Thursday, April 21, 2022

ANGELI E A MUSICA: GRANDE CAPISTA E QUADRINHISTA... E QUASE CANTOR

 

Pena o cartunista e quadrinhista paulistano Angeli ter anunciado o fim de sua carreira por ter contraído afasia (1). Com obra grande em todos os sentidos, Angeli retratou o submundo, a porralouquice e a escrotidão de forma satírica o suficiente para ridicularizar e fazer rir, mas ao mesmo tempo com humanidade e elegância o suficiente – inclusive, a meu ver, ainda melhor do que Robert Crumb, óbvia e grande influência – para ser apreciado até por não fãs de quadrinhos underground. E venho por meio deste homenageá-lo pelo lado musical.

Assunto é o que não falta, e não apenas no rock. Basta lembrar suas sátiras ao rock carioca (“na minha banda tem duas gatinhas que fazem um vocalzinho”), à bossa nova e às pessoas bossaminions (“João é gênio! João é Deus! João é João!”) e à critica musical metida a besta (na pessoa do personagem Rui Resenha). E Angeli tem lugar no livro que estou escrevendo sobre a Disney e a música brasileira graças a desenhos como este:


E Angeli é autor de algumas capas de discos. Talvez sua primeira capa tenha sido uma das ultimas grandes capas de compactos brasileiros (2), do segundo megahit da banda Magazine, “Tic-Tic Nervoso”, lançado em julho de 1984. Certamente, hoje a contracapa levaria Angeli, a banda e a gravadora aos tribunais, ou pelo menos cancelamento, por pedofilia...




Mas antes desta capa Angeli desenhou pelo menos uma contracapa, para o primeiro álbum-solo de Paulinho Boca de Cantor, sem titulo, lançado em outubro de 1979.



Lembremos também três coletâneas de rock com diversos/as artistas. Uma é o LP Neo Rock, de 1984. (Um atrativo especial deste disco é o texto de contracapa escrito por, vejam só, Ruy Castro. Não, não é Rui Resenha, é Ruy Castro mesmo, talvez a última pessoa de quem se esperaria um texto sobre rock brasileiro dos anos 1980, apreciador de bossa nova e de música estadunidense dos anos 1940 e que considera composições de rock como “garranchos”. Neste disco Ruy é até simpático para com o rock brasileiro dos anos 1980: “Um dia, o Brasil inteiro terá 14 anos e seremos todos felizes para sempre.”)

 



Outra coletânea pegou a onda de discos-tributos (é proibido compor, diz o mercado, eu vi) dos anos 1990: Rei, lançado pela Sony em novembro de 1994 e reunindo canções de Roberto Carlos nas interpretações de artistas como o Barão Vermelho, Blitz e Carlinhos Brown.



E a terceira é uma das muitas fitas cassete com belos livretos informativos patrocinadas pela empresa BASF (3): Rock In Brasil – O Balanço Das Gerações, lançada em junho de 1987.

Há pelo menos uma capa de Angeli para disco inspirado na obra dele próprio: um single independente de 12 polegadas do artista performático Lord K, lançado em 1988, cada lado homenageando um personagem, “Rê Bordosa” e “Rhalah Rikota” – esta em duas versões, proibida (“se você tem andado meio brocha [...] Rhalah dá mais de quatro sem sair de cima”) e liberada (“se você tem andado de galocha [...] Rhalah pagou o pato mas não perdeu a rima”).


E Angeli tem muito a ver com a banda Lingua de Trapo. Além de shows e eventos onde o vocalista Laert Sarrumor interpretava Bob Cuspe (e Angeli desenhou a orelha do primeiro livro de Laert Sarrumor, Mil Piadas Do Brasil) e o saudoso guitarrista Lizoel Costa se revelava o “Meiaoito preferido” de Angeli, este foi entrevistado uma vez no programa Radio Matraca; surgiu a ideia de ele cantar uma canção, acompanhado ao violão por este que vos tecla, e o resultado foi esta versão samba-canção-rock de “Ela Disse-Me Assim” deLupicinio Rodrigues – , completo com a opinião sincera e imparcial do filho de Angeli, presente na emissora (na época a FM 97) com o paizão.

Algumas informações para este texto são desta pagina. Curiosidade adicional: o cidadão Arnaldo Angeli Filho (4) é primo em terceiro grau (os pais de ambos eram primos-irmãos) de Valdir Angeli, meu parceiro no hit “Rebel Dog Blues” e também capaz de brincar de cantor em ocasiões como esta, em 1986, imitando Johnny Rottencantando “Yesterday”.

Notas:

(1) Cabe explicação sobre essa doença e esperança, se não de cura, de pelo menos administração, e aqui vai uma

(2) Em 1985 as grandes gravadoras brasileiras, que são empresas visando lucros, imagina se não fossem, resolveram parar de lançar compactos de 7 polegadas, dedicando-se apenas a LPs e compactos de 12 polegadas.

(3) Outros belos documentários sonoros patrocinados pela BASF em fita cassete, formato muito popular até os anos 1990, incluem Antologia Da Sátira Brasileira, de 1985, e Canto Livre, O Grito Da Raça, comemorando os cem anos da abolição oficial da escravatura no Brasil.

(4) Nascido em 31 de agosto de 1956, Angeli é citado em meu samba "Virginiano", lançado em 1992.

Tuesday, April 12, 2022

UMA BELA MATÉRIA DE CAPAS: HOMENAGEM A ELIFAS ANDREATO (1946/2022)

 


Ouvistes o que foi dito: "Não se julga livro ou disco pela capa". Certo, mas uma embalagem bonita e funcional não machuca ninguém, pelo contrário, valoriza o produto em todos os sentidos. O desenvolvido capitalismo ianque e europeu aceita e estimula até empresas especializadas em capas de discos, como as saudosas Hipgnosis e Pacific Eye & Ear. Da América do Sul, este que vos escreve não se lembra de empresas ou de artistas individuais especializados (as) em capas de discos, mas sim de pessoas artistas gráficas, ilustradoras e caricaturistas que brilharam nesse serviço, como o argentino Juan Gatti e, no Brasil, Miécio Caffé, Lan, Juarez Machado, Cesar Villela na gravadora Elenco, Joselito na Musidisc e na RCA, Tebaldo, Aldo Luiz, Oscar Paolillo, Cafi e... Elifas Andreato, autor de muitas capas de livros, cartazes, cenários e figurinos de peças e shows, fascículos e, o que nos interessa agora, capas de discos, cerca de trezentas.

PONDO BANCA



Infelizmente falecido agora em 29 de março de infarto aos 76 anos, o ilustre paranaense Elifas Vicente Andreato teve o melhor tipo de fama: muita gente  conhece e admira sua obra sem saber que é dele. Na música brasileira esse momento tem até data, 8 de junho de 1970, quando o Brasil realmente amanheceu mudado para melhor (1): nesse dia estreou nas bancas de revistas a coleção de fascículos & discos História da Música Popular Brasileira da editora Abril, projeto sem precedentes e com poucos iguais em termos de pesquisa, popularização e acabamento gráfico e técnico (2). Elifas está nos créditos, parte das mais importantes e das menos lidas...

