Wednesday, March 24, 2021

NO AR, A MÚSICA DAS MÁQUINAS VOADORAS


Ah, a nostalgia... Há quem goste, e os anos 1950 a 1980 foram a era de ouro da própria. Gravadoras, companhias cinematográficas e editoras descobriram o prazer (e o lucro) de recuperar e reeditar obras velhas, perdão, antigas para dois tipos de público: o mais idoso, nascido nas décadas de 1890 a 1920, que “estava lá” e queria reviver/reavaliar seus “bons tempos”, e o mais jovem, por curiosidade, brincadeira, pesquisa, consciência de que boa arte é boa em qualquer época ou mesmo “nostalgia de um tempo que não vivi”. Os filmes antigos de Charles Chaplin, O Gordo & O Magro, Bogart, Garland e tanta velha gente boa ganharam novo e maior público graças à televisão. Nas paradas de sucesso não faltavam regravações de canções da virada dos séculos 19 para 20. Nem precisamos falar do gênero “filmes de gângster e máfias em geral”, com enredos fictícios ou reais sobre Bonnie & Clyde, Al Capone, Bugsy Malone, Jay Gatsby ou Don Corleone, onde os tiros se harmonizam com música dos anos 1900 a 1920 autêntica ou em boas imitações. A Primeira Guerra Mundial, então já suficientemente distante, revelou-se assunto lamentável porém fascinante, do qual inclusive já falei aqui em meu blogue e voltarei a falar (inclusive num livro ora em preparo sobre a música nesse conflito). E este texto que agora tu estás lendo, e espero que chegues ao final, focará num aspecto: o fascínio da música popular pelas chamadas “máquinas voadoras”. Isso mesmo, os primeiros aviões pequenos, companheiros aéreos das máquinas falante, de escrever, fotográfica e outras maravilhas da tecnologia, modernidade e do “avanço industrial” que, canta Tom Zé, “vem trazer nossa redenção”.


Sim, foi no começo do século 20 – descontando balões, autogiros, o aeróstato do Padre Gusmão, dirigíveis e outros ancestrais, também chamados de “máquinas voadoras”, mas neste artigo usaremos este nome apenas para pequenas aeronaves – que o ser humano realizou o sonho de Ícaro (se tu lembraste do cantor Biafra, aproveita para lembrar também de “Se Eu Pudesse Voar” do Made In Brazil), a famosa “conquista do ar”. Após o impulso inicial de Santos Dumont, os irmãos Wright ou quem mais quer que seja (1 - sim, este artigo tem tanta pesquisa que inclui até notas de pé de página), o ser humano realmente podia voar para onde quisesse sem depender da veneta dos ventos. Aviões de médio e grande porte (sim, chamados em inglês de “aeroplanes”, e mais para o meio do século esta grafia tornou-se a oficial em inglês britânico, com os EUA dizendo “airplanes”) desenvolveram-se paralelamente a aeronaves pequenas, cujo motor simpaticamente barulhento inspirou o apelido bem brasileiro de “teco-tecos”. Nos anos 1910 aviões pequenos estavam tão facilmente disponíveis nos EUA quanto os automóveis “Fords de bigode”, e para algumas pessoas pilotar teco-tecos era até mais fácil que dirigir automóvel, além do relativamente baixo custo: uma máquina voadora custava cerca de cinco mil dólares, contra os mil a dois mil de um automóvel de então. Sim, havia potencial para congestionamentos aéreos, mas com o tempo a aviação individual revelou-se vocação para poucas pessoas, como Bruce Dickinson e Ronnie Von (que, sim, logo voltará à conversa) e ilustres personagens da ficção como o Holandês Voador, Dick Vigarista, o imaginativo Snoopy ao brincar de combater o piloto Barão Vermelho, o “Vovô Passarinho” do filme O Menino Maluquinho (1994), o Edmundo criador e o apaixonado Evangelista piloto no cordel O Romance Do Pavão Misterioso (1923), o piloto da canção “Essa É A Verdade” do Premê (1981) e até um filme inglês inteiro sobre Esses Homens Maravilhosos Com Suas Máquinas Voadoras (1965). E o fascínio pelas ditas continuou forte, mesmo com a concorrência de aviões cada vez maiores e até as viagens à Lua.

AVIÃO QUE SOBE, NAVIO QUE DESCE: “COME, JOSEPHINE...” 


Talvez a mais emblemática das canções sobre máquinas voadoras seja a valsa “Come, Josephine, In My Flying Machine”, composta por Alfred Bryan e Fred Fischer e lançada em 1910 pelo cantor Harry Telly mas que estourou no ano seguinte em nada menos de dois discos praticamente simultâneos da mesma gravadora, a Victor, com as cantoras Blanche Ring e Ada Jones e Billy Murray (2).



Muitos e muitas de vocês conheceram “Come, Josephine, In My Flying Machine” do filme Titanic (1997), cantada à capela por Leonardo di Caprio no começo do filme e por Kate Winslet no final. Esta valsinha também é cantada numa festa de karaokê num episódio de Os Simpsons. Mas eu conheci “Come, Josephine” em outra obra de cinema, o desenho animado Aero-Nutics (1953) da série Kartunes da Paramount em parceria com a Harvey (da turma de Gasparzinho), aqueles com a “Bolinha Saltante”, exibida aqui na TV Record nos anos 1960 e 1970.

MÁQUINAS VOADORAS POR ESTAS BANDAS

Na metade do século 20 chegamos à era do avião a jato e da nave espacial, mas, como dissemos, não houve congestionamento de máquinas voadoras. Ou melhor, houve – nas artes em geral, graças à citada e bendita nostalgia. Não há nada mais anos 1960 que os anos 1910 a 1930. A evocação de aeronaves antigas incluiu bandas de rock com nomes como Jefferson Airplane e Sopwith Camel (sem falar nas posteriores 14-Bis e as xarás multilíngues Barão Vermelho no Brasil, Barón Rojo na Espanha e Red Baron na Alemanha). E muitas bandas de rock têm tentado voar para o sucesso usando o nome Flying Machine; duas delas se destacaram, e aqui vai um parágrafo para cada uma.

 

Revista Billboard, 1 de julho de 1967

A primeira The Flying Machine era estadunidense e incluiu o ainda jovem James Taylor (nasc. 1948). Em 1967 começou a gravar um LP, mas não terminou devido a uma combinação de autocrítica da banda com desinteresse da gravadora perante o insucesso de um compacto simples, “Night Owl”, lançado em junho – o mesmo mês de Sgt. Pepper. (3) Logo o Flying Machine acabou e James Taylor seguir com carreira-solo, fazendo grande sucesso. Mas seu grupo Flying Machine voltou à cena duas vezes. Uma foi no final da letra de seu primeiro megahit, a autobiográfica “Fire And Rain”, que inclusive cita o fim da banda: “sweet dreams and flying machines in pieces on the ground”. (E o guitarrista desta Flying Machine, Danny Kortchmar, participou de discos de James). A outra foi obra do empreendedorismo ianque: todas as gravações do Flying Machine foram lançadas em fevereiro de 1971 num álbum objetivamente intitulado James Taylor And The Original Flying Machine, pegando carona no sucesso de James Taylor. (O álbum tem menos de dez faixas que mal totalizam 23 minutos, mas nos EUA para ser LP já bastava ter 12 polegadas.) Danny Kortchmar não gostou nada deste lançamento: “As pessoas envolvidas não queriam soltar dinheiro para um álbum inteiro de canções de James, daí pareceu terrível quando as mesmas pessoas lançaram o álbum do Flying Machine daquelas poucas sessões de gravação.” E por quê o álbum se refere à banda como “The Original Flying Machine”?

 

Revista Record World, 13 de dezembro de 1969.

