“PRECISO SER FELIZ”: 60 ANOS DO ALBUM ISTO É RENATO E SEUS BLUE CAPS
Muito bem! O quê o álbum Isto É Renato E Seus Blue Caps tem a ver com
Emilinha Borba? Qual foi a formação da banda que gravou o álbum? Que canção
teve problemas com censura em outras gravações mas não neste disco? Vale mais a
pena garimpar edições em LP ou em CD? Há participações especiais? Leia e
descubra, decida e conclua...
“MAS UM BELO
DIA...”
ENFIM, A DATA EXATA
DE LANÇAMENTO
No fim de 2025 publiquei
textos no Facebook para celebrar quatro grandes álbuns sessentões das bandas
consideradas por muita gente as Quatro Grandes do rock inglês dos anos 1960: The Kink Kontroversy dos Kinks (26 de
novembro), My Generation do Who, Rubber Soul dos Beatles e December's Children dos Stones
(trigêmeos de 3 de dezembro), todos com as datas exatas de lançamento sabidas e
notórias. Dai me lembrei de outro grande LP sessentão, só
que brasileiro: Isto É Renato E Seus
Blue Caps. Então comprovei ainda uma vez que no Brasil é mais fácil
descobrir informações sobre música estrangeira que brasileira...
Sabemos que Isto É Renato saiu em dezembro de 1965
por pelo menos três fontes recomendáveis: a página jovemguarda.com.br comandada por Marcelo Froes,
o livro Renato Barros, Um Mito! Uma
Lenda! de Lucinha
Zanetti e o Almanaque
da Jovem Guarda de Ricardo
Pugialli. Dezembro, e em que dia? Na Hemeroteca da Biblioteca
Nacional o máximo que encontrei foi uma menção ao lançamento n'O Jornal de 12 de dezembro de 1965, um
domingão. Daí supus que o álbum saiu na primeira semana do mês. Perguntei sobre
isso em minha publicação no Facebook, e a melhor resposta foi do velho amigo
jornalista e produtor Valdimir d’Angelo: “No período em que trabalhei na
CBS, sabia que era padrão entregarem seus discos nas lojas às quintas-feiras,
ou seja, deve ter sido lançado no dia 9 de dezembro.”
Pois então, foi em 9 de dezembro
de 1965 que as lojas receberam o produto de número 37433, que se tornou grande
sucesso e só saiu de catalogo em 1972 – dando lugar à primeira
mixagem do álbum em estéreo, numerada 137433, e relançada em 1993 com o selo
Columbia (184.042/1-464343)
quando a gravadora retomou o nome que havia usado até 1961.
“UM
POUCO DA MINHA PAIXÃO”
O
REPERTORIO DO ALBUM
Sim,
aqui vão comentários para cada uma das 12 canções do disco. Por sinal, duas
faixas, “O Escândalo” e “Preciso Ser Feliz”, serviram de prévia, lançadas em
compacto dois meses antes, com “O Escândalo” fazendo jus ao nome, de sucesso
imediato e imenso, um dos grandes “hits” do ano e também um dos pontos altos da
carreira de Renato e Seus Blue Caps.
Lado
1
· * "Você Não Soube Amar” (“It's
Gonna Be All Right”)
(Gerry
Marsden [creditado em todas as edições como “Jorge Marsden”]/versão de Arthur
Emílio e Roberval)
Esta
canção foi lançada em compacto simples em agosto de 1964 por Gerry & The
Pacemakers, que disputavam com os Searchers o posto de segunda banda mais
importante de Liverpool, e entraram para a História como a primeira banda dessa
cidade a colocar um disco no topo das paradas (sim, antes dos Beatles) e também
como a melhor “miniatura dos Beatles” depois do Badfinger. “It’s Gonna Be All
Right” saiu no Brasil em compacto e LP por volta de julho de 1965, junto com o
filme Ferry Cross The Mersey/Frenéticos
Do Ritmo, o A Hard Day’s Night
dos Pacemakers, no melhor sentido.
Quanto
à versão gravada por Renato com ainda mais sucesso no Brasil que o original dos
Pacemakers, é um dos primeiros casos de canção originalmente alegre
transformada em “sofrência”, como viria a ser comum na jovem guarda carioca – e
é curioso isso ter acontecido a uma canção de Gerry & The Pacemakers, caso
provavelmente único de banda dos anos 1960 cujos sucessos eram todos otimistas,
alegres e “pra cima”.
Arthur Emilio na Revista do Rádio, 9 de abril de 1966
Os
autores da versão merecem um parágrafo com tudo o que descobri até agora sobre
eles. Arthur Emilio de Souza Costa (1954/2017) era guitarrista e cantor (e mais
tarde economista), além de filho adotivo da cantora Emilinha Borba (que nos anos 1960 integrava o elenco da CBS junto com Renato e Seus Blue Caps); foi lançado
nos anos 1950 como o cantor-mirim Arthurzinho (não confundir com o cantor
Arturzinho da jovem guarda, “al secolo” José Artur Azevedo Nogueira, paulista de 1949 e que emplacou
hits como “Tempo De Criança” e “Roda Gigante” - e não confundir tampouco com outro Arthur Costa que interpretou Elvis num musical em 1957). Roberval era colega de escola de Arthur,
e ambos chegaram a formar uma banda (aliás, “conjunto”); este pode ter sido o
mesmo Roberval que em 1967 gravou na Continental um compacto com duas canções
próprias (“Menino Teimoso”/”Fiz Um Leilão”) e teve várias canções gravadas no
hoje cultuado álbum Alucinolândia de
Zito Righi em 1969, além de alguns sambas por diversos intérpretes nos anos
1970, sendo também o Valzinho do grupo de samba Trio Sideral (que incluiu
Escovão, futuro membro do Trio Mocotó, Premê e Skowa & A Mafia – sim, o
mundo é uma quermesse).
