o “cantautore” francês Antoine gravou sua “Le Match De Football” como “Jogo De Futebol”, Françoise Hardy entoou em português seu hit “Bown, Bown, Bown” e Jimmy Cliff cometeu uma versão pilantragem da valsinha “Serenô”. Digitalizei este compacto brasileiro de Rocky Shahne, que pode ser ouvido aqui.



Não, não me esqueci de lembrar o que Rocky Shahne tem a ver com David Bowie. Shahne foi contrabaixista dos Konrads, a primeira banda de que participou o jovem saxofonista e “crooner” que ainda atendia por David Jones (e às vezes por “David Jay”), Pelo que pude entender do que li sobre os Konrads até agora, Bowie entrou no grupo em 1962, um pouco antes de Shahne, e este saiu ou juntamente com Bowie, em 1963, ou um pouco depois. Em 1964 e 1965 os Konrads lançaram dois compactos hoje raros e obscuros, ambos já sem Bowie e provavelmente também sem Shahne, “I Thought Of You Last Night” e “Baby, It’s Too Late Now”. Os Konrads fizeram algumas gravações demo incluindo Bowie e Shahan, mas não parecem estar entre outras demos do grupo que recentemente apareceram na internet, e uma gravação demo dos Konrads realmente incluindo Bowie (“I Never Dreamed”) tem sido apenas comentada mas não divulgada; a busca dos primeiros sons do Camaleão ao sair do ovo continua. (Leia aqui mais algo sobre os Konrads.)

Mas é facto que Shahan (assinando-se “Rocky Shan”) e outro ex-Konrad, o guitarrista Neville Willis, formaram o grupo Pregnant Insomnia, que gravou um compacto em 1967, “Wallpaper”/”You Intrigue Me”, pela CBS inglesa – gravadora da qual Rocky Shahan chegou a ser produtor; trabalhos seus na casa que descobri até agora são um LP e alguns compactos da banda psicodélcia Andwella’s Dream, como “Shades Of Grey” (não confundir com “Shades Of Gray” dos Monkees). Temos aqui mais informações sobre Shahan nesta fase.

E sobre o próprio Rocky Shahne, ele participou de outros festivais internacionais, mas após 1973 ele desaparece, e até pode posso ver ainda continua,desaparecido. No mais, consegui descobrir até agora que ele nasceu no Paquistão em 1944 com o nome Rocky Chaudhari (grafado por algumas pessoas anglófonas como Chowdhury), E os quatro assuntos para pesquisa que citei no começo podem virar cinco, incluindo cinema e televisão: o nome artístico Rocky Shahan é o mesmo de um famoso ator estadunidense (Robert Ray Shahan, 1919/1981), de filmes como Flechas De Sangue e da série de TV Rawhide – terá o cantor adotado esse nome em homenagem a ele?

Monday, August 08, 2016

MÚSICA BONITA DE SE VER: HOMENAGENS AO DR. IVO PITANGUY

Meu filho não se chama Ivo em homenagem ao agora saudoso cirurgião plástico Pitanguy, mas são dois Ivos que honram o nome e honrariam qualquer nome que tivessem. E acabo de me lembrar de que o Dr. Ivo Pitanguy foi citado em pelo menos duas canções. Uma é a marchinha carnavalesca hoje obscura "Plástica Do Dr. Pitanguy", derivada de "Sereia De Copacabana" e que pode ser ouvida aqui. (Dá vontade de fazer cirurgia plástica no selo do disco, pois esqueceram o "do" no título.)

A outra é "Coroa De Ipanema" deste emérito auto-referente, que lancei em 1997 na minha fita Desde Que O Brega É Brega e cita o Dr. Pitanguy no final da letra - uma das inspirações desta foi uma entrevista dele para a revista inglesa Mirabella no começo dos anos 1990, onde ele adverte não fazer milagres. Ouça aqui.