 



Ilmar Carvalho elogia Elifas não nominalmente no Correio da Manhã de 11 de junho de 1970


Esta coleção foi um dos grandes marcos da estreia de Elifas como diretor de arte da Abril Cultural, divisão de fascículos da Abril. (3) E ele marca presença no livro que estou escrevendo sobre a Disney e a música brasileira graças a outro seu trabalho na Abril: a coleção Estorinhas De Walt Disney (4), lançada em janeiro do mesmo ano.




PALHAÇOS E LÁGRIMAS

Na música popular costumam ser lembradas as categorias de intérprete e, não muito em seguida, a de compositor (a). Nos anos 1980 acenderam-se merecidos holofotes para duas outras importantes categorias da indústria cultural: a pessoa arranjadora e a autora de capas de discos – mas por um lado negativo. Explicarei. Ao lado de grandes como Radamés Gnattali, Rogério Duprat e Miguel Cidras, um nome começou a ser citado como exemplo do que arranjadores não deveriam ser. Sim, ele mesmo, Lincoln Olivetti (1954/2015), sem dúvida competente e talentoso, mas, de tão requisitado, passou a se repetir, tornando-se o artista brasileiro mais formulaico depois do imbatível Roberto Carlos. (5) Pois aconteceu o mesmo com Elifas, embora, felizmente, por muito menos tempo, em menor grau e mantendo boa qualidade.

Homem étudo palhaço”, proclama um blogue carioca de humor feminista. Artista musical também? Elifas Andreato marca ilustre presença em outro livro que estou escrevendo, sobre a música brasileira e o circo, pois muitas de suas capas, cenários e figurinos têm inspiração circense, mas em várias delas ele demonstrou tendência a transformar todo e toda artista em palhaço triste. “Os palhaços sempre me fascinaram, talvez porque eu os veja como a ideia mais bem acabada do artista, agentes da esperança, capazes de expressar a felicidade do homem num instante, no momento”, resumiu Elifas. Esta fase lhe inspirou boas capas – mas com uma repetição aquém da alta média de sua obra. Senão, vejamos.

 


 

Casa De Brinquedos, Toquinho e outros/as (Ariola, agosto de 1983)
Clube Da Criança, incluindo Carequinha, Patricia (futura Marx, mas não contem a ninguém) e uma pessoa apresentadora cujo nome omitimos para evitar repugnância em quem gosta de crianças (RCA, março de 1984)
O Sorriso Ao Pé Da Escada, Jessé (RGE, junho de 1983 - e Elifas aparece também como compositor em parcerias com Jessé)
Aqualouco, Grupo Acaru (Café/Fermata, 1981)
Cenas, Roberto Riberti (Chantecler, junho de 1979 - insatisfeito com a baixissima vendagem, Riberti relançou o disco de forma independente ainda nesse ano)
Elis Vive, Elis Regina (coletânea de gravações de 1965 a 1981; Elenco, janeiro de 1984)

Em 1975 Roberto Moura, jornalista d’O Pasquim, elogiou a capa do álbum desse ano (sem título e que inclui “Amor À Natureza”) de Paulinho da Viola nestes termos: “uma apresentação tão sóbria quanto era possível a Elifas Andreato”. Sete anos depois, Moura esculhambou o show Mel de Maria Bethânia: “A direção de Wally Salomão inexiste. A regência [no jornal saiu “agência”] de Perinho Albuquerque é constrangedora [...] arranjos redundantes e banais. Não escapam sequer os cenários de Elifas Andreato, em seu pior momento.” E em 1980 Moura, com seu belo nome de colírio elogiando o que lhe faz bem ao olhar, resume como “magnífica” a capa do LP de Adoniran desse ano, ressaltando que tal detalhe contribui para este ser o álbum mais elaborado do Poeta do Bixiga e de toda Sampa.

A Folha de S. Paulo chegou a afirmar que o pior disco de música brasileira seria de Fagner interpretando canções de Gonzaguinha – outro artista que tardou a ser valorizado – com arranjos de Lincoln Olivetti e capa de Elifas. Uma gozação mais afetuosa está no único LP do saudoso humorista e músico Serginho Leite (1955/2011) (sem título, lançado pela Som Livre em maio de 1984), na faixa “Salsa Pra Ilha”, onde Serginho encarna o personagem Billy Gomez, cantor ansioso por sucesso mas, não sabendo o que quer, se submete às gravadoras que também não sabem mas pensam saber (ouça essa faixa e, melhor ainda, o disco todo aqui):

Sou artista importante

Tenho gravadora multinacional

Sou de nível internacional

Fui vaiado num festival

Já fiz disco em Los Angeles

Capa do Elifas, Tárik gostou

FM me boicotou

Meu trabalho não emplacou (6) 

Outra sátira às capas de Elifas é Brincando Com Fogo do Língua de Trapo, de 1992; por sinal, esta capa, idealizada por Cassiano Roda e desenhada por Rodval Matias, é grande exemplo de sátira bem-feita a ponto de funcionar como arte, chegando a ser eleita a melhor capa brasileira do ano pela revista Bizz.


Eu mesmo cheguei a fazer uma piada com as capas de Elifas – inédita até este momento. Meu segundo lançamento musical, a fita cassete Brega Segundo Brega, lançada em outubro de 1985, é o único a não ter ficha técnica nem créditos de autoria. É que tudo isso iria sair num luxuoso encarte (luxuoso por meus padrões) que acabou não saindo... Uma das faixas, “Os Metaleiros Também Amam”, foi a inspiradora desta sátira não somente a Elifas mas também ao heavy-metal, que também se tornava gênero formulaico graças a tantos imitadores de Iron Maiden e Motorhead. Notem as cerifas nas letras... E percebe-se que antecipei a banda Massacration em quase 20 anos. (7)

 


Mas quase em seguida, em 1986, este galhofeiro elogiou bem humoradamente Elifas na revista Somtrês, ao comentar positivamente o álbum Dezembros de Maria Bethânia: “Elifas Andreato prova aos desavisados que não vive só de boneca morta e palhaço chorando.” Realmente, um artista como Elifas não se mede por uma parte de sua obra, e a música brasileira tem muitas boas capas que “nem parecem de Elifas”; aí vai uma amostra.

 



Nave Maria/Bandança, Tom Zé (RGE, novembro de 1984)
Almanaque, Chico Buarque (Ariola, novembro de 1981)
Trocando "Figura", Jean & Paulo Garfunkel, Celso Viafora e César Brunetti (Copacabana, novembro de 1986)
Perto De Casa, Rolando Boldrin (RGE, abril de 1991)
Pastoril Do Faceta, Faceta (Clack/WEA, novembro de 1980)
Carrancas, João Ba (independente, 1989)
Eu Canto Samba, Paulinho da Viola (RCA, janeiro de 1989)
Um Conto Que Virou Canto, Thelma Chan e corais infantis (independente, novembro de 1991)
Dezembros, Maria Bethânia (RCA, novembro de 1986)
Vânia Bastos, Vânia Bastos (Copacabana, novembro de 1986)


BASTAM DOIS RISCOS NUMA FOLHA QUALQUER


Até meados dos anos 1970 a CBS tinha como grande orgulho ser a mais brega das grandes gravadoras brasileiras, especialmente nas capas, sem encartes e quase sempre simplonas, “tudo pobreza”, como resumiu Ezequiel Neves; impossível imaginar a CBS investindo em artistas gráficos como Elifas, mas com o tempo isso aconteceu, após a transformação da gravadora em Sony Music no fim dos anos 1980, cujos lançamentos incluíram Martinho Da Vida (1990), Moleques De Rua (1992) e uma bela série de CDs, Escolas de Samba/Enredos, de 1994, cujas capas couberam a Elifas.