· * “Feche
Os Olhos” (“All My Loving”)
(John
Lennon/Paul McCartney/versão de Renato Barros)
Lançada
em novembro de 1963 no álbum With The
Beatles e incluída nos álbuns Meet
The Beatles (EUA, janeiro de 1964) e Beatles
Again (Brasil, julho de 1964).
· * “O Escândalo” (“Shame And
Scandal In The Family”)
(Huon
Donaldson/Slim Henry Brown [na verdade, “tomada emprestada” por eles do
compositor trinitário Sir Lancelot]/versão de Renato Barros)
Uma
das primeiras gravações brasileiras de ska, seguindo fielmente a regravação de
mais sucesso da canção, pelo cantor e ator Shawn Elliott, lançada nos EUA em novembro
de 1964 e no Brasil em outubro de 1965 (num lado-B, o que não impediu a
gravação de fazer grande sucesso).
“Shame
And Scandal In The Family” tem uma longa história desde seu lançamento em ritmo
de calipso por seu autor Sir Lancelot em 1943. Outras regravações, variando em
arranjos e até em títulos, incluem as de Burl Ives, Odetta, Trini Lopez, o
Kingston Trio, Rolf Harris, os Wailers de Bob Marley, os Stylistics e, mais
recentemente, a banda Madness, sem falar nas versões em muitos idiomas,
inclusive uma composta por este que vos escreve e a mais fiel à letra original.
Esta letra original causou polêmica e, bem, vergonha e escândalo, por falar de
um garoto apaixonado por uma garota que, segundo o pai dele, “é tua irmã e tua
mãe não sabe”, mas o impedimento pela possibilidade de incesto é anulado quando
a mãe do rapaz lhe esclarece que “teu pai não é teu pai mas teu pai não sabe”. E
a versão de Renato, não censurada (embora houve quem notasse o nonsense de trechos como "botou fogo na casa e depois derrubou"), pode soar hoje como um pesadelo para quem leva muito a sério a correção política
– bem, o protagonista não é chamado de “capeta” à toa. De qualquer modo, as gravações
de Shawn Elliott e de Renato fizeram grande sucesso.

Revista Intervalo, 1965
· * “O
Fugitivo”
(Ercio
Roberto/Luiz Ayrão)
Terá
pelo menos o título se inspirado no seriado de TV O Fugitivo, grande sucesso no Brasil de 1963 a 1967? Com certeza,
esta é uma das primeiras composições de Luiz Ayrão, logo antes de ele estourar de
vez nas paradas quando Roberto Carlos lançou “Nossa Canção” em 1966.
Quanto
a Ercio Roberto, com esse nome e dessa época até agora apenas encontrei um
estudante de canto lírico. Procurei também no belo livro de “causos” Meus Idolos & Eu (Editora
Scortecci, 2010) de Luiz Ayrão, onde ele conta que Renato E Seus Blue Caps
gravaram duas de suas canções, mas não menciona seus títulos, “O Fugitivo” e
“Palavra De Rapaz”, muito menos que esta última havia sido lançada trinta anos
antes por The Sunshines, quanto mais mencionar Ercio Roberto...
· * “Preciso
Ser Feliz”
(Lilian
Knapp/Paulinho/Renato Barros)
Realmente,
Renato e Seus Blue Caps estavam dependendo menos de versões, com canções
brasileiras, próprias ou de outrem, de qualidade e potencial comercial à altura
das estrangeiras.
· * “Eu Sei” (“I'll Be Back”)
(John
[grafado “Johnn” nas edições em vinil] Lennon/Paul McCartney/versão de Renato
Barros [segundo o livro de Zanetti, a autoria desta versão é de Lilian Knapp
mas foi creditada a Renato])
Canção
do álbum A Hard Day’s Night, lançado
na Inglaterra em julho de 1964 e em dezembro no Brasil, com titulo Os Reis Do Iê-Iê-Iê. Curiosidade: foi
também em dezembro que esta canção saiu nos EUA, no álbum Beatles 65.
Lado
2
· * “Meu Primeiro Amor” (“You're
Going To Lose That Girl”)
(John
Lennon/Paul McCartney/versão de Lilian Knapp)
Canção
do LP Help!, lançado na Inglaterra
em agosto de 1965 simultaneamente ao filme homônimo; no Brasil o álbum (com
repertório modificado, o que já é outro artigo) chegou em novembro de 1965, um
mês antes do filme, retitulado
Socorro!, detalhe hoje bem menos lembrado que o filme.
· * “Aprenda
A Me Conquistar”
(Carlinhos/Lilian
Knapp/Renato Barros)
Vide
“Preciso Ser Feliz”.
· * “Espero
Sentado” (“Keep Searchin'”)
(Del
Shannon/versão de Lilian Knapp)
Ultimo
hit do cantor e compositor estadunidense Del Shannon, lançado em setembro de
1964 e, até onde pude ver, inédito no Brasil, mas aqui saiu um cover pela banda
uruguaia Los Shakers, lançado originalmente em compacto em maio de 1965, com edição
brasílica num EP em março de 1966.
· * “Sou
Tão Feliz” (“Love Me Do”)
(John
Lennon [grafado “Johnn” nas edições em vinil]/Paul McCartney/versão de Renato
Barros)
Primeira
canção da formação clássica dos Beatles, com Ringo Starr, e também primeiro
sucesso deles como compositores, lançado na Inglaterra em outubro de 1962, nos
EUA em julho de 1963 (no LP Introducing
The Beatles) e no Brasil em julho de
1964 (no álbum Beatles Again).
· * “Esqueça
E Perdoe”
(Getúlio
Côrtes)
Uma das primeiras composições de Getúlio Côrtes, ex-roadie
de Renato e Seus Blue Caps e que já havia emplacado “Noite De Terror” e “O Feio”
(esta em parceria com Renato) em gravações de Roberto Carlos.
