Monday, August 08, 2016

MÚSICA BONITA DE SE VER: HOMENAGENS AO DR. IVO PITANGUY

Meu filho não se chama Ivo em homenagem ao agora saudoso cirurgião plástico Pitanguy, mas são dois Ivos que honram o nome e honrariam qualquer nome que tivessem. E acabo de me lembrar de que o Dr. Ivo Pitanguy foi citado em pelo menos duas canções. Uma é a marchinha carnavalesca hoje obscura "Plástica Do Dr. Pitanguy", derivada de "Sereia De Copacabana" e que pode ser ouvida aqui. (Dá vontade de fazer cirurgia plástica no selo do disco, pois esqueceram o "do" no título.)

A outra é "Coroa De Ipanema" deste emérito auto-referente, que lancei em 1997 na minha fita Desde Que O Brega É Brega e cita o Dr. Pitanguy no final da letra - uma das inspirações desta foi uma entrevista dele para a revista inglesa Mirabella no começo dos anos 1990, onde ele adverte não fazer milagres. Ouça aqui.

Friday, July 29, 2016

OS DONOS DAS VOZES: UMA RARIDADE PROMOCIONAL DA MÚSICA BRASILEIRA

Se você é grande fã de artistas como Clara Nunes, Altemar Dutra ou Sá, Rodrix & Guarabyra, você tem tudo o que essas pessoas gravaram? Tudo mesmo? Vejamos...

No começo dos anos 1970 a gravadora brasileira EMI-Odeon seguiu o exemplo de sua prima estadunidense Capítol nessa época de produzir spots promocionais para as rádios de alguns de seus lançamentos - só que estes spots brasileiros de 1972 trazem mensagens pessoais exclusivas dos próprios artistas, a saber: Altemar Dutra, Elza Soares, Milton Nascimento, Tony Nunes. Clara Nunes (nenhum parentesco), o trio Sá, Rodrix & Guarabyra, Tito Madi e Dori Caymmi.


Conheci este disquinho em minha estreia no rádio, como programador e operador na Rádio Alvorada de Lins, em 1977; eu dividi com alguns colegas da Escola de Engenharia de Lins a programação do Música Popular Variada da emissora, que gentilmente nos cedeu o espaço. A discoteca da rádio era muito boa, e ao descobrimos este compacto alguém da turma teve a ideia de usar a faixa de Milton Nascimento para promover seu novo LP de então, Milton, o que tem "Raça" e versões em inglês de "Cravo E Canela" e "Saídas E Bandeiras"; "Raça" até acabou entrando na programação normal da emissora..


E o segundo exemplar que vida na vida deste disco é o meu. Sim, o meeeeu, que encontrei na mais que recomendável loja paulistana Disco 7 no dia 27 de julho (27/7; até a data combinou com a loja) deste ano.

Sim, é um belo achado, mesmo que não essencial, para pessoas aficionadas e completistas, e pode ser ouvido aqui.

Wednesday, July 20, 2016

UM GRANDE ASSUNTO PEQUENININHO: PICOLINOS DA MÚSICA, RÀDIO E CIRCO NO BRASIL

"Quem procura acha", e quem procura uma coisa pode até achar várias. Pois bem, aqui vai um detalhe de minha pesquisa sobre circo e música brasileira que me rendeu também belas descobertas sobre a história do rádio no Brasil.

Nas minhas andanças encontrei referências a discos 78 RPM gravados por palhaços importantes como Eudu das Neves, Benjamin de Oliveira, Campos e Piolin. Ao deparar com um 78 creditado a Jayme Brito com uma "Turma do Picolino", julguei imediatamente tratar-se do palhaço Picolino, "al secolo" Nerino Avanzi (1885/1962), dono do memorável Circo Nerino (e pai do igualmente ilustre Roger Avanzi, o Picolino II), inclusive pelo título "A Los Toros" lembrar bordões espanholados, como "no me lo digas!", que Picolino adorava usar.


"Só que não", como dizem as pessoas jovens.