 

Tarik de Souza no Jornal do Brasil, 13 de abril de 1980.


“Tudo pobreza”? Pois bem, a competência e criatividade de artistas como Elifas Andreato não dependem de verba ou espaço. Basta lembrarmos dois exemplos extremos, por coincidência ambos de cantoras. Um é o álbum Lápis De Cor de Fátima Guedes (EMI, abril de 1980), de produção apurada, sendo inclusive a primeira capa de disco em todo o mundo encadernada com espiral, imitando caderno escolar (8). O outro é a singela mas bonita e eficiente capa do primeiro disco de Vânia Bastos (Copacabana, novembro de 1986), tão-somente uma bela foto na frente – a fotogenia e simpatia de Vânia ajudam muito e até bastam – e as letras e ficha técnica atrás. Sim, a qualidade de uma capa de disco não depende de ela ser dupla ou quíntupla, incluir dez pôsteres e envelopes, luzinhas coloridas ou outros, como se diz, disfarces para encobrir música que não tenha a mesma qualidade.


UM RECADO NA PORTA: EU E ELIFAS


Falei da presença de Elifas em livros que estou escrevendo. Pois bem, o mestre marca ilustre presença num livro que já escrevi: Adoniran – Dá Licença De Contar, lançado pela Editora 34 em 2002; entrevistei-o rapidamente sobre sua capa para o álbum Adoniran E Convidados. (9) E posso dizer que estou num disco que tem capa de Elifas: Um Conto Que Virou Canto, de corais infanto-juvenis com regência de Thelma Chan, lançado de forma independente em 1991 e onde me revelei para o público infanto-juvenil, participando como músico e compositor e lançando meus quase-sucessos “Isto É Samba” e “Nanico”. (10)


ALGUNS DETALHES FINAIS


Há pelo menos dois livros sobre Elifas, belas flores que ele recebeu em vida. Uma, aliás, ele mesmo plantou, o autobiográfico Impressões (Bamerindus, 1993); o outro é Vai, DJ! O Intrigante Caso Dos Discos Perdidos, de João Rocha Rodrigues (Palavrinhas, 2021), que inclusive pode ser lido aqui  .




Notemos que Elifas era tão criativo que suas capas nada ou quase perdiam na transição para formatos de tamanhos menores que LPs, como fita cassete e CD; algumas até já nasceram pequenas e notáveis neste formato, como a supramencionada (gostaram?) série dedicada a sambas-enredos.

E notem que, para ressaltar neste artigo a produtividade e criatividade de Elifas, mostrei apenas uma capa de cada artista...

 Notas:

(1)   Houve quem louvasse como uma data dessas o lançamento da caixa Ensaio Geral de Gilberto Gil (8 de março de 1999), projeto bem-vindo e grandioso, mas ainda refém de vícios da gravadora brasileira, omitindo algumas faixas devido ao limite draconiano brasileiro de 14 faixas por CD.

(2)  Os fascículos tinham páginas coloridas e os LPs, de dez polegadas, traziam oito a dez faixas, a preço de lançamento de sete cruzeiros, preço mais que excelente; um compacto duplo sem encarte algum custava cerca de seis...

(3)  Elifas participa também da segunda edição do projeto, Nova História da Música Popular Brasileira, lançada em 14 de setembro de 1976.

(4)  Esta coleção voltou às bancas em dezembro de 1974 com nome gramaticalmente mais correto, Historinhas de Walt Disney (não “Estorinhas”).

(5)  Lincoln Olivetti tem sido louvado por revisionistas como “papa do sacolejo” e “mago do pop”... Pois é, depois de 20 anos tudo fica bom e após três décadas tudo se perdoa.

(6)  Sim, a letra no encarte do LP cita o grande jornalista Tárik de Souza (embora na gravação Serginho cite outro emérito batalhador pela música brasileira na imprensa, Mauricio Kubrusly), e a faixa começa com uma das muitas vinhetas do disco que satirizam João Gilberto.

(7)  Foi nesta fita que, além de “Os Metaleiros Também Amam”, lancei meus quase-sucessos “Marcinha Ligou”, “Abdômen De Presidente”, “Galinhagem” e “Noites Sob O Luar”.

(8) Elifas, tão esperto quanto criativo, patenteou a ideia de capa de discos com espiral, e tenho em mãos o outro único exemplo que conheço: o álbum triplo Cartas Celestes do pianista Fernando Lopes, lançado pela Eldorado em 1982 e cujos créditos incluem “Fechamento espiral: Elifas Andreato”. Realmente, uma criação muito mais prática que o "Discobjeto" do álbum Transa de Caetano Veloso – que, por sinal, recebeu de Elifas uma de suas melhores capas, a do LP Bicho.

(9)  O álbum foi lançado sem título, mas algumas reedições o chamam de Adoniran E Convidados.

(10)                     O disco inclui ainda outra canção minha, o menos lembrado mas por mim também querido “Samba Da Paquera”. E cabe aqui um grande alerta: este disco teve reedições em CD com faixas a menos e até sem a capa de Elifas...

Monday, December 20, 2021

UM TEXTO ALTERNADO SOBRE "RANDY SCOUSE GIT" DOS MONKEES

Êi, êi, aqui está um pequeno mas chique (tem até notas de pé de página) artigo sobre uma canção de grande sucesso dos Monkees.

Muito se fala sobre Michael Nesmith e Peter Tork serem os verdadeiros músicos dos Monkees. Mas é preciso lembrar que o nanico fofinho Davy Jones tinha seu charme ao cantar belas baladas, era mais que apenas um Topo Gigio humano e inglês, e Micky Dolenz, embora fosse ator de profissão e não se importasse em continuar trabalhando no seriado The Monkees apenas como um ator que fazia o papel de músico, também tem talento musical, sendo inclusive, e de longe, o melhor cantor dos quatro, até mesmo uma das grandes vozes do rock. E ao começar a trazer suas composições para os Monkees, Micky Dolenz começou com tudo. Sua primeira composição gravada pelos Monkees, "Randy Scouse Git"  , lançada no álbum Headquarters, fez muito sucesso e é considerada por muita gente como uma das melhores do grupo – talvez até seja a melhor composição de Michael Nesmith que ele não compôs.

A DAMA E O VAGABUNDO



Certamente, Dolenz seguiu um costume de Nesmith ao escolher para “Randy Scouse Git” um título que não tinha nada a ver com a letra. Dolenz compôs esta canção quando esteve em Londres e participou de uma festa com os Beatles. Inclusive, nesta canção Dolenz cita os Beatles, “the four kings of EMI”. E ele usou como título um dos bordões de um seriado da televisão inglesa de muito sucesso, Till Death Us Do Part, cujo personagem principal, um reaça chefe de família, vive às turras com seu genro (1), um socialista folgado nascido em Liverpool, e o reaça o chama justamente assim, “randy Scouse git”, expressão em inglês britânico traduzível como “zé mané tarado liverpudliano”. Dolenz se encantou com a frase a ponto de resolver usá-la como título desta canção. Mas a filial inglesa da gravadora lhe disse “não podemos lançar essa canção na Inglaterra com esse título, você vai ter que usar um título alternativo”, e Dolenz respondeu “pronto, fica sendo ‘título alternativo’”, ou seja, “Alternate Title” (2). Seria melhor, em inglês britânico, “Alternative Title” (não foi por erro que muita gente traduziu “alternate title” como “titulo alternado”), mas a intenção era fazer nonsense, então tudo bem.