Friday, July 29, 2016

OS DONOS DAS VOZES: UMA RARIDADE PROMOCIONAL DA MÚSICA BRASILEIRA

Se você é grande fã de artistas como Clara Nunes, Altemar Dutra ou Sá, Rodrix & Guarabyra, você tem tudo o que essas pessoas gravaram? Tudo mesmo? Vejamos...

No começo dos anos 1970 a gravadora brasileira EMI-Odeon seguiu o exemplo de sua prima estadunidense Capítol nessa época de produzir spots promocionais para as rádios de alguns de seus lançamentos - só que estes spots brasileiros de 1972 trazem mensagens pessoais exclusivas dos próprios artistas, a saber: Altemar Dutra, Elza Soares, Milton Nascimento, Tony Nunes. Clara Nunes (nenhum parentesco), o trio Sá, Rodrix & Guarabyra, Tito Madi e Dori Caymmi.


Conheci este disquinho em minha estreia no rádio, como programador e operador na Rádio Alvorada de Lins, em 1977; eu dividi com alguns colegas da Escola de Engenharia de Lins a programação do Música Popular Variada da emissora, que gentilmente nos cedeu o espaço. A discoteca da rádio era muito boa, e ao descobrimos este compacto alguém da turma teve a ideia de usar a faixa de Milton Nascimento para promover seu novo LP de então, Milton, o que tem "Raça" e versões em inglês de "Cravo E Canela" e "Saídas E Bandeiras"; "Raça" até acabou entrando na programação normal da emissora..


E o segundo exemplar que vida na vida deste disco é o meu. Sim, o meeeeu, que encontrei na mais que recomendável loja paulistana Disco 7 no dia 27 de julho (27/7; até a data combinou com a loja) deste ano.

Sim, é um belo achado, mesmo que não essencial, para pessoas aficionadas e completistas, e pode ser ouvido aqui.

Wednesday, July 20, 2016

UM GRANDE ASSUNTO PEQUENININHO: PICOLINOS DA MÚSICA, RÀDIO E CIRCO NO BRASIL

"Quem procura acha", e quem procura uma coisa pode até achar várias. Pois bem, aqui vai um detalhe de minha pesquisa sobre circo e música brasileira que me rendeu também belas descobertas sobre a história do rádio no Brasil.

Nas minhas andanças encontrei referências a discos 78 RPM gravados por palhaços importantes como Eudu das Neves, Benjamin de Oliveira, Campos e Piolin. Ao deparar com um 78 creditado a Jayme Brito com uma "Turma do Picolino", julguei imediatamente tratar-se do palhaço Picolino, "al secolo" Nerino Avanzi (1885/1962), dono do memorável Circo Nerino (e pai do igualmente ilustre Roger Avanzi, o Picolino II), inclusive pelo título "A Los Toros" lembrar bordões espanholados, como "no me lo digas!", que Picolino adorava usar.


"Só que não", como dizem as pessoas jovens.

O próprio Roger Avanzi me disse que seu pai nada tem a ver com o Picolino desta gravação. Nem poderia ter também por outro motivo: o disco foi lançado em outubro de 1937 e este lado, segundo a Discografia Brasileira de 78 RPM, foi gravado no dia primeiro de julho do mesmo ano - exatamente no dia em que o Circo Nerino estava dando uma função boa demais da conta em Juiz de Fora, de acordo com o diário de bordo de Roger Avanzi (com muitas de suas informações reproduzidas no mais que recomendável livro Circo Nerino, escrito por Roger Avanzi com a emérita pesquisadora e produtora circense Verônica Tamaoki e lançado em 2004).

Foi o tipo da resposta que gerou novas perguntas. Quem seria então este outro Picolino? Mais uma cavocada me revelou quem ele não era: um artista negro desse nome que se revelou junto com o grande Henricão na mesma época. Nem tampouco tem a ver com "the piccolino", dança no estilo do yam, jitterbug, charleston e outras ancestrais do twist lançada (sem sucesso) no filme (de muito sucesso) Top Hat, de 1936, estrelado por Fred Astaire e Ginger Rogers e que no Brasil foi intitulado O Picolino.