· * “Orgulho
De Menina” (“I Need You, I Love You” [consta erroneamente como “I Need Your
Love”])
(Dave
Clark [na verdade Ron Ryan]/Mike Smith/versão de Renato Barros)
Versão
de um sucesso de The Dave Clark Five, uma das poucas bandas inglesas a
rivalizarem com os Beatles, ao lado dos Herman’s Hermits e dos grandes
vencedores, os Rolling Stones. (Resistirei à tentação de falar sobre os DC5 e
sua história longa e pouco edificante, a ponto de a banda ter tido um
compositor de aluguel, Ron Ryan, que não assinava as autorias e precisou brigar
para receber direitos autorais.) “I Need You, I Love You” saiu na Inglaterra em
abril de 1964 no primeiro LP da banda, A
Session With The Dave Clark Five, lançado aqui em dezembro, no mesmo
suplemento do álbum Os Reis Do Iê-Iê-Iê.
Enfim,
neste álbum temos um painel amplo e equilibrado do pop-rock de então, com
quatro versões dos Beatles, quatro canções inéditas no estilo, duas de outras
bandas inglesas e duas adaptações de sucessos de dois outros países, os EUA e Trinidad
e Tobago via EUA.
“FAZER
BATER MAIS FORTE O SEU CORAÇÃO”
OUTRAS
EDIÇÕES CONTEMPORÂNEAS DE FAIXAS DESTE DISCO
Enquanto
Renato e Seus Blue Caps gravavam o álbum
Isto É, a CBS teve a grande ideia de lançar, em outubro, duas faixas em
compacto simples, “O Escândalo”/”Preciso Ser Feliz” (33408). No mesmo mês “O
Escândalo” ganhou ainda mais impulso ao entrar na coletânea As 14 Mais Vol. XVI (37423).
Em
1966 três outras faixas do álbum saíram em compactos simples. Fevereiro trouxe “Feche
Os Olhos”/”Aprenda A Me Conquistar” (33422); “Aprenda” voltou no segundo
semestre, junto a “Esqueça E Perdoe”, num compacto da série Discoteca Iê-Iê-Iê, distribuído em
troca de tampinhas dos refrigerantes Pepsi-Cola e Mirinda. E em janeiro “Feche
Os Olhos” e “Você Não Soube Amar” ganharam milhagem na coletânea As 14 Mais Vol. XVII (37440).
Diario de Noticias (Rio Grande do Sul), 13 de novembro de 1966
Imagem tomada emprestada (com crédito) do blogue Estação Saudade
No
Brasil, tal como na Inglaterra, o formato do EP, nosso amigo compacto duplo,
era muito popular, de modo que o LP Isto
É Renato E Seus Blue Caps ganhou dois “filhotes”, Vol. 1 (56245, março de 1966), com “Você Não Soube Amar”/”O
Fugitivo”//“Feche Os Olhos”/”Aprenda A Me Conquistar”, e Vol. 2 (56259, julho de
1966), trazendo “Meu Primeiro Amor”/”Preciso Ser Feliz”//”Espero
Sentado”/”Esqueça E Perdoe”.
E
se tanta gente, até no Brasil, fazia filmes de rock, Renato e Seus Blue Caps
também tiveram seu correspondente a Os
Reis Do Iê-Iê-Iê e Frenéticos Do
Ritmo: Rio, Verão E Amor,
dirigido por Watson Macedo, lançado em 1966 e incluindo “Aprenda A Me
Conquistar”.
“NA
BOLA ERA O TAL”
A
FORMAÇÃO DA BANDA NESTE DISCO
Muito
se fala sobre Renato e Seus Blue Caps lembrarem os Beatles – levemos em conta que
ambas as bandas são contemporâneas e tinham muitas influências comuns, sendo os
Beatles apenas uma das muitas influências de RSBC – , mas RSBC lembram também
os Beach Boys, não apenas pela influência confessada que tiveram do grupo
californiano, mas por terem igualmente incluído três irmãos e um primo. Sim, os
irmãos em RSBC eram Renato, Paulo César e Ed Wilson (este saiu em 1962, mas depois a
banda ainda lançou composições dele – não, o “Wilson” não é homenagem aos
irmãos dos Beach Boys, o que até faria sentido, já que o nome Blue Caps é
homenagem a outra banda, a de Gene Vincent), e o primo é o guitarrista-base Carlos
Alberto Vieira da Costa “Carlinhos”, integrante de 1965 a 1968. Outra
semelhança com os Beach Boys é que as gravações eram produzidas pelo líder da
banda, desde que ela assinou com a CBS, embora Renato só começasse a ser
creditado como tal muitos anos mais tarde.
A
formação de RSBC que gravou Isto É
Renato foi, seguindo a ordem na foto da contracapa (que, aliás, não traz
informação alguma além dos títulos e autorias das faixas):
Paulo
César Barros: contrabaixo, vocal
Renato
Barros: guitarra-solo e guitarra de 12 cordas, vocal
Tony
(Carlos Antonio Pinheiro): bateria
Carlinhos:
guitarra-base
Cid
Chaves: gaita, saxofone, vocal
Sim,
enquanto no álbum anterior, Viva A
Juventude, a falta de uma gaita levou Renato a se virar como pôde numa
escaleta, desta vez a banda usou uma gaita de verdade, tocada por Cid.
Segundo
o livro de Zanetti sobre Renato Barros, este álbum incluiu participação do emérito
organista Lafayette, mas não consegui ouvir órgão no disco, exceto na faixa “O
Escândalo” – e, ainda segundo Zanetti, quem toca os solos de órgão não é Lafayette
e sim Lilian Knapp!
A
banda tomou a mais que a sábia decisão de não procurar imitar fielmente as
gravações originais, criando estilo próprio mesmo ao regravar canções alheias –
inclusive, Renato se divertia ao lembrar de repetição e omissão de estrofes em
relação aos originais.