O próprio Roger Avanzi me disse que seu pai nada tem a ver com o Picolino desta gravação. Nem poderia ter também por outro motivo: o disco foi lançado em outubro de 1937 e este lado, segundo a Discografia Brasileira de 78 RPM, foi gravado no dia primeiro de julho do mesmo ano - exatamente no dia em que o Circo Nerino estava dando uma função boa demais da conta em Juiz de Fora, de acordo com o diário de bordo de Roger Avanzi (com muitas de suas informações reproduzidas no mais que recomendável livro Circo Nerino, escrito por Roger Avanzi com a emérita pesquisadora e produtora circense Verônica Tamaoki e lançado em 2004).

Foi o tipo da resposta que gerou novas perguntas. Quem seria então este outro Picolino? Mais uma cavocada me revelou quem ele não era: um artista negro desse nome que se revelou junto com o grande Henricão na mesma época. Nem tampouco tem a ver com "the piccolino", dança no estilo do yam, jitterbug, charleston e outras ancestrais do twist lançada (sem sucesso) no filme (de muito sucesso) Top Hat, de 1936, estrelado por Fred Astaire e Ginger Rogers e que no Brasil foi intitulado O Picolino.

Acabei descobrindo que o Picolino do disco acima refere-se ao Programa Picolino, apresentado pelo humorista Barbosa Jr. e transmitido pela Rádio Mayrink Veiga nos anos 1930 e pela Rádio Nacional na década seguinte. (Notem neste recorte do jornal A Noite de 12 de maio de 1942 a presença do mesmo Jayme Brito do disco acima.)



Pela notícia abaixo do jornal A Batalha, ouso dizer que o Programa Picolino, com uma hora de duração.  dedicado a música e humor sem abrir mão da espontaneidade, foi um Rádio Matraca antes do tempo. (E tenho fé em algum dia descobrir alguma gravação, mesmo que somente um trecho, desse programa.)



E desmenti uma afirmação sobre circo, mas confirmei outra. O Programa Picolino ajudou a revelar e divulgar artistas como os pianistas Dick Farney e José Maria de Abreu e o cantor romântico George Gomes.



George Gomes? Sim, você o conhece, mas com novos estilo e nome artístico que adotaria mais tarde: o grande palhaço-cantor Carequinha. (Este recorte é do jornal A Batalha e também de um dia 12 de maio, mas do ano de 1937. E agradeço ao acervo do grande e saudoso Leon Barg pelo selo do disco desta "Turma Do 'Picolino'".)

Tuesday, July 12, 2016

UM BANDO DE ZÉ PRETINHO CHEGOU ou VIXE, COMO TEM ZÉ PRETINHO NA PARAÍBA E NO BRASIL

Uma as primeiras coisas que se aprende ao estudar o circo brasileiro é que a comunicação de massa tem muita influência do circo; deste vieram muitos dos primeiros grandes astros do rádio e da televisão. Inevitavelmente, toda literatura ou tratado sobre a televisão brasileira fala do circo, e muita gente conheceu o circo na televisão – a definição de televisão como “circo eletrônico” resume tudo. E em minha pesquisa sobre música brasileira e circo descobri uma pequena filigrana em No Princípio Era o Som – A Minha Grande Novela, belo livro de memórias (Editora Madras, 1999) do grande diretor de televisão Régis Cardoso (1934/2005), que no começo da carreira exerceu também funções como músico, cenografista e até maquiador. Pois bem, assim lembra Régis Cardoso um detalhe de um seu trabalho com o diretor Oduvaldo Vianna, pai, no documentário Poeira De Estrelas (1948) que incluiu o grande violonista Antonio Rago e seu conjunto regional.
“Havia coisas estranhas, como maquiar de branco o pandeirista do Regional do Rago, Zé Pretinho. Naturalmente, ele ficava com cara de palhaço.”
Zé Pretinho? Na hora me lembrei daquele famoso personagem da MPB e da malandragem carioca dos anos 1930, que teve até uma briga com Noel Rosa (até hoje só vi uma foto dele, esta mesma, publicada no livro Noel Rosa, Uma Biografia.).
Mas este Zé Pretinho percussionista do conjunto de Antonio Rago é outro. E nenhum deles foi pioneiro no uso deste pseudônimo na MPB: há pelo menos um precursor, Zé Pretinho do Tucum, do qual até o momento apenas sei ter sido “o maior cantador e repentista do Piauí” e que em 1914 travou um desafio com Cego Aderaldo, desafio este lendário a ponto de inspirar um clássico da literatura de cordel, A peleja de Cego Aderaldo e Zé Pretinho, escrito por Firmino Teixeira do Amaral, e que pode ser lido e baixado em locais como este