Acabei descobrindo que o Picolino do disco acima refere-se ao Programa Picolino, apresentado pelo humorista Barbosa Jr. e transmitido pela Rádio Mayrink Veiga nos anos 1930 e pela Rádio Nacional na década seguinte. (Notem neste recorte do jornal A Noite de 12 de maio de 1942 a presença do mesmo Jayme Brito do disco acima.)



Pela notícia abaixo do jornal A Batalha, ouso dizer que o Programa Picolino, com uma hora de duração.  dedicado a música e humor sem abrir mão da espontaneidade, foi um Rádio Matraca antes do tempo. (E tenho fé em algum dia descobrir alguma gravação, mesmo que somente um trecho, desse programa.)



E desmenti uma afirmação sobre circo, mas confirmei outra. O Programa Picolino ajudou a revelar e divulgar artistas como os pianistas Dick Farney e José Maria de Abreu e o cantor romântico George Gomes.



George Gomes? Sim, você o conhece, mas com novos estilo e nome artístico que adotaria mais tarde: o grande palhaço-cantor Carequinha. (Este recorte é do jornal A Batalha e também de um dia 12 de maio, mas do ano de 1937. E agradeço ao acervo do grande e saudoso Leon Barg pelo selo do disco desta "Turma Do 'Picolino'".)

Tuesday, July 12, 2016

UM BANDO DE ZÉ PRETINHO CHEGOU ou VIXE, COMO TEM ZÉ PRETINHO NA PARAÍBA E NO BRASIL

Uma as primeiras coisas que se aprende ao estudar o circo brasileiro é que a comunicação de massa tem muita influência do circo; deste vieram muitos dos primeiros grandes astros do rádio e da televisão. Inevitavelmente, toda literatura ou tratado sobre a televisão brasileira fala do circo, e muita gente conheceu o circo na televisão – a definição de televisão como “circo eletrônico” resume tudo. E em minha pesquisa sobre música brasileira e circo descobri uma pequena filigrana em No Princípio Era o Som – A Minha Grande Novela, belo livro de memórias (Editora Madras, 1999) do grande diretor de televisão Régis Cardoso (1934/2005), que no começo da carreira exerceu também funções como músico, cenografista e até maquiador. Pois bem, assim lembra Régis Cardoso um detalhe de um seu trabalho com o diretor Oduvaldo Vianna, pai, no documentário Poeira De Estrelas (1948) que incluiu o grande violonista Antonio Rago e seu conjunto regional.
“Havia coisas estranhas, como maquiar de branco o pandeirista do Regional do Rago, Zé Pretinho. Naturalmente, ele ficava com cara de palhaço.”
Zé Pretinho? Na hora me lembrei daquele famoso personagem da MPB e da malandragem carioca dos anos 1930, que teve até uma briga com Noel Rosa (até hoje só vi uma foto dele, esta mesma, publicada no livro Noel Rosa, Uma Biografia.).
Mas este Zé Pretinho percussionista do conjunto de Antonio Rago é outro. E nenhum deles foi pioneiro no uso deste pseudônimo na MPB: há pelo menos um precursor, Zé Pretinho do Tucum, do qual até o momento apenas sei ter sido “o maior cantador e repentista do Piauí” e que em 1914 travou um desafio com Cego Aderaldo, desafio este lendário a ponto de inspirar um clássico da literatura de cordel, A peleja de Cego Aderaldo e Zé Pretinho, escrito por Firmino Teixeira do Amaral, e que pode ser lido e baixado em locais como este

Além deste arretado Zé Pretinho piauiense, no Nordeste há pelo menos mais dois Zé Pretinhos musicais. Um é o compositor e cavaquinhista Zé Pretinho da Bahia, nascido nos anos 1930 e que tem composições gravadas por ele mesmo e também Beth Carvalho, Noite Ilustrada e outros; há uma breve mas boa biografia aqui.