Isso mesmo, foi para não confundir com a outra Flying Machine que fez sucesso – mais sucesso imediato, aliás, que a xará. Esta outra Flying Machine era inglesa e surgiu partir de outra banda, Pinkerton’s Assorted Colours, que teve apenas um hit, “Mirror, Mirror”, reinventou-se como The Flying Machine e emplacou um dos maiores sucessos mundiais (exceto, curiosamente, na própria Inglaterra) de 1969, “Smile A Little Smile For Me” (4). Após mais alguns compactos e um LP de bem menos sucesso o grupo acabou. (5)


O álbum da Flying Machine de James Taylor e Danny Kootch saiu no Brasil pela Top Tape. “Smile A Little Smile For Me”, o maior e quase único sucesso da Flying Machine inglesa, foi lançado aqui pela Chantecler e logo em seguida pela Musidisc; desde então tem aparecido em diversas coletâneas de sucessos antigos em LP e CD. (6)


Como dissemos, a Flying Machine de James Taylor lançou um compacto cujo lado-A é “Night Owl”. Pois bem, dois anos depois apareceu um “single” de uma terceira banda com o nome The Flying Machine, só que do Estado de Wisconsin, num selo chamado Night Owl… Mais detalhes aqui. (Por sinal, Night Owl é também o nome de uma famosa casa noturna no Greenwich Village em Nova Iorque, que foi até homenageada no blues instrumental “Night Owl Blues” da banda Lovin’ Spoonful.)

UMA PLAYLIST SÓ DE “FLYING MACHINE”

De 1967 a 1972 as lojas de discos do mundo anglófono funcionavam também como hangares, de tantas bandas chamadas Flying Machine e tantos discos com canções com esse título. (7) Pode até parecer que usar essa frase ao menos uma vez garantia dedução ou isenção no imposto de renda. Talvez a canção “Flying Machine” de maior sucesso tenha sido a composição de Georg Hultgreen lançada em 1971 por Cliff Richard e regravada por Teddy Magnus e Byron Lee & The Dragonaires (ambas estas gravações sendo dois dos primeiros reggaes).


Record World, 22 de janeiro de 1972



Outras “Flying Machine” desse período incluem a de Anita Harris (dela com Mike Margolis, 1968), Nanette Workman (uma bela balada-soul dela mesma, 1970; ela ainda se assinava apenas Nanette), a banda canadense Yukon (de Vern McDonald, 1973), a banda psicodélica Art Rock Collection (1972), as bandas de soul music War, aquela mesma (1978; esta gravação tem subtítulo, “The Chase”) e Wild Goose (1972 – curiosidade: “wild goose” é um tipo de veículo aéreo não tripulado lançado nos anos 1950), Stephen Monahan (de Robert Jenkins, lançada em 1970 e regravada em arranjo country por Lynn Anderson no ano seguinte) e até uma “The Flying Machine” com a banda inglesa The Flying Machine de que falamos acima.



(Sobre Stephen Monahan, terá ele se inspirado na Flying Machine de James Taylor, com quem até havia dividido um anúncio em publicação sobre o mercado musical?)

 Record World, 16 de junho de  1967

Temos também “Mr. White’s White Flying Machine”, também lançada em 1970, com a vocalista Ayshea (composição de Andrew Jackman e Steve Nardelli, e o acompanhamento instrumental inclui Chris Squire e Peter Banks, recém-saídos da banda The Syn e já começando a fazer sucesso com o Yes) e a banda canadense Winston Hewitt & The Dynamics com “In My Flying Machine” – sem crédito de autoria porém mais uma versão reggae do sucesso de Cliff Richard.



Lembremos ainda as mais recentes “Flying Machine” com Johnny Fogwell na Austrália (de Peter Moscos e Pat Garvey, 1981), a banda revivalista inglesa The Stairs e sua “Flying Machine” (1991, uma das melhores canções dos Byrds que eles não fizeram), a inglesa Emma Ballantine (2012), a banda sueca Echodeck (2013) e a estadunidense Ashley Bird McCarthy (2019; não confundir com a Ayshea de que falámos mais acima).



A frase também serviu de título para álbuns e EPs de artistas como The Atomic Numbers (EUA, 1997), Sylvia Bullett (EUA, 2017), Setaoc Mass (2018; isso mesmo, o líder deste projeto inglês se chama Sam Coates e inverteu o sobrenome), Letters From A Flying Machine de Peter Mulvey (EUA, 2009), os projetos de inspiração semita Levine And His Flying Machine da banda estadunidense Kapelye (1985 – e, para quem não fala iídiche, “kapelye” significa “banda”) e Uncle Roland's Flying Machine da banda inglesa Moishe's Bagel (2010 – outra surpresa: o contrabaixista desta banda é o brasileiro Mário Caribe, que tocou com artistas como Caetano, Milt0n e Zizi), The Pilot And The Flying Machine de Ben Bedford (EUA, 2016), Hindi Flying Machine da banda Mean Motor Scooter (EUA, 2017) e até um tema musical de um projeto disneyano, “Gyro's Flying Machine” (“a máquina voadora do Professor Pardal”), para o videogame Duck Tales, lançado em 1989 e com trilha composta por Hiroshige Tonomura (que até ganhou um LP pirata em 2020!).


E sou famoso por gostar de dar aulas e aulinhas, mas lembrarei de um sermão: “Devil In A Flying Machine”, de 1927, onde o reverendo estadunidense J. M. Gates (1884/1945), campeão das pregações em discos, condena veementemente (e com uma bela voz quase cantada) aviões como coisa pecaminosa. Que Deus e o Reverendo Gates nos perdoem, mas daqui a pouco teremos mais diabos às voltas com máquinas voadoras...

EU SEI QUE TEM TANTA MÁQUINA VOADORA POR AÍ: MAIS BANDAS, GRAVADORAS ETC. CHAMADAS FLYING MACHINE

 

Neste imenso aeroporto internacional que é o mercado da música, há praticamente uma Flying Machine para cada rota musical que escolheres, e sem limitações impostas por pandemia ou desgoverno. Na soul music, a banda estadunidense The Wright Brothers Flying Machine participou da trilha do filme Thank God It’s Friday/Até Que Enfim É Sexta-Feira (1978). Outras bandas ianques, porém mais recentes, são a Synthetic Flying Machine, que em 1993 lançou um álbum intitulado Heaven Is For Kids, e a Devil’s Flying Machine, de country-blues e projeto paralelo de Christian McShane e Charlie Parr, integrantes da banda if thousands (sim, o nome da banda se escreve desse jeito). Temos também bandas Flying Machines, no plural, como uma estadunidense que lançou um disco em 2009 e uma inglesa de jazz-rock formada em 2014.


Sendo “Flying Machine” nome de tamanho agrado, ele não pára de voar cada vez mais longe. Não poderiam faltar gravadoras com esse nome; tenho notícia de pelo menos duas Flying Machine Records, uma em Nashville (cuja artista mais famosa é a guitarrista e produtora de origem australiana Anne McCue desde os anos 2000, e que em alguns discos acrescenta ao nome um ponto de exclamação, Flying Machine!) e outra lembrada hoje pelo único disco (o rock de garagem “Wondering Why”, lançado em agosto de 1968) de uma banda do Massachusetts, Royal Aircoach (segundo a página Discogs, estas duas gravadoras Flying Machine são a mesma, mas estas duas outras páginas, uma sobre rock de garagem / – in Italian, no less – e a outra sobre pop-rock dos anos 1960 - sugerem que este selo Flying Machine era de Massachusetts mesmo e só existiu para este único disco do Royal Aircoach).

O que mais poderíamos querer? Isso mesmo, casas noturnas chamadas Flying Machine, e houve pelo menos uma, em Fort Lauderdale, na Flórida, onde a banda New York Dolls fez em 1974 um show que anos depois rendeu um álbum pirata ao vivo.

Por falar em disco pirata ao vivo, conhecem este LP triplo do Pink Floyd, gravado nos anos 1990 e lançado em 2020?

...E NO BRASIL


Dez entre nove pessoas devem ter se lembrado do álbum A Máquina Voadora, que o cantor e compositor Ronnie Von (nasc, 1944) lançou em 1970 e que hoje é objeto de culto entre o público fã de discos de vinil (não confundir com público fã de música; tem a ver mas não é sinônimo). O disco abre com a faixa-título, parceria de Ronnie com San Martin (“al secolo” Antonio Pedro Costa, parceiro de Ronnie também em outros sucessos como “Seu Olhar No Meu”, “Viva O Chopp Escuro” e “Minha Gente Amiga”, mas que, curiosamente, não aparece, pelo nome ou pseudônimo, na simpática biografia Ronnie Von: O Príncipe Que Podia Ser Rei):

Quero todo o Universo sem fim

Às alturas vou subir

Vejo o espaço acima de mim

E por ele vou sumir

Vou vagar em pleno ar

[...]