Neste
disco os arranjos estão bons com execução à altura; realmente, Renato e Seus
Blue Caps estavam começando a se afirmar como uma das melhores bandas
brasileiras de rock de todos os tempos. Particularmente, nota-se que os irmãos
Barros floresciam em seus instrumentos. E, nestes tempos de busca até neurótica
por perfeição técnica, acho até refrescante ouvir o errinho de Paulo Cesar no final
de “O Fugitivo”, quando ele pensa que a banda iria para a segunda parte da
melodia, “e assim vivi...” mas retorna ao refrão, “eu também sou um fugitivo”,
então na metade do compasso Paulo Cesar percebe e segue na trilha certa... Temos também
Carlinhos tocando um acorde de si maior que soa como diminuto na repetição da
estrofe “nem gosta de outra menina” em “Feche Os Olhos”. Afinal, se até os
Beatles podiam errar (lembram-se do “I know I never even try, girl” em vez do
certo, “I know you never even try”, no final de “Please, Please Me”?)... Lembremos
que nos anos 1960 havia o provérbio de que uma banda tinha todo o tempo do
mundo para gravar um álbum, desde que não passasse de oito horas, e tinha que repartir
gravações com outras atividades como fazer shows e, de vez em quando, comer e
dormir. E há errinhos como esses que citei também nos três álbuns ingleses
citados no início deste artigo; procurem e depois me comentem.
“TUDO
NA VIDA AGORA TEM VALOR”
FICHA
TÉCNICA, NA MEDIDA DO POSSÍVEL
O
álbum Isto É Renato E
Seus Blue Caps não traz nenhuma informação técnica além dos
títulos e autorias das canções, data e número de catálogo. De modo que toda
esta seção foi escrita a partir de diversas fontes, especialmente o livro de
Zanetti sobre Renato Barros, e principalmente adivinhem o quê? Ouvir o disco!
A produção, segundo Renato Barros, coube a ele
próprio, e não ao ubíquo diretor da CBS Evandro Ribeiro, com as gravações
iniciadas em 6 de agosto e concluídas na primeira quinzena de setembro. O
equipamento usado foi o melhor da CBS na época, um gravador de três canais. (Somente
em 1967 o Brasil teria gravadores de quatro canais, chegando a 8 e 16 canais no
começo dos anos 1970.) Isto É Renato E
Seus Blue Caps foi lançado originalmente em mono, mas em 1971 a CBS,
percebendo que o sistema estéreo ganhava cada vez mais público no Brasil,
deliberou fazer mixagens em estéreo deste e outros álbuns de seu catálogo (inclusive
os LPs de Roberto Carlos desde É
Proibido Fumar ao de 1966).
“NÃO
ME JULGUE POR SUA IMAGINAÇÃO”
A
CAPA DO DISCO
Nos
anos 1950 a 1970 a CBS era campeã de capas de discos no sistema que eu chamo de
“a foto é minha e faço o que eu quiser”. Para economizar no investimento em
artistas ainda iniciantes, ou simplesmente por pressa, a gravadora usava
imagens de seu banco de dados. Isso aconteceu com o primeiro LP de Roberto
Carlos, Louco Por Você e com álbuns
de artistas como Sérgio Murilo, Lafayette e The Boogaloo Combo. No caso de Isto É Renato E Seus Blue Caps, a gravadora usou a mesma
foto da capa do álbum Elgart Au Go-Go
da big band dos irmãos Les e Larry Elgart, lançado nos EUA em julho de 1965.
Sim,
gravadoras adoram seguir fórmulas. O título Isto
É Renato E Seus Blue Caps segue o modelo de outros álbuns lançados pela CBS desde 1961:
Isto é Dança, Isto é Carnaval, Isto é
Cha-Cha-Cha, Isto é Espetáculo, Isto é Orquestra...Parece que este álbum
de Renato foi o “Isto é” para acabar com todos os “Isto és” da CBS.
“SOU
TÃO FELIZ”
BREVE
AVALIAÇÃO DO DISCO
Isto
É Renato E Seus Blue Caps é um dos mais importantes álbuns da jovem guarda e um dos
discos que mais contribuíram para a divulgação da “British Invasion” e da
beatlemania no Brasil. Sim, é um disco indispensável para quem gosta de
merseybeat – inclusive para fãs de todo o mundo que gostam de variar ouvindo música
anglófona em outros idiomas e, no caso de Renato e Seus Blue Caps, com a ginga
brasileira carinhosamente chamada por Renato de “chacundum”.
Isto
É Renato E Seus Blue Caps reflete a evolução do merseybeat – que não se resume à
beatlemania – em 1965, além de ser excelente adaptação brasileira do estilo, a
exemplo de bandas como os espanhóis Los Brincos, os citados uruguaios Los Shakers,
os ítalo-ingleses The Rokes, a banda alemã The Lords, a honconguesa The Kontinentals e a sueca The Klan em seus países. E “Aprenda A Me Conquistar” tem um riff de
guitarra digno do então recém-lançado álbum Rubber Soul e dos dois primeiros
álbuns dos Byrds.
Sei
que há quem diga “Regravar música de 1962 e 1963 em 1965? Brasil sempre
atrasado mesmo...” Mas lembremos que logo antes de Rubber Soul os Beatles precisaram regravar canções até dos anos 1950
para ajudar a preencher dois álbuns... O importante é que havia, e sempre
houve, mercado para rock “antigo” e também para os Beatles; inclusive os EUA
lançaram no mesmo ano de 1965, em março, uma versão mutilada do álbum Please Please Me, de 1963, com título The Early Beatles (que quase alcançou a
lista dos 40 álbuns mais vendidos). De mais a mais, em 1968 os Beatles voltaram
a compor e gravar “rock antigo”...
As
letras de Isto É Renato E
Seus Blue Caps
são quase todas sobre amor entre adolescentes, com a óbvia exceção de “O
Escândalo”. Bem, quase todas as canções dos dois álbuns dos Beatles lançados em
1965, Help! e Rubber Soul, são “boy-girl songs”, em diferentes graus de
maturidade.
Enfim,
Isto É Renato E
Seus Blue Caps
é um disco que reflete sua época mas mantém charme, garra e balanço,
desmentindo a fama de “desfibrado” atribuída em estudos mais elitistas ao
iê-iê-iê.