 





Algumas edições latino-americanas de “Randy” em compacto trazem nos selos uma proverbial “fiesta” de erros (“Colgelms”, “Dolens”), mas pelo menos algumas gravadoras se deram ao trabalho de fazer o que pouca gente faz – ouvir os discos que lançam. Não podendo ou não querendo entender, ou achando mais prudente não divulgar, o que significaria a frase “Randy Scouse Git”, elas adotaram títulos que, pelo menos, têm a ver com a letra da canção. No Chile, o disco atende por “Una Gran Dama” (do primeiro verso, “a wonderful lady”), e a Argentina se inspirou num verso do refrão, “Porque No Eres Como Yo” (“why don’t you be like me?”).

SUCESSO EM QUASE TODO O MUNDO

 


A Colgems, gravadora dos Monkees nos EUA, negou a si mesma o sucesso de “Randy”, lançada em compacto com sucesso pelo mundo afora, mas dezenove anos depois sua herdeira Arista (3) preencheu essa lacuna lançando a canção em compacto (embora no lado-B, com “Daydream Believer” no acoplo) para promover uma nova coletânea, Then & Now –  The Best Of The Monkees. Curiosidade: esta coletânea saiu em LP (com apenas 14 faixas, incluindo “Daydream Believer mas não “Randy”) e também em CD – um dos primeiros lançamentos neste formato – com nada menos de 25 faixas (tinha que incluir “Randy”, e inclui).

“Randy Scouse Git” tem sido realmente a canção mais regravada do álbum Headquarters, já desde 1967 até hoje e pelo mundo afora. Algumas releituras curiosas incluem um arranjo em reggae da banda Bad Manners  , outro em estilo “easy listening” (com qualidade intermediária entre Mitch Miller e Ray Conniff) com a Peter Covent Band, uma versão finlandesa, “Voitko Lopettaa” (“você pode parar”), com Arto Sotavalta, e a da dupla vocal argentina Barbara Y Dick, “Titulo Alternado”, com o auxílio mais que luxuoso de Horacio Malvicino, nada menos que um dos primeiros e dos melhores guitarristas argentinos de jazz, e que inclusive tocou com Astor Piazzolla; esta gravação não saiu em discos da dupla e sim numa coletânea de artistas da região do Mar Del Plata, Modart No. 1, lançada na Argentina e, pelo menos, também no Uruguai. 


NA TERRA DOS GENERAIS SEM QUARTEL



A exemplo de suas citadas primas latinas, foi como “Uma Grande Dama”, em português, que nossa RCA traduziu o título “Randy Scouse Git” na contracapa da edição brasileira do álbum Headquarters, e essa é apenas a menor das curiosidades desta edição brasílica – além da capa mais psicodélica que a original. (4)






Notem que a ficha técnica nacional (que eu trouxe juntamente com a original para comparação), além de confundir os xarás Mike (Nesmith) e Micky (Dolenz), simplesmente ignora que Mike, Micky ou quem quer que seja toca “pedal steel guitar”, instrumento até então praticamente desconhecido no Brasil; o que se ouve em discos de Poly e outros é guitarra havaiana (“Hawaiian guitar”), embora de sonoridade bastante similar, assim como o cavaquinho consegue se passar por seu irmão ukulele. (5)

 


E a imprensa brasileira, mais especificamente o Diário Da Tarde de Curitiba (na edição de 1/12/1967), noticiou que o lançamento local de Headquarters ocorreu “quase que simultaneamente” aos EUA; bem, seria o caso de o jornal definir o que é “quase (com ou sem "que") simultâneo”, pois o disco saiu lá em maio e aqui em outubro (6)...

MATRIZ INSPIRADORA

Além de "Randy Scouse Git", outras regravações de canções do disco Headquarters de que tenho notícia são “Early Morning Blues And Greens” transformada em “TristeAmanecer” pela banda mexicana Los Gnomos, “For Pete’s Sake” em salsa instrumental com o Wayne Avers Group (7) e duas versões brasileiras: “You Told Me”, que abre o disco dos Monkees, fecha o primeiro álbum da banda Os Selvagens (“Você Foi PraLonge” , 1968), e “Shades Of Gray” foi bem regravada em 1967 pelos Golden Boys como “AVida Tem Sido Má Para Nós”, em versão de Rossini Pinto. Cumpre lembrar que estas duas letras em português são fieis ao espirito das originais – bem diferente de quase todas as versões brasileiras de “I’m A Believer”, umas dizendo “eu acredito” e outras “não acredito”...

Notas:

(1) O seriado inglês Till Death Us Do Part inspirou outros pelo mundo, como o estadunidense All In The Family (1971/1979, exibido no Brasil como Tudo Em Familia no fim dos anos 1980) e o brasileiro A Grande Família (bem que a implicância com genro folgado soou, sem trocadilho, familiar, embora Lineu Silva nada tenha de reaça).

(2) Paradoxalmente, os tempos atuais seriam em principio mais liberais e tolerantes, mas com a noção de “politicamente correto” usada incorretamente, cada vez mais gente se ofende com cada vez menos...

(3) Parece poema de Drummond: a Colgems (selo fonográfico da Columbia Pictures em parceria com a RCA e lançador dos Monkees), fundada em 1966,  comprou em 1971 a gravadora Bell, que em 1974 foi renomeada Arista, que em 1979 foi comprada pela Ariola, que em 1985 foi comprada pela RCA, que em 1986 foi comprada pela General Electric e mudou o nome para BMG, daí em 2004 foi comprada pela Sony – que também comprou a Columbia Pictures...

(4) Sim, a edição brasileira removeu as duas vinhetas humorísticas do álbum, “Band 6” e “Zilch”, e acrescentou as duas faixas do então recente compacto de sucesso, “Words” e “Pleasant Valley Sunday”. Ninguém, nem mesmo os Monkees ou a Columbia Pictures inteira, quanto mais a nossa RCA, poderiam imaginar que estas duas faixas seriam incluídas no álbum seguinte, Pisces, Aquarius, Capricorn & Jones Ltd., e elas foram mantidas na edição brasileira – mas quase tiveram a companhia do lado-A do compacto seguinte, o grande sucesso “Daydream Believer”, como se nota neste detalhe da contracapa da primeira tiragem brasileira; a tarja examinada contra a luz revela “Daydream Believer” e sua autoria, [John] Stewart.

 




E, como final feliz desta novela, esta faixa entrou no álbum seguinte, The Birds, The Bees & The Monkees, e assim foi mantida no Brasil. Mas esta novela não teve “quem matou”, ou melhor, “quem tocou”, pois a ficha técnica do álbum Pisces foi simplesmente ignorada nesta edição brasílica, só saindo aqui na seguinte, em CD da Rhino/Warner, quase 30 anos depois, em junho de 1995.