Combustível, metal e poema

Minha máquina voadora

Vejo os homens de cima em cena

Entre a música de um motor

Vou vagar em pleno ar

Vou voar

Vou voar...

E a clientela pode escolher: esta canção consta com título “A Máquina Voadora” na capa do LP, “Minha Máquina Voadora” no selo do LP e “Máquina Voadora” no selo do compacto. A primeira edição oficial em CD unificou tudo para A Máquina Voadora (embora não inclua faixas bônus nem relação de quem tocou no disco). Registremos também a boa interpretação de Ronnie, bem acompanhado pela banda paulistana Haxixins, para esta canção em Quando Éramos Príncipes, belo documentário dedicado a ele no canal Bis da Multishow em 2013.

 

Falámos sobre o cordel O Romance do Pavão Misterioso, que fala de uma máquina voadora, embora não usando este nome. Pois bem, o escritor paraibano Bráulio Tavares (nasc. 1950) usou no seu cordel Cabeça Elétrica, Coração Acústico, lançado em 1981 (além de lançar em 1994 um romance de título mais que objetivo, Máquina Voadora); este cordel foi musicado pelo compositor pernambucano Silvério Pessoa (nasc. 1962) e lançado num álbum também chamado Cabeça Elétrica, Coração Acústico, mas a faixa tem título também dos mais objetivos, “Eu Vi A Máquina Voadora”, com participação de Alceu Valença e Zé Vicente da Paraíba.

Em 2017 a banda paulistana neopsicodélica Bike lançou o clipe “A Divina Máquina Voadora”. E temos também uma gravadora chamada Máquina Voadora, formada nos anos 2010 em Maceió e cujo elenco inclui uma banda Milkshakes xará da banda inglesa contemporânea dos Stairs.

Para terminar (antes das notas de pé de página mais abaixo), podemos lembrar a banda cearense Monomotor (surgida em 2008 com o nome Concreto & Asfalto e que chegou a acompanhar artistas como Edy Star) e sua quase-xará pernambucana Monomotores (formada em 2006). E tenho certeza de que, enquanto finalizo e publico este artigo, devem ter surgido algumas tantas bandas e canções chamadas Flying Machine, em inglês ou outro idioma, pelo mundo afora.

 

(1) Sobre a famosa e até hoje válida e forte controvérsia quanto ao avião ter sido inventado por Santos Dumont no Brasil ou pelos irmãos Wright nos EUA, descobri um texto brasileiro favorecendo estes últimos, embora sem nomeá-los, na edição da Revista Maritima Brazileira de janeiro de 1914.

(2) Achaste estranho a mesma gravadora lançar uma mesma canção com artistas diferentes ao mesmo tempo? A indústria cultural sempre gostou de maximizar investimentos. Outro exemplo, este mais recente, é a canção-soul “Got To Get You Into My Life”, lançada no mesmo dia pela mesma gravadora com dois artistas diferentes, os Beatles – em LP – e Cliff Bennett & The Rebel Rousers – em compacto simples.

(3)  James Taylor tem mais a ver com os Beatles, pois gravou seu primeiro álbum na Apple, emplacando um pequeno hit, “Carolina On My Mind”, regravado com mais sucesso pela banda escocesa The Marmalade. E Paul McCartney participou de pelo menos dois álbuns de James Taylor, o primeiro (sem título) e The Walking Man.

(4)  Composição de Tony Macaulay (nasc. 1944), mestre do soul-bubblegum inglês. Apenas alguns de seus outros hits, lançados por diversos artistas, são “Baby, Now That I’ve Found You”, “Here Comes That Rainy Day Feeling Again”, “Blame It On The Pony Express”, “In The Bad, Bad Old Days (Before You Loved Me)”, “Build Me Up, Buttercup”. “Love Grows (Where My Rosemary Goes)” e “(Last Night I Didn’t Get To Sleep At All)”. Realmente, a receita para o sucesso de canções parece incluir títulos longos – mas só para chatear ele compôs também “Sorry, Suzanne”.

(5)  E temos mais um verbete para a seção “RG Serve Pra isso”: o Steve Jones guitarrista do Flying Machine, nascido John Stephen Jones em Coventry no ano de 1946, não é o mesmo Steve Jones (Stephen Philip Jones, londrino de 1955) guitarrista dos Sex Pistols.

(6)  Por sinal, a banda Flying Machine inglesa voou muito de gravadora em gravadora. Na terra natal ela ficou firme gravando pela Pye, e seus poucos discos brasileiros saíram pela Musidisc, que tinha acordo de representação local da Pye.


O compacto “Smile A Little Smile For Me”, lançado na Inglaterra em abril de 1969, saiu aqui pelos selos Chantecler e Musidisc porque a Pye não tinha filial nos EUA (só foi ter, e efêmera, no meado dos anos 1970) e negociava cada artista com um selo: Donovan com a Hickory e depois com a Epic, os Kinks com a Warner, o Status Quo com a Chess, os Searchers e o Flying Machine com a Decca (mais exatamente, suas subsidiárias Kapp e Congress) No caso do Flying Machine, “Smile A Little Smile For Me” saiu aqui primeiro em compacto pela Chantecler, que representava a Decca no Brasil, mas no ano seguinte a Musidisc, licenciada da Pye, relançou o disco, e com muito mais sucesso, inclusive com um LP correspondente, Down To Earth With The Flying Machine.


Nos EUA esta banda Flying Machine também voou de uma gravadora para outra, no caso a Janus, parente da Chess; e o único LP da banda mudou de capa e perdeu o título e duas das 12 faixas originais, ao passo que a edição brasileira é fiel à inglesa. Aliás, as duas edições brasileiras; houve outra pela gravadora Continental, ainda mais fiel que a da Musidisc, que havia substituído o texto original da contracapa por um blá-blá-blá quase nada informativo, “um lançamento de vulto e significado importante” e por aí vai.

(7)  Metade de cada loja era hangar e a outra metade base espacial: as viagens ao espaço exterior, culminando com os primeiros passos na Lua, inspiraram filmes como 2001: Uma Odisseia No Espaço e canções como “Space Oddity” de David Bowie, “Supersonic Rocket Ship” dos Kinks, “Rocket Man” de Elton John e, no Brasil, “2001” dos Mutantes, “O Astronauta” cantada por Roberto Carlos, “Doroteia” dos Lobos... Sim, as pessoas queriam escapar da Terra, por pouco que fosse.

Wednesday, February 24, 2021

A PAREDE DE SOM TEM OUVIDOS: A OBRA DE PHIL SPECTOR NO BRASIL

“É ISSO O QUE EU GANHO POR TE AMAR?”

Para começar, um pouco de jornalismo informativo. O produtor, compositor, músico e encrenqueiro estadunidense Phil Spector, lançador e/ou autor de dezenas de canções clássicas do pop-rock, faleceu em 16 de janeiro de 2021, aos 81 anos, de covid-19, no hospital da prisão onde cumpria pena por assassinato.

Mais um artista importante que se vai... Mais um artista importante vítima desta pandemia... E mais uma celebridade importante a ser “cancelada” (uma de tantas palavras usadas, “ressignificadas”, da forma mais equivocada; neste texto lembraremos outra), ou seja, considerada digna de ser esquecida com obra e tudo, por motivos alheios à referida obra?