O outro é o líder da paraibana Banda Cabaçal do Mestre Zé Pretinho, formada m 1971 na cidade de Tavares e uma boa prova de que banda de pífanos não são exclusividade pernambucana. Mais detalhes aqui

E, sim, tem outra Banda do Zé Pretinho, aquela formada no Rio de Janeiro por Jorge Ben Jor e revelada no disco homônimo de 1978. Este LP é histórico por, além de sua qualidade e sucesso, ter sido o primeiro na gravadora Som Livre após muitos anos no selo Philips.


Todos esses Zés Pretinhos parecem ter tido inspiração no Zé Pretinho da umbanda, espécie de “malandro do bem”; se até pessoas entendidas em umbanda o confundem com o similar Zé Pelintra, não serei eu, com meu pouco estudo no assunto, a me arriscar a dizer bobagem e ter meu pé puxado à noite... E aqui vai um ponto de umbanda em homenagem a ele. Saravá! Zambá, Zambé, Zambi, Zambó, Zambu...

Wednesday, June 01, 2016

UM ASSUNTO DE PARAR O MUNDO

Pesquisa musical já é interessante (ao menos para mim), e fica mais interessante ainda quando pesquisamos sobre um assunto e de repente descobrimos algo que serve também para outra pesquisa paralela ou até outras.  


Muita gente deve conhecer a frase "pare o mundo que eu quero descer" de um hit de 1976 de Silvio Brito, no estilo de Raul Seixas - e que até foi citado em "Eu Também Vou Reclamar" deste último no ano seguinte (Silvio já havia mencionado Raul em “Tá Todo Mundo Louco”, e o resultado foi uma “briga” musical de brincadeira, versão roqueira e mais benigna da polêmica Noel Rosa x Wilson Baptista). Pois bem, a frase  "pare o mundo que eu quero descer" havia começado a fazer grande sucesso na música popular graças a uma peça musical inglesa deste título, Stop The World - I Want To Get Off, lançada em 1961, e cujos autores (Anthony Newley e Leslie Bricusse), ao que consta, haviam lido a frase numa pichação. Mas o importante é que este musical foi o primeiro produzido fora do circo a unir temática e cenário circenses (além de um dos grandes sucessos de Anthony Newley, ator e cantor que foi uma das maiores influências de David Bowie) - sim, este artigo nasceu de minha.famosa e homérica pesquisa sobre música e circo.

E esta nunca por demais referida frase foi usada pelo circo pelo menos mais uma vez, na marchinha carnavalesca “Pára O Mundo Aí” (mantive o acento porque “Para O Mundo Aí” quer dizer outra coisa), lançada por Arrelia e Pimentinha em 1964.


E, com ou sem pichação, a frase “stop the world and let me off” já havia sido usada em música antes deste musical londrino pelo menos duas vezes, num rhythm & blues composto por Jerry Joyce (com Hal Winn e Arnold Koppitch) e lançado pelo inglês Don Lang em 1956 (com crédito no disco somente a “Joyce”; descobri a autoria completa aqui) e num rockabilly composto e lançado por Carl Belew em fins de 1957 e regravado com sucesso (embora menor que o musical de Newley e Bricusse) por vários artistas country, incluindo Waylon Jemmings, Patsy Cline e a dupla Johnny & Jack.


Vale registrarmos outras canções de sucesso com o mote “pare o mundo que eu quero descer” (mas o mote completo; canções que dizem apenas “Stop The World”, como a do Clash, não valem) com artistas os mais diversos.
No Festival de San Remo de 1963 (não 1967 como dizem algumas fontes) tivemos a charmosa bossa nova “Fermate Il Mondo” (sim, o refrão diz "fermate il mondo, voglio scendere"), composta por Bruno Canfora e Dino Verde. (O mote também deu título a uma pornochanchada de 1970 estrelando-lando-lando-Lando Buzzanca e exibida no Brasil em 1974.)


O povo inglês adora tal mote, como atestam as bandas Stone Roses (no refrão de “What The World Is Waiting For”, lançada em 1989) e Arctic Monkeys (2013) e o malucão ex-danado (ex-Damned, got it?) Captain Sensible (“Stop The World”, 1983).