Além deste arretado Zé Pretinho piauiense, no Nordeste há pelo menos mais dois Zé Pretinhos musicais. Um é o compositor e cavaquinhista Zé Pretinho da Bahia, nascido nos anos 1930 e que tem composições gravadas por ele mesmo e também Beth Carvalho, Noite Ilustrada e outros; há uma breve mas boa biografia aqui.


O outro é o líder da paraibana Banda Cabaçal do Mestre Zé Pretinho, formada m 1971 na cidade de Tavares e uma boa prova de que banda de pífanos não são exclusividade pernambucana. Mais detalhes aqui

E, sim, tem outra Banda do Zé Pretinho, aquela formada no Rio de Janeiro por Jorge Ben Jor e revelada no disco homônimo de 1978. Este LP é histórico por, além de sua qualidade e sucesso, ter sido o primeiro na gravadora Som Livre após muitos anos no selo Philips.


Todos esses Zés Pretinhos parecem ter tido inspiração no Zé Pretinho da umbanda, espécie de “malandro do bem”; se até pessoas entendidas em umbanda o confundem com o similar Zé Pelintra, não serei eu, com meu pouco estudo no assunto, a me arriscar a dizer bobagem e ter meu pé puxado à noite... E aqui vai um ponto de umbanda em homenagem a ele. Saravá! Zambá, Zambé, Zambi, Zambó, Zambu...

Wednesday, June 01, 2016

UM ASSUNTO DE PARAR O MUNDO

Pesquisa musical já é interessante (ao menos para mim), e fica mais interessante ainda quando pesquisamos sobre um assunto e de repente descobrimos algo que serve também para outra pesquisa paralela ou até outras.  


Muita gente deve conhecer a frase "pare o mundo que eu quero descer" de um hit de 1976 de Silvio Brito, no estilo de Raul Seixas - e que até foi citado em "Eu Também Vou Reclamar" deste último no ano seguinte (Silvio já havia mencionado Raul em “Tá Todo Mundo Louco”, e o resultado foi uma “briga” musical de brincadeira, versão roqueira e mais benigna da polêmica Noel Rosa x Wilson Baptista). Pois bem, a frase  "pare o mundo que eu quero descer" havia começado a fazer grande sucesso na música popular graças a uma peça musical inglesa deste título, Stop The World - I Want To Get Off, lançada em 1961, e cujos autores (Anthony Newley e Leslie Bricusse), ao que consta, haviam lido a frase numa pichação. Mas o importante é que este musical foi o primeiro produzido fora do circo a unir temática e cenário circenses (além de um dos grandes sucessos de Anthony Newley, ator e cantor que foi uma das maiores influências de David Bowie) - sim, este artigo nasceu de minha.famosa e homérica pesquisa sobre música e circo.

E esta nunca por demais referida frase foi usada pelo circo pelo menos mais uma vez, na marchinha carnavalesca “Pára O Mundo Aí” (mantive o acento porque “Para O Mundo Aí” quer dizer outra coisa), lançada por Arrelia e Pimentinha em 1964.


E, com ou sem pichação, a frase “stop the world and let me off” já havia sido usada em música antes deste musical londrino pelo menos duas vezes, num rhythm & blues composto por Jerry Joyce (com Hal Winn e Arnold Koppitch) e lançado pelo inglês Don Lang em 1956 (com crédito no disco somente a “Joyce”; descobri a autoria completa aqui) e num rockabilly composto e lançado por Carl Belew em fins de 1957 e regravado com sucesso (embora menor que o musical de Newley e Bricusse) por vários artistas country, incluindo Waylon Jemmings, Patsy Cline e a dupla Johnny & Jack.