(5) Até onde sei, a primeira pessoa a tocar no Brasil uma “pedal steel guitar” legítima foi Rick Ferreira, inclusive em discos de Raul Seixas, embora no álbum Gita o instrumento esteja creditado erroneamente como “still guitar”.

(6) Algumas fontes que consultei dão a data de lançamento do álbum Headquarters como maio de 1967 e outras, junho. Escolhi maio porque o disco está nas colunas “New Album Releases” e “New Action Albums” da Billboard de 27 de maio. “New action albums” significa LPs ainda não presentes na parada da revista mas já com vendas significativas nos maiores locais de mercado. E, sim, o erro de usar “‘s” para indicar plural não é recente...

 


Por sinal, minhas outras fontes para este artigo incluem as páginas 45cat, Discogs, Second Hand Songs e Estroncio90, enciclopédias como a do NME e a de Lillian Roxon e todos os periódicos disponíveis na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional, com boa rima e tudo.

(7) Para ver como é a vida: enquanto as regravações em países latinos se esforçam para imitar a sonoridade do rock britânico e estadunidense, o Wayne Avers Group, liderado pelo guitarrista de Nashville Wayne Avers, mostrou a “latinidade” monkeeana... Lembremos também que Avers é bem familiarizado com a música dos Monkees, tendo inclusive tocado em shows solo de Davy Jones e Micky Dolenz.

E este artigo é dedicado a René Ferri, Rosinha Monkees Viegas, Fátima Feliciano, Regina Célia Callile, à memória de Reylo Marques (“jogo duro...”) e à banda Hein?. 


Tuesday, September 14, 2021

TO YOU, ENGLAND, I CLING, DON’T YOU KNOW IT, DON’T YOU KNOW IT? A STUDY ON P. J. HARVEY, THE KINKS AND WORLD WAR ONE

 

First a version in English, then in Portuguese.



This article was born out of a coincidence I noticed when researching for my book on music and the First World War, a coincidence that I, at least, found interesting. (So interesting, in fact, that this article even has some footnotes.)

The second semester of 1969 was one of the most musically ebullient semesters ever. Humankind reached the Moon and pop-rock music went even higher, what with the Woodstock festival, the Archies’ “Sugar, Sugar”, Beatles’ Abbey Road, the Stones’ “Honky Tonk Women”, Creedence’s “Proud Mary” and “Bad Moon Rising”, Thunderclap Newman’s “Something In The Air”, Elvis Presley’s stage comeback, David Bowie finally putting himself on the map with “Space Oddity”, Birkin and Gainsbourg practising the universal language of love on “Je T’Aime... Moi Non Plus”... (1) And down in Merrie England two practically simultaneous events would have big and very good repercussion in time.

On the 10th October 1969 the Kinks, then starting their slow mutation from hit to cult status, released through London-based label Pye (2) Arthur (Or The Decline And Fall Of The British Empire), the most English album by rock’s most English band, the soundtrack to a never finished TV special and which got far more critical than commercial success, yielding only a minor hit (albeit a fan favourite), “Victoria”. Indeed, the late-1969 general public preferred songs about less topical and more generic or abstract subjects like riverboat queens, honky tonk women, sugar sugar candy girls, pinball wizards, something in the air, giving peace a chance, letting the sunshine in and Gainsbourg-Birkin rather than hear Ray Davies and his troupe (3) singing about English simple middle-class lives that went from the two World Wars to the present without any change. But posterity vindicated Arthur, now widely recognised as one of the best Kinks albums, which is to say one of the best rock albums ever. Many other rock artistes had released songs about and against wars (e.g. the Zombies’ “Butcher’s Tale”, the Who’s “1921”, David Bowie’s “Rubber Band”), but the Arthur album had no less than three antiwar anthems, one about World War One (“Yes Sir, No Sir”), one about World War Two (“Mr. Churchill Says”) and one about all wars (“Some Mother’s Son”), an unusual amount of songs about war for rock albums back then.

And on the 9th October, the day before Arthur came out, in Dorset County, some 260 kilometres away from the Big Black Smoke, there was much reason for joy to another man named Ray, a quarryman by trade, and his wife, a sculptor named Eva. While “Arthur was born just a plain, simple man”, Polly Jean Harvey was destined to a much more ambitious, brilliant and rewarding real life. (4) So just as the Kinks went down in History as one of the best 1960s bands and beyond, P. J. Harvey has her place secured as one of the best artistes from the 1990s and beyond too – not to mention that she did a great deal for women to assert themselves as much, much more than just “the fairer sex” – and helping shaping press-friendly musical genres such as riot grrl, lo-fi, alternative rock and Britpop. (5)

Come time for her eighth studio album, PJH decided to make it an indictment of war, as interesting and important a subject as ever, even more so with the world still undergoing conflicts just as pointless and tragic such as the ones in Iraq and Afghanistan. (From Sopwith-Camel aeroplanes to smart bombs... is that real progress?) We have said that Arthur has more songs than most rock albums about wars, including one about the so-called Great War; well, P. J. Harvey’s Let England Shake is almost all about that conflict. Released on Island Records on the 14th of February 2011, Let England Shake met with great and deserved critical acclaim. It’s inevitable to compare every musical chronicle of English life since the mid-1960s to the Kinks’ work; indeed, many Let England Shake tracks are somewhat Kinksy, notably “All And Everyone” (with many beat and tempo changes), “On Battleship Hill” (in the Brazilian baion rhythm, a big influence on r&b and rock since the late 1940s), “Bitter Branches”, “The Colour Of The Earth” (with some Cat Stevens influence as well) and “The Nightingale” (shades of the Kinks’ Arista period). But yours truly detects other influences too. The title track is in 15/4 time, just like “Tattoed Love Boys” by The Pretenders, very Kinks-influenced themselves (6). “The Words That Maketh Murder” (with a horn section slightly reminiscent of the one on the Kinks’ “Nothing To Say”) quotes Eddie Cochran’s “Summertime Blues” (duly credited) and the Trashmen’s “Surfin' Bird” (too passingly to guarantee credit) with original results (7). “In the Dark Places” is reminiscent of Patti Smith’s “Dancing Barefoot” and every bit as good. And I see shades (8) of Liz Phair in “England”, David Bowie in “Glorious Land” and some Yoko Ono and Kate Bush here and there. But it’s still a P. J. Harvey record, and a very commendable one at that. (9)

Besides your usual guitar-bass-drums-and-some-horns rock instrumentation (and a sampled military assembly bugle call (10)), Let England Shake features a sound as distinctive as it is unusual in rock: an autoharp, a relative to the zither and the harp, much used in folk music and which many of you may know from records by The Lovin’ Spoonful (played by John Sebastian) and Os Mutantes (by Rita Lee). (11)




LES’s lyrics deserve commenting too, and here’s some. The title track parodies the old World War One song “Pack Up Your Troubles In Your Old Kit Bag (And Smile, Smile, Smile)" (12) as “let England shake/weighted down with silent dead [...] Pack up your troubles and let’s head out/to the fountain of death and splash about/swim, back, forth, back, back, laugh out loud”. “The Words That Maketh Murder” says “I’ve seen soldiers fall like lumps of meat/blown and shot out beyond belief [...] longing to se a woman’s face/instead of the words that gather pace/the words that maketh murder”, ending, as we had noted, with a quote from Eddie Cochran’s “Summertime Blues”: “What if I take my problem to the United Nations?” (The United Nations came to be only in 1945, but this is the kind of anachronism that makes every sense in a piece of art against war.) Even more harrowing is “All And Everyone”, about the Gallipoli carnage: “Death was all and everyone [...] Death was everywhere, in the air/and in the sounds/coming off the mounds/of Bolton’s Ridge [...] we, advancing in the sun/sing ‘Death to all and everyone”.  And what about “The Colour Of The Earth”? “If I was asked I'd tell/the colour of the earth that day/it was dull and browny-red/’the colour of blood’, I'd say.” Another tribute to PJH’s intelligence and creativity is that, as far as I could determine from searching Google many times in different days, the dictums “Let England Shake” and “death to all and everyone” redirect to this album and song of hers only!