Genialidade permite excentricidade, mas há limites. O cidadão Harvey Philip Spector era egomaníaco, arrogante, obsessivo, dominador, inseguro, mandão, manipulador, incapaz de colaborar ou trabalhar em equipe, machista, ciumento, fã de armas de fogo... e tinha o chamado “complexo de Napoleão”; foi mais um exemplo de pessoa de baixa estatura que compensou sonhando alto e lutando muito. Na vida ele passou por diversos traumas que, se não justificam suas falhas humanas, as explicam: foi discriminado por ser de porte franzino e judeu, aos nove anos amargou o suicídio do pai, sofreu megabullying de um bando que lhe urinou em cima num banheiro público; já adulto e famoso, perdeu um filho ainda criança para a leucemia, quase morreu num acidente automobilístico, e a chacina comandada por Charles Manson numa mansão próxima à sua contribuiu para torná-lo cada vez mais paranoico, recluso e excêntrico e menos ativo como músico e produtor. Sim, faz lembrar a letra de “Hitler” do Língua de Trapo. Com o tempo Spector se revelou excêntrico cada vez menos “do bem”, chegando a cunhar frases como “é melhor ter uma arma e não precisar dela do que precisar dela e não ter”, aparecer em público com uma arma no ombro e um guarda-costas anunciado como “o único que protege as outras pessoas de seu cliente”, sentir ciúme de sua então esposa Ronnie Spector a ponto de trancá-la no guarda-roupa e, por fim, assassinar a atriz Lana Clarkson. Como nos EUA existe alguma coisa parecida com justiça, Spector foi preso e condenado a 19 anos de reclusão, dos quais cumpriu quase 12, tendo falecido no hospital da prisão; sim, cumpriu da pena o quanto pôde. “Ninguém é totalmente bom ou ruim”, e “cancelar” as realizações de Phil Spector por suas falhas como pessoa implicaria em fazermos o mesmo com o prepotente Wilson Simonal, o direitista Fagner, o “esquerda-caviar” Chico Buarque, o pedófilo Michael Jackson, os espancadores de esposas Júpiter Maçã e Ike Turner, os assassinos Leadbelly e Jim Gordon, o mafioso Frank Sinatra, o anti-semita Richard Wagner, o delator Gregg Allman, o superjagunço Assis Chateaubriand, o racista Lobato, o pai ausente Pelé... (Afinal, o cantor Lindomar Castilho também foi preso por assassinato, cumpriu a pena de brevidade tipicamente brasileira e teve a menos pior de suas canções transformada em prefixo de programa de TV da Globo...) Se por mais não seja, as produções de Phil Spector merecem ser lembradas também, até principalmente, por quem as compôs, arranjou, tocou e interpretou: Barry & Greenwich, Carole King & Gerry Goffin, Jack Nitzsche, Hal Blaine, Barney Kessel, Carol Kaye, Tommy Tedesco, os Righteous Brothers, Ronnie Spector, Darlene Love...  E, como produtor de discos, Phil Spector se tornou grife, sinônimo de superlativo, modelo e excelência em sua área, como Bach, Caruso, Michelangelo, Pelé, Niemeyer, Zerbini, Senna, Shakespeare, Picasso, Orson Welles.

O Estado De São Paulo de 27 de fevereiro de 1968

Phil Spector nunca esteve no Brasil, mas sua obra sim (ele veio “em conserva”, como dizia Cornélio Pires). Sua imagem também, como participante no filme Easy Rider/Sem Destino – uma ponta no papel de um traficante, com trocadilhos como “ponta” e “papel” e tudo – e num episódio de 1967 da série de TV Jeannie É Um Gênio (Jeannie, The Hip Hippie/Um Conjunto Desconjuntado), além de em 1970 Spector já estar famoso como produtor/dominador a ponto de ser satirizado, com o nome Ronnie Barzell, no filme Beyond The Valley Of The Dolls/De Volta Ao Vale Das Bonecas, dirigido por Russ Meyer e lançado em 1970 –filme profético, pois Barzell mata algumas pessoas, e paga por isso ao ser ele mesmo morto no final. Mais recentemente, em 1996, Spector e seus “girl groups” foram parodiados nas pessoas do produtor N. D. Horne e do trio vocal The Chantrellines no filme The Wonders/The Wonders, O Sonho Não Acabou de Tom Hanks. E este artigo pretende lembrar adaptações, edições e citações brasileiras do cânone spectoriano.

“VOCÊ VEIO, VIU E VENCEU!”

Personagem dos mais interessantes, Phil Spector é também pessoa das mais importantes do rock. Além de compositor de muitos grandes sucessos e multiinstrumentista, foi também a primeira pessoa na música popular a se tornar um astro mundialmente famoso como produtor de discos, com sua sonoridade bombástica conhecida como “wall of sound”, muralha sonora, e seu controle total de todos os detalhes de cada gravação, muitas vezes até criando artistas no estúdio, e quase sempre recebendo mais destaque que os e as artistas nos discos. (E ele preferia lançar discos em mono não por ser primitivista como Charlie Chaplin, fiel ao cinema mudo e em preto e branco, mas para controlar até quem os ouvisse, sem alternativa de separação ou mixagem de instrumentos.)

No princípio o rock só promovia quem cantava; depois, artistas como os Yardbirds valorizaram o/a instrumentista para além do rock instrumental; com Bob Dylan o(a) compositor(a) deixou de ser invisível; e foi Phil Spector quem trouxe a produção para a sala de visitas. Na fonografia popular em geral, incluindo o rock, a primeira presença a ser notada é a da obra, depois o nome de quem interpreta, em seguida a autoria da obra com aquelas letrinhas miúdas que pouca gente percebe, e só então alguém se lembra de notar – ou mesmo de creditar – a pessoa produtora. Isso que a percepção de “produção de discos” é coisa recente (embora obviamente necessária desde a invenção da gravação sonora, ela foi crescendo em importância à medida que a parte técnica ia se tornando cada vez mais complexa e sofisticada, do cilindro de Edison à fita e computador multicanais – mas notem que, por exemplo, George Martin nunca ou quase nunca é citado em edições brasileiras de discos dos Beatles antes de 1966), e o termo “produtor” é mais recente ainda, no Brasil ou no exterior; até o começo dos anos 1970 boa parte dos discos creditam quem cuidou da “supervisão”, “supervisão pessoal”, “coordenação geral e direção de estúdio”, “direção artística”; o termo “produção” começou a ser mais usado na metade dos anos 1960.

Nos anos 1940 e 1950 muitas pessoas produtoras, ou supervisoras, ou como fossem chamadas, tornaram-se grife de qualidade e de sucesso em seus respectivos gêneros musicais: Norman Granz, Moses Asch, John Hammond e duplas como Leiber & Stoller. E do fim dos 1950 para cá a produção de discos passou a ser tão valorizada quanto a direção no cinema; basta citar Bob Ezrin, Chas Chandler, Jimmy Ienner, Bones Howe, Larry Page, Shel Talmy, Kim Fowley, Brian Wilson (que, tão humilde quanto talentoso, sonhava em ser tão bom quanto Phil Spector sem perceber que já era melhor), Berry Gordy, Hugo & Luigi, Chinn & Chapman, Quincy Jones, Richard Perry, Todd Rundgren, George Martin, Tony Visconti, Joe Meek (outro perturbado genial, praticamente um modelo para Phil Spector) e, no Brasil, Aloysio de Oliveira, Irineu Garcia, André Midani, Marcus Pereira, Irineu Garcia, Raul Seixas, Evandro Ribeiro (o produtor mais “low-profile” de todos os tempos no Brasil e talvez no mundo), Carlinhos Borba Gato, Mazzola, Liminha, Pelão (de quem voltaremos a falar mais adiante), Peninha Schmidt, Rick Bonadio... E todos esses produtores devem sua notoriedade como tal a Phil Spector, que soube muito bem se promover.

Já que falamos em cinema, Spector foi o Cecil B. de Mille – ou, se preferirem, o Orson Welles ou o Ken Russell (ou ainda, infelizmente, um Tarantino, mas com violência não na tela e sim na vida real) da produção fonográfica, e se promoveu de acordo. Basta lembrar que quase todos os sucessos que produziu costumam ser mais lembrados pelo seu nome que o dos/das intérpretes (Ronettes, Crystals, Righteous Brothers, Darlene Love...), do mesmo modo que, no cinema, quase todo mundo assiste a filmes de Hitchcock, Orson Welles, Woody Allen ou Almodóvar deixando o elenco para segundo plano. Se bem que, ao deixar de fazer grande sucesso no fim dos anos 1960, Phil Spector teve de se sujeitar a trabalhar com os e as Marlon Brando e Greta Garbo da música, ou seja, elenco que atrai público independente de quem dirige o filme; então Spector praticamente parou de ajudar ou “inventar” novos talentos e preferiu trabalhar com artistas já de renome (e quase todas terminando em briga ou os/as artistas se queixando) como os Beatles, John Lennon, George Harrison, Leonard Cohen, os Ramones, Yoko Ono...