Vale registrarmos outras canções de sucesso com o mote “pare o mundo que eu quero descer” (mas o mote completo; canções que dizem apenas “Stop The World”, como a do Clash, não valem) com artistas os mais diversos.
No Festival de San Remo de 1963 (não 1967 como dizem algumas fontes) tivemos a charmosa bossa nova “Fermate Il Mondo” (sim, o refrão diz "fermate il mondo, voglio scendere"), composta por Bruno Canfora e Dino Verde. (O mote também deu título a uma pornochanchada de 1970 estrelando-lando-lando-Lando Buzzanca e exibida no Brasil em 1974.)


O povo inglês adora tal mote, como atestam as bandas Stone Roses (no refrão de “What The World Is Waiting For”, lançada em 1989) e Arctic Monkeys (2013) e o malucão ex-danado (ex-Damned, got it?) Captain Sensible (“Stop The World”, 1983).

Dos EUA, podemos citar por ora a banda Extreme (1992) e o grupo de soul-funk The Flaming Ember (1971), com “Stop The World And Let Me Off” “escondida” no lado-B de um dos dois maiores hits brasileiros do grupo, “Robot In A Robot’s World”  (sim, o outro é “Westbound No. 9”).
Nota-se que este disco de Silvio Brito atende também a três outros assuntos de meu interesse: rock brasileiro, festivais de música e canções de sucesso que também nasceram “escondidas” em lados-B de compactos, como “A Namorada Que Sonhei”, “Me Deixe Mudo” e “Primavera (Vai Chuva)”. E, por falar em compactos, quase todos os que exibi neste tópico vieram da maravilhosa página 45cat, que visa reunir todos os compactos de vinil lançados desde Adão e Eva até hoje – pelo jeito, vai conseguir, e sem demorar muito...

Friday, May 13, 2016

PREFIRO FICAR AQUI COM TODA A GENTE DOIDA: BREVE ESTUDO SOBRE DAVID BOWIE E O CIRCO

Sim, o inglês David Bowie (1947/2016) foi cantor, compositor, multi-instrumentista, ator – enfim, artista multimeios e versátil ao extremo de merecer o epíteto de “Camaleão”. E, sim, Bowie merece também figurar em minha pesquisa sobre música e circo, justamente a forma de entretenimento mais aberta a ecletismo e versatilidade. De sua primeira fase nos anos 1960 ao final agora nos anos 2010, a obra de Bowie tem muitas citações e associações ao circo, literal ou figurado, em música ou visuais, aludindo ao circo normal ou ao de horrores, de forma direta ou sutil, em obras mais obscuras e em alguns de seus grandes sucessos.

Logo que começou a existir como superastro, em 1972, Bowie foi elogiosamente associado ao circo numa reportagem sobre o show de lançamento de seu álbum Ziggy Stardust And The Spiders From Mars por Charles Shaar Murray no jornal inglês New Musical Express: “Há um circo itinerante de três picadeiros com pessoas cabeleireiras, pessoal da equipe técnica, quebra-galhos, seguidores de campo e bobos-da-corte, tudo girando em torno de um andrógino enganosamente delicado de 25 anos de idade chamado David Bowie.” (O recorte original segue logo aí abaixo).

Em “Life on Mars?”, do álbum anterior, Hunky Dory, de 1971, Bowie canta "'Rule Britannia' ["a grã-Bretanha governa"] passou dos limites/pra minha mãe, meu cachorro e os palhaços". E uma de suas últimas gravações, "Sue (Or In A Season Of Crime)", de 2014, usa em seu último verso o palhaço como adjetivo, "you went with that cloooooown..."; confiram aqui. E, sempre afeito a fazer boas regravações de canções alheias, em 1968-9 Bowie gravou uma demo (que hoje pode ser conferida no Youtube) da bela e perturbadora canção "Life Is A Circus" de Roger Bunn (1942/2005, que viria a ser o primeiro guitarrista da banda Roxy Music e por pouco não entrou para os Bluesbreakers de John Mayall em vez de Mick Taylor). Há pelo menos mais uma gravação de Bowie que menciona o circo e que teve de esperar para ser lançada, composta pelo próprio Bowie e nem esperou tanto para sair: “Karma Man”, gravada em 1967 e lançada em 1970 A gravação pode ser ouvida aqui. E seguem trechos da letra numa tradução livre:

O Sol na ponta dos dedos em tendas de “sideshow” de circo, eles(as) jogam as bolas
Em pele de coco que se esconde atrás de máscaras coloridas que te cegam os olhos
A mãe de cada criança segura uma casquinha de sorvete, eles formam um círculo em volta
Percebidas sem o saberem por um olho que espreita de um buraco na tenda onde ninguém vai
Uma figura sentada de pernas cruzadas no chão, ele está soterrado e vestido de túnicas cor de açafrão
Suas contas de colar são tudo o que ele possui

Diminua a velocidade
Alguém deve ter dito isso pra ele ir devagar
Diminua a velocidade
Está retratado nos braços do homem-karma

Pele de conto de fadas, retratando cenas de zoológicos humanos
Brinquedos impermanentes como a paz e a guerra, um rosto gentil que tu já viste antes
Homem-Karma tatuado em teu lado, a roda da vida
Vejo meus tempos e quem eu fui, eu só vivo agora e não sei por quê
Eu dou duro para aceitar essas imagens, mas
Todas as pessoas minhas amigas podem ver que é apenas a coloração rósea da pele dele

Diminua a velocidade
Alguém deve ter dito isso pra ele ir devagar
Diminua a velocidade
Está retratado nos braços do homem-karma

(A palavra “sideshow” não tem equivalente exato em português e designa atrações circenses secundárias como apresentações de artistas desconhecidos e aberrações do chamado “circo de horrores”.)

Falamos em circo dos horrores. Pois bem, embora um homem bonitão, Bowie não se furtou a citá-lo em pelo menos duas de suas obras. Uma é a capa do álbum Diamond Dogs, de 1974, onde ele aparece (numa pintura de Guy Peellaert) como um homem-cão, com direito a genitais proibidas pela censura nos EUA em alguns países; temos abaixo imagens das diversas versões da capa. (Se bem que todas as reedições do disco desde 1990 trazem a pintura original) A outra é o papel principal na montagem de 1980 da peça teatral The Elephant Man, baseada na vida do inglês John Merrick (1862/1890), a famosa vítima de uma doença mutiladora que não lhe deixou alternativa de sobrevivência além de se expor em circos de horrores; a atuação de Bowie mereceu muitos elogios da crítica, e alguns trechos podem ser conferidos aqui.



Mas o bonitão Bowie não se limitou a se enfeiar. Basta lembrarmos sua pose de pierrô no vídeo da canção “Ashes To Ashes” (vejam aqui) e na capa do álbum Scary Monsters And Super Creeps, de 1980 (a cujo título ele não faz jus nesta capa) e sua estreia teatral na peça Pierrot In Torquoise dirigida por Lindsay Kemp em 1967. O próprio Bowie assim se definiu para o jornal Daily Express em 1976: "Sou Pierrô. Sou Homem Comum. O que eu faço é teatro e apenas teatro. [...] O que se vê no palco não é sinistro. É pura palhaçaria. Uso a mim mesmo como uma tela e tento pintar a verdade de nosso tempo."

Bowie mostrou também ser bom de mímica no filme Labirinto (embora tenha usado um dublê para cenas de malabarismo) e no curta-metragem The Mask. de 1969 (vejam aqui). 


Não esqueceremos a ambiência circense da capa do álbum Never Let Me Down, de 1987.

Enfim, Bowie é uma espécie de Charlie Chaplin moderno: artista versátil que soube trazer o circo para plateias não-circenses. Suponho que Bowie tenha ainda outras menções ao circo em sua obra, mas, em todo caso, acho que esta amostra ficou boa. E temos ainda o álbum de três CDs A Son Of The Circus, ao vivo em 1987 e que talvez nem conte por ser pirata...