I hear myself ask: and what about Ray and PJ together? Yes, it has happened, in okasions such as a London VIP performance of SunnyAfternoon (a musical based on the Kinks story) at the Tom Cribb pub on the 18th of May 2015 (this beautiful picture book item is by Getty Images). And I wouldn’t bet against a musical kollaboration between them, at least a virtual one in this pandemic age.

Just three further more details for now. First: there are many books about the Kinks, the most recommendable being the ones by Doug Hinman, Kink by Dave Davies and Ray’s “unauthorised autobiography” X-Ray; and there is at least one about P. J. Harvey, Siren Rising, by James H. Blandford (Omnibus Press, 2009). Second: both the Arthur and Let England Shake albums are worth searching for in their bonus-track-enhanced editions, be it on vinyl, CD, streaming or any other format you may like. And third: both records have place in my aforementioned book about music in World War One, now in its first completion stage.

(1)   Not to mention the first records and/or concerts by acts like Yes, Blind Faith and King Crimson and the news of two deaths, Brian Jones’s real one and Paul MCartney’s fake one.

(2) Arthur was released simultaneously, on the same day (on the Reprise label), in the USA, where chart-wise (number 105 on Billboard) it was much more successful than in England, where it was a no-show.

(3) Now including John Dalton as this was the first Kinks album without original bass player Peter Quaife. And a glaring exception-that-proves-the-rule to the sex-religion-and-nonsense hit songs of the time is Desmond Dekker’s “Isrealites”, the first reggae big hit.

(4) “I was very lucky to have parents with a fine, fine record collection”, PJH told Rolling Stone. Her parents’ blessings went further, including friends like Charlie Watts and Ian Stewart; pianist Ben Waters, of Charlie Watts’s band, is a cousin of PJH – son of Ann, her mum’s sister – , and she participated – shining brightly – in Boogie 4 Stu, a tribute album to Ian Stewart (including the Stones and Bill Wyman). And there’s one more Kinks konnektion: Ben Waters plays on some Ray Davies solo recordings, such as Storyteller (credited as “Walters”); even more delightful is that saxophonist Tom Waters, his son, has played with Ray Davies and P. J. Harvey as well.

Now to what may amount to a most nagging rock trivia question: was dear MBE P. J. Harvey born in Bridport, Yeovil, Dorset, Corscombe or elsewhere? In my first weeks researching, no two sources give the same city as her birthplace... Well, she sings in “To Bring You My Love” that she was “born in the desert”, and the word “desert” looks a bit like “Dorset”... But the Siren Rising book removed this doubt: PJH was born in Corscombe, a very small parish in the city of Dorset, near the also mentioned Bridport and Yeovil.

(And OK, PJ’s father is called Ray, and the Kinks have a song named “Polly”, released in 1968; I think this kind of koincidence ends there.)

(5) I will have enough good taste not to mention PJH’s personal and musical partnership with a notorious ballad murderer – whose name I won’t mention for reasons I won’t mention either – , which in personal terms is not my business and musically even less so. He influenced her, you say? I can’t hear it in her records and I wish the reverse had been true, for, in my opinion, she's considerably superior as an artist...

(6) Another Kinks konnektion, and a kloser one: the Pretenders not only did successful revivals of old Kinks songs, but leader Chrissie Hynde got to know Ray Davies enough to have with him a romance and a daughter.

(7) Well, the Trashmen’s “Surfin’ Bird” was a shameless rewrite of the Rivingtons’ “Papa-Oom-Mow-Mow” with no credits whatsoever, making “My Sweet Lord” look like spontaneous generation; so much so, that reissues of “Surfin’ Bird” give full authorship to the Rivingtons.

(8) No, I didn’t fell into the classic trap of mixing metaphors and saying “I hear shades”, because shades is something we see, not hear. I’ve read many professional stories and press releases which include such “gems” like a rapper who “keeps injecting punches”; imagine Muhammad Ali holding a syringe within his gloves... 

(9) Let England Shake reached the heart-warming Number 32 on Billboard and Number Eight in England and won many awards, including a Mercury Prize – the first time an artist won this award twice and a female artist won it even once – and an Ivor Novello as Album Of The Year; by the way, Ivor Novello himself (1893/1951) was a great English songwriter, his greatest hits inclding a beautiful song about World War One as it was raging, and whose title says it all, “Keep The Home Fires Burning (Till The Boys Come Home)”.

(10) The bugle call heard on “The Glorious Land” is the “AssemblyCall”, also quoted at the beginning of the guitar solo of Gene Vincent’s “Blue Jean Bop”. And...

(11) ...speaking of Mutantes and bugle calls, the track “Qualquer Bobagem”, from their second album – released in February 1969, when Ray and Eva were starting to fell the joy of parenthood for the second time – also includes a bugle call, the “First Call”.

(12) “Pack Up Your Troubles In Your Old Kit Bag (And Smile, Smile, Smile)” was written by Welsh brothers George Henry Powell (aka George Asaf) and Felix Powell and met with instant and lasting success since first heard in 1915 as sheet music and 1916 as recorded by Florrie Forde and many others  and included in the US musical comedy Her Soldier Boy. The song was also quoted/parodied in the aforementioned Kinks song “Yes Sir, No Sir”: “Pack up your ambition in your old kit bag/Soon you'll be happy with a packet of fags” – and not everyone knew that “fags” was slang for “cigarettes” in England and “male homosexuals” in the USA, although this didn’t cause as much, ahem, kontroversy as “A Well Respected Man”, which went to Number 13 on Billboard in spite – or partly because – of Ray Davies singing that the song’s main character “likes his fags the best”... (And did anyone else besides me remember “Pack Up Your Troubles”, a nice and optimistic country-rock song by Slade? I bet you did if you’re as much a fan of Slade music as me.)

 

Agora a versão em português:

UM ESTUDO SOBRE P. J. HARVEY, OS KINKS E A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Este artigo nasceu de uma coincidência que percebi ao pesquisar para o meu livro sobre música e a Primeira Guerra Mundial, coincidência que eu, pelo menos, achei interessante. (Tão interessante que até tem algumas notas de rodapé.)