(Parece-me adequado lembrar que Spector ajudou muito os Stones a surgirem para o sucesso lá em 1964-5, mas desde então eles trabalharam não com ele e sim com seu braço-direito, o multi-instrumentista e arranjador Jack Nitzsche (1937/2000), inclusive em álbuns como Sticky Fingers e Emotional Rescue. “Jack era o gênio, não Phil”, resumiu Keith Richards em sua autobiografia; “Phil pegou a personalidade excêntrica de Jack e sugou-a inteira.”)

“FOI ASSIM QUE SEMPRE SONHEI... POSSO OUVIR MÚSICA”

O primeiro e maior impacto de Phil Spector no Brasil foi como compositor. Poucas gravações originais de seus sucessos dos anos 1950 e 1960 foram lançadas no Brasil, mas muitas de suas canções fizeram sucesso com regravações por outras pessoas, brasileiras e estrangeiras. Um exemplo é “You’ve Lost That Lovin’ Feelin’”; a gravação original dos Righteous Brothers só saiu aqui na década de 1970, mas a canção foi sucesso no Brasil com artistas como Cilla Black, Johnny Rivers e Elvis Presley. E muitas composições de Phil Spector fizeram sucesso no Brasil com artistas locais, cantando em inglês ou em versões para o português.


Aqui vai um primeiro levantamento de composições de Phil Spector lançadas aqui nas gravações originais. Obviamente, um trabalho desses feito em poucos dias por uma só pessoa é apenas um esboço, mas de todo modo serve para uma ideia do sucesso de Spector no Brasil como autor (mesmo que muitas vezes ele apenas assinasse a parceria como pagamento por seu trabalho como produtor – afinal, “o combinado não sai caro”, e parceria com Phil Spector era garantia de sucesso).

“Spanish Harlem”, parceria com Jerry Leiber e lançada por Ben E. King, saiu no Brasil em 1961 em LP similar ao original estadunidense, também chamado Spanish Harlem, mas aqui ganhou o título de outra faixa, Amor (sim, uma versão em inglês do famoso bolerão de Gabriel Ruiz, “amor, amor, amor, nació de ti, nació de mi, de la esperanza...”) Outro LP com faixa-título spectoriana a ser lançado no Brasil, mas sem mudança de título, foi Chapel Of Love com o grupo vocal The Dixie-Cups.


“Be My Baby”, parceria com o casal Jeff Barry & Ellie Greenwich e lançada pelo trio vocal The Ronettes (embora no disco participe apenas uma delas, Ronnie Bennett, futura Sra. Spector), talvez seja a canção spectoriana mais quintessencial e mais conhecida, mais regravada, mais sampleada e mais comentada. (Quem acha tudo isso exagero não conhece a opinião de Brian Wilson, que declarou ser “Be My Baby” com as Ronettes “o melhor disco pop de todos os tempos”.) Certamente, é uma das mais ilustres canções-assinatura-de-artista do rock, ao lado de “I Want To Hold Your Hand”, “My Generation”, “You Really Got Me”, “Satisfaction”, “Bohemian Rhapsody” ou “Sweet  Child O’Mine”, e a introdução de bateria de “Be My Baby” (em ritmo de baião estilizado, sobre o qual logo falaremos) é das mais icônicas introduções do rock, imitada/citada/modificada por muita e muita gente, como os Four Seasons (“Rag Doll”), Beach Boys (“Don’t Worry, Baby”), Monkees (“The Kind Of Girl I Could Love”), Beatles (“What You’re Doing”), Badfinger (“Baby Blue”), Blondie (“Sunday Girl”), Jesus And Mary Chain (“Just Like Honey”) e até Raul Seixas (“Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”). No lado-B do compacto original estadunidense, lançado em agosto de 1963, Spector colocou “Tedesco And Pitman”, creditado às Ronettes mas não incluindo nem mesmo Ronnie: apenas um simples blues instrumental destacando dois músicos de estúdio que sempre trabalhavam com Spector, os guitarristas Tommy Tedesco e Bill Pitman. Mas no Brasil a história foi diferente.

Ao se gravar um compacto simples, o lado-A seria, obviamente, calculado para o sucesso, e para o lado-B temos as opções de deixá-lo em branco, repetir o lado-A (às vezes em mono ou  estéreo ou com mixagem e/ou duração diferentes), colocar alguma brincadeira sonora ou caprichar como se fosse outro lado-A. Esta última opção é a mais lógica para artistas ou mercado de baixo poder econômico ou aquisitivo, mas a mentalidade capitalista predadora dos EUA, o país da obsolescência planejada, a própria “teenage wasteland”, se arrepiava de horror só de pensar nisso: um compacto com dois lados bons dividiria as atenções e nenhum dos lados tocaria no rádio o bastante para fazer grande sucesso, de modo que um lado-B ruim ou inexistente forçava as rádios a se concentrarem no lado-A. Não faltam exemplos de compactos com ambos os lados fortes que aniquilam essa, digamos, lógica (“I Get Around”/“Don’t Worry Baby”, “Hound Dog”/“Don’t Be Cruel” e tantos de artistas como os Beatles, Kinks, Who e Stones), mas muita gente embarcou nessa, inclusive Phil Spector, que lançou quase 20 lados-B propositadamente nulos. No Brasil, como dissemos, foi diferente – e para melhor. Na época a Philles, gravadora de Spector, era distribuída pela inglesa London (na famosa série American Recordings, reunindo vários selos estadunidenses independentes) em vários países, inclusive o Brasil, onde a London representada pela Odeon (futura EMI), que tinha uma prática interessante: quando um(a) artista de fora emplacava mais de um sucesso, a Odeon pegava os dois lados-A e os lançava aqui num único disco. Assim nasceram belos compactos brasileiros como “A World Without Love”/”Nobody I Know” de Peter & Gordon, “How Do You Do It”/”I Like It” de Gerry & The Pacemakers e “Please Please Me”/”From Me To You” dos Beatles. Um belo exemplo spectoriano é “Be My Baby”, cujo lado-B brasílico na ocasião foi “Walkin’ In The Rain”, um dos hits seguintes das Ronettes – e com o bônus de uma bela capa. (O público italiano também foi agraciado com esta acoplagem numa capa que, embora usando a mesma foto promocional da edição brasílica, é bem mais berrante que bonita.)




Mas o público brasileiro não escapou de “Tedesco And Pitman”. Em dezembro de 1970 “Be My Baby” foi relançada pela Beverly com o lado-B original, e pelo menos uma pessoa se manifestou, o jornalista e pesquisador René Ferri (nasc. 1950), em seu belo artigo (do qual logo falaremos em breve) sobre Phil Spector, em 1977: “Fiquei chateado, louco de frustração e com a impressão de que havia sido tapeado. Eu achava que a Beverly, etiqueta que lançou o disco no Brasil, tinha perdido a matriz original e na falta dela botou lá qualquer coisa!” (Notem que a Beverly creditou no selo do disco o mês e ano do lançamento, prática que bem poderia ser regra mas era bem pouco regular.)

 

Outra instância de dois compactos spectorianos que graças a Deus e à Odeon perderam seus lados-B inócuos e se uniram num excelente único disco – com o bônus especial de uma bela capa – aconteceu com o grupo vocal The Crystals e seus hits “Da Doo Ron Ron” e “He’s Sure The Boy I Love”, em 1963. (As traduções de nossas gravadoras eram um show à parte; aqui, por exemplo, “boy”, rapaz, amadureceu e virou “homem”.)

Já alguns discos da parceria de Phil Spector com a gravadora A&M, na segunda metade dos anos 1960, saíram aqui com os lados-B originais. Dois exemplos são de Sonny Charles & The Checkmates: “Black Pearl” e “Love Is All I Have To Give”; aqui também saiu o LP correspondente, intitulado Love Is All I Have To Give, e em edições mono e estéreo. Outro é “You Came, You Saw, You Conquered!” com as Ronettes (mais exactamente, Ronnie Spector, née Veronica Yvette Bennett); neste caso, felizmente, Spector tinha parado com os “lados B-estas” e trouxe uma de suas típicas baladas bombásticas, “Oh I Love You”, que por mim teria entrado na caixa retrospectiva Back To Mono das produções de Spector.