“NOVAMENTE
EU TORNO A SORRIR”
REGRAVAÇÕES
Além
de vender bem por décadas afora, Isto
É Renato E Seus Blue Caps demonstrou sua popularidade ao ter algumas canções regravadas
por outrem. Aqui vão os de que tenho notícia até o momento.
“Preciso
Ser Feliz” teve regravação da banda paulistana Rosa Tigre em 2023. “O
Escândalo” foi regravada em 1966 pelos Supersonics, um dos muitos pseudônimos
dos Fevers. “Meu Primeiro Amor” ganhou releituras da atriz Mylla Christie em 1994
e da banda KLB em 2007.
“Eu
Sei” foi literalmente mais longe, regravada em 1966 pela banda moçambicana
Night Stars, cuja interpretação até lhes valeu o primeiro lugar num festival, o
Prémio Peninsular de Melhor Interpretação em Lisboa.
E
“Feche Os Olhos”, além de ganhar regravações de artistas diversos como Paulo
Cesar Barros em carreira-solo (1977) e Leonardo (da dupla com Leandro, 1999) e arranjos em samba
de Thobias da Vai-Vai (1992) e da banda Raça Negra (2009), entrou para o
folclore na famosa paródia da proverbial quinta série, “...um metro e trinta/é pouco, mas é tudo pra
você”...
“ME
VI FUGINDO E ME PERDENDO POR AI”
REEDIÇÕES
DO ÁLBUM EM CD
Uma
das poucas coisas que, até onde percebi, faltaram no livro de Zanetti foi
Renato Barros opinar sobre as reedições em CD da obra de seus Blue Caps,
inclusive este álbum.
No
caso, Isto É Renato E
Seus Blue Caps
estreou no formato CD em março de 1993 (número de catálogo 746042/2-464343), na
série Best Price da gravadora, a preço reduzido. Muito bom? Só que não apenas o
preço foi reduzido, o CD também! A embalagem não inclui data alguma nem as fotos
da contracapa original e, pior ainda, faltam as primeiras notas da primeira
faixa, “Você Não Soube Amar”! (Em defesa da Sony, ex-CBS, podemos lembrar que
tal falha ocorreu também em outras edições em CD de gravadoras bem mais
cuidadosas pelo mundo afora, alguns exemplos que comprovei sendo a faixa “Dear
Eloise” na edição de 1999 do álbum Butterfly
dos Hollies e “Tin Soldier Man” no CD Something
Else By The Kinks conforme o CD da Castle de 1989.)
É
difícil acreditar que nossa Sony Music é filial, ou pelo menos parente, da mesma
Sony/Columbia estadunidense que tem a série Legacy de belas reedições com
encartes informativos e muitas faixas bônus... Parece que o amor da Sony brasileira
por seu público e nossa cultura “não passa de ilusão”. Isso se nota pela
segunda edição em CD de Isto
É Renato E Seus Blue Caps em 2000 como parte da coleção Jovem Guarda (número de catálogo
495637), junto com o álbum Viva A
Juventude – não uma reedição dois-em-um com faixas bônus e sim um mero
dois-em-dois, ambos os CDs numa caixa de CD duplo e olhe lá...
Ninguém
reclamou, e a imprensa só comentou sobre a jovem guarda em si, de modo que a
terceira edição em CD de Isto
É Renato,
em abril de 2005, foi mais grandiosa porém ainda mais decepcionante, numa caixa
reunindo todos os álbuns da banda na Sony, um em cada um de 16 CDs que bem poderiam ser oito e,
ainda por cima, sem as faixas de compactos que não saíram nos álbuns oficiais –
por determinação da própria banda! Perdão, mas eu não esperava que Renato e Seus Blue Caps
fossem isso... (Certamente, esta caixa teria sido ainda mais decepcionante se a limitada e limitante Sony não tivesse tido assistência do pesquisador Marcelo Froes...)
Vale
a pena pedir uma reedição com as mixagens mono e estéreo (completa como no
vinil, não é?), faixas bônus, fotos raras, letras, depoimentos, como na série Legacy dos
EUA? “Outro dia vem, outro dia vai chegar e eu sempre a esperar...”
Pois é, Dona Sony, “aprenda a me conquistar”...
“FELIZ,
FELIZ ATÉ O FIM”
BIBLIOGRAFIA
E AGRADECIMENTOS
Além
dos livros citados, passei horas inesquecíveis na Coleção Digital de Jornais e
Revistas da Biblioteca Nacional (até o nome é prático e bonito). E agradeço a
Valdimir d’Angelo, Lucinha Zanetti, Ernando Vieira e a todo mundo que pesquisa sobre jovem guarda e rock brasileiro!
DIÁLOGOS ENTRE ADONIRAN BARBOSA E RAY DAVIES
Quem me conhece sabe ou acaba sabendo que duas de
minhas maiores influências são os compositores Adoniran Barbosa (1910/1982) e
Ray Davies (1944, famoso como líder da banda The Kinks), referências em suas
respectivas áreas, respectivamente samba e rock inglês, e ambos mestres da
crônica musical com ironia e humor junto a melodias simples mas eficientes. Nos anos
1980 comecei a publicar textos sobre eles, três pontos altos sendo os livros Adoniran: Dá Licença De Contar...,
publicado pela Editora 34 em 2002 e já na segunda edição; Adoniran Em Partitura, parceria com Tomás Bastian (Associação
Cultural Cachuera, 2017); e o livro coisa-de-fã-empreendedor The Kinks – A Komplete And Koncise
Kollektion Of Kognizance, Kuriosities, Katalogs And Kommentaries, trabalho
épico de xerox, goma arábica e datilografia com fita de pano lançado em 1980 e
do qual há uns cento e poucos exemplares por aí (um livro-"fanzinão" que, acho, merece nota sete
e meio pela iniciativa e esforço - sim, hoje sei que "knowledge" seria mais coloquial (ou "kolloquial") que "kognizance", e se eu publicasse esta obra uns três anos depois, quando aderi ao inglês britânico, eu teria escrito "katalogues").