Dos EUA, podemos citar por ora a banda Extreme (1992) e o grupo de soul-funk The Flaming Ember (1971), com “Stop The World And Let Me Off” “escondida” no lado-B de um dos dois maiores hits brasileiros do grupo, “Robot In A Robot’s World”  (sim, o outro é “Westbound No. 9”).
Nota-se que este disco de Silvio Brito atende também a três outros assuntos de meu interesse: rock brasileiro, festivais de música e canções de sucesso que também nasceram “escondidas” em lados-B de compactos, como “A Namorada Que Sonhei”, “Me Deixe Mudo” e “Primavera (Vai Chuva)”. E, por falar em compactos, quase todos os que exibi neste tópico vieram da maravilhosa página 45cat, que visa reunir todos os compactos de vinil lançados desde Adão e Eva até hoje – pelo jeito, vai conseguir, e sem demorar muito...

Friday, May 13, 2016

PREFIRO FICAR AQUI COM TODA A GENTE DOIDA: BREVE ESTUDO SOBRE DAVID BOWIE E O CIRCO

Sim, o inglês David Bowie (1947/2016) foi cantor, compositor, multi-instrumentista, ator – enfim, artista multimeios e versátil ao extremo de merecer o epíteto de “Camaleão”. E, sim, Bowie merece também figurar em minha pesquisa sobre música e circo, justamente a forma de entretenimento mais aberta a ecletismo e versatilidade. De sua primeira fase nos anos 1960 ao final agora nos anos 2010, a obra de Bowie tem muitas citações e associações ao circo, literal ou figurado, em música ou visuais, aludindo ao circo normal ou ao de horrores, de forma direta ou sutil, em obras mais obscuras e em alguns de seus grandes sucessos.

Logo que começou a existir como superastro, em 1972, Bowie foi elogiosamente associado ao circo numa reportagem sobre o show de lançamento de seu álbum Ziggy Stardust And The Spiders From Mars por Charles Shaar Murray no jornal inglês New Musical Express: “Há um circo itinerante de três picadeiros com pessoas cabeleireiras, pessoal da equipe técnica, quebra-galhos, seguidores de campo e bobos-da-corte, tudo girando em torno de um andrógino enganosamente delicado de 25 anos de idade chamado David Bowie.” (O recorte original segue logo aí abaixo).

Em “Life on Mars?”, do álbum anterior, Hunky Dory, de 1971, Bowie canta "'Rule Britannia' ["a grã-Bretanha governa"] passou dos limites/pra minha mãe, meu cachorro e os palhaços". E uma de suas últimas gravações, "Sue (Or In A Season Of Crime)", de 2014, usa em seu último verso o palhaço como adjetivo, "you went with that cloooooown..."; confiram aqui. E, sempre afeito a fazer boas regravações de canções alheias, em 1968-9 Bowie gravou uma demo (que hoje pode ser conferida no Youtube) da bela e perturbadora canção "Life Is A Circus" de Roger Bunn (1942/2005, que viria a ser o primeiro guitarrista da banda Roxy Music e por pouco não entrou para os Bluesbreakers de John Mayall em vez de Mick Taylor). Há pelo menos mais uma gravação de Bowie que menciona o circo e que teve de esperar para ser lançada, composta pelo próprio Bowie e nem esperou tanto para sair: “Karma Man”, gravada em 1967 e lançada em 1970 A gravação pode ser ouvida aqui. E seguem trechos da letra numa tradução livre:

O Sol na ponta dos dedos em tendas de “sideshow” de circo, eles(as) jogam as bolas
Em pele de coco que se esconde atrás de máscaras coloridas que te cegam os olhos
A mãe de cada criança segura uma casquinha de sorvete, eles formam um círculo em volta
Percebidas sem o saberem por um olho que espreita de um buraco na tenda onde ninguém vai
Uma figura sentada de pernas cruzadas no chão, ele está soterrado e vestido de túnicas cor de açafrão
Suas contas de colar são tudo o que ele possui

Diminua a velocidade
Alguém deve ter dito isso pra ele ir devagar
Diminua a velocidade
Está retratado nos braços do homem-karma