Lembremos também da participação de Phil Spector, em sua primeira visita à Inglaterra, no primeiro LP dos Rolling Stones, que inclusive rendeu uma parceria com Mick Jagger, “Little By Little”, e uma imitação-paródia dos instrumentais efêmeros dos lados-B, “Now I’ve Got A Witness (Like Uncle Phil And Uncle Gene)” (além de duas jam-sessions similares e inéditas em discos oficiais, a instrumental “And Mrs. Spector And Pitney Came Too” e a mais “risqué” “Andrew’s Blues”), onde Spector tocou maracas e percussão variada (inclusive maracas e, ao que consta, bater moda numa garrafa de conhaque esvaziada o suficiente para soar com uma nota ao agrado de Brian Jones). Sim, este é o LP dos Stones em cujas edições brasileiras da Odeon Bill Wyman toca “guitarra-grave” – na mesma época em que Paul McCartney tocava “guitarra baixa” no LP Beatlemania.


Outro disco em que Phil Spector participa como músico e que tem uma edição brasílica muito interessante é “On Broadway”, grande sucesso com o grupo vocal The Drifters e onde Spector toca um solo de guitarra que tem inspirado opiniões indo de “hesitante” (segundo Bill Millar em seu belo livro The Coasters, de 1974) a “celebrado” (Charlie Gillett noutro tomo básico do mesmo ano, Making Tracks, sobre a gravadora Atlantic). Certo, George Benson tecnicamente faz melhor. Igualmente certo é o prazer de apreciar esta gravação dos Drifters em sua primeira edição brasileira, num dos últimos discos brasílicos em 78 RPM, de 1963.

“MELODIA DESACORRENTADA”

Nada melhor pode acontecer a uma canção que ela sobreviver a quem a lançou e ter outras interpretações – e muitas, muitas vezes é por meio destas que elas alcançam maior público e, por quê não, rendem mais direitos autorais. E muitos são os hits produzidos por Phil Spector cujas primeiras gravações não foram lançadas a época no Brasil, mas que fizeram sucesso com outros (as) artistas, de fora ou locais.


“Be My Baby” merece destaque também nestes dois próximos parágrafos. A gravação original foi lançada aqui em 1965, e em 1969-1970 aconteceu uma daquelas coincidências que se programadas não dariam certo, envolvendo dois mestres do bubblegum. Um deles é Joey Levine (nasc. 1947), emérito compositor estadunidense de sucesso (“Gimme Gimme Good Lovin’”, “Yummy, Yummy, Yummy”, “Chewy Chewy” (esta, por sinal, inclui o riff do clássico spectoriano “Then She Kissed Me”, riff este talvez ainda mais citado e imitado que a abertura de bateria de "Be My Baby", bastando conferir “Stop Your Sobbing” dos Kinks, "Smash The Mirror" do Who, "Wowie Zowie" de Frank Zappa & The Mothers e "Love's Unkind" de Giorgio Moroder, hit de Donna Summer). Em 1969 uma de suas muitas produções foi de um grupo que já nasceu obscuro, Fragile Rock Valley (somente vocal ou também instrumental? Nada encontrei até agora a respeito), e que lançou um novo arranjo guitarreiro de “Be My Baby” no mínimo tão bom quanto o original. Esta gravação foi incluída no álbum Le Bateau Ao Vivo (“ao vivo” querendo significar “sem intervalos entre as faixas” – sim, é a segunda “ressignificação” de um termo da forma mais errônea que mencionei no início), da gravadora carioca Top Tape e um dos primeiros discos de gravações tocadas em boates e discotecas brasileiras. Este arranjo da Fragile Rock Valley foi replicado ainda em 1970 numa versão brasileira (“Não Vai, Baby”, por Rossini Pinto) lançada por Terezinha Curtis, cantora surgida no fim da jovem guarda. (O disco foi produzido pelo saudoso Renato Barros, da banda Renato  e Seus Blue Caps; será que ele ou a banda tocaram na gravação?)


O sucesso do álbum Le Bateau Ao Vivo levou a gravadora Beverly/Copacabana a perceber que estava com o licenciamento da gravação original de “Be My Baby” com as Ronettes (mais exatamente, Ronnie Spector creditada como Ronettes) e correr para relançá-la em dezembro em dois formatos: um compacto simples (de que falámos acima) e o LP New Tonton, outro álbum reunindo gravações de sucesso em boates. O outro mestre do bubblegum destes parágrafos é Andy Kim (nasc. 1946), mais uma de tantas pessoas que honram seu nativo Canadá, e que também regravou “Be My Baby” em 1970, porém no sentido oposto ao disco da Fragile Rock Valley e num arranjo mais lento, lançado aqui em 1971 e que também foi replicado no Brasil pela banda Os Super Quentes (grupo de estúdio formado por integrantes dos Fevers e Renato e Seus Blue Caps), com a mesma versão de Rossini Pinto. Tivemos ainda outra gravação brasileira de “Be My Baby” em inglês por um grupo de estúdio, Music Machine, lançada em 1971 e incluindo os grandes Tony Osanah e Willy Verdaguer. E há pelo menos outra versão em português, pelo grupo de estúdio Máquina do Tempo, que incluiu Ricardo Melchior, Carlinhos Borba Gato e participação de Vivian Costa Manso, Eduardo Assad e co-produção de Hélio Costa Manso; gravaram em 1984 um LP com versões de sucessos dos anos 1960 e 1970, e “Pra Ter Você”, versão de “Be My Baby”, foi feita por Marcus Ficarelli, o famoso guitarrista Vermelho da banda paulistana dos anos 1960 Louphas.



Muitas gravações de grande sucesso mundial não foram lançadas à época no Brasil, geralmente por falta de licenciamento da gravadora original ou simplesmente porque material de todo o planeta era o que não faltava e não era possível lançar tudo. Do cânone spectoriano, até onde sei no momento, algumas gravações ficaram inéditas aqui nos anos 1960 e as canções ganharam edições brasileiras em “covers” de outrem. Até o momento posso citar “Baby, I Love You”, com Andy Kim (gravação produzida por uma das pessoas autoras da canção, Jeff Barry); “You’ve Lost That Lovin’ Feelin’” nos registros de Cilla Black, Johnny Rivers. Elvis Presley e Isaac Hayes; “River Deep, Mountain High” com Eric Burdon & The New Animals e os Easybeats; e “Best Part Of Breaking Up” com The Seashells. E sei que muita gente no Brasil conheceu “To Know Him is To Love Him” na versão ao vivo no LP The Beatles Live At The Star-Club Hamburg 1962, lançado em 1977.

(Curiosidade: uma boa página sobre a Rede Globo de Televisão comete um errinho ao atribuir a Phil Spector co-autoria no sucesso “What Are You Doing Sunday” do grupo vocal Dawn mas incluído na trilha da novela O Cafona em outra gravação, pelo grupo estadunidense Silver (que provavelmente só existiu em estúdio); por sinal, esta é a original, lançada meses antes da gravação do Dawn por um dos muitos selos na ocasião representados no Brasil pela Top Tape e proporcionando farto material para as trilhas das novelas globais e coletâneas dançantes na linha da série Le Bateau e do DJ Big Boy. E no LP da trilha o crédito está correto, a apenas Toni Wine e Irwin Levine, não incluindo Spector, embora ele tenha composto em parceria com a dupla canções como “You Came, You Saw, You Conquered!” e “Black Pearl”.)

E muitos dos hits produzidos por Phil Spector realmente passaram no teste do tempo e têm sido apresentados a gerações mais novas por regravações como “Da Doo Ron Ron” com os Carpenters, “Then She Kissed Me” com o Kiss, “Spanish Harlem” com The Mamas And The Papas, “I Can Hear Music” com Larry Lurex (que logo ficaria mais famoso com o nome Freddie Mercury), a mesma "I Can Hear Music", "Just Onc In My Life" e "Chapel Of Love" com os Beach Boys e “Black Pearl” numa bela versão reggae (bem melhor que a marcação marcial de Spector, fórmula que em 1969 já começava a cansar) por Horace Faith (no primeiro álbum da série de compilações dançantes USA Click da gravadora Beverly, em 1971).