À medida que fui avançando como compositor e
pesquisador, acabei descobrindo que as obras de Adoniran e Ray têm muito mais em
comum além do mencionado acima. Ou, como se diz hoje em dia, ambos “conversam”
ou “dialogam” um com o outro, e merecem um paralelo semelhante ao que fiz entre
Jim Morrison e Cazuza no meu livro sobre este último.
Para começar, entre o “Poeta do Bixiga” e o “Patriarca
do Britpop” há coincidências pessoais que, se não importantes, são pelo menos
interessantes. Ambos são altos e magros, além de sétimos filhos (Adoniran foi precedido por seis irmãos e irmãs, e Ray por seis irmãs) e caçulas ou quase (Ray é o
penúltimo). Ambos gostam de futebol, como atesta Adoniran em “Coríntia”
(parceria com Juvenal Fernandes, 1969), “Coríntia, Coríntia, meu amor é o
Timão”, e Ray canta “Gosto de meu futebol aos sábados” em “Autumn Almanac, de
1967. Não tiveram filhos, mas filhas; Adoniran teve uma e Ray quatro. Nenhum dos dois tem diploma de curso superior; Adoniran, de família pobre, nem completou o ensino fundamental, e Ray abandonou o equivalente inglês de ensino médio especializado em artes quando sua carreira musical começou a deslanchar. O
jeito irônico de ambos é do tipo adoravelmente rabugento. Ambos cantam sobre os
problemas da vida suburbana de grandes cidades e conseguem grande inspiração no
trivial. E ambos se orgulham das cidades que ajudaram a celebrizar e
transformar em música.
(Ah, sim: neste artigo a data junto a cada titulo de canção é de seu lançamento original, e as letras de Ray Davies, todas originalmente em inglês, estão citadas em traduções livres para o português.)
“Waterloo Sunset” (1967), grande sucesso dos Kinks
(sendo Waterloo uma estação do metrô londrino), escapou por pouco de ser lançada como
“Liverpool Sunset” por dois motivos: o lançamento da ode liverpudliana “Penny
Lane” logo antes e Ray ter mudado de ideia, como explicou: “Eu quis compor uma
canção sobre um pôr-do-Sol em Liverpool por causa da morte do Merseybeat [o
pop-rock dançante de artistas dessa região como Gerry & The Pacemakers,
Searchers, Beatles e tantos outros] e aquilo tudo. Então pensei: sou londrino,
pra quê tanto tributo a Liverpool? Tenho verdadeira paixão por Londres, e essa
canção era muito pessoal.” E Adoniran, nascido no interior paulista (em
Valinhos, então ainda um distrito pertencente a Campinas) e radicado em Sampa
desde os 22 anos, muito raramente cantou sobre outra cidade ou Estado: “Eu não
posso falar em Copacabana, porque não a conheço, falo então da Sorocabana
[Estrada de Ferro Sorocabana, rebatizada Ferrovias Paulistas S. A. (FEPASA) nos
anos 1970 e extinta ao ser federalizada em 1998].”; “Eu fiquei conhecido mais por ser o primeiro a cantar São
Paulo. Nem podia ser de outra forma. Afinal, cresci, vivo e quase não saio
daqui. Se fizesse samba de outro lugar não dava, E nesse outro ponto, há um
detalhe importante. Compor sobre o Rio de Janeiro, por exemplo, é muito fácil.
O Rio é uma cidade muito bonita que inspira bastante, e tem vários lugares cujo
nome já são [sic] meio samba, de tão sonoros, têm muita poesia. Quer ver?
Jacarepaguá, Leblon, Grajaú, Copacabana... Em São Paulo, nada disso. Alguém
consegue encaixar Vila Alpina, Vila Nhocuné, Morumbi e Santo André [mais
exatamente, um município da Grande São Paulo] em samba? Não dá, eu reconheço.
Mas gosto tanto da cidade que acabo dando um jeito. Foi por isso que fiquei
conhecido. Agora, para cantar São Paulo eu resolvi aproveitar tudo que a cidade
oferecia. Então entram na letra gíria, ruas, bairros, muita coisa do cotidiano
da cidade.”
Notemos que Adoniran Barbosa e Ray Davies fizeram sucesso para o grande público apesar de não abrirem mão de suas peculiaridades regionais (ou, para os e as grandes fãs, justamente por isso). Enquanto, para citar dois exemplos, os Beatles falavam como ingleses mas cantavam como estadunidenses (James McCartney até perguntou ao filhão "por quê vocês cantam 'yeah, yeah, yeah' e não 'yes, yes, yes'?") - o que ajudou muito a firmá-los como a banda de rock mais midiática - e Elis Regina conseguiu mitigar seu sotaque nativo (justificando que não faria sucesso fora dos pampas cantando em gauchês, "olha 'quê' coisa mais linda, mais cheia 'dê' graça/é ela a guria 'quê' vem 'ê quê' passa...", tchê!), Ray Davies passou quase dez anos compondo em inglês britânico nem sempre compreendido pelo público ianque, cantando sobre "fags", "underground", "Labour Exchange" e "motorway" em vez de "cigarettes", "subway", "job centers" e "highway". E o megasucesso da paulistaníssima "Trem Das Onze" causou reações não somente de surpresa mas também de bom humor: "Imagina se carioca que está com mulher vai se preocupar em dar satisfação à mãe que está esperando em casa..."
É claro que as temáticas das obras de Adoniran e
Ray têm inspirado também muitas outras pessoas em várias épocas e países; sim,
valem as famosas noções “canta tua aldeia e serás universal” e “os elementos são
universais e as combinações são regionais” (além disso, muitos textos que leio
sobre a vida suburbana em Londres me lembram a de São Paulo, só que em inglês). É óbvio
que Ray, nascido em Londres em 1944, pegou um mundo diferente de Adoniran,
paulista de 1910; a Londres de Ray já era velha usuária de aviões, metrô (desde
1863!), cinema, televisão (embora esta tenha sido suspensa durante a Segunda
Guerra Mundial), Hollywood e Walt Disney. Mas não há muitas diferenças
essenciais entre os cotidianos suburbanos cantados por Adoniran desde os anos
1950 e Ray a partir da década seguinte. E muitas coincidências entre as canções
de ambos (até em melodias!) têm levantado minhas sobrancelhas; segue uma
amostra.