O segundo semestre de 1969 foi um dos semestres mais musicalmente efervescentes de todos os tempos. A humanidade alcançou a Lua e a música pop-rock foi ainda mais alto, com o festival de Woodstock, "Sugar, Sugar" dos Archies, Abbey Road dos Beatles, "Honky Tonk Women" dos Stones, "Proud Mary" e "Bad Moon Rising” do Creedence, “Something In The Air” do Thunderclap Newman, a volta de Elvis Presley ao palco, David Bowie finalmente se colocando no mapa com “Space Oddity”, Birkin e Gainsbourg praticando a linguagem universal do amor em“ Je T'Aime... Moi Non Plus”... (1) E lá na velha Albion dois eventos praticamente simultâneos teriam grande e muito boa repercussão com o passar do tempo.

Em 10 de outubro de 1969, os Kinks, então iniciando sua lenta mutação de banda de sucesso para cult, lançaram pela gravadora londrina Pye (2) Arthur (Or The Decline And Fall Of The British Empire), o álbum mais inglês da banda de rock mais inglesa, trilha sonora de um especial de TV nunca terminado e que fez muito mais sucesso de crítica que de vendas, rendendo apenas um pequeno sucesso (embora um dos favoritos dos fãs), “Victoria”. De fato, o público em geral da segunda metade de 1969 preferia canções sobre assuntos menos tópicos e mais genéricos ou abstratos, como rainhas de barcos, mulheres de cabaré, garotas de açúcar, magos do pinball, algo no ar, dando uma chance à paz, deixando o sol entrar e os arrufos de Gainsbourg-Birkin, em vez de ouvir Ray Davies e sua trupe (3) cantando sobre a vida simples da classe média inglesa desde as duas guerras mundiais até o presente sem qualquer mudança. Mas a posteridade vingou Arthur, agora amplamente reconhecido como um dos melhores álbuns do Kinks, o que vale dizer um dos melhores álbuns de rock de todos os tempos. Muitos outros artistas de rock lançaram canções sobre e contra guerras (por exemplo, “Butcher's Tale” dos Zombies, “1921” do Who, “Rubber Band” de David Bowie), mas o álbum Arthur tinha nada menos que três hinos anti-guerra, um sobre World War One (“Yes Sir, No Sir”), um sobre a Segunda Guerra Mundial (“Mr. Churchill Says”) e um sobre todas as guerras (“Some Mother's Son”), uma quantidade inusitada de canções sobre a guerra para álbuns de rock nessa época.

E no dia 9 de outubro, um dia antes de Arthur sair, na comarca de Dorset, a cerca de 260 quilômetros de Londres, havia muitos motivos de alegria para outro homem chamado Ray, um pedreiro profissional, e sua esposa, uma escultora chamada Eva. Enquanto “Arthur nasceu apenas um homem comum e simples”, Polly Jean Harvey estava destinada a uma vida real muito mais ambiciosa, brilhante e gratificante. (4) Assim como os Kinks entraram na história como uma das melhores bandas da década de 1960 e além, PJ Harvey tem seu lugar garantido como uma das melhores artistas da década de 1990 e além - sem mencionar que ela fez muito para as mulheres se afirmarem tanto, muito mais do que apenas “o belo sexo” - e ajudando a moldar gêneros musicais de apelo ​​para a imprensa, como riot grrl, lo-fi, rock alternativo e Britpop. (5)

Chegando a hora de seu oitavo álbum de estúdio, PJH decidiu torná-lo uma condenação da guerra, assunto interessante e importante como sempre, ainda mais com o mundo ainda passando por conflitos tão inúteis e trágicos como os do Iraque e Afeganistão. (De aviões Sopwith-Camel a bombas inteligentes ... isso é realmente progresso?) Dissemos que Arthur tem mais canções do que a maioria dos álbuns de rock sobre guerras, incluindo uma sobre a chamada Grande Guerra; bem, Let England Shake de P. J. Harvey é quase tudo sobre esse conflito. Lançado pela gravadora Island no dia 14 de fevereiro de 2011, Let England Shake foi muito bem recebido pela crítica. É inevitável comparar toda crônica musical da vida inglesa desde meados da década de 1960 com a obra dos Kinks; de fato, muitas faixas de Let England Shake soam um tanto kinkianas, notavelmente “All And Everyone” (com muitas mudanças de marcação e andamento), “On Battleship Hill” (no ritmo do baião brasileiro, uma grande influência no r&b e no rock desde o final dos anos 1940) , “Bitter Branches”, “The Colour Of The Earth” (com alguma influência adicional de Cat Stevens) e “The Nightingale” (lembra o período Arista dos Kinks). Mas este que vos tecla detecta outras influências também. A faixa-título é em compasso 15/4, assim como “Tattoed Love Boys” dos Pretenders, banda ela mesma muito influenciada pelos Kinks (6). “The Words That Maketh Murder” (com uma seção de sopros que lembra um pouco a de “Nothing To Say” dos Kinks) cita “Summertime Blues” de Eddie Cochran (devidamente creditado) e “Surfin 'Bird” dos Trashmen (ligeira demais para merecer crédito) com resultado original (7). "In the Dark Places" lembra "Dancing Barefoot" de Patti Smith e é tão bam quanto. E vejo traços (8) de Liz Phair em “Inglaterra”, David Bowie em “Glorious Land” e um pouco de Yoko Ono e Kate Bush aqui e ali. Mas ainda é um disco de P. J. Harvey, e muito recomendável. (9)

Além da instrumentação típica de rock de guitarra-baixo-bateria-e-alguns-sopros (e um toque sampleado de clarim de agrupamento militar (10)), Let England Shake apresenta um som tão distinto quanto incomum no rock: uma auto-harpa, parente da cítara/zither e da harpa, muito utilizada na música folk estadunidense e que muitos e muitas de vocês devem conhecer de discos de The Lovin' Spoonful (tocada por John Sebastian) e dos Mutantes (por Rita Lee). (11)

As letras de Let England Shake também merecem comentários. A faixa-título parodia a velha canção da Primeira Guerra Mundial “Pack Up Your Troubles In Your Old Kit Bag (And Smile, Smile, Smile)” (12) como "deixe a Inglaterra tremer/ao peso de mortos silenciosos [...] Empacote seus problemas e vamos sair/para a fonte da morte e mergulhar/nadar, para trás, para frente, para trás, para trás, rir em voz alta ”. “The Words That Maketh Murder” diz “Já vi soldados caírem como pedaços de carne/inacreditavelmente estourados e perfurados a tiros [...] ansiando por ver o rosto de uma mulher/em vez das palavras que ganham ritmo/as palavras que fazem assassinato”, terminando, como havíamos comentado, com uma citação de “Summertime Blues” de Eddie Cochran: “E se eu levar meu problema para a ONU?” (A ONU só surgiu em 1945, mas esse tipo de anacronismo faz todo sentido em uma obra de arte contra a guerra.) Ainda mais angustiante é “All And Everyone”, sobre a carnificina em Gallipoli: “A morte era tudo e todo mundo [...] A morte estava em toda parte, no ar/e nos sons/saindo dos montes/do cume do Bolton [...] nós, avançando ao sol/cantamos 'Morte a tudo e a todo mundo’”. E o que dizer de “The Colour Of The Earth”? “Se me perguntassem, eu diria/que a cor da terra naquele dia/estava opaca e marrom-avermelhada/'a cor do sangue', eu diria.” Outro tributo à inteligência e criatividade de PJH é que, pelo que pude determinar a partir de pesquisas no Google muitas vezes em dias diferentes, os ditos "Let England Shake" e "death to all and everyone" redirecionam somente para este álbum e canção dela!