Lembremos também o grande sucesso de versões em outros idiomas lançadas no Brasil. Por exemplo, conheci “Then She Kissed Me” em francês com Richard Anthony, “Et Je M’en Vais”, e nos anos 1980 descobri que “You’ve Lost That Lovin’ Feelin’” teve versão em italiano com o grupo inglês radicado na Itália The Rokes, “Ma C’è Un Momento Nel Giorno”, e Peppino Di Capri gravou “Be My Baby” também em italiano e com título bem mais sucinto, “Baby”. Temos ainda uma versão em alemão para “Oh Why”, lançada por Phil Spector ainda com seu trio Teddy Bears, cantada por Camillo como “Sag Warum” e que logo voltará à conversa.

“PÉROLA NEGRA”: REGRAVAÇÕES BRASILEIRAS


Até prova em contrário, a primeira pessoa no Brasil a gravar uma composição de Phil Spector foi Celly Campello (1942/2003): "To Know Him Is To Love Him", em inglês, no seu segundo LP, Broto Certinho, de 1959 (promovido a CD em 2005; notem a pequena diferença nos créditos de autoria no selo do LP e no encarte do CD). Curiosidade: Paul McCartney e Celly Campello são pessoas “gêmeas”, nascidas no mesmíssimo 18 de junho de 1942; além disso, ele e ela começaram a fazer sucesso gravando na EMI e regravaram o primeiro hit de Phil Spector, "To Know Him Is To Love Him" (ou "Her" conforme apropriado), embora a versão de Paul tenha sido como integrante dos Beatles – mais exactamente, as versões, num total de três, cada uma para uma gravadora diferente, a primeira como teste para a gravadora Decca e outra ao vivo na BBC (lançada em disco pela EMI nos anos 1990), havendo ainda a gravação ao vivo no citado LP The Beatles Live At The Star-Club Hamburg 1962, pela pequena gravadora inglesa Lingasong. (Outra curiosidade: Phil Spector declarou ter sido mais importante e influente para os Beatles que George Martin...) E Tony Campello (nasc. 1936), verdadeiro irmão de Celly, também tem a ver com Phil Spector; veremos mais adiante.


A balada spectoriana “Oh Why” (cópia bem menos inspirada de “To Know Him Is To Love Him”), lançada em 1959 pelo grupo de Spector The Teddy Bears, recebeu no Brasil duas versões de uma versão; explicaremos. No mesmo ano de 1959 "Oh Why" ganhou uma versão alemã de muito sucesso, "Sag Warum" ("diga porquê"), envolvendo duas pessoas que eram a mesma: a versão é de Jean Nicolas – o mesmo que teutonizou "Sie Liebt Dich" e "Komm, Gib Mir Deiner Hand" von Die Beatles para o mercado alemão – e o cantor-recitador é Camillo, ambos nomes artísticos do cidadão Camille Jean Nicolas Felgen (1920/2005). Em 1966 "Sag Warum" ganhou duas versões brasileiras, ambas intituladas "Porquê" mas de autores diferentes; Tony Campello gravou na Odeon a escrita por Fred Jorge e Moacyr Franco a de Nazareno de Brito, na RCA. A gravação de Moacyr foi lançada em E..., um de seus melhores álbuns, relançado na íntegra e em excelente estéreo (embora com as faixas em ordem totalmente diferente) na coletânea Grandes Sucessos, de 2000; tanto no LP original quanto neste CD faltou um hífen na autoria de "Porquê", creditando a canção a "Spector Nicolas". E pelas fotos podemos notar que em 1966, talvez por influência alemã, Tony Campello estava bastante inquisitivo – por sinal, “Diga-Me Porquê” é versão de “Sag Mir Wie”, parceria de Udo Jurgens com Relin, autor da versão alemã de “Baby Sittin’ Boogie” – sim, “Boogie Do Bebê”, grande sucesso de Tony Campello, é outra versão de versão.)


Lembremos agora duas das primeiras versões brasileiras de sucessos compostos por Phil Spector – ambos, por sinal, lançados pelo já mencionado cantor Ben E. King. O primeiro é primeiro até no nome: “Primeiro Teste De Amor”, versão de “First Taste Of Love”, parceria com Doc Pomus, e a versão foi escrita por Espirito Santo, gravada por Fernando José (primo de outro pioneiro de nosso rock, Carlos Gonzaga) e lançada em 1961 num 78 RPM da RGE. (Você conhece este Espírito Santo mesmo que não saiba: trata-se de Sidney do Espirito Santo, integrante do Conjunto Farroupilha e, em seguida, do trio vocal três Moraes, e autor de outras versões de sucesso, como “Papai Walt Disney” e “Lua Azul”.) A outra é “Spanish Harlem”, parceria de Phil Spector com Jerry Leiber; a versão se chama “Luar Da Espanha”, composta pelo grande Juvenal Fernandes, cantada por Regina Célia e lançada em 1962 (num LP sem título pela RCA). Duas curiosidades são que a letra original não fala sobre a Espanha e sim sobre a região de Nova Iorque com grande população de origem hispânica, chamada de Spanish Harlem, e no selo deste disco faltou um hífen (seria por religião ou baixo orçamento a falta de hífens na RCA?), transformando a autoria em “Lieber Spector”.


 

Outra das primeiras versões brasileiras de composições de Phil Spector é “Depois Que A Beijei”, lançada em 1966 pelo Trio Melodia, e é uma versão de Leno para “Then I Kissed Her”, mais uma parceria de Phil Spector com a dupla Jeff Barry e Ellie Greenwich. Este Trio Melodia, que revelou o cantor brega Fredson, surgiu na época da jovem guarda; não confundir com o outro grande Trio Melodia, formado nos anos 1940 por Paulo Tapajós, Nuno Roland e Albertinho Fortuna.

Até onde sabemos, a pessoa mais frequente intérprete brasileira de Phil Spector foi Wanderléa (nasc. 1946), que gravou nada menos de três versões de suas canções durante o auge da jovem guarda: “Capela Do Amor”, “Gostaria de Saber” e “Chegou, Sorriu, Gostei”, versões de, respectivamente, “Chapel Of Love”, “River Deep, Mountain High”, ambas parcerias de Phil Spector com Jeff Barry e Ellie Greenwich, e “You Came, You Saw, You Conquered”, parceria com Toni Wine e Irwin Levine. “Capela Do Amor” foi lançada em 1964 (com o nome de Spector omitido da autoria) e a versão é de Neusa de Souza; “Gostaria de Saber” saiu em 1968 e a versão (sem nada a ver com a letra original!) é de Luiz Keller; “Chegou, Sorriu, Gostei” foi lançada em 1969 e a versão foi feita por Leno, que também cantou com Wanderléa no disco.

Outras versões brasileiras de canções spectorianas incluem “Eu Te Adoro”, uma interpretação breguíssima do arranjo da gravação de Andy Kim para “Baby I Love You”, escrita por Rossini Pinto e gravada por Luiz Carlos Magno em 1970. Oito anos depois, o grupo Super Bacana, aquele do hit “Meu Fogo Vai Queimar Você”, gravou “Sonho Louco”, versão de Rico para “Da Doo Ron Ron”. Mais chique e mais recente é a gravação de Daniel Boaventura de “You've Lost That Lovin' Feelin'”, ao vivo em 2012.

“ELE ME BATEU E FOI COMO UM BEIJO”

No Brasil Phil Spector, como figura de bastidores, chamou pouca atenção da imprensa durante os anos 1960, e se tornou grande notícia graças à sua associação com o álbum Let It Be dos Beatles e as carreiras-solo de John e George. O florescer da imprensa brasileira sobre rock ajudou muito, principalmente as menções na revista Rock, A História E A Glória e um já mencionado belo artigo (e em duas partes!) por René Ferri (uma das quatro pessoas que imitei ao começar a escrever sobre música, as outras três sendo Ana Maria Bahiana, Ezequiel Neves e Carlinhos Pop Gouveia) no fanzine de sua loja Wop-Bop, em 1977. Spector tem sido lembrado também em livros brasileiros sobre rock, como o Almanaque Do Rock de Kid Vinil (Ediouro, 2008), Do Blues À Jovem Guarda de Albert Pavão (Edicon, 2013) e duas pratas da casa, Breve História Do Rock (Nova Alexandria, 2007) e História Do Rock – Os Primeiros 200 Anos (Nova Sampa, 1994) – em ambos citei Phil Spector como um dos muitos nomes que desmentem o mito de que não existiu rock de qualidade desde a morte de Buddy Holly e o alistamento militar de Elvis Presley ao grande estouro dos Beatles, e neste último até que resumi bem a figura: “Compositor, guitarrista e, principalmente, produtor de um estilo bombástico e eficiente, misturando soul, doo-wop e ‘tuttis’ (não fruttis) da música erudita; criador do ‘wall of sound’, transformando canções geralmente medianas em, como ele resumia, ‘pequenas sinfonias para os garotos’ [hoje eu diria “a garotada”].”