Ray Davies em 2010
Adoniran Barbosa em 1955
Em “Véspera De Natal” (1974), tudo o que Adoniran
tem a oferecer à família como ceia natalina é “bala mistura [...] também um
pãozinho de mel”, e ao pobre-diabo de “Dead End Street” (1966) resta apenas “a
Sunday joint of bread and honey”, traduzível como “um pão de mel do domingo”.
Ainda sobre culinária, “Torresmo À Milanesa” (parceria com Carlinhos Vergueiro,
1980) e “Maximum Consumption” (1972) afirmam que a alimentação de pedreiros em
obra e musicistas na estrada mata a fome mas não dá prazer gastronômico. A
marcha carnavalesca “Garrafa Cheia” (parceria com Benedito Lobo e Raguinho,
1957) e a balada-rock “Have Another Drink” (1975) enaltecem o álcool como lenitivo
para os reveses da vida.
Já que falámos em Natal, lembremos que Papai Noel virou anti-herói em canções destes nossos heróis. O rock "Father Christmas" (1977) conta a história tragicômica de um Papai Noel vítima de desigualdade social e moral: "Quando eu era pequeno, acreditava em Papai Noel/mesmo sabendo que ele era meu pai/eu pendurava minha meia no Natal/abria meus presentes e ficava feliz/mas da última vez que fiz papel de Papai Noel/Eu estava do lado de fora de uma loja de departamentos/um bando de moleques veio e me assaltou/jogaram minha rena no chão/disseram 'Papai Noel, nos dê dinheiro/não fique mexendo com esses brinquedos bobos/vamos te bater se você não nos der/queremos tua grana, portanto não nos irrite/dê os brinquedos pros garotinhos ricos'." E no citado samba "Véspera De Natal", o esforçado pai de família se fantasia de Bom Velhinho e vejam o que acontece: "Ai, meu Deus, que sacrifício/o orifício da chaminé era pequeno/pra me tirar de lá/foi preciso chamar os bombeiros."
Tanto no samba “Mãe, Eu Juro!” (parceria com Noite
Ilustrada, 1957) quanto no rock-foxtrote “Mirror Of Love” (1973), mulheres se
queixam da brutalidade de maridos tóxicos – embora a protagonista da canção de
Ray se mostre conformada, “você é um amante maldoso e indecente/mas eu nunca
encontraria outro/mesmo me tratando mal/você é o melhor homem que eu jamais tive”, e
a de Adoniran deixe claro que procura escapar: “Mãe, eu juro/pela
luz que me alumia/se eu continuar com ele/não me chamo mais Maria”. O samba “As ‘Mariposa’” (1955) e o rock-calipso “Monica”
(1968) aludem à prostituição feminina, embora Adoniran negasse ter tido essa intenção (ainda que “mariposa” já fosse apelido notório
para as funcionárias das calçadas). E o homossexualismo masculino é tema da hoje
obscura “O Legume Que Ele Quer” (parceria com Manezinho Araujo, 1956), “ele é o
bonitão da cidade/é o tipo de homem/que nunca esperou por mulher/Imagine se ele podia
esperar por você, Juraci,/Que não é/o legume que ele quer” (sim, equivale à
expressão mais recente “ele não gosta da fruta” e tem assunto semelhante ao
samba “Mulato Bamba” de Noel Rosa), e do megassucesso “Lola”, country-rock de
1970, “não consigo entender/por que ela caminha como mulher e fala como homem
[...] garotas serão rapazes e rapazes serão garotas/neste mundo confuso,
bagunçado e chacoalhado [...] eu sei o que sou e estou feliz por ser homem, tal
como Lola” (sim, o final é ambíguo: Lola também é feliz ou homem?).
“Saudosa Maloca” (1951) e “Scrapheap City” (1974)
lamentam a demolição de belas casas antigas para darem lugar a grandes edifícios em
nome do progresso. Analogamente, “Viaduto Santa Ifigênia” (1980) e “Come
Dancing” (1983) evocam logradouros que poderiam ser, ou foram, reduzidos a boas
lembranças. “Iracema” (1956) e “Big Black Smoke” (1966) falam de anti-heroínas se dando mal
ao enfrentarem grandes cidades sem a cautela necessária.
A diversão popular de passeios motorizados para breves piqueniques inspirou “Drivin’” (1969) e “O Caminhão Do Simão” (1974).
Ainda sobre transportes, “Trem Das Onze” (1964) e “Gotta Get The First Plane
Home” (1965) falam da urgência em seu uso (trem e avião) para ir ver pessoas queridas
(respectivamente a mãe e a mulher amada). E os Kinks também cantam sobre trens, no ironicamente nostálgico blues-rock "Last Of The Steam-Powered Trains" (1968): "Sou o último dos trens a vapor à moda antiga [...] e vou seguir rodando até o dia de minha morte." (Sim, gravei uma versão desta, "A Ultima Locomotiva A Vapor", uma de minhas raras versões a não seguirem à risca a letra original.)
O sucesso costuma ser efêmero e atrair pessoas que fingem ser amigas por interesse. Assim postulam o samba “Carolina" (1967, parceria com Marcos
Cesar) e o hard-rock “Top Of The Pops” (1970). “Carolina” é homenagem à
escritora Carolina Maria de Jesus, moradora de favela que fez sucesso com o
livro Quarto De Despejo e, falhando
em administrar o muito que ganhou, voltou à favela: “Carolina foi morar/num
importante arranha-céu/mil visitas todo dia/está sempre em coquetel/até que de
repente/deixa de ser novidade/sai da moda e é somente/Carolina novamente/Carolina
não tem mais dinheiro/Carolina não sai no jornal/Carolina não vai mais a festa/Carolina
não interessa mais/Carolina não paga aluguel/Carolina sai do arranha-céu/Carolina
vai fazer o quê?/Carolina vai catar papel.” E a canção de Ray diz “é estranho
como as pessoas te querem quanto teu disco está no alto das paradas/mas quando
ele cai elas simplesmente te ignoram.”