(Este artigo nasceu em forma mais embrionária no meu perfil do Facebook, e se expandiu graças, em parte, a comentários e contribuições de pessoas amigas como Mônica Ananias,  Maurício Maia, Sergio Martorelli, Gustavo Guimarães, Rosana Tokimatsu, Nadja Bandeira, Juliano Malinverni e Alzira Mammana (lembrei-me de que a canção “Karma Man” tinha a ver com o circo ao trazê-la a uma conversa com Alzira sobre religião hindu, pois que Bowie foi uma das primeiras pessoas a trazerem tal cultura para o Ocidente e também para a música pop-rockde forma explícita em letra de canção, embora já houvesse precedentes sonoros dos Kinks, Yardbirds e Beatles). Lembrarei também o apoio constante de Verônica Tamaoki – que, simplesmente, me transformou em pesquisador e até em artista circense. Continuo absolutamente são e, enquanto todos e todas estivermos juntos(as), o resto que se dane...)

Tuesday, May 03, 2016

ACONTECE QUE ELE É CAYMMI: ENTREVISTA A BIG MUG EM 1994

Um de meus grandes orgulhos como pesquisador e jornalista foi ter entrevistado um de meus heróis, o compositor e cantor Dorival Caymmi (1914/2008), quando ele completou nada aparentes 80 anos de idade, em 1994. A entrevista rendeu uma matéria para a saudosa revista Qualis, e eu e o fotógrafo Carlos Mancini fomos recebidos pelo autor de “Sábado Em Copacabana” no seu apartamento carioca em 20 de outubro de 1994 – uma quinta-feira em Copacabana. Dorival nos falou de toda sua carreira por duas horas e meia, e só parou porque tinha de acompanhar em consulta médica a esposa , Stella Maris (“minha gata”). A entrevista foi gravada (em boas e fieis fitas cassete) e pode ser ouvida aqui na íntegra; confiram o mestre lembrando suas primeiras notas ao violão com “Tatu Subiu No Pau”, uma breve porém marcante interpretação da valsa “Boa Noite, Amor” de José Maria de Abreu e Francisco Mattoso, a então recente “Maricotinha”, seus elogios a artistas como Jorge Ben Jor e Almir Sater, suas opiniões sobre o rock and roll e o pagode moderno, o que significa “liforme” e muito mais, mantendo a boa voz do radialista que foi quando jovem na Bahia. Ouçam aqui.

E temos abaixo o artigo resultante da entrevista, publicado em novembro de 1994 e incluindo a mais completa discografia publicada até então (pena que aparentemente este artigo não chegou à atenção de Stella Caymmi quando ela escreveu seu sumamente recomendável livro sobre o avô, O Mar E O Tempo, lançado pela Editora 34 em 2001).
  















(Carlos Mancini tirou fotos de repórter e entrevistado, mas não as localizei no momento; voltarei para incluir tão logo elas apareçam.)

Aproveitei a viagem, a qual foi pequenininha, para pedir a Dorival que autografasse alguns itens de meu acervo, o que ele fez prazerosamente, e ao longo deste tópico coloquei amostras como esta.


E, além da entrevista em áudio e da matéria publicada, resolvi trazer para o blogue alguns bônus de informações sobre Dorival (notem que quase sempre procuro evitar me referir a ele como apenas “Caymmi” – embora ele próprio fizesse isso –, pois sua prole já há décadas honra muito o sobrenome).

CAYMMI E TOM
Ainda em novembro de 1994, mal saiu esta edição da revista, perdemos Tom Jobim, e a Qualis fez um número especial sobre ele. A redação colheu depoimentos de pessoas ligadas a Mr. Jobim, e obviamente uma das primeiras pessoas a serem lembradas foi Dorival Caymmi, que inclusive fez várias gravações com o jovem colega (Tom era quase treze anos mais moço que Dorival); a boa repercussão de minha entrevista com Dorival garantiu-me a honra de falar com ele sobre Tom. E assim falou o mestre baiano (pena que desta vez não tive como gravar...): “Eu não gosto de enterros, não fui ao enterro. Meu jovem amigo Tom é um ser vivo. Por toda a minha vida eu sei que vou amá-lo!”




ENCARTE DE CAYMMI
Não é todo mundo que sabe que um dos primeiros LPs de Dorival Caymmi, Sambas De Caymmi, um 10 polegadas lançado em 1955, tem um encarte com as letras do disco. Este encarte tem ilustrações do próprio Caymmi e é hoje bem mais raro que o disco. Aqui vai ele, completo com a capa de meu exemplar autografado.