Quanto à literatura brasileira não especializada em rock, há pelo menos uma menção, e divertida. O jornalista e escritor Ruy Castro (nasc. 1948) notabilizou-se por sua dedicação à música brasileira urbana surgida até a bossa nova e ao jazz e o pop-não-rock estadunidenses, sendo um “rock-hater” e um elitista benigno e bem-humorado. Para ele, do rock salvam-se apenas algumas canções dos Beatles conforme interpretadas por artistas de jazz; composições de rock resumem-se a “garranchos” e “saber cantar ficou secundário nos novos tempos de Yoko Ono, Janis Joplin, Nina Hagen e outras beldades impróprias para consumo humano”. Esta sentença condenatória está no livro Saudades Do Século 20 (Companhia das Letras, 1994), que também menciona Phil Spector, e de forma não muito elogiosa, conforme o recorte abaixo.

O livro citado por Ruy Castro, por extenso Jazz Singing – America’s Great Voices From Bessie Smith To Bebop And Beyond e lançado em 1990, é um pouco mais leniente – seu autor, Will Friedwald (nasc. 1961) chega a citar James Brown sem falar bem nem mal e a elogiar uma única gravação do selo Motown, um álbum do cantor Billy Eckstine – , mas sempre citando Phil Spector como exemplo do pior do rock.


O castrismo proclamou mais condenações burlescas em livros como o recomendável Chega de Saudade (Companhia das Letras, 1990). Amostra: “Roberto Carlos continuaria tentando imitar João Gilberto até encontrar seu, digamos, estilo próprio.” (Detalhe não pequeno: este comentário foi sobre o primeiro contrato de gravação de RC, feito com a Polydor, não com a Columbia como diz Ruy.) Ruy Castro despreza praticamente toda música brasileira que não seja jazz e bossa nova, inclusive esculhambando Luiz Gonzaga nestes termos: “com [João] Donato ao acordeão, ele [o baião] era transfigurado de tal jeito que nem Luiz Gonzaga o reconheceria, se entrasse ali por engano, à procura do Padre Cícero.” Ruy parece ter se esquecido que, antes da bossa nova, o baião também exerceu influência mundial desde fins dos anos 1940, inclusive sobre as produções de Phil Spector. Seguindo o bom exemplo de seus mentores Jerry Leiber e Mike Stoller (dupla de produtores e compositores das mais importantes no rock), Spector usou muitos ritmos e elementos de música latina – a síncope do calipso, sequência harmônica do flamenco e instrumentos como triângulo, castanhola, guitarón e bumbo e marcações como a de nosso baião, um dos ritmos mais influentes na música mundial. Sem dúvida, vem do baião aquela mais que famosa introdução de bateria de “Be My Baby”. Seguem abaixo dois trechos do já mencionado e nunca demais lembrado livro Making Tracks como prova disso.




Falámos sobre a revista Rock, A História E A Glória, realmente uma das melhores publicações sobre música que o Brasil já teve. Mas ela não estava acima (e quem está?) de um errinho ou outro. Em sua derradeira (buá!) edição, no fim de 1977, Phil Spector é citado como símbolo superlativo de produção de discos; vejam o recorte logo acima. Foi nesta matéria que li pela primeira vez sobre o produtor brasileiro Pelão (nasc. 1942), que anos depois entrevistei algumas vezes para meu livro sobre Adoniran Barbosa, de quem ele produziu quase todos os LPs nos anos 1970 e 1980, além de cuidar de LPs de Raul de Barros, Nelson Cavaquinho e Cartola, nada tendo de “tremendo enganador”...

Outra curiosidade é esta parada de sucessos publicada na revista Billboard em 29 de agosto de 1970 (e a revista não noticiou que no dia seguinte eu completaria 13 anos de idade e meu primeiro mês como comprador de discos...). Por pouco os três primeiros lugares não têm todos a ver com Phil Spector! Vejamos. O álbum Let It Be foi formatado por Spector a partir de muitas horas de gravações dos Beatles. Le Bateau Ao Vivo inclui, como já dissemos, uma versão envenenada de “Be My Baby”, com a Fragile Rock Valley. E este volume da série As 14 Mais deve ser o de número 24; certamente, o volume anterior inclui uma versão, gravada por Wanderléa, de uma canção de Spector, a já mencionada “You Came, You Saw, You Conquered!” (“Chegou, Sorriu, Gostei”).

“A CADA VEZ QUE RESPIRO” 

Para terminar, citarei meu compadre Luiz Octavio, compositor e guitarrista líder da banda Luiz Octavio E Os Quatro Olho e com quem toquei na banda Old Kids On The Rocks. Em 2005 ele adotou o nome Lou Spector e formou a banda The Spectors, ao lado de Rosa Spector (Rosa Freitag) na guitarra, Luiz Albano Spector ao contrabaixo e Trinkão Spector (sim, o velho e bom baterista do Magazine). Os Spectors fizeram algumas gravações que podem ser ouvidas no Youtube, como “Escada Rolante”, versão de “Seven Eleven” dos Ramones, gravada em 2009. (Já existiam no exterior pelo menos duas bandas chamadas The Spectors, mas suspeito que a “nossa” seja melhor...)

Também paulistana é a banda Monokini, que em 2002 gravou uma canção intitulada “Complexo De Phil Spector”, “homenagem” às pessoas por demais cheias, até entupidas, de si. Sim, Spector tinha “complexo de Napoleão” e se tornou ele mesmo nome de exagero de personalidade...


E tenho o que dizer até de mim mesmo. 1978 foi simultaneamente meu último ano de residência em Sorocaba e o primeiro de minha volta a Sampa, tentando cursar engenharia no Mackenzie, mas aprendi muito mais nos primeiros sebos de discos das Grandes Galerias, a futura Galeria do Rock. Foi na já citada loja Wop-Bop que descobri o fanzine da loja, mais que um consolo pelo fim da revista Rock. A História E A Glória, e vi pela primeira vez reedições europeias dos já raros discos de Phil Spector, pelo selo Phil Spector International, completo com o crédito “with Phil Spector’s Wall Of Sound”. Isso influenciou minhas primeiras gravações a terem tiragem de mais de uma cópia – dois compactos simples em acetato, avós analógicos dos CD-Rs de hoje, com duas cópias cada, e cada lado inspirado num dos primeiros sebos de rock paulistanos. O primeiro eu gravei com o Trânsito Maluco de Marte, banda que tive com Marcos Martins, hoje Marco Zappa, e saiu no fim de 1978; eu e Marco ficamos com uma das cópias cada um. Nos créditos (dos quais segue acima o detalhe da contracapa) fiz piada e paródia de Phil Spector com a falta de qualidade sonora e abundância de chiados inerente a discos de acetato, parodiando Spector, falando em “Gall Of Sound”; René Ferri, ao ouvir o disco, definiu a chiadeira como “um ‘wall of sound’ mesmo!”. O segundo acetato foi meu primeiro trabalho totalmente concebido e gravado em Sampa, onde eu já estava radicado, e o primeiro onde toquei tudo, embora usando o nome Restolhada, como se fosse uma banda, e os créditos seguissem o exemplo de John Lennon no LP Walls And Bridges, incluindo um texto assinado por Burt Bacaxi que termina assim: “Ayrton Spector, to know you is to love you.” (Luiz Calanca, com sua loja Baratos Afins homenageada no lado-B, adquiriu as duas cópias do disco e ainda colocou a gravação no Youtube ao surgir a internet.)



 

“NUNCA IREI PRECISAR DE MAIS DO QUE ISTO”

Agradecimentos a Claudio Finzi Foá pela sugestão de escrever em meu blogue este texto que estás acabando de ler; a Martha Maria Zimbarg pelo incentivo; à Rádio Gazeta, por alguns selos de discos que eu mantinha na memória mas não nos arquivos (outros eu tirei de meu acervo pessoal e de páginas como Immub, Discogs e 45cat.)