O maxixe “Tocar Na Banda” (1965) e o
rock-vaudeville “The Moneygoround” (1970) ironizam o geralmente baixo retorno
financeiro da música: “Tocar na banda/pra ganhar o quê?/Duas mariolas/e um
cigarro Yolanda” e “Ele [o empresário] deu metade [dos direitos autorais] a um
editor estrangeiro/ele ficou com metade do dinheiro/ganho em algum país
distante [...] e eu acabo com metade de sabe lá o quê”. (Outra curiosidade: enquanto
Adoniran canta sobre aceitar como cachê um cigarro que já não era mais
fabricado, Ray canta em “Harry Rag”, de 1967, sobre o tabagismo levado a
extremos: “Homem do imposto de renda, que Deus te abençoe/Alguma coisa tu até
podes levar, mas não tudo/mas se acaso eu der tudo não ficarei triste/contanto
que eu tenha o suficiente pra comprar um cigarro.” Ah, sim: Ray fumava moderadamente, e o tabagismo de Adoniran contribuiu para sua morte aos 72 anos.)

Ray Davies (o segundo à frente) num time organizado pelo jornal Melody Maker em 1967. O segundo em pé da direita para a esquerda é Dave Davies, irmão de Ray e guitarrista dos Kinks.
Adoniran Barbosa (o ultimo à frente) num time organizado pela emissora onde ele trabalhava
como ator, a Radio Record, nos anos 1950.
Quanto à coincidência de melodias ou de, pelo
menos, sequências harmônicas, comparem, por exemplo, a segunda parte de “Sunny
Afternoon”, de 1966 (“save me, save me...”), com a segunda de “Prova De
Carinho”, parceria com Hervê Cordovil, de 1960 (“quantas serenatas eu tive que
perder...”). Provavelmente Adoniran e Ray se inspiraram numa terceira fonte. Eu
quase diria que Ray pode ter se inspirado em Adoniran, pois este teve canções
regravadas no exterior antes de Ray (o cantor italiano Don Marino Barreto Jr.
gravou “As ‘Mariposa’” e “Samba Do Arnesto” em 1957, e Ray só entraria para a
“moneygoround” da indústria fonográfica em 1964). E tanto o brasileiro quanto o
inglês são mestres da repetição com criatividade, nunca vendo problema em
reciclar melodias e compor “irmãs gêmeas”; comparem, por exemplo, “Malvina” e ”Joga
A Chave”; “Apaga O Fogo, Mané” e “Prova De Carinho”; “Come On Now” e
“Everybody’s Gonna Be Happy”; “All Day And All Of The Night” e “Destroyer”.
Lembremos também que Adoniran e Ray fizeram
sucesso na Itália com versões de suas canções em italiano. Sim, “Trem Das Onze”
virou o megasucesso “Figlio Unico” com Riccardo Del Turco e o “Samba Italiano”
foi copidescado por Leo Chiosso como “Che Tempo Fa, Gigi?”. “Versioni” de "canzoni" de Ray
Davies incluem “Te Giuro, È Cosi” (“You Really Got Me”) e “Un Figlio Del Fiori
Non Pensa Al Domani” (“Death Of A Clown”). Outra semelhança/coincidência
envolve os Kinks e os mais ilustres intérpretes de Adoniran, o grupo paulistano
Demônios da Garoa: ambos usaram trombone em algumas gravações (“Iracema”,
“Dead End Street”, “Mr. Pleasant”).
Adoniran, notório mestre do samba, compôs
um rock, embora apenas razoável, “Vem, Amor” (1962, parceria com Geraldo Blota e gravado por Carlos Gonzaga), enquanto
o emérito roqueiro Ray compôs para os Kinks uma bossa nova, a no mínimo
interessante “No Return”, de 1967. Outra curiosidade é Ray mencionar música
brasileira numa canção (“dançámos o foxtrote e o samba, dançámos noite adentro”
no fox “Holiday Romance”, 1975) e Adoniran elogiar diplomaticamente o rock no samba “Já
Fui Uma Brasa”, parceria com Marcos César, de 1966 (“eu gosto dos meninos
desses [sic] tal de iê-iê-iê/porque com eles canta a voz do povo”).
Desde os anos 1990 tenho regravado composições de
ambos, inclusive participando de discos tributos como Do It Again: The Kink Kontroversy Kontinues e The Great Lost KPS Album (produzidos pelo fã-clube internacional
Kinks Preservation Society) e Adoniran
100 Anos (Lua Discos, 2010). E, sendo eu tradutor, aprendi a
valorizar versões bem-feitas de canções e procurar fazer as minhas próprias. De
modo que, ao descobrir a identidade entre as obras de Adoniran e Ray, resolvi
incorrer na “piada a sério” de versionar canções de ambos intercambiando as
respectivas linguagens musicais, sempre mantendo as melodias originais, embora
as re-harmonizando conforme necessário. Lancei no Soundcloud os primeiros
resultados dessa experiência, transformando “Sunny Afternoon” no samba “LindaTarde, Lindo Sol”, “Apaga O Fogo, Mané” na balada kinkiana “Put Out The Fire,Manny” e “Prova De Carinho” no iê-iê-iê “A Token Of My Love” (ora passando por remixagem) – versões, vale
lembrar, sempre fieis às letras originais, embora eu não veja problema algum em
incluir atualizações relativas a meu tempo, como menções a celulares e internet.
Aqui vão mais duas. “The Dartboard” é “Tiro Ao Álvaro” (parceria com Oswaldo
Molles) no estilo de Nino & April, Jan & Dean, Everly Brothers e outros
astros de pop-rock pré-Invasão Inglesa. E “Lola” virou um sambão que talvez, em
regravação menos caseira, até faça sucesso...