Ouço minha voz perguntando: e quanto a Ray e PJ em dupla? Sim, aconteceu em ocasiões como uma apresentação VIP em Londres de Sunny Afternoon (um musical baseado na história dos Kinks) no pub Tom Cribb em 18 de maio de 2015 (esta bela foto é da Getty Images). E eu não duvido de uma parceria musical entre ele e ela, pelo menos virtual nesta era pandêmica.

Apenas mais três detalhes por enquanto. Primeiro: existem muitos livros sobre os Kinks, os mais recomendáveis sendo os de Doug Hinman, Kink de Dave Davies e X-Ray, a autobiografia não autorizada de Ray Davies; e há pelo menos um sobre P. J. Harvey, Siren Rising de James H. Blandford (Omnibus Press, 2009). Segundo: vale a pena procurar os álbuns Arthur e Let England Shake em suas edições incrementadas com faixas bônus, seja em vinil, CD, streaming ou qualquer outro formato de que você goste. E terceiro: ambos os discos têm lugar no meu já citado livro sobre música na Primeira Guerra Mundial, agora em seu primeiro estágio de conclusão.

(1) Sem falar nos primeiros discos e/ou shows de artistas como Yes, Blind Faith e King Crimson e as notícias de duas mortes, a verdadeira de Brian Jones e a falsa de Paul MCartney.

(2) Arthur foi lançado simultaneamente, no mesmo dia (pelo selo Reprise), nos EUA, onde alcançou nas paradas (número 105 da Billboard) muito mais sucesso do que na Inglaterra, onde nem apareceu.

(3) Agora incluindo John Dalton, pois este foi o primeiro álbum do Kinks sem o contrabaixista original Peter Quaife. E uma exceção que confirma a regra para as canções de sucesso sobre sexo, religião e nonsense da época é "Isrealites" de Desmond Dekker, o primeiro grande sucesso do reggae.

(4) “Tive muita sorte de ter pai e mãe com uma ótima, ótima coleção de discos”, disse P. J. Harvey à Rolling Stone. As bênçãos de seus pais foram além, incluindo amigos como Charlie Watts e Ian Stewart; o pianista Ben Waters, da banda de Charlie Watts, é primo de PJH - filho de Ann, irmã de sua mãe - , e ela participou - brilhando intensamente - de Boogie 4 Stu, álbum em tributo a Ian Stewart (incluindo os Stones e Bill Wyman) . E há mais uma konexão com os Kinks: Ben Waters toca em algumas gravações solo de Ray Davies, como Storyteller (creditado como "Walters"); ainda mais encantador é que o saxofonista Tom Waters, seu filho, também tocou com Ray Davies e P. J. Harvey.

E temos uma candidata a questão mais difícil do tipo “Você conhece rock?”: nossa cara MBE P. J. Harvey nasceu em Bridport, Yeovil, Dorset, Corscombe ou em outro lugar? Nas minhas primeiras semanas de pesquisa, não encontrei duas fontes que dessem a mesma cidade de seu local de nascimento ... Bem, ela canta em “To Bring You My Love” que “nasceu no deserto”, e a palavra “deserto” parece um pouco com “Dorset”... Mas o livro Siren Rising dirimiu esta dúvida: PJH nasceu em Corscombe, uma comarca muito pequena na cidade de Dorset, perto das também mencionadas Bridport e Yeovil.

(E tudo bem, o pai de PJ se chama Ray, e os Kinks têm uma música chamada “Polly”, lançada em 1968; acho que esse tipo de coincidência termina aí.)

(5) Terei o bom gosto de não falar da parceria pessoal e musical de PJH com um notório assassino de baladas - cujo nome não mencionarei por motivos que não mencionarei também -, que em termos pessoais não é da minha conta e musicalmente ainda menos. Ele a influenciou, você diz? Não percebo isso nos discos dela e gostaria que o inverso fosse verdade, pois, na minha opinião, como artista ela é notavelmente superior...

(6) Outra konexão com os Kinks, e mais próxima: os Pretenders não só fizeram revivals bem-sucedidos de antigas canções dos Kinks, mas a líder Chrissie Hynde conheceu Ray Davies o suficiente para ter com ele um romance e uma filha.

(7) Bem, “Surfin’ Bird” dos Trashmen foi uma apropriação desavergonhada de “Papa-Oom-Mow-Mow” dos Rivingtons sem nenhum crédito, fazendo “My Sweet Lord” parecer exemplo de geração espontânea; tanto é que reedições de “Surfin’ Bird” dão autoria total aos Rivingtons.

(8) Não, eu não caí na velha armadilha de misturar metáforas e dizer “ouço traços”, porque traços são algo que se vê, não se ouve. Já li muitas histórias profissionais e press-releases que incluem “pérolas” como um rapper que “segue injetando pancadas”; imagine Muhammad Ali segurando uma seringa entre as luvas ...

(9) Let England Shake alcançou as animadoras posições 32 na Billboard e número 8 na Inglaterra e ganhou muitos prêmios, incluindo o Mercury Prize - a primeira vez que um artista ganhou este prêmio duas vezes e uma artista feminina ganhou pelo menos uma vez - e um Ivor Novello como Álbum do Ano; por sinal, o próprio Ivor Novello (1893/1951) foi um grande compositor inglês, e seus maiores sucessos incluíam uma bela canção sobre a Primeira Guerra Mundial enquanto ela se desenrolava, e cujo título diz tudo, “Keep The Home Fires Burning (Till The Boys Come Home)” (“mantenha a lareira acesa até os rapazes voltarem para casa”).

(10) O toque de clarim ouvido em “The Glorious Land” é o “Toque de Agrupamento” (“AssemblyCall”), também citado no início do solo de guitarra de “Blue Jean Bop” de Gene Vincent.  E ...

(11) ... por falar em Mutantes e clarins, a faixa “Qualquer Bobagem”, de seu segundo álbum - lançado em fevereiro de 1969, quando Ray e Eva começavam a sentir a alegria da paternidade pela segunda vez - também inclui um toque de clarim, a “Primeira Chamada” ("First Call").. 

(12) “Pack Up Your Troubles In Your Old Kit Bag (And Smile, Smile, Smile) foi composta pelos irmãos galeses George Henry Powell (também conhecido como George Asaf) e Felix Powell e fez sucesso instantâneo e duradouro desde que foi lançada em 1915 em partitura e 1916 em discos por Florrie Forde e muitos outros/as e na comédia musical estadunidense Her Soldier Boy. A música também foi citada/parodiada na já mencionada canção dos Kinks “Yes Sir, No Sir”: “Arrume sua ambição em sua velha mochila/Logo você estará feliz com um maço de cigarros (‘fags”)” - e nem todo mundo sabia que “fags” era uma gíria para cigarros na Inglaterra e para homossexuais masculinos nos EUA, embora isso não tenha causado tanta controvérsia quanto “A Well-Respected Man”, sucesso dos Kinks de 1965 que chegou ao décimo-terceiro posto na parada da Billboard, apesar de - ou em parte porque - Ray Davies cantar que o personagem principal da música “likes his fags the best” ... (E alguém além de mim se lembra de “Pack Up Your Troubles”, uma canção country-rock agradável e otimista da banda Slade? Aposto que sim, se você for tão fã da música do Slade quanto eu.)