 

CAYMMI E A PUBLICIDADE
Ser antitabagista não me impede de lembrar uma canção de Dorival Caymmi composta especialmente para uma marca de cigarros em 1975, mas que, felizmente, funciona independente dos ditos como uma canção laudatória ao Brasil no melhor sentido, lançada num hoje raro compacto simples.
 

CAYMMI E GAROTO
Outro grande nome da MPB que merece um grande estudo destes é o saudoso multi-instrumentista Garoto (1915/1955), que em sua curta vida e carreira fez shows e gravações com artistas diversos como Carmen Miranda, Laurindo Almeida, Aracy de Almeida, Alvarenga & Ranchinho, Paraguassú, Mario Albanese e, siiiiim!, Dorival Caymmi, como prova a primeira gravação de “Promessa De Pescador” (a mesma regravada por Carlos Santana décadas depois). de 1939 – temos aqui os selos de reedições dos anos 1940 e 1950.


CAYMMI E O CIRCO
Um artista dos mais importantes como Dorival Caymmi não poderia faltar em minha pesquisa sobre a música brasileira e o circo. Pois bem, o mais grandioso show de sua carreira foi num circo - mais exatamente, as ruínas do Circo Massimo de Roma, em agosto de 1983, participando de um megaevento  - talvez o maior já realizado - de música brasileira no exterior; há mais detalhes no livro O Mar E O Tempo. E trarei o que mais eu descobrir sobre Dorival e o circo.

O CANTOR DORIVAL CAYMMI
Dorival Caymmi, além de cantor e violonista dos melhores, poderia ter feito uma bela carreira apenas com seus dotes vocais,como demonstram suas poucas e boas interpretações de canções alheias. Talvez a melhor seja “Na Baixa Do Sapateiro” de Ary Barroso – justamente “o mais baiano dos compositores não nativos da Bahia”. Ouçam aquiOutro bom exemplo é sua gravação de “Essa Nêga Fulô”, versos de Jorge de Lima musicados por Oswaldo Santiago (e que ganhariam melodia diferente de Waldemar Henrique na gravação posterior de Jorge Fernandes), lançada em 1941 pelo selo Columbia e relançado dois anos depois, logo após este selo ter mudado de nome para Continental. Notem o sobrenome de Caymmi grafado no selo de forma mais próxima ao original italiano, “Caimi” (um bom resumo da genealogia está no livro O Mar E O Tempo).


CAYMMI DIGITAL
Quase toda a obra de Dorival Caymmi foi lançada pela gravadora Odeon (mais tarde rebatizada EMI), que em 2000 reuniu tudo (ou pelo menos quase) numa bela caixa de CDs, Caymmi, Amor E Mar (uma caixa mesmo, com mais de 14 faixas por CD). Não faltou o primeiríssimo disco – e  também primeiro sucesso – de DC, “O Que É Que A Baiana Tem?”, em dueto com Carmen Miranda, de 1939. Por ora, tenho alguns dos primeiros compact-discs de Dorival, inclusive um que é quase caso para o PROCON: uma coletânea de faixas de Dorival e Nana onde apenas uma faixa é realmente dueto de pai e filha, as outras sendo gravações solo dele e dela – mas este CD vale a pena por reunir raridades do paizão dos anos 1940, como a gravação original de “Marina”, em andamento bem mais vivo (e, ao menos para mim, melhor) que o samba-canção em que a canção se tornou.


CAYMMI INSPIRADOR
E  já que no meu espaço posso falar de mim, lembrarei duas canções caymmianas de minha autoria, uma mais bem-humorada e a outra mais lírica. A engraçadinha é “Claudia Eliana”, de 1995, com influência direta da entrevista e de semanas ouvindo o mestre e seguindo-lhe o exemplo de colocar em música damas que já são poemas e melodias. Podes ouvi-la aqui. E a bonita é “A Letra Do Caymmi”, de 2011, versos meus com belas melodia e interpretação da parceirona Socorro Lira – sim, trata-se de uma paraibana e um paulista homenageando um baiano. Ouça aqui.

Terminando pelo começo, incluo uma imagem do citado primeiro disco de Dorival Caymmi, que cantando modas muita figura fez e do danado do samba nunca se separou...