Pele de conto de fadas, retratando cenas de zoológicos humanos
Brinquedos impermanentes como a paz e a guerra, um rosto gentil que tu já viste antes
Homem-Karma tatuado em teu lado, a roda da vida
Vejo meus tempos e quem eu fui, eu só vivo agora e não sei por quê
Eu dou duro para aceitar essas imagens, mas
Todas as pessoas minhas amigas podem ver que é apenas a coloração rósea da pele dele

Diminua a velocidade
Alguém deve ter dito isso pra ele ir devagar
Diminua a velocidade
Está retratado nos braços do homem-karma

(A palavra “sideshow” não tem equivalente exato em português e designa atrações circenses secundárias como apresentações de artistas desconhecidos e aberrações do chamado “circo de horrores”.)

Falamos em circo dos horrores. Pois bem, embora um homem bonitão, Bowie não se furtou a citá-lo em pelo menos duas de suas obras. Uma é a capa do álbum Diamond Dogs, de 1974, onde ele aparece (numa pintura de Guy Peellaert) como um homem-cão, com direito a genitais proibidas pela censura nos EUA em alguns países; temos abaixo imagens das diversas versões da capa. (Se bem que todas as reedições do disco desde 1990 trazem a pintura original) A outra é o papel principal na montagem de 1980 da peça teatral The Elephant Man, baseada na vida do inglês John Merrick (1862/1890), a famosa vítima de uma doença mutiladora que não lhe deixou alternativa de sobrevivência além de se expor em circos de horrores; a atuação de Bowie mereceu muitos elogios da crítica, e alguns trechos podem ser conferidos aqui.



Mas o bonitão Bowie não se limitou a se enfeiar. Basta lembrarmos sua pose de pierrô no vídeo da canção “Ashes To Ashes” (vejam aqui) e na capa do álbum Scary Monsters And Super Creeps, de 1980 (a cujo título ele não faz jus nesta capa) e sua estreia teatral na peça Pierrot In Torquoise dirigida por Lindsay Kemp em 1967. O próprio Bowie assim se definiu para o jornal Daily Express em 1976: "Sou Pierrô. Sou Homem Comum. O que eu faço é teatro e apenas teatro. [...] O que se vê no palco não é sinistro. É pura palhaçaria. Uso a mim mesmo como uma tela e tento pintar a verdade de nosso tempo."

Bowie mostrou também ser bom de mímica no filme Labirinto (embora tenha usado um dublê para cenas de malabarismo) e no curta-metragem The Mask. de 1969 (vejam aqui). 


Não esqueceremos a ambiência circense da capa do álbum Never Let Me Down, de 1987.

Enfim, Bowie é uma espécie de Charlie Chaplin moderno: artista versátil que soube trazer o circo para plateias não-circenses. Suponho que Bowie tenha ainda outras menções ao circo em sua obra, mas, em todo caso, acho que esta amostra ficou boa. E temos ainda o álbum de três CDs A Son Of The Circus, ao vivo em 1987 e que talvez nem conte por ser pirata...


(Este artigo nasceu em forma mais embrionária no meu perfil do Facebook, e se expandiu graças, em parte, a comentários e contribuições de pessoas amigas como Mônica Ananias,  Maurício Maia, Sergio Martorelli, Gustavo Guimarães, Rosana Tokimatsu, Nadja Bandeira, Juliano Malinverni e Alzira Mammana (lembrei-me de que a canção “Karma Man” tinha a ver com o circo ao trazê-la a uma conversa com Alzira sobre religião hindu, pois que Bowie foi uma das primeiras pessoas a trazerem tal cultura para o Ocidente e também para a música pop-rockde forma explícita em letra de canção, embora já houvesse precedentes sonoros dos Kinks, Yardbirds e Beatles). Lembrarei também o apoio constante de Verônica Tamaoki – que, simplesmente, me transformou em pesquisador e até em artista circense. Continuo absolutamente são e, enquanto todos e todas estivermos juntos(as), o resto que se